Notas iniciais
O.k. esta historia é bem diferente da outra que eu tenho escrita... Até porque ela mostra meus pensamentos e minhas ideias de agora ... Espero que gostem

Sentir a euforia tomar conta dos meus nervos mais uma vez... Jamais acostumaria com o efeito daquele simples comprimido... Em segundos ele era capaz de me livrar de todos os problemas e angustias existentes na vida, sabia que isto duraria com sorte algumas horas, porem isto era suficiente por enquanto.

Tinha consciência de que esta falsa ideia de paz era momentânea e que isto fazia mal pro meu corpo... Só tinha um pequeno detalhe nesta afirmação: Não me importava com a minha vida nem com minha saúde... Importa o momento, alem disto era muito frustante viver num mundo sem anceios e sem motivos, não conseguia viver todo dia como se fosse algo normal... Não queria esta merda de cotidiano pra mim... Queria algo mais, algo grande... E acabei aqui...

Aos poucos a liberdade inundou minha mente, e meu coração acelerou... A noite estava calma com carros e pessoas correndo pelas ruas, e solitária assim, jogada num canto sujo da calçada, fechei meus olhos, entregando-me as maravilhosas sensações que poucas gramas desta substancia propiciava.

Fiquei ali tranqüila até que aos poucos uma incomoda dor começou a voltar... A angustia tão conhecia atrapalhou meus pensamentos felizes e eu sabia que era hora de levantar e voltar pra casa... Enfrentar mais uma briga e continuar nesta porra...

Fui andando distraidamente pelo caminho de casa, os poucos passantes da manhã desviavam de mim e olhavam como se fosse de outro planeta. Uma mãe ao me ver agarrou a mão da criança e começou a andar apressada, a criança arregalou os olhos em minha direção e acompanhou a mãe.. Talvez fossem minhas roupas pretas e mesmo assim sujas, ou o cabelo todo armado pela noite fora, talvez ainda a maquiagem borrada principalmente abaixo dos olhos... O fato é que cheguei em casa após uns dez minutos de caminhada e olhares indignados dos andantes.

Entrei silenciosamente pela sala e logo vi meus pais e irmão tomando café. Ela de preto como sempre era depois da morte de meu irmão mais velho, ele me ignorando como sempre era após aquele dia e o pequeno apenas comendo como se nada estivesse acontecendo. Me indignava o fato deles viverem como se o mundo não tivesse mudado, como se Victor tivesse sido apenas uma pagina a ser esquecida, ou então algo a ser lembrado com roupas... Qual é??? Eles sentiam vergonha de dizer que perderam um filho por culpa deles mesmos, vergonha de saber que Victor pulou de um prédio por sentir raiva de ser como era. Como ter certeza disto?? Eu o vi morrer. Eu ouvi suas ultimas palavras, eu li sua ultima carta, e presenciei os pingos de sangue espalhados na calçada... Ali estava o cara que realmente havia me dado forças para não desistir e naquele instante ele próprio desistira. E então eu me toquei, que se nem mesmo Victor, perfeito e digno fora capaz de vencer, porque demônios eu seria?? Que chance existia?? Ali eu desisti de seguir este padrão alienante, desisti de deixar alguém orgulhoso do que sou, desisti de ser algo que não era.

Já se passaram dois anos e ainda sim os resquícios daquele evento perduram no tempo...

– Onde você estava Caroline?

– Como você se importasse Marcos....

Meu pai nada respondeu, nem ao menos olhou em meus olhos, apenas continuou a ler a porra do jornal que ele achava que era verdade. Subi as escadas estressada, precisava de um banho e de uma cama, mas sabia que precisava ir a escola, a única coisa que me pediam... Não por mim, mas para manter a imagem de uma família perfeita, que possuía apenas uma ovelha negra.

– Querida, preciso falar contigo. – minha mãe entrou no quarto com lagrimas nos olhos, doía vê-la desta maneira, neste tempo ela envelheceu tanto, os olhos não detinham mais nenhum brilho e eu me perguntava como ainda conseguia seguir em frente.

– Pode falar mãe.

– Agora não, você precisa de um banho e a roupa esta no banheiro já. Te vejo depois da aula meu amor – disse saindo mas deteve-se um segundo – E ah, já ia me esquecendo, eu realmente sinto muito.

Fiquei alguns segundos tentando entender o que ela disse, não compreendia porque só agora ela percebia o mal que havia feito e tentava arrumar isto com palavras doces. Por mais que tivesse compaixão por seu sofrimento diário isto não justificava os erros passados... nada justificava. Tomei um banho rápido e vesti a roupa separada.

Fui ate a cozinha e peguei uma maçã, ignorando o prato de café-da-manhã preparado. Já ia saindo de casa quando uma pequena figura na sala me chamou a atenção.

– O que faz ai Rafa?

– Papai estava muito irritado e me escondi para não apanhar. Sabe dói muito... – seus olhos continham lagrimas e por um instante me senti um monstro por deixa-lo tão desamparado, se tinha alguém nesta casa que merecia um futuro este alguém era aquela criaturinha, meu irmão menor era um doce de criança, nunca causou mal e sempre foi o xodó de todos. Até que tudo aconteceu...

– Vem eu te levo pra escola.

Um sorriso iluminou seu rostinho e apressadamente ele pulou do sofá e segurou minha mão. A velha sensação de ser aceita me preencheu com aquele toque inocente e outra vez me senti um nada por ter desistido. Chegamos a escolinha rapidamente e eu acompanhei o pequeno até a sala. A professora me olhou como todos os outros, abaixei até a altura do meu irmão e lhe dei um abraço:

– Querido você sabe que eu te amo não é.

– Promete que nunca me abandonará?

– Jamais...

Cheguei a escola atrasada e entrei na sala como se nada tivesse ocorrido. Nada daquilo ai me interessava, dormi as três primeiras aulas e no intervalo segui para o refeitório sozinha e de cara amarrada. Sentei numa mesa e fiquei observando as pessoas medíocres com suas vidas inúteis, fazendo-se de importantes, não vendo como eram insignificantes... não me encaixava naqueles grupos, e com o tempo passaram a nem ligar para minha presença... Tudo estaria em seus conformes, se um garoto...Não, aquele não era um garoto... Tudo estaria normal se Matheus o capitão do time do colégio não estivesse sentado a minha frente como se fosse algo simples.

– Não achou sua mesa não?

– Nossa que delicada você... Mas respondendo a pergunta, eu sei onde está a mesa com concentração de futilidade...

– E porque não está la?

– Talvez eu tenha cansado

– Talvez eu não te queira por perto...

– Porque afasta as pessoas?

– Porque se importa?

– Sabe você me intriga garota. Sempre na defensiva, sempre se excluindo. Porque?

– Para nenhum idiota conversar comigo, mas vejo que não está dando certo.

– Ouch... Isto sim doeu... – não posso negar o sorriso torto dele era lindo, mas não passava de mais um idiota, só isto – Já parou pra pensar que existem pessoas não fúteis e só falta uma chance pra elas mostrarem?

– Hmm e quem seria esta pessoa você?? Já parou por um acaso pra pensar que talvez, só talvez eu não queira me tornar um brinquedinho qualquer nas mãos de pessoas insignificantes como você, que se acham espertos o suficientes?

– Qual é Caroline?? Nós estudamos juntos a vida inteira e você sempre conversou comigo por que isto agora?

– Eu mudei muito Matheus, não tente entender nem forçar uma relação amigável ok? Tudo se perdeu quando passamos a pensar a vida diferente...

– Eu sei que você ainda pensa em mim..

– O que você quer hein??? Relembrar o passado... pra isto existem fotos. Me entender... não sou objeto de estudo... Que eu vire teu brinquedinho ou troféu... Desculpe querido isto eu jamais serei...

– Olha aqui eu não sei o que ocorreu na tua vida... Mas so queria te entender..

– Não tem medo de ser visto com a garota drogada e estranha... que dorme em calçadas e não conversa com ninguém??

– Não... Não importa, ok?

– Devia se importar querido... Afinal é a sua imagem que corre riscos..

Matheus se levantou magoado e ficou encarando meus olhos por um tempo, angustiada desviei o olhar para a mesa...

– Esta é a merda de imagem que você tem de mim não é? – fiquei apenas esperando – ME RESPONDA DROGA!

Todos do refeitório encaravam boquiabertos a cena e Matheus continuava ali como se estivéssemos solitários.

– Fala baixo.

– EU NÃO QUERO... ME RESPONDE PORRA!

– SIM É ISTO QUE EU ACHO MATHEUS, COMO É ISTO QUE EU ACHO DE TODOS AQUI!

Ele continuou me olhando, tentando absorver tudo aquilo... Não sei o que houve, ate porque joguei a cadeira longe e sai andando.... Tinha passado dos limites... Não podia mais continuar naquele lugar, não existia mais salvação naquela vida. Ninguém compreendia que eu só precisava de silencio, de paz...

Porque eles não seguiam com a vida deles sem me irritar?? Porque??

Peguei minha mochila irritada e decidi nunca mais voltar naquele lugar... Perambulei durante algumas horas pelas ruas do centro e num beco qualquer procurei na minha bolsa a única coisa que me causava alguma felicidade... Aquele comprimido, só aquele me entendia... Só ele podia me aceitar... E só ele me trazia uma felicidade que a tanto estava perdida.

Notas finais
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