Notas iniciais
"Até os castelos de areia caem no mar eventualmente"
j. Hendrix

Não sei quanto tempo fiquei jogada naquele beco abstraindo a dor... Sei que quando comecei a andar já estava escurecendo e me pus a andar de volta pro covil de mentiras... Passei por uma vitrine e não sei porque decidi olhar o comercial que passava na TV... As mentiras vendidas naquelas simples imagens causavam-me ânsia... Pior que isto era ver como as pessoas se alienavam aquilo... Como o sistema era capaz de manipular aquelas pessoas para um mundo de consumismo e individualismo... Sem que para isto fosse necessário matar, pisar e humilhar seu semelhante...

Por mais que não fosse um exemplo a ser seguido... Eu prefiro antes ser uma viciada qualquer do que alguém que finge viver num mundo evoluído, quando na verdade mora num mundo cada vez mais repleto de barbárie.

Cheguei em casa e somente a luz da sala estava acessa, meu pai embriagado esperava-me em pé perto do sofá:

– Olha o que nós temos aqui a viciada da família...

– Hmm o quem fala... – tentei ir para a escada mas ele me segurou – Não vou discutir contigo agora Marcos...

– Eu vou te ensinar o que é respeito garota!

– ME SOLTA!

– Não... – dizendo isto senti minha face arder diante do tapa que levei daquele homem, após mais uns três tapas ele me soltou e eu cambaleei caindo na escada. Meu rosto ardia e mesmo assim não conseguia esboçar nenhuma reação... Aquele homem era a causa de todas as tragédias... Ele não nasceu pra ser pai, marido ou ser amado... Era vil e calculista, graças a ele tudo estava na merda como agora. – Isto foi pra você aprender a não ser uma drogada como seu irmão.

– Não fala do meu irmão!!

– Ainda bem que aquela praga morreu... Porque você não some da minha vida tambem pirralha? Antes que eu mesmo de um jeito nisto?

– Só quero que lembre de uma coisa Marcos... Um dia tudo o que você fez pra mim e para os que eu amo terá volta.

Subi as escadas transtornada, peguei uma mochila e comecei a jogar tudo o que eu precisaria na estrada. Algumas roupas, escova de dente, celular, dinheiro e um retrato... No qual estavam todos menos Marcos, foi no ultimo verão que Victor estava vivo e agora aquilo parecia até outro mundo....

A porta abriu repentinamente e levantei os olhos assustada, deparando-me com minha mãe num choro frenetico.

– Eu sei que vai embora tambem...

Sem saber o que fazer levantei e abracei-a, não disse nada durante minutos e apenas senti, quem sabe pela ultima vez, o calor e conforto daquele abraço. Me permiti aproveitar aqueles poucos minutos demonstrando o remorso por a ter abandonado...

– Mãe eu te amo... Mas... Não posso mais...

– Eu sei... Volta?

– Quem sabe... Não me procure.. Finja que eu morri o.k? Eu volto quando estiver preparada....Desculpe...

Sai do quarto a deixando ali, por mais que a amasse tambem não podia esquecer sua culpa... Abri a ultima porta do corredor e vi meu pequeno chorando... Fui até o canto do quarto lhe abraçar mas ele se encolheu ainda mais..

– Você vai embola tambem!! Vai me deixar como o Victor!

Chocada encarei a figurinha a minha frente e senti meu coração partir-se, pensei em desistir mas isto significaria adiar o inevitável... A situação estava incontrolável

– Não meu querido... Lógico que não

– Vai sim!! Eu acleditei em ti... voce plometeu...

– Eu sei... eu sei...

Coloquei a cabeça entre as pernas e tentei segurar minha angustia... Senti duas mãozinhas me envolverem e sabia que jamais iria me perdoar por fazer isto.

– Num vai... Po favor... fica aqui... Papi vai se compota plometo... Só num vai...

– Escuta baixinho... Eu prometo não te deixar... Eu volto escutou? Eu volto!

– Volta memo?

– Volto...

– Não demola...

– Agora vai dormir...

Lhe dei um beijo na testa e sai... E mesmo assim vi quando seu olhar me disse “você não vai voltar”. Passei pela sala e Marcos tomava um conhaque como se nada tivesse ocorrido... Senti o sangue ferver e sai daquela casa antes que fizesse alguma merda.

A noite estava fria no momento em que alcancei a auto-estrada... Prometi a mim mesma naquele momento que só iria retornar no momento que estivesse forte e que pudesse controlar minhas emoções... Parei num posto e comprei uma cerveja...

Após a terceira garrafa meu corpo começou a ficar mais leves e as preocupações começaram a ficar distantes. Agora andando sem rumo eu sabia que meu futuro seria incerto.

A certa altura do caminho a tontura e euforia passaram, comecei a sentir os desagradáveis efeitos do ecstasy no meu corpo... A cerveja não me causava nada agora meu remédio sabia como se fazer visível, a depressão começou a assolar e eu sabia que existia apenas uma saida... Sentei no campo a beira da estrada e olhei para o céu. Lembrando o exato dia que este vicio entrou na minha vida...

“faz duas semanas que Victor morreu e queria acreditar que tudo não passava de um pesadelo. Após deixar Rafa na escola andei até o parque perto do lugar...

Abaixei a cabeça e comecei a pensar como minha vida desmoronava a cada dia... Meu alicerce foi retirado em questão de segundos e nada poderia modificar a situação...

Nisto um rapaz tocou meu ombro... Ele foi atencioso, disse que sabia como era... Disse que era possível seguir em frente e ia me mostrar como...

No começo eu ri. Como um simples comprimidinho seria capaz de ajudar?? Mas aos poucos a oferta tornou-se tentadora... Talvez ele pudesse trazer de volta minha paz... Pudesse me animar... Cumprisse o seu intuito...

Com alguma relutância experimentei... E a sensação foi ótima... Senti euforia e animação... Não parecia eu mesma!! Tudo passou a fazer sentido ao mesmo tempo que não fez... Não conseguia pensar em problemas e nada mais...

Quando o efeito passou mergulhei novamente num mundo de escuridão...

E naquele instante percebi que estava condenada a um vicio tão comum atualmente, não pela química em si... Mas porque apenas aquilo salvaria meus dias, só isto me impediria de procurar a morte!”

E pensar que agora depois de dois anos eu me arrependo de tudo... Agora não é a sensação que importa... Sim, eu finjo que eu faço pela sensação, finjo que faço por querer... Mas ele se tornou meu vicio... A única coisa que me faz viver...Os médicos dizem que não é possível se viciar apenas em ecstasy... Bem talvez não seja mesmo... Acontece que eu precisava daquilo para viver.... PRECISAVA MESMO...

Com estes pensamentos abaixei a cabeça e comecei a chorar... Chorar como nunca havia feito.... Pela morte de meu irmão, pelo abandono, pelo vicio... Pelo olhar do Rafa, como se dissesse você não vai voltar... Chorei como uma criança e cheguei a soluçar.... Chorei por saber que não havia volta, que jamais seria feliz, que não me adaptaria, que era uma fraca... Chorei por não ter coragem, não ter nenhum alicerce, por simplesmente ter acabado com minha vida... Chorei por não saber o que fazer ou a quem procurar... Por não ter nenhuma saída... Por estar condenada a sempre procurar algumas migalhas de alegria e paz através de algo químico....

Não sei como seria a vida se tivesse feito diferente... Se ao menos Victorestivesse aqui... Se ao menos eu não tivesse afastado a todos depois daquele dia... Quem sabe eu não poderia ser feliz?

Alias, o que é ser feliz?? Com o tempo estas horas passaram a não significar nada... Eu decepcionava a cada dia todos a minha volta... Meu mundo se restringiu a isto e se antes eu não via sentido em nada...Agora não via nem ao menos para viver....

Foi então que uma ideia me surgiu... Afinal porque não?

As pessoas não esperavam minha volta....

Não havia motivos para seguir...

E tantos jovens fazem isto não é?

Isto não pode ser considerado covardia... Covardes são aqueles que continuam a seguir sofrendo sem nada fazer não é? É preciso coragem pra isto??

Ninguém vive a vida de ninguém para julgar o proximo covarde...

Então a ideia foi tornando-se cada vez mais tentadora...

Afinal eu estava no meio do nada e ninguém veria não é?

Eu era solitária e ninguém sentiria falta...

Já tinha meio caminho andado...

Peguei os comprimidos guardados na bolsa.... Se apenas um deles poderiam fazer o efeito desejado no momento, imagine 6....

Coloquei-os nas mãos...

Vamos agora era só engolir não é??

Após isto eu poderia finalmente encontrar a paz eterna.... Ou será que não...

Antes que começasse a divalgar muito... Coloquei tudo na boca e engoli...

E a partir daí tudo ficou desconexo.... As pessoas mais importantes da minha vida vieram a mente e tudo apagou....