E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto

5 Uma nova definição para "Água Viva"


A espada quase caiu das minhas mãos quando a mulher-cobra veio em minha direção. Um pavor terrível parecia me corroer por dentro, impedindo-me de me movimentar. Os olhos arregalados, o coração prestes a parar de bater de tanto medo. Meus instintos gritavam para mim sem parar: Pule para lado! Mas eu não conseguia me mexer. Estava paralisado.

— Morra, Herói! — sibilou a mulher-cobra, abaixando a lança contra meu corpo.

Neste exato momento, como se eu me livrasse de uma corda apertada, consegui me mexer, e fiz o que os meus instintos me mandavam. Pulei para o lado. A lança da mulher-cobra enterrou-se na terra. Tropecei em minhas próprias pernas de tão desesperado que estava.

— O que eu fiz? — gritava, enquanto apontava a ponta da espada para ela. — Sou inocente! Eu juro! Não sei o que...

A mulher-cobra puxou a lança da terra e avançou novamente contra mim.

— Nenhum de vocêsss, heróisss, sssão inocentessss! — ela girou a lança, se aproximando de mim rapidamente, e me golpeou no peito com o cabo, fazendo-me voar de costas. Caí perto do pequeno córrego, gemendo e tonto de dor. Olhei para a minha adversária, que me olhava como se eu fosse um simples desafio.

— Essstá perdendo asss habilidadesss, meio-sssangue? — zombou ela, rastejando-se lentamente em minha direção. — O que essstá fazendo aqui? Onde essstão osss outrosss sssemideusesss?

Recuei, a mente totalmente confusa.

— Não sei do que está falando. — levantei-me, empunhando minha lâmina. — Que semideuses? Que meio-sangue?

Ela lançou o escudo em mim, o qual me atingiu em cheio no peito (de novo.), fazendo com que eu caísse de costas no córrego. Meu corpo pulsava de dor a cada segundo. Me sentia fraco e sem disposição para lutar. Epa, espere! Estava fraco, por que no segundo seguinte, o mesmo ímpeto de força que eu havia sentido antes, sentia agora. A fraqueza havia saído. A indisposição também. Meu corpo se encheu de uma nova energia desconhecida. Não pulsava mais de dor. E meus instintos estavam aguçados.

Pus-me de pé, erguendo minha espada, pronto para receber a minha inimiga. Sabia exatamente o que fazer.

— Pode vir.

A mulher-cobra me olhou dos pés à cabeça com um estranho receio nos olhos. Depois olhou para a água aos meus pés, e sibilou, o que parecia ser um resmungo de cobra.

— Sssaia daí! — ela rosnou. — Não seja covarde. Tenhamos uma luta justa.

Franzi a testa.

— Covarde? Luta justa? Do que está falando, sua louca?

Ela sibilou novamente e avançou contra mim, brandindo a lança.

— Não vai adiantar, filho de Poseidon!

Aparei o seu golpe no ar com a minha lâmina.

— Filho de quem? — perguntei. — Então vamos partir para os xingamentos, não é?

Eu a empurrei, e ela cambaleou para trás. Avancei para cima, saindo da água, mas a mulher-cobra girou a lança como se fosse uma hélice, e varreu o chão, atingindo minhas pernas e fazendo-me cair novamente de costas.

— Ai! — gemi, enquanto via o mundo girando. Vi a ponta da lança vindo em direção ao meu rosto, e em um rápido movimento eu a segurei, fazendo a ponta ficar a centímetros dos meus olhos.

— Não sssei o que essstá fazendo essscondido nessste lugar. — sibilou ela, forçando a lança para frente. — Mas seja o que for, não adiantou. Ainda podemos sentir o seu cheiro, semideus.

Em meio aquelas palavras, não pude deixar de me sentir ainda mais confuso. Minhas mãos tremiam enquanto eu segurava a lança. Pensava que, se eu morresse, não iria descobrir nunca quem eu fora na minha vida passada.

Rangi os dentes.

— Eu não vou morrer!

Empurrei a lança para a direita, a qual fincou-se na terra ao lado de minha cabeça. Foi aí que a coisa mais estranha da minha vida aconteceu.

Senti uma forte pressão na barriga, como se duas bolas de boliche estivessem lá dentro fazendo peso. Quando tentei me levantar, a água do córrego saltou para fora como se fosse um gêiser. A mulher-cobra recuou, alarmada, e quando tentou fugir, a água a agarrou, envolvendo-a como se fosse uma mão líquida, e a arrastou para dentro do córrego. Ela grunhia e sibilava tentando se soltar, mas a água a envolvia em uma bola grande e maciça. Eu olhava para aquela cena com o queixo caído, olhos arregalados, e gemendo por causa da pressão em minha barriga.

Quando a pressão diminuiu, a água voltou a se derramar no córrego e começou a fluir normalmente. Não havia mais sinal da estranha mulher-cobra. Um silêncio preencheu o ambiente. Meus olhos não paravam de fitar o lugar onde a água saltara. Estava tremendo e em transe com o que havia acontecido. E ainda por cima estava impressionado por ter sobrevivido aquela luta. Não parecia ser possível que eu tenha conseguido derrotar uma coisa tão horrenda como aquela.

Um farfalhar de folhas veio ao longe. Virei-me, em pânico, e vi outro vulto, mas esse saíra correndo para fora da floresta. Levantei-me, pegando a espada do chão, e corri para fora daquele lugar.

***

A luz do sol quase que me deixa cego quando saí de dentro da floresta. Por um segundo, via tudo brilhante e ofuscante. Mas depois que meus olhos se acostumaram, comecei a correr, ignorando os olhares confusos dos outros garotos. Queria contar para Alby que a mulher-cobra havia conseguido entrar na Clareira, e que a água havia criado vida e afogado ela. No entanto, estava tão distraído pensando nisso que esbarrei em alguém.

— Cuidado, seu trolho! — Era Newt. Ele me olhou com irritação e depois me perguntou: — O que está fazendo perambulando por aí, Fedelho?

Eu respirei fundo, tentando me acalmar. Será que eu poderia contar a Newt sobre o que havia acontecido? As coisas não poderiam se tornar ainda mais estranhas para mim, então resolvi contar.

— Ei, Newt. Posso lhe contar uma coisa?

Ele me olhou com desconfiança, mas assentiu. Eu o levei para um lugar onde pudéssemos estar a sós, e contei-lhe tudo. No final, Newt deu uma risada e colocou a mão em meu ombro.

— Fedelho, você está passando dos limites. Claro, todos nós aqui já fomos como você nos primeiros dias. Chorando, assustado, ficando completamente maluco e achando que isso era apenas um sonho.

— Eu não chorei. — murmurei.

— Mas acredite, deixa rolar. — continuou ele. — Agindo assim fica ainda mais difícil. Aceite que você está aqui e pare de querer fugir da realidade.

— Eu não estou inventando isso. — insisti. Então, olhei para a minha espada e tive uma ideia. — Olhe, você vai ver com os seus próprios olhos.

Me afastei um pouco dele e apertei o botão que havia na base da espada. A lâmina rapidamente se encolheu e voltou a se transformar em um celular.

Newt arregalou os olhos, afastando-se.

— Mas o que...? Certo, isso foi estranho.

— Não disse. — falei. — Eu não sei quem me deu essa coisa, ou onde arranjei, só sei que eu já estava com ele em meu bolso quando acordei dentro do elevador.

Newt levantou uma sobrancelha.

— Talvez os Criadores tenham lhe dado isso.

Não pensei nessa possibilidade antes. Será mesmo que poderia ser verdade?

— Eu não sei. — suspirei, frustrado.

— Relaxe. — disse Newt. — Amanhã, vamos por você para trabalhar. Quem sabe assim esse seu cérebro de mértila pare de ter alucinações e você volte a ser normal.

Ele saiu, e eu fiquei irritado, frustrado, triste e confuso. Por que ninguém acreditava? Por que? Parecia que um caminhão enorme descarregava perguntas e mais perguntas em minha mente. Não sabia mais o que fazer.

— Eu vi tudo. — disse uma voz atrás de mim.

Virei-me, e me deparei com um garoto. Claro, ali só havia garotos. Esse era quase da minha altura, pele branca, cabelos pretos curtos e olhos castanhos claro.

— Eu vi tudo. — repetiu ele, com uma expressão de surpresa.

Olhei para ele sem ter noção do que falar.

— Hã... quando você diz que viu tudo...

— Okay, não tudo. — admitiu. — Mas uma boa parte. O que era aquela coisa?

— Que coisa?

— Aquela coisa terrível com corpo de duas cobras e olhos amarelos.

Arquejei, atônito.

— Você... você viu mesmo? A mulher-cobra?

Ele assentiu. Eu fiquei tão aliviado que me senti capaz de flutuar no ar. Era como se dois elefantes tivessem saído de cima de mim.

— Graças aos deuses. Pelo menos um.

— Deuses? — perguntou ele.

— Cara, você não faz ideia do que é ver coisas estranhas e não ser compreendido pelos os outros.

— Eu nunca vi uma coisa como aquela. — disse o garoto. — Era uma aberração da natureza. Fiquei observando até você lutar contra ela com uma espada. E depois a água do córrego agarrar a coisa horrível e afoga-la. Como você fez aquilo?

Antes que eu pudesse tentar explicar, Alby chegou perto de mim.

— Fedelho, vamos. — chamou ele.

— Para onde?

— Para o Passeio, seu trolho idiota. Vamos.

A linguagem de Alby me irritava. Parecia que ele não gostava de mim. Com relutância, eu o segui.

— A gente conversa depois, fedelho. — disse o garoto que eu conhecera. — Procure pelo o Royce.

— Royce?

— É, trolho. Meu nome.

— Tudo bem.

Virei-me e segui Alby, que iria dar início ao meu Passeio pela a Clareira.