E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
6 Chega um novo trolho
Começamos pela a Caixa, que nesse momento estava fechada. As portas duplas de metal pareciam esconder um grande segredo lá dentro, mas eu sabia que havia apenas o elevador.
Alby virou-se para mim e apontou para as portas de metal.
— Provavelmente você já sabe o que é, mas por via das dúvidas vou falar mesmo assim. Esta aqui é a Caixa. Uma vez por mês, recebemos calouros como você. Nunca falha. E uma vez por semana recebemos suprimentos como roupas, comida, acessórios e tudo o mais. Mas a maior parte da comida nós mesmos produzimos na Clareira.
— Eles enviam isso tudo? — perguntei.
Alby olhou para mim como se eu tivesse arrotado alto.
— Fedelho, quantas vezes preciso dizer a mesma coisa. Nada de perguntas agora. Veja se enfia isso nesse seu cérebro de mértila e feche a matraca.
Revirei os olhos. Como eles aguentam esse cara? Pensava.
— Okay. — disse eu. — Sinto muito. Vou ficar de bico calado. — passei os dedos em frente aos lábios, indicando que havia fechado a minha boca com um zíper.
— Bom isso. — disse ele. — Continuando... nós não sabemos de nada sobre a Caixa. De onde ela vem, para onde vai, ou quem a controla. Não nos contaram nada a respeito. Temos toda a eletricidade que precisamos aqui. Cultivamos e produzimos uma boa parte do nosso alimento.
Fiquei morrendo de vontade de fazer inúmeras perguntas, mas me segurei. Não queria ele me repreendendo novamente como se eu fosse uma criança. Olhei para a Caixa, e me perguntei se não haveria um jeito de voltar por ela. Quem sabe? Se o elevador sobe, tem que descer também.
No entanto, Alby desvendou isso enquanto falava.
— Tentamos uma vez mandar um Fedelho de volta pela a Caixa, só que a coisa não se mexeu enquanto não o tiramos de lá.
Obrigado por responder pelo menos a uma pergunta minha, pensei. Mas o que haveria dentro da Caixa quando o elevador fosse embora? Será que seria uma saída?
— A Clareira se divide em quatro partes — falava Alby. — Jardins, Sede, Sangradouro, Campo-santo. Entendeu?
Fiz que sim, mesmo não tendo a menor ideia do que seria um Sangradouro.
Ele apontou para o canto noroeste da Clareira.
— Jardins, onde temos as nossas plantações. Á água é bombeada através de canos pelo o chão. Nunca faltou. Senão teríamos morrido de sede faz tempo. Nunca chove aqui. Nunca mesmo. — ele estendeu o braço para o canto sudeste, onde havia os cercados de animais. — Sangradouro... onde criamos e abatemos os animais.
— Eles devem odiar nascer aqui. — murmurei, com um sorriso. Mas o olhar duro de Alby fez eu me arrepender de ter falado. — Hã... desculpe. Prossiga.
Apontou para a construção velha e cercada de arvores.
— Sede... esse lugar está duas vezes maior do que quando o primeiro de nós chegou aqui por que continuamos expandindo e ampliando quando nos mandam madeira. A maioria dorme do lado de fora mesmo. — ele apontou para o sudoeste, onde havia uma região marcada por várias arvores doentes e bancos. Eu estremeci. Era aonde a mulher-cobra havia me atacado. — Aquele é o Campo-santo. O cemitério fica um pouco mais para longe, onde tem as arvores mais copadas. Você pode ir para lá pra descansar, perambular e tal.
E para ser quase morto por uma aberração, pensei. Quando voltei a me lembrar do que havia acontecido, me arrepiei. Aquilo havia sido uma luta de verdade, de vida ou morte, e a mulher-cobra pretendia mesmo me matar, como se fosse algo obrigatório.
Alby estalou os dedos bem em frente dos meus olhos.
— Escute, fedelho. Você irá passar as próximas duas semanas trabalhando um dia em cada atividade diferente. Aguadeiro, Embalador, Desbastador, Ajudante... vamos ver em qual você se sai melhor. Sempre dá certo. Tem que dá. Vamos.
Eu o segui enquanto ele se direcionava a imensa abertura dos muros, entre o Campo-santo e o sangradouro. Milhares de coisas passavam pela a minha mente. Ficava me perguntando se esses garotos um dia descobririam uma saída desse lugar. Fora da Clareira havia um Labirinto. Eu não fazia ideia, mas sentia que já havia passado por um problema parecido com esse, envolvendo um Labirinto. E a sensação que eu sentia... de que eu não fazia parte daquele lugar, de que não era para eu estar ali, me consumia.
Nesse momento uma palavra passou pela minha mente.
“Corredor”. É assim que eram chamados os caras que saiam da Clareira para explorar o imenso Labirinto a procura de uma saída. Subitamente me veio a ideia de me tornar um Corredor também.
Preciso achar uma saída desse lugar, pensava. Não posso ficar parado aqui sem fazer nada.
Quanto mais eu pensava nisso, mas vontade eu sentia em ser um. Já me imaginava lá fora percorrendo os enormes muros e caminhos entrelaçados. No entanto, lembrei-me do que havia visto pela janela e estremeci. A imagem do Verdugo, com aquelas pontas horríveis, ferrões, corpo bulboso, cintilante e apêndices pavorosos, quase que me fizeram desistir da ideia.
Estava tão absorto em meus pensamentos que esbarrei em Alby por trás.
— Ah... Desculpa. — falei, piscando.
Ele me olhou com enfado, suspirando, mas se recompôs. Apontou para uma construção vermelha e desgastada muito além dos currais.
— Está vendo aquele grande celeiro ali atrás? Pois é. É lá que trabalham os Retalhadores. Isso é uma coisa nojenta. Se você gostar de sangue, pode muito bem ser um Retalhador.
Balancei a cabeça. Ser um Retalhador não soava nada bem. Alby voltou a andar, e eu o segui. Cobri o nariz com a mão ante ao cheiro de estrume e terra que vinham dos currais. Pude ver porcos que dormiam em poças de lamas, vacas mordiscando gramas e algumas cabras descansando ao canto. Isso era estranho. Por que eu não conseguia me lembrar de nada, mas me lembrava desses animais?
Uma última vez, forcei a minha mente a pensar em coisas do passado. Tentei pensar em pessoas conhecidas, mas tudo vinha em uma névoa escura e espessa. Era frustrante.
De novo, estava tão distraído pensando que nem notei que havíamos chegado perto de uma das imensas aberturas da Clareira. Os dois muros agigantavam-se acima de nós. A hera cobria-os como um manto verde, e pude ver rachaduras nos muros, como longas cicatrizes. Estiquei o pescoço para ver até onde aqueles muros iriam dar, mas pareciam ser infinitos. Fiquei olhando para cima, mas parecia que eu estava olhando para baixo, para um precipício. Isso me fez cambalear para trás, sentindo-me tonto.
Alby apontou para os corredores fora da Clareira.
— O Labirinto fica para lá. — a voz estava com um tom soturno. — Chamamos essa abertura de Porta Sul.
Olhei para o longo caminho que se estendia para fora do local. Eu esperava que um Verdugo, ou uma mulher-cobra, aparecesse no final do corredor e avançasse em nossa direção. Felizmente isso não aconteceu.
— Estou aqui há dois anos. — disse Alby. — Ninguém está a mais tempo que eu. A maioria que vivia antes aqui morreu. — ele apontou com o polegar para fora da Clareira. — Esses muros estúpidos se movem todos os dias e todas as noites. Acompanhar o seu trajeto não é fácil, acredite. Por isso temos os corredores. Eles são incumbidos de fazer isso. Mas por dois anos não temos achado nenhuma solução para esse maldito Labirinto.
Dois anos? Pensei. Aquilo era muita coisa para processar. Fiquei muito confuso e desesperançoso. Não haviam encontrado nenhuma solução durante dois anos. Comecei a me sentir inquieto e impaciente. Precisava fazer perguntas.
Levantei o braço.
— A hora das perguntas chegou?
— Ainda não, seu trolho.
Gemi, impaciente.
— Não aguento mais! É muita coisa. Por que não podem responder a algumas perguntas...
— Fedelho, cale essa sua boca de mértila! — disse ele. — Pare de agir feito um bebê e preste atenção no que eu digo.
Senti vontade de despejar algumas palavras não muito agradáveis, mas me contive o máximo que pude.
— Tudo bem. — falei, com os dentes trincados. — Continue o tour.
Dei alguns passos em direção a imensa abertura, só para observar mais de perto, no entanto Alby agarrou meu ombro e puxou-me de volta.
— O que você pensa que está fazendo, paspalho?
— Só quero ver! — falei, irritado com tudo aquilo. — Mas que droga, não se pode fazer mais nada por aqui. Posso respirar pelo menos? Posso ao menos piscar os olhos?
— Essa é a regra número Um, fedelho. A regra que se alguém quebrar jamais terá perdão. Ninguém... ninguém mesmo, tem permissão para sair, a não ser os corredores. Quebre essa regra, e se não for morto pelos Verdugos, nós mesmos damos um jeito nisso. Deu para entender, novato?
A irritação se esvaiu, dando lugar a um sentimento de desamparo. Assenti fracamente em relação aquilo. Um brilho branco, vindo de detrás da hera do muro, captou meu olhar. Recuei uns passos e perguntei:
— O que foi isso?
Alby suspirou, e eu entendi que ele estava se segurando para não me bater por eu ter feito uma pergunta.
— Isso foi apenas um besouro mecânico. — respondeu. — Não encoste nele, jamais. É como os Criadores nos observam. Nunca conseguimos pegar um.
— Ah.
Depois de uma longa pausa, ele me disse:
— O Passeio acabou, fedelho, por ora. Cansei de tentar explicar as coisas para você.
— O quê? Mas...
Alby já havia ido. Me senti um pouco culpado, mas, pelos deuses, estava ficando louco naquele lugar com tanto mistério.
Duas horas mais tarde, depois de ter almoçado, fui ao banheiro para tomar banho. Havia conversado com Royce durante o almoço. O garoto ficava me perguntando se eu havia sido um espadachim antes de vir para cá. Sempre respondia que não sabia. Chuck, que estava com a gente, não parou de tagarelar quando soube da minha luta contra a mulher-cobra. Ele chegou até a perguntar se eu havia feito algum pacto com o demônio para que uma criatura como aquela viesse querer me matar.
Enfim, eu estava caminhando em direção ao banheiro (Uma construção não tão bonita, mas que pelo menos servia como banheiro), e um garoto, com uma aparência não muito boa, saiu de lá. Ao olhar para mim, ele arregalou os olhos, e depois franziu as sobrancelhas. Um ar de severidade passou pelo seu rosto.
— Você! — disse ele, com uma voz fanhosa.
Eu fiquei sem saber o que fazer. Olhei para os lados, confuso, e depois voltei a encará-lo.
— Eu o quê? — respondi.
— Você é o novato aqui, não é? — perguntou. — Já plongou nas calças de medo, fedelho? Ou já chorou feito um bebê?
Fiquei tão surpreso com a reação dele que tudo o que eu disse foi:
— Hã?
— Não me venha com “Hã”. — ele me olhou de cima a baixo. — Eu já lhe vi uma vez. Sei quem é você.
Meu estômago gelou.
— Você me viu...? Onde? Eu mal o conheço, nem sei quem é você, e não me lembro de nada. Como você...
— Fecha essa matraca, trolho. Não estou nem aí se você não se lembra de nada. Mas eu já vi você, e já me falaram de você, e sei que não é coisa boa. — ele passou por mim, mas virou-se, com um sorriso estranho no rosto. — Estou de olho em você. E para não ser mal-educado, meu nome é Gally, mas pode me chamar de Senhor Gally, ou Comandante Gally. Tanto faz para você.
Dito isso, ele foi embora, deixando-me totalmente confuso e atônito.
Horas mais tarde, eu já estava deitado no meu saco de dormir no mesmo local de antes. Chuck estava perto de mim, óbvio. A noite estava silenciosa e fria. Do meu saco de dormir, eu observava as estrelas, e me perguntava se os Verdugos estariam rondando o Labirinto a essa hora a procura de algum garoto para devorar.
— Ei... — Chuck se apoiou nos cotovelos. — E aí? Como está se saindo?
Não estava com vontade de conversar, mas respondi:
— Bem, eu acho.
— Você é estranho, fedelho. Tenho a impressão de que você não é como a maioria da gente.
Franzi a testa. Eu também sentia aquilo.
— Por que acha isso?
— Sei lá. Ninguém nunca foi atacado por uma mulher com corpo de cobra antes. Não sei se acredito nisso, mas pelo o modo como o Royce me contou, foi de verdade.
— Não quero falar sobre isso. — falei, tentando pôr um fim na conversa. Mas depois tive vontade de contar o que havia decidido. — Ei, Chuck, sabe o que eu quero ser aqui?
Ele me olhou com desconfiança.
— O quê?
— Um corredor. Quero ser que nem eles. Quero sair para o Labirinto, tentar achar alguma solução...
Chuck reprimiu uma risada.
— Você está cansado, seu trolho. Vá dormir. — ele virou-se.
— É sério. — insisti. — Quero ser um Corredor.
Eu me impressionei comigo mesmo por estar sendo tão convicto quanto aquilo. Apesar de ter monstros horrendos lá fora, eu não me importava. Algo me dizia que eu já havia enfrentado coisas piores do que um Verdugo.
— Cale a boca, Raphael. — sussurrou ele. — Durma.
— Ah, obrigado por me chamar pelo nome.
Virei-me, e repousei minha cabeça em meus braços. Demorei um tempo para pegar no sono, mas quando finalmente dormi, tive sonhos estranhos pela segunda vez.
Eu me via dentro de um ônibus, sentado ao lado de um garoto cujo o rosto eu não podia ver. Vários outros passageiros ocupavam os assentos. Não sabia o que eu estava fazendo lá e nem para onde estava indo, quando o ônibus parou bruscamente e girou três vezes, as rodas soltando um terrível barulho à medida que raspavam o asfalto, e depois batia em uma arvore. Dezenas de passageiros estava no chão em pânico e apavorados. Eu mesmo estava caído o chão, com o rosto ferido e sangrando. Quando olhei para a parte detrás do veículo, esta se partiu ao meio fazendo fagulhas saltarem e pedaços de vidros voarem por todos os lados. Uma mão monstruosa, com garras e dedos longos, entrou e começou a arranhar as paredes. Dando um grito de desespero, eu balancei as pernas tentando recuar o mais rápido possível dali. Mas neste momento, um rosto terrível de um monstro apareceu na janela com os olhos fitos em mim.
— Você! — rosnou ele. Com umas das suas mãos, ele me agarrou pelo o rosto e me puxou com violência.
O sonho se dissolveu, e eu acordei com alguém me sacudindo.
— Raphael, acorde. — era Chuck.
Abri os olhos, me sentindo cansado e sonolento. Meu corpo queria permanecer no chão deitado. Eu achava que era coisa da minha cabeça, mas eu estava ouvindo um som alto de uma sirene, vindo de todos os lados. Atordoado, elevei os olhos para Chuck.
— O que é isso? — perguntei, minha voz soando abafada devido ao barulho. — Que som é esse?
O rosto de Chuck assumiu uma expressão de surpresa e confusão.
— É a Caixa. — respondeu ele.
— Hã?
— A Caixa! — falou mais alto.
Sentei-me, e percebi que os outros garotos corriam em direção a Caixa parecendo ansiosos. Imaginei o que teria acontecido.
— E daí? — eu gritava devido ao barulho. Pus uma mão no ouvido. — O que isso quer dizer?
Chuck agarrou meu braço e me puxou.
— Você não está entendendo, não é? Um novo calouro está chegando agora, nesse exato momento! Isso nunca aconteceu antes. Nunca! Vamos logo!
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