Levantei-me me sentindo indisposto e cansado, mas a curiosidade de saber quem seria o novo garoto me despertou rapidamente. Calcei os sapatos e amarrei os cadarços, depois segui Chuck que, assim como os outros garotos, pareciam estar presenciando algo inédito. O som alto do alarme ecoou por mais alguns segundos e então parou.

— Por que estão agindo assim? — murmurei, enquanto uma multidão de clareanos formava um círculo ao redor das portas da caixa. O sol ainda estava para sair de detrás dos muros. As sombras deles se alongavam pelo o chão.

Vi Newt e Alby se aproximando rapidamente com uma expressão confusa nos rostos. Inclusive o garoto de ontem, Gally, vinha também. Aquele cara era estranho.

Aproximei-me de Chuck, que tentava abrir uma brecha no meio dos garotos para poder ver.

— Por que todo mundo está curioso desse jeito? — perguntei. — Isso já não é normal, um garoto chegar pela a caixa?

— Deve ser por que tudo foi muito regular. Um garoto por mês, todo mês e no mesmo dia. Acho que hoje os responsáveis por isso decidiram mudar a rotina. Ou então vieram buscar você de volta, já que perceberam o quanto você é esquisito.

Ele me cutucou e riu. Olhei para ele.

— Olha quem fala.

Alby abriu caminho entre a multidão, com Newt logo atrás. Ambos se puseram nos dois lados das portas de metal.

— Ei, Chuck, alguém já tentou descer...

— Já tentamos. — respondeu ele.

Franzi a testa.

— Nem sabe o que vou perguntar.

— Se a gente já tentou descer pela a caixa depois de ela entregar um novato. E a resposta é que a coisa não se mexeu enquanto não estivesse vazia.

— Ah, é verdade. — lembrei-me que Alby havia me dito isso. Pensei em outra possibilidade. — Certo, vocês já tentaram...?

— Sim, tentamos.

Revirei os olhos.

— O quê?

— Sair pelo o buraco da caixa quando ela vai embora. Não dá. Há apenas uma escuridão vazia. Nada que nos ajude a descer.

Fiquei pensativo.

— Okay... — falei, esperando que ele me interrompesse novamente. — Hã... vocês já tentaram...

— Sim.

Gemi, e fingi que ia estrangular Chuck.

— O que vocês tentaram agora?

— Já atiramos várias coisas no buraco. Nunca ouvíamos atingir nada. E olha que esperamos bastante tempo.

Balancei a cabeça, suspirando.

— O que vocês já tentaram, sr. Vidente? — carreguei as últimas palavras com todo o meu sarcasmo.

— Bem, eu não estava aqui. Mas ouvi que tentaram fazer uma corda com a hera dos muros, a mais comprida que teve.

— E aí?

— Não deu muito certo. Soube que o garoto que se ofereceu para ir desceu apenas uns três metros antes de ser cortado ao meio por alguma coisa que passou voando por lá.

Fiquei sem fala, enquanto olhava para Chuck, esperando que ele risse ou algo do tipo.

— Isso foi sério?

Ele revirou os olhos.

— Mas é claro.

Fiquei surpreso com aquilo. Um garoto havia sido cortado pelo o meio só por que estava tentando descer pela a caixa. Foi nesse momento que lembrei-me do cemitério, onde havia visto uma sepultura com um cadáver cortado ao meio. Meu queixo caiu. Aquele seria o garoto da história de Chuck?

Pensei em voltar lá novamente só para conferir, mas não agora. Voltei a falar com Chuck.

— Quanto tempo demora para a caixa fazer a entrega?

— Normalmente meia hora depois do alarme tocar.

As lembranças dos meus momentos dentro do elevador vieram à minha mente. Senti pena do pobre garoto que estava por vir. Ele iria passar pelas mesmas coisas que eu.

— E quanto a essa coisa de Transformação? — perguntei. — O que isso significa?

Chuck encolheu os ombros.

— Não sei muito bem. Os Verdugos quando picam você, causam muita dor, faz seu corpo passar por coisas horríveis. Quando acaba você está... diferente.

— Diferente? Como assim? E é só isso que os Verdugos fazem? Eles picam? Não é o que parece quando vi aquelas pontas horríveis e ferrões.

— Não sei cara. Nunca passei por isso para lhe falar.

Respirei fundo. Aquilo tudo era um mistério sem fim.

De repente tudo mergulhou em um silêncio absoluto. Os garotos pararam de murmurar. Pude ouvir os barulhos e os chacoalhos do elevador embaixo.

Um baque abafado indicara que ele havia chegado.

Newt e Alby se posicionaram. Um estalo dividiu o quadrado de metal ao meio, revelando as duas portas com maçanetas simples. Os dois garotos, um de cada lado, as puxaram, as quais se abriram com um rangido metálico fazendo uma nuvem de poeira se levantar.

Newt olhou para dentro e sorriu.

— O que tem aí, Newt? — perguntou alguém.

— Um novo fedelho para perturbar. — respondeu.

Murmurios espalhavam-se pelo o grupo.

— Um novo fedelho?

— Mas antes de ontem acabou de chegar um.

— Isso é estranho.

Alby aproximou-se e espiou também. Depois ergueu a cabeça parecendo confuso, e olhou direto para mim. Meu coração gelou.

— O que é isso? — perguntou ele, desviando o olhar para a Caixa. — Todos os garotos agora têm que vir com algum objeto na mão?

Não entendi o que ele quis dizer. Alguns garotos chegaram com uma corda nas mãos, e eu percebi que era a mesma corda com que haviam me içado para fora do elevador. Lançaram ela para dentro.

— Vamos fedelho — disse Alby. —, segure-se na corda que o levantaremos.

Uma pausa.

— Quem são vocês? — a voz do pobre garoto vindo de baixo estava trêmula de desespero.

Alby apenas suspirou e repetiu.

— Segure a corda, fedelho.

— Vai desejar nunca ter entrado nesse lugar. — riu Gally, olhando para o buraco da Caixa.

— Cale a boca, Gally. — murmurou Newt.

A corda tremeu e ficou rígida. Alby, Newt e Gally começaram a puxar. Outros garotos ajudaram. Quando finalmente o garoto saiu de dentro do elevador, vi que ele estava segurando alguma coisa na mão direita. Arquejei. Era uma espada. Uma espada que se parecia com a minha. O garoto caiu no chão, levantando mais poeira, e ficou atordoado quando se deparou com o grupo de garotos.

— Ei, calma aí. — Newt tentou apaziguar o jovem recém-chegado. — Não sei por que você chegou hoje, mas...

— Onde estou? — perguntou ele, a voz trêmula. — Que lugar é esse? Quem são vocês?

— Ele está com uma bengala na mão? — perguntou alguém a minha frente.

Todo mundo olhava para o novo garoto e murmurava, achando aquilo estranho.

— Isso é algum tipo de brincadeira? — indagou Alby. — Recebemos um fedelho há dois dias atrás com um taco nas mãos. Agora outro fedelho, com uma bengala nas mãos.

Risos encheram o ar.

Eu não acreditava no que estava acontecendo. Um garoto, assim como eu, havia saído da Caixa com uma espada nas mãos. E o grupo daqui a enxergavam como uma bengala. Quem era ele? Por que estava trazendo uma espada nas mãos também?

— Fedelho, tenha calma. — Newt ergueu as mãos. — Não fique se perguntando onde está, por que daqui há alguns dias já vai estar sabendo.

— Se não for devorado antes. — riu alguém.

— Bem-vindo ao seu mais novo pesadelo. — continuou outro.

— Fechem a matraca! — ordenou Alby.

O garoto se levantou e correu para longe do grupo. Newt revirou os olhos e murmurou: “Isso de novo, não. ”

— Por que a Caixa veio hoje? — perguntou um garoto ao meu lado.

Alby olhou para o grupo e respondeu, balançando a cabeça:

— Não faço ideia. Há alguma coisa de estranho nisso. — Seus olhos se fixaram em mim, o que me fez gelar. — O que está acontecendo aqui?

Eu olhei para os lados, embaraçado, e depois encarei-o.

— Hã... e eu vou saber? Não sei o que está acontecendo.

— Dois dias depois de você chegar, aparece outro trolho vindo da caixa. — continuou ele. — Isso nunca aconteceu antes. Nunca a caixa veio em dois dias depois. Tem algo errado.

— E eu digo que não sei. — falei, já ficando impaciente. — Faz apenas dois dias que estou aqui.

Alby suspirou e murmurou algo para Newt, que balançou a cabeça. Após isso ele se direcionou para o local onde o novo garoto estava.

Newt aproximou-se de mim.

— Fedelho, me diga uma coisa — ele apontou em direção ao novo garoto. — Você conhece ele?

Eu quase ri diante daquela pergunta.

— Como eu posso conhecer uma pessoa que eu nunca vi na vida?

— Apenas responda à maldita pergunta. — retrucou Newt.

— Não. Não o conheço.

Ele suspirou.

— Se você se lembrar de algo, por menor que seja, me conte. Pode ser qualquer coisa que surgir nessa sua cabeça oca, me conte. Ouviu bem?

Assenti. Newt deu tapinhas em meu ombro.

— Bom isso. Vou convocar um Conclave para debater sobre isso.

Ele virou-se e saiu. Minha mente estava girando de tão confusa.

— Chuck, o que é um Conclave?

— É uma ocasião em que os Encarregados se reúnem. Isso só ocorre quando uma coisa horrível e estranha acontece.

— Isso define muito bem os dias que passei aqui. — murmurei.

— Já está reclamando tão cedo? — sorriu Chuck.

— Estou com fome. Veja se me arranja alguma coisa para comer.

— Venha, vou ver o que posso pegar.

A cozinha era pequena, mas tinha todo o necessário para fornecer uma refeição decente. Um micro-ondas, um fogão, geladeira, lava-louças e duas mesas. Aquilo parecia normal demais em relação aquele estranho lugar. O local até que era limpo. Chuck pegou da geladeira uma bandeja em que se via metade de um bolo. Depois dois copos e uma garrafa de suco.

— O caçarola não gosta que a gente ataque sua cozinha. Então essa é a última vez que faço isso.

— Caçarola? — sorri. — Esse é o nome do cozinheiro?

— Sim. Por que?

— Nada. Até que faz sentido.

Enquanto comíamos, me perguntei novamente de onde vinha a eletricidade naquele lugar. Minha mente vagou pelos acontecimentos da minha curta vida, há dois dias atrás. Foi quando de repente, senti uma estranha sensação.

Franzi a testa.

— O que foi? — perguntou Chuck.

— Hã... nada. — falei. E voltei a comer. Não queria contar da estranha sensação que havia sentido. De que eu, por um curto momento, senti que conhecia o novo garoto que chegara.

Newt entrou na cozinha, e começou a falar:

— Há algo muito estranho acontecendo.

— Notou agora? — disse eu.

— Aquele fedelho está agindo que nem você, dizendo porcarias que não fazem sentido nenhum. Fala que a bengala que ele está segurando é uma espada. E fica dizendo coisas sobre “meus deuses” e outras loucuras.

Eu fiquei atônito. Aquilo estava ficando muito estranho mesmo.

— Outro fedelho maluco? — murmurou Chuck com a boca cheia. — Era só o que faltava.

— Eu... não sei o porquê disso. — falei, pensativo.

— Pois é bom você tentar lembrar de algo. — insistiu Newt. — E além disso, ele está usando uma camisa ainda mais estranha que ele.

— Por que? — perguntei.

— Sei lá. Só vi que na camisa do trolho estava escrito: Acampamento Meio-Sangue. Dá para explicar que droga é essa?