E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
8 Conheço o novato
Acampamento Meio-Sangue.
Um formigamento me tomou.
Eu havia visto aquela palavra em meus sonhos, escrito na camisa de uma garota, mas não havia entendido muito bem. O que isso significava? Que palavra estranha era essa? E o fato de o novo garoto estar com uma camisa com as mesmas palavras...
Opa! Espera um minuto! Acampamento Meio-Sangue.
Meio-Sangue.
Essa era a mesma palavra que a mulher-cobra usou pra mim quando estava lutando contra ela. O que isso tudo significava? Que troço é Meio-Sangue?
Eu me senti tão confuso e ao mesmo tempo tentado a resolver esse mistério todo que coloquei as mãos na cabeça e murmurei:
— Eu... não sei! — exclamei. Mas mesmo quando dizia isso sentia que no fundo conhecia essa palavra. — Não sei o que quer dizer.
Newt, que me olhava com os olhos semicerrados, puxou uma cadeira e sentou-se perto de mim. Olhou para Chuck e disse:
— Saia daqui. Quero conversar a sós com esse fedelho.
— Não posso ouvir? — perguntou Chuck inocentemente.
— Não.
Ele resmungou, mas mesmo assim levantou-se e se retirou. Após isso, Newt voltou-se para mim.
— Fale o que você sabe. — disse ele.
— O quê? O que eu sei...?
— Não adianta fingir, trolho. Eu vi seu olhar quando falei sobre esse tal Acampamento. Algo passou pela sua mente, e quero saber o que é. As coisas estão muito estranhas por aqui desde quando você chegou. Agora me conte tudo o que você sabe.
Eu me senti embaraçado, mas mesmo assim contei a ele tudo. Os sonhos, a minha luta contra a mulher-cobra e o estranho celular-espada. O olhar de Newt ficava cada vez mais confuso.
— É verdade. — falei, quando terminei de contar. — Eu nunca inventaria umas coisas assim. Até por que não me lembro de nada. Não sei quem eu sou ou quem fui na minha vida...
Ele ergueu a mão.
— Fedelho, eu sei que você não se lembra de nada. Pare de choramingar sobre isso.
— Não estou choramingando. — retruquei.
— Se isso tudo for verdade, você é mesmo o cara mais esquisito daqui. Sabemos que existem os Verdugos fora do Labirinto, mas mulher com corpo de cobra? Nunca vi aqui.
— Eu não sei o que está acontecendo. — repeti. — Quero descobrir as respostas tanto quanto vocês.
Depois de uma pausa, Newt levantou-se e deu um tapa em meu ombro.
— Conversamos sobre isso depois. — ele se inclinou, ficando cara a cara comigo, e sussurrou com um tom de autoridade. — Não quero que conte isso a ninguém. Não abra essa sua boca para contar suas loucuras para ninguém. Fique quieto e aja normalmente. Entendeu?
Assenti, balançando a cabeça.
— Bom isso.
Ele virou-se e saiu. Quase na mesma hora Chuck retornou, sentando-se ao meu lado.
— Você estava ouvindo a conversa? — perguntei a ele.
— Bem, no inicio não. Mas depois, sim. — e deu uma risada.
Não parava de pensar no novo garoto que chegara, e em sua camisa com aquelas palavras. Mas de repente, outro pensamento passou por minha cabeça.
— Ei Chuck.
— Oi.
— O que eu tenho que fazer para me tornar um Corredor?
O garoto me olhou com enfado.
— Não venha com essas besteiras de novo.
— Alby disse que ia me colocar para trabalhar nas diversas atividades que tem aqui, junto dos Encarregados.
— E daí?
— Quando vou poder falar com os corredores?
Ele revirou os olhos.
— Eles vão retornar lá para mais tarde. Por que não fala com eles?
Fiquei em silêncio por um bom tempo, pensativo. Mas depois voltei a falar.
— E quando eles voltam? O que fazem naquele edifício de concreto?
— Mapas. — respondeu Chuck. — Eles se reúnem logo depois que voltam antes de se esquecerem de alguma coisa.
Mapas? Perguntei-me. Então eles desenham mapas todos os dias no Labirinto? Isso me deu uma pequena esperança. Se havia mapas, então a solução devia estar mais perto.
— Hã... então eles ficam desenhando mapas todos os dias lá fora? Desenhando e correndo?
Chuck riu.
— Claro que não seu cérebro de plong. Eles passam o dia inteiro tentando achar uma saída desse feliz lugar. Quando voltam do Labirinto, eles desenham os caminhos que percorreram formando mapas.
— Ah.
Finalmente havia entendido. No entanto, eles estavam ali há dois anos. Será que o Labirinto era tão gigantesco e difícil de ser desvendado que mesmo depois de dois anos ninguém conseguiu achar uma única saída? Lembrei-me que Alby havia dito que os muros dentro do Labirinto se moviam todas as noites. Isso me dava calafrios.
— Que tipo de pessoa manda garotos inocentes para esse lugar? — sussurrava.
— Garotos inocentes? — estranhou Chuck. — Como você sabe que são inocentes?
Sorri.
— Tem razão. Alguns devem ter feitos coisas horríveis antes de vir pra cá. Você, quem sabe, deve ter sido expulso da escola e mandando para cá. Uma prisão.
— Você é mesmo maluco. Eu tenho no máximo uns treze anos. Acho que não fiz algo tão ruim assim a ponto de me mandarem para uma prisão.
— Isso aqui não parece com uma casa de praia. — falei, indicando todo o lugar com as mãos.
Ficamos alguns minutos em silêncio.
— Acho que vou falar com Newt. Quero ver qual vai ser o trabalho que vou fazer aqui.
— Vá em frente. — disse Chuck.
***
Procurei por ele durante varias horas, mas não achei. Perguntei a alguns garotos se haviam visto Newt andando por ai. A maioria dizia que não. Minutos depois, Royce, o garoto que vira a minha luta contra a mulher-cobra, me encontrou.
— E ai, fedelho? Tudo bem com você?
— Não sou mais fedelho. — reclamei. — O novo trolho que chegou é quem é.
Fiquei impressionado por eu ter usado a estranha palavra da Clareira. Era quase como se já estivesse acostumado.
— E ai? Quais são as novas? Outras mulheres-cobras vieram lhe pegar?
— Não.
— Você viu o novato? Ele tem uma espada, assim como você.
— É, eu vi.
— Acha que vocês são... irmãos?
Virei-me para encará-lo.
— Irmãos? Você está doido?
Ele sorriu.
— Vocês se parecem.
Olhei em direção ao novato, que estava ainda sentado perto da arvore, e vi que Chuck estava lá conversando com ele. De novo, a sensação de que eu o conhecia me preencheu.
Royce me cutucou.
— Vamos lá conversar com o novo trolho. Você pode mostrar para ele a sua espada.
Balancei a cabeça.
— Não, obrigado. Estou procurando Newt. Depois eu vou.
Ele apontou para a Sede, a grande construção velha e cercada de arvores.
— Ele está lá dentro juntamente com Alby.
Agradeci e fui até lá.
Chegando perto da porta, percebi que havia certa agitação dentro. Mesmo assim não hesitei. Abri a porta e entrei. Vários garotos de expressão séria estavam ao pé de uma escada torta, com corrimãos retorcidos e virados em todas as direções. Eles pareciam estar esperando algo. As paredes do corredor e da entrada eram forradas com papel escuro já descascando. As únicas coisas que decoravam aquele lugar, era uma mesa de três pernas, que em cima havia um jarro de flores. E um retrato preto e branco de uma mulher idosa na parede. Achei estranho. Será que era a mãe de todos aqueles garotos?
Claro que não, pensava. Ninguém aqui tem mãe.
Esse pensamento me fez pensar na minha própria mãe. Será que eu tinha uma? Onde ela estaria? Estava sentindo a minha falta? Me senti tão sozinho.
— Olhem só, é o Novato.
Olhei para ver quem dissera aquilo. Infelizmente, Gally, o garoto que havia dito que já havia me visto, estava lá, juntamente com os outros garotos. Seu cabelo preto estava assanhado para o lado. O nariz parecia uma batata amassada. Devia ter uns quinze anos mais ou menos.
— Não sou mais novato. — disse eu, entrando ainda mais. — E meu nome é Raphael. Onde está Newt.
— Lá em cima. — ele apontou.
Me direcionei até a escada, mas o cara se postou a minha frente.
— Ei, fedelho. O que pensa que está fazendo?
— Vou falar com Newt. — estava me sentindo acuado, mas não ia demonstrar.
— Nenhum calouro tem permissão para subir lá em cima para ver alguém que foi... pego. Newt e Alby não deixam.
— Pego? — então lembrei-me do cara, Ben, que havia sido picado pelos Verdugos. — Ah, sim. Mas não quero ver o cara que foi pego. Quero falar com Newt.
Gally deu uma risadinha.
— Eu já vi você, trolho. Já me falaram de você, e sei que não é coisa boa. Alguma coisa está cheirando mal, e vou descobrir o que é.
Deve ser você, que não tomou banho hoje. Pensei em dizer, mas me segurei.
— Eu nunca vi você na minha vida. Nem me lembro de você, graças aos deuses. E não me interessa saber se você me viu ou não. — na verdade, me interessava sim. Onde ele havia me visto?
— Eu já fui picado, fedelho, e sei o que o Ben está passando lá em cima. Você não tem a menor idéia.
Seria verdade? Ele já havia sido picado por um Verdugo? Decidi não me preocupar com isso.
— Okay. Acho que você me confundiu com alguém que liga pra isso. Posso subir agora?
Ele me olhou por alguns segundos, e depois sorriu, mostrando os dentes amarelos. Saiu da minha frente.
— Claro. Pode subir. Vá em frente. Desculpe por ter interrompido. Newt estava querendo falar com você. Suba lá e converse com ele.
Subi os primeiros degraus sabendo que ele estava tramando algo. A escada rangia sob o meu peso. Me segurei nos corrimões e continuei subindo.
Acima, a escada dava para um corredor com diversas portas fechadas. Somente uma estava entreaberta. Respirei fundo e caminhei até lá. As tábuas abaixo de mim rangiam constantemente. Toquei a maçaneta da porta, hesitando um pouco, mas abri.
Newt e Alby estavam inclinados sobre uma pessoa na cama.
Aproximei-me um pouco para ver quem estava deitado na cama, e quando vi, recuei horrorizado, com arrepios percorrendo todo o meu corpo e uma sensação de náusea me tomando.
Uma figura pálida e retorcida contorcia-se totalmente, o peito nu e horrível. Por todo o seu corpo, as veias estavam esticadas e rígidas com um tom esverdeado, parecendo teias de aranhas por todos os seus membros. Estava coberto de hematomas arroxeados e arranhões sanguinolentos. Os olhos injetados de sangue pulsavam como se quisessem sair das órbitas.
Aquela imagem fez meu estômago revirar, quando nesse momento Alby apareceu a minha frente, interrompendo a visão.
— O que está fazendo aqui, seu mértila?! — esbravejou ele.
Eu cambaleei para trás, sentindo-me fraco.
— Eu... hã... queria falar com o Newt.
— Leve esse seu traseiro de mértila lá para baixo agora mesmo! — ordenou. — Não quero ver você mais até amanhã. Se eu o ver antes disso, eu vou...
— Hã... o Penhasco? — murmurei.
Ele apontou para baixo.
— Caia fora!
E fechou a porta.
Saí de lá completamente apavorado e humilhado. Desci as escadas, sentindo a vergonha tomar minha face. Ignorei os olhares dos garotos e de Gally, e saí daquela casa.
Royce estava lá fora, esperando por mim.
— E ai? Como foi?
Passei por ele e murmurei:
— Não queira saber.
Caminhei até Chuck, que ainda estava com o novo garoto, dando comida a ele. Aproximei-me dele, desanimado.
— Chuck, posso falar com você um instante?
— Claro, cara. Depois do fedelho terminar de comer.
O garoto murmurou de boca cheia:
— Não sou fedelho.
— Okay, foi mal.
Olhando ele de perto, vi que seus olhos eram verdes. Cabelos pretos e a pele um pouco bronzeada. A camisa laranja que eu havia visto em meus sonhos, ele estava usando. Perguntei-me onde estava a espada dele. Mas nesse momento não me importei.
— O que significa Acampamento Meio-Sangue? — perguntou Royce.
— Não sei. — respondeu o garoto. — Não me lembro de nada. Nem sei onde fica essa tal acampamento.
— Somos dois. — respondi, sem pensar. Ele me olhou, e um sentimento de simpatia por ele me encheu, mesmo não o conhecendo. — Meu nome é Raphael.
Estendi a mão para ele.
— Percy.
Apertamos as mãos.
Royce o cumprimentou também e disse:
— Bem vindo a Clareira.
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