Um silêncio profundo preencheu o local segundos depois o fechamento dos muros. O mundo inteiro pareceu perder a cor e o brilho, transformando-se em um mundo cinzento, sombrio, escuro e assustador. Os muros enormes pareciam olhar para mim. A hera que os cobria parecia agora um manto preto ao invés de verde.

Eu ainda estava no chão, em choque com o que acabara de fazer. Minha respiração estava entrecortada. Não conseguia ar suficiente por causa do tamanho pavor que corroia meu estômago e meu peito. Temia as consequências que iriam vir por causa daquilo.

Ouvi o som de outra respiração atrás de mim, e um calafrio desceu por minhas costas.

Virei-me, e me deparei com um garoto no chão também, olhando para mim. Nos olhos, uma expressão de puro medo.

Era Percy.

Meu queixo caiu de tão surpreso que fiquei.

— O que...?

— Meus parabéns, fedelhos. — disse Minho a nossa frente. — Se acham que fizeram algum ato heróico ou corajoso entrando aqui, podem esquecer. Estão mortos. Todos nós estamos.

Ouvir aquilo me fez sentir náuseas.

Me recostei nos muros, atordoado, me perguntando por que eu fizera aquilo. Olhando para as imensas paredes de pedra, me sentia um camundongo indefeso e vulnerável.

Olhei para Percy.

— Por que fez isso? Por que entrou aqui junto comigo?

Ele abriu a boca para falar algo, mas não houve som nenhum.

Um gemido de Alby à frente me trouxe de volta a realidade. Ele estava muito mal. Precisava de ajuda.

Corri até os dois garotos e me ajoelhei.

— O que houve com ele?

O rosto de Alby estava cheio de hematomas e marcas de arranhões. Minho sentou-se no chão, respirando rapidamente. Mesmo na pouca luz do ambiente, pude ver que seu rosto estava todo sujo, suado e arranhado, assim como os braços.

— O que você acha que aconteceu? Ele foi pego por aquelas mértilas gorduchas.

— Por um Verdugo?

Ele revirou os olhos.

— É claro! — ele olhou para Percy e depois para mim. — Não sei por que fizeram isso? Estavam querendo mesmo se matar?

Um ímpeto de raiva me encheu.

— Eu entrei aqui para ajudar vocês, seu ingrato. O que queria que eu fizesse? Que eu risse e virasse as costas para vocês?

Minho riu sem vontade.

— Desculpe, meu cavaleiro de armadura reluzente.

Suspirei, irritado. Minho não estava tornando as coisas nada fáceis. O frio no meu estômago me fazia tremer as mãos.

Percy se aproximou.

— Aquele Verdugo morto que vocês foram verificar... ele ainda está lá?

Minho olhava para Alby.

— Não. Só digo que aquelas coisas sabem se fingir de mortos perfeitamente.

Eu o encarei, surpreso.

— O que quer dizer?

— Quero dizer que ele não estava morto de verdade. Era apenas uma armadilha.

— Então ele foi... picado? Pego? Sei lá. — eu inspirei e falei baixinho. — Ele vai morrer?

— Se o não mandarmos logo para a enfermaria e ele receber o Soro, sim, ele vai morrer. Daqui há uma hora, mais ou menos. Mas não se preocupe. Todos nós vamos estar mortos também, picados em pedacinhos daqui a pouco.

— Como você é otimista. — murmurou Percy. Ele olhou para o fim do corredor sombrio. — Não me diga que esses Verdugos vão vir para cá atrás da gente?

Minho assentiu.

— Não podemos fazer nada? Não temos uma chance de escapar?

— Nem uma única chance. — disse Minho.

A desesperança me tomava. Aquelas palavras de Minho não ajudavam em nada. Decidi que não iria ficar ali esperando os Verdugos aparecerem.

— Vamos — falei, levantando-me. —, temos que carregar Alby para um lugar seguro.

Minho deu uma risada estridente.

— Você ainda não percebeu, seu trolho idiota? Não tem lugar seguro nesse maldito Labirinto. Nunca houve.

Ficamos em silêncio.

— Vamos mesmo morrer? — perguntei, o choque da realidade me tomando novamente e fazendo meu estômago revirar de medo. — Não há nada... nada que podemos fazer?

Minho colocou as mãos na cabeça.

— Sei lá.

Tive impressão de que ele também estava com medo e assustado, só não queria demonstrar.

Percy suspirou, colocando a mão em seu bolso onde, provavelmente, devia estar a caneta-espada.

— É verdade que ninguém sobreviveu ao passar uma noite dentro do Labirinto?

Minho assentiu.

Percy ajoelhou-se perto dele.

— Quantos morreram então?

— Uns doze. — ele olhou para mim. — Você esteve no Cemitério, não é?

— Sim. — disse eu. — Não é um lugar feliz.

— Isso mesmo. — concordou. — E aqueles são apenas os que encontramos. Há outros, mas os corpos nunca foram achados. Nada acaba com a nossa alegria do que lembrar de amigos dilacerados.

Percy me encarou, a testa franzida. Após isso, Minho levantou-se com um grunhido e pegou as pernas de Alby.

— Me ajudem com essas coisas imundas. Vamos deixa-lo aqui, perto da porta da Clareira.

— Hã? Por que? — indagou Percy.

— Vamos dar aos Clareanos um corpo que seja fácil de achar amanhã.

Isso fez um arrepio percorrer meu corpo.

— Isso não está acontecendo. — sussurrei, infeliz. — Não pode estar acontecendo.

Olhei para os muros, me perguntando se não haveria nenhuma saída.

— Pare de choramingar. — murmurou Minho. — Devia ter obedecido as regras e ficado lá dentro. Vocês dois.

— Eu preferia mesmo ter ficado lá dentro. — disse Percy, olhando em direção a Clareira, atrás do muro.

Eu o encarei.

— Por que você veio então?

— Não sei. — respondeu. — Não queria que... você fosse sozinho.

— Por que?

— Sei lá. — resmungou. — Você é a única pessoa parecida comigo. Se você morresse, eu não teria nenhuma ajuda em descobrir o que está acontecendo comigo.

— Ei! — exclamou Minho, segurando as pernas de Alby. — Parem de se declarar um para o outro, fedelhos, e me ajudem aqui!

Percy pegou um braço de Alby e eu o outro, e o arrastamos para perto do muro da Clareira, que tinha uma rachadura vertical. Largamos o corpo junto ao muro e o colocamos em uma posição sentada. O peito de Alby subia e descia com uma respiração superficial. A pele estava banhada de suor e meio sem brilho.

— Ele parece mesmo muito mal. — observou Percy.

— Onde ele foi mordido? — perguntei.

Minho revirou os olhos.

— Eles não mordem você droga nenhuma. Eles picam. Não sei dizer onde foi. Pode ter várias picadas ao longo do corpo.

Pensei nos ferrões dos Verdugos e estremeci.

— E você não foi picado? — indagou Percy.

— Talvez... — disse Minho, dando de ombros. — Eu posso a qualquer momento desabar no chão e morrer.

Ficamos olhando para ele, boquiabertos.

— Eles picaram você?

— Cara, não havia eles. Só havia aquele que a gente achava que estivesse morto. Ele ficou maluco de repente e picou Alby. Após isso foi embora. — ele olhou para o Labirinto, que começava a ficar mais sombrio a cada segundo. — Aqueles imbecis com certeza vão vir até aqui para acabar com a gente.

Percy parecia ter ficado branco. Ele olhou para os muros a procura de algo, depois apontou.

— Poderíamos escalar essas plantas grudadas nas paredes. — sugeriu.

— Fedelho, você acha que somos idiotas? — murmurou Minho. — Nós já tentamos isso, sacou? Já tentamos várias e várias coisas, mas nunca deu certo.

— Por que não conversa direito e para de debochar? — resmungou Percy.

Ele suspirou, exasperado.

— Você não entende, cara de mértila! — ele apontou para nós três. — Nós estamos mortos, fedelho. Mortos! Pare de ficar tentando ter alguma esperança, por que não há.

O negativismo de Minho me dava nos nervos. Estando naquele corredor escuro, a impressão que sentia era de que algo estava nos observando, só esperando o momento certo para atacar.

Mal acabara esse pensamento, e um ruído ecoou, vindo do fundo do Labirinto. Um som grave e assustador. Depois um chiado metálico constante, um som arrastado, que parava durante três segundos e depois continuava. Parecia ser o som de duas lâminas sendo afiadas e amoladas uma contra a outra.

A cabeça de Minho virou-se abruptamente para o longo corredor, os olhos arregalados.

— Ah, não... — cerrou os punhos firmemente, os colocando no rosto. — Ah, cara. Cara. Nunca tive tanto medo na vida. Não era desse jeito que imaginava a minha morte.

Uma linha gelada de medo subiu para o meu coração, fazendo-o bater mais depressa. O barulho horrível me enchia de um medo tão grande que fazia meu estômago doer.

Percy recuou até bater as costas no muro.

— O que... é isso? — sussurrou ele.

— Quer mesmo que eu diga? — falou Minho, sem tirar os olhos do corredor.

O barulho foi ficando cada vez mais alto. E junto com isso, uma série de estalidos se juntou ao assombroso ruído metálico. Um grunhido cavernoso foi ouvido. Ouvir aqueles sons terríveis me fez pensar em facas arranhando o chão e gafos raspando uma superfície de alumínio.

— Meus... deuses. — balbuciei, os olhos se fixando no fim do corredor.

Minho olhou para a gente. Mesmo na pouca luz, vi seus olhos expressando um genuíno desespero. Ele agarrou Percy com uma mão e eu com outra, e nos puxou para perto dele.

— Aja o que houver, nunca parem de correr! Estão me ouvindo? Nunca! Precisamos nos separar! É a nossa única chance de sobreviver.

— O quê? — exclamou Percy.

— Corra!

— Não, espera...

Dito isso, ele simplesmente saiu correndo, afastando-se da gente, seu corpo sendo engolido pela a escuridão do Labirinto a medida que corria.

Aquilo foi inacreditável. Inimaginável. Minho nos deixara sozinhos no Labirinto a mercê dos Verdugos.