E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
14 Bancamos o Homem-Aranha
Notas iniciais
Fiquei olhando o ponto onde Minho desaparecera. Um sentimento profundo de antipatia em relação ao garoto me dominou. Como ele foi capaz de nos deixar ali sozinhos? Como ele foi capaz disso? Éramos apenas Calouros, com apenas alguns dias na Clareira, e alguns minutos no Labirinto. Minho era um veterano, um Corredor profissional. No entanto, ele nos largou ali, deixando-nos sem saber o que fazer e apavorados.
— Me diga que ele não fez isso. — sussurrou Percy, a boca aberta e os olhos fixos no lugar onde Minho sumira.
Não respondi. Ainda estava tentando acreditar que aquilo de fato havia acontecido.
O volume dos ruídos metálicos arrastados aumentou, junto com barulhos de engrenagens. Era como se correntes estivessem sendo arrastadas pelo o chão. Minhas pernas quase fraquejaram devido ao tamanho pavor. Nunca na vida havia sentido tanta desesperança e medo. Eu suava frio e tremia. Era uma coisa insuportável. Então veio o cheiro — algo queimado, oleoso. Eu lembrava da imagem do Verdugo que havia visto na janela, com pontas afiadas, ferrões e apêndices aterrorizantes, mas não sonhava nunca em dar de cara pessoalmente com aqueles seres horrendos.
Por alguns segundos, Percy e eu ficamos ali parados, sem se mexer por nada, tremendo de medo. Contudo, achei um desperdício de tempo ficarmos ali parados enquanto podíamos estar bolando planos para deixar Alby seguro e escapar.
— Temos que fazer algo. — minha voz estava carregada de terror. — Não vou ficar aqui esperando a morte. — virei-me para Alby. — Onde vamos colocá-lo?
Percy puxou sua caneta do bolso e a segurou firmemente.
— Eu estava pensando... — ele engoliu em seco, olhando para o fim do corredor. — É... em leva-lo conosco.
Balancei a cabeça.
— Não vai dar certo. Os Verdugos podem nos pegar facilmente. — o arrastar metálico tornou-se mais alto, e um golpe de desespero fez meu estômago entrar em convulsões. — Não sei o que pensar! Só não quero morrer hoje.
Percy girava o corpo enquanto olhava ao redor.
— Ah, deuses. Ah, deuses. Esses barulhos vão fazer eu vomitar de medo daqui a pouco. — apontou para os muros, arquejando. — Isso!
— O quê?
— Podemos amarrá-lo nessas plantas nos muros. Suspendê-lo até em cima. Aposto que esses Verdugos não escalam paredes.
Dei um sorriso de puro alívio.
— Ótimo! Vamos fazer isso rápido!
Pegamos Alby pelos braços e o arrastamos até ficar perto da hera nos muros. O colocamos sentado.
— Agora é só puxar uma dessas plantas e... — Percy interrompeu-se, virando a cabeça de repente para o fim do Corredor. Ele recuou até trombar comigo de costas.
— Ei, cara. Cuidado! — murmurei.
— V-você viu isso? — a voz dele tremeu. — V-viu isso?
— O quê?
Ele apontou para o corredor.
— Um vulto negro passou por ali correndo.
— Hã?
— Um vulto negro passou por ali correndo. — repetiu ele. — Ele era enorme. Tinha o corpo longo e patas...
— Chega! — gritei. Aquilo estava se tornando um pesadelo sem fim. — Não aguento mais! Não aguento mais!
Apalpei o muro até achar um tufo de hera mais crescido. Eu a enrolei em minha mão e a puxei do muro com violência, a qual se despregou com um estralo. A trepadeira era mais grossa e resistente do que eu imaginara. Quanto mais eu puxava e me afastava do muro, mais ela se despregava, até eu estar segurando uma longa corda de planta que ia do chão até a extremidade do muro acima, desaparecendo na escuridão. Ela pendia solta do muro, e parecia estar presa a alguma coisa lá em cima.
— Uau! — disse Percy.
Eu dei um puxão para verificar se ela aguentava. Depois outro. A planta se mostrava bastante resistente.
— Deu certo. — sorri, aliviado. Eu a entreguei ao Percy. — Pronto. Coloque sua ideia em prática.
— Certo. — falou ele imediatamente.
Percy pegou a trepadeira e a enrolou em torno do tórax de Alby, dando um nó grosso no final.
Ele olhou para mim.
— É isso que vamos fazer. Suspendê-lo até chegar a uma altura boa. Mas vamos ter que fazer força. Muita força. Está pronto?
— Não. — disse eu. — Mas vamos fazer isso rápido.
Percy puxou mais ramos de hera dos muros, que iam se despregando e alongando-se, até parecerem diversas cordas soltas nos muros. Eu estava começando a entender o que ele ia fazer. Comecei a amarrar os ramos da hera solta nos braços de Alby, depois nas suas pernas. Após isso, Percy ficou do lado esquerdo de Alby e eu do direito.
— Vamos escalar o muro — disse Percy. — Cada um tenta se segurar nas plantas com uma mão, enquanto com a outra tenta puxar o corpo de Alby para cima. Vamos ter de ficar amarrando ele a medida que subimos, um de cada lado.
Assenti, enquanto o suor impregnava minha camisa.
Nesse momento, pude ver lampejos luminosos à distância, projetando-se no céu noturno. Parecia que alguém — ou algo — estava tentando acender uma lanterna gigante. Um grunhido grave ecoou pelo o ambiente sombrio.
— Vamos logo!
Começamos a escalar o muro, um de cada lado, agarrando-se a hera. Alby estava no nosso meio abaixo. Com uma mão ficamos nos segurando na trepadeira, e com a outra puxamos os braços de Alby para cima. Era muito pesado. Eu grunhia e gemia com o esforço. Percebi que havia várias rachaduras no muro que serviam perfeitamente para pôr os pés. Uma pequena chama de esperança se acendeu dentro de mim. Estava dando certo.
— Não está dando certo. — gemeu Percy, frustrado.
Não admitia que ele ficasse falando aquilo. Voltei ao chão e tentei empurrar o corpo de Alby para cima. Consegui erguê-lo apenas alguns centímetros.
— Vai! — eu rangia os dentes, tremendo sob o peso. — Amarra a perna ou mão dele...
— Já estou fazendo isso! — exclamou Percy, ainda pendurado no muro. Com os pés apoiado nas rachaduras, ele havia erguido a perna de Alby e começado a amarrar outro ramo de hera em volta dele. Depois a outra perna. — Agora eu vou erguer os braços dele e você amarra.
Percy voltou ao chão, e eu escalei o muro, ficando alguns centímetros acima, ao lado dos braços de Alby. Percy ficou embaixo do corpo e fez força para cima, levantando-o o suficiente para eu pegar outros ramos acima de hera e amarrar seus braços. O trabalho era árduo e difícil.
Aterrissei no chão, ao lado de Percy, e me afastei para dar uma olhada no nosso trabalho.
Alby estava pendurado a cerca de um metro do chão. O corpo sem vida pendendo e balançando levemente.
Zumbidos vinham do Labirinto. Ruídos metálicos. Sons de algo afiado sendo arrastado ao chão e lampejos vermelhos vindos da esquerda.
— Que mérti... — Percy se interrompeu, olhando para mim. — Essas palavras grudam mesmo na gente.
— Rápido! — exclamei.
Voltamos ao trabalho.
Escalamos um de cada lado, até ficar alguns centímetros acima do corpo de Alby. Após isso, puxei a hera que envolvia o seu braço, e Percy puxou a que envolvia as pernas. O corpo subiu. Pegamos outros ramos e amarramos os membros do rapaz. Subimos mais alguns centímetros acima, puxamos os ramos que envolviam os braços e pernas, e os amarramos.
E assim foi sendo.
Escalar. Puxar. Amarrar.
Escalar. Puxar. Amarrar.
Meus músculos começavam a tremer de exaustão. As pernas doíam. Minhas costas pareciam que estavam sendo cutucadas com parafusos afiados. Eu arquejava de cansaço e suava feito um condenado. Percy não parecia estar melhor. Gemia a cada esforço e respirava curta e ofegantemente.
Quando me dei conta, estávamos a oito metros do chão. O corpo de Alby apenas alguns centímetros abaixo do nosso. Quando olhei para baixo, senti tontura e vertigens. Meu coração estava tão acelerado que pensei que ia acabar morrendo de tanto medo. Mas uma coisa eu descobri ali — tinha medo de lugares altos. Detestava altura.
— Bem... — disse Percy, a cabeça apoiada contra o muro. Ele respirou fundo e continuou. — Deu certo.
Assenti, balançando a cabeça.
— Precisamos... nos segurar aqui por enquanto. — falei, a garganta seca. — Que tal nos amarrarmos... a hera também?
— Pode ser. — concordou Percy.
Peguei um grosso ramo e passei em volta do meu peito, depois pelas costas, e amarrei. Depois outro. Percy fazia o mesmo.
No final, parecíamos que estávamos usando três cintos de segurança feitos de plantas. Eu ergui as mãos para ver se estava seguro. A trepadeira aguentava o peso. Suspirei, aliviado. Era ali que ficaríamos escondidos. Ou mais ou menos escondidos.
Cada parte do meu corpo parecia clamar por descanso. Exausto, cansado, doído e apavorado, fiquei pensando no que viria adiante. O que aconteceria? Será que viveríamos até de manhã?
Minutos se passaram. Meu peito começou a doer. Aquela situação nunca iria melhorar. Sempre iria piorar. Vi novamente o lampejo de luz vermelha vir do lado esquerdo do outro corredor. Ela refletia fantasmagoricamente nos muros. O rangido continuava.
Com o canto do olho, detectei algo se mexendo ao meu lado na parede. Virei a cabeça para olhar, e dei de cara com um besouro mecânico. Dei um grito de medo, o qual infelizmente ecoou pelo o Labirinto.
Os olhos do besouro brilharam, como se fossem pequenos faróis, emitindo uma luz vermelha.
— O que foi? — perguntou Percy do outro lado.
— Um besouro mecânico. — murmurei, pasmado.
Ele se virou para ir embora, e vi que em seu dorso estava escrito algo também em vermelho, como se tivesse sido escrito com sangue.
CRUEL
Eu já havia visto aquele nome em outro besouro, na floresta. Chuck havia dito que aquilo era um meio de os Criadores nos observarem. O que será que ele poderia fazer se encostasse em mim? Prendi a respiração. Quem sabe ele não detectasse somente movimentos?
Segundos eternos se passaram. Meus pulmões estavam gritando por oxigênio. O besouro emitiu uns cliques e depois saiu rapidamente, escondendo-se por entre a hera. Deixei uma grande quantidade de ar sair, depois inspirei profundamente.
— Quanto tempo, Raphael? — indagou Percy, a voz gemendo. — Quanto tempo temos que ficar aqui?
— Psiu! — eu encarei. — Não fale alto. Não sei quanto tempo teremos que ficar aqui, mas é melhor do que ficar lá embaixo. Sei que está ruim, mas se a gente...
Ziiiimmm!
O barulho metálico soou muito, muito próximo. Um balde de gelo parecia ter sido derramado nas minhas costas.
Percy arquejou.
— Pelos... deuses. — sussurrou, a voz cheia de um pleno horror.
Rangidos de máquina e sons de lâminas arrastando-se vieram de um canto bem próximo.
Foi quando algo dobrou a esquina do nosso lado e veio em nossa direção.
Uma coisa grande e escura que eu já havia visto antes.
Um Verdugo.
— Ah, meus... — minha voz falhou.
Percy me lançou um olhar de pânico.
Eu enrijeci meu corpo. Não iria fazer nenhum barulho sequer.
A coisa vinha em nossa direção, e eu tive a impressão de que ela sabia onde a gente estava.
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