E Se Fosse Verdade? 3 - A Batalha do Labirinto
4 Meu encontro sombrio
Horas mais tarde, eu estava deitado em um macio saco de dormir, junto com Chuck, num leito de relva fofa que havia perto dos jardins. Era um gramado longo e aconchegante, e percebi que muitos dali escolhiam aquele lugar para dormir. Achei estranho que todos quisessem dormir no chão, e não dentro da Sede. Mas como as coisas ali eram para lá de estranhas, não me importei. Queria somente dormir para sempre. Nunca mais acordar. Aquele lugar não era para mim. Sentia isso.
Fiquei ali deitado pensando no que iria acontecer comigo. Será que viveria ali para sempre? Sem nunca me lembrar da minha vida passada? Queria somente me lembrar de amigos, parentes ou família.
Respirei fundo, desistindo de ficar tentando me lembrar de alguma coisa, ou de ficar fazendo perguntas para mim mesmo. Observei o céu estrelado acima de mim. Parecia que eu não conseguiria dormir tão cedo.
— Bem — disse Chuck ao meu lado. —, conseguiu sobreviver ao primeiro dia.
Não estava com a mínima vontade de conversar, mas assenti, balançando a cabeça.
— Amanhã, Alby irá lhe levar para o Passeio, e então ficará por dentro de tudo. Bom isso, né?
— Sim — sussurrei. — Bom isso.
— O que será que você vai ser aqui? — perguntou ele. — Aguadeiro? Retalhador? Embaladeiro?
— Chuck... — disse eu. — Se não se importar, eu queria dormir.
— Ah. — ele silenciou. — Ah, sim. Desculpa.
Senti uma pontada de culpa por ter falado assim com ele, mas minha cabeça estava tão cheia e confusa que fechei os olhos, desejando que o sono viesse o mais rápido. E realmente veio. Minutos depois, mergulhei em um sono profundo, e tive sonhos estranhos.
Várias imagens passavam por minha mente. Algumas para lá de absurdas, outras assustadoras. Eu me via em um túnel subterrâneo, com a espada na mão, andando lentamente enquanto observava o caminho a minha frente. Mas o estranho não era isso. Outras pessoas estavam comigo. Garotos e garotas andavam junto comigo nesse túnel. Não conseguia ver os rostos deles, mas pude ver que um estava com uma espada nas mãos, e se parecia com a minha. Outra imagem veio. Eu, em um vasto campo verdejante com construções que pareciam ser da antiguidade. Vi uma colina alta ao meu lado, e um grande pinheiro acima dela. Dezenas de adolescentes estavam ali junto comigo. Alguns deles com espadas e escudos, outros com arco e flecha. Não sei por que, mas me senti bastante à vontade naquele lugar. Sentia como se estivesse... em casa.
Antes de a imagem sumir, uma garota passou correndo por mim, usando uma camisa laranja claro, e nela havia escrito algo que não compreendi direito.
ACAMPAMENTO MEIO-SANGUE. Era o que estava escrito na camisa.
Uma última imagem veio à minha mente, e nela vi algo que me fez ficar arrepiado. Um monstro horrível e gigante, com um olho só no meio da testa, me segurava em suas mãos asquerosas. O lugar em que eu me encontrava parecia ser muito baixo para o monstro, por que ele estava curvado, parecendo a letra C. Após isso, um sujeito bizarro com o rosto verde lutava contra o monstro, apenas para depois me olhar, abrindo um sorriso grande e maníaco, e me atingir na cabeça com um machado.
— AH! — acordei com um salto. E de repente, uma mão tapou a minha boca com força, me assustando terrivelmente. — Huuummm...
— Calma, fedelho. — sussurrou alguém perto de mim. — Quer acordar todo mundo?
Olhei para cima. Era Alby. Ele me olhava como se eu fosse uma criancinha barulhenta. Tirei a mão dele da minha boca e fiquei cuspindo.
— Tira essa mão suja e imunda da minha boca.
Alby me deu um cascudo na cabeça.
— Fique quieto. — o ar se impregnou com o hálito matutino dele.
Olhei para o céu, e vi que este estava clareando com o início do amanhecer. Aquele cara estava me deixando zangado tão cedo assim? Mesmo assim, fiquei curioso para saber por que ele me acordara a essa hora. Será que era para me dizer que eu estava livre para ir embora?
— Okay. — sussurrei, balançando a cabeça. — Desculpe, meu comandante. Apenas me ajude a levantar.
Alby pareceu que não gostou muito do meu sarcasmo, mas ajudou-me a levantar com apenas um braço.
— Quero que você veja uma coisa antes de começar o Passeio. — disse ele. — E se você continuar bancando o palhaço, vou...
— Sim, eu sei. — interrompi. — Vai me atirar do Penhasco. Onde fica esse tal Penhasco mesmo?
Ele levantou o dedo, me olhando seriamente.
— Nada de perguntas, cara de mértila. Apenas me siga e feche a matraca.
Revirei os olhos. Como esse cara pode ser tão chato? Pensava. Mas o segui mesmo assim. Qualquer resquício de sono em mim já havia ido embora. Estava curioso para saber onde ele iria. Observei, e vi os vários garotos que dormiam espalhados pelo o chão da Clareira. Parecia um centro de sem tetos. Andei cuidadosamente para não pisar em ninguém, mas acabei pisando na mão de alguém, o que provocou um grito agudo e depois um belo soco em minha perna.
— Ai! Desculpa. — sussurrei.
Alby andava sem olhar para trás. Saímos do gramado e chegamos ao piso de pedra do pátio. Os raios do sol estavam prestes a sair de detrás dos muros. Alby de repente correu em direção ao muro oeste, o que me fez ficar confuso.
— Para onde está indo? — sussurrei. Mas ele não ouviu. Então corri atrás dele. Não estava com disposição para brincar de siga o mestre, mas se ele queria me mostrar algo, então deveria segui-lo.
Quando Alby finalmente parou de correr, e eu também, estávamos perto da imensa parede de pedra. Respirava ofegantemente. Foi quando, ao longo da superfície do muro, vi luzes vermelhas piscando, como o de uma ambulância. Acendia e apagava constantemente. Franzi a testa, imaginando o que seria aquilo.
— O que são essas luzes? — sussurrei.
Alby olhou para mim com cara de “O que eu lhe falei sobre as perguntas?” Resmunguei, irritado por não ter respostas.
— Você não vai querer saber, fedelho. — disse ele, enfiando as mãos na grossa cortina de hera que cobria os muros e as afastando-as. Atrás havia uma pequena janela empoeirada e escura. Um pequeno quadrado do tamanho de um tablete. Perguntei-me como eu me lembrava desse objeto, mas não conseguia lembrar de outras coisas mais importantes.
Alby, com os olhos fitos na janela, acenou para mim, indicando para se aproximar. Aproximei-me e contraí os olhos, tentando ver algo fora da janela. As luzes vermelhas piscavam e se moviam, fazendo os nossos rostos ficarem iluminados.
— Lá fora é o Labirinto. — sussurrou Alby. — Quero que saiba. Toda a nossa vida aqui, todos os nossos esforços... são para encontrar uma maldita solução para sair daqui. Tudo gira ao redor dele. Todos os dias tentamos ter ideias para solucionar os mistérios deste adorável Labirinto, que também muda todos os dias. Por isso você não deve fazer besteira. Quero que veja o porquê de você não deixar o seu traseiro do lado de fora. O porque que essas portas se fecham todas as noites.
Ele saiu, e eu fiquei em seu lugar, olhando através da janela. As luzes brilharam em meu rosto fantasmagoricamente. Foi quando eu vi o que estava lá fora, e meu coração parou na garganta. Uma coisa grande e bulbosa se mexendo, do tamanho de um rinoceronte. A criatura girava e se remexia para todos os lados. Pude distinguir várias pontas prateadas se mexendo e apêndices horríveis. Patas se contorciam e saiam de dentro da carne escura e cintilante. Meu queixo caia lentamente enquanto observava aquele ser bizarro e terrível. A criatura de repente virou-se em direção a janela e saltou, batendo no vidro e provocando um ruído surdo. Eu recuei com um grito. Parecia que sabia que estava sendo observada.
— O que... O que é isso? — perguntei, totalmente pasmado.
— Um Verdugo.
— Verdu...? — ocorreu-me que Chuck já me dissera algo sobre esse bicho. — Eles... picam a gente? É isso? Foi o que aconteceu com o tal Ben?
Alby suspirou.
— Não sei quem foi o linguarudo que lhe contou isso. Mas, sim, Ben foi picado por uma dessas coisas. E está lá na Sede sofrendo. — ele apontou para o vidro. — Agora sabe o que nos espreita do lado de fora do Labirinto.
Eu dei mais uma olhada através da janela, mas a coisa já havia ido embora. Contraí os olhos, tentando ver mais, quando nesse momento, saindo de dentro da escuridão do Labirinto, outra criatura avançou contra a pequena janela. Mas essa era diferente. Se possível ainda mais bizarro. Parecia ser... uma mulher. Sim, era uma mulher. No entanto, a sua pele era escamosa e verde como os de uma cobra. Os olhos eram amarelos com fendas pretas. E usava uma armadura sobre o corpo, lança e escudo nas mãos. Mas o mais esquisito era a sua parte de baixo. Onde deveriam estar suas pernas, haviam duas caudas de cobras grudadas no tronco da mulher.
Isso... é... uma ilusão. Pensava. Não está acontecendo de verdade.
Foi quando a mulher-cobra avançou contra o vidro da janela com a sua lança, e bateu, provocando outro ruído surdo.
— Ah, deuses! — recuei, caindo sentado no chão. Olhei para Alby com os olhos cheios de medo. — V-você viu? Você viu aquilo?
Alby murmurou:
— Eu já vi, seu trolho. E já lhe disse que são Verdugos. Agora...
— Não, não! Não foi um Verdugo. Foi outra coisa. Uma mulher com corpo de cobra e lança nas mãos. Está lá fora! Olhe!
Alby olhou para fora por alguns segundos, e então virou-se para mim.
— Fedelho, se você começar a bancar o louco e ficar tendo alucinações, melhor que se esforce para se recuperar, pois não vamos deixar um biruta viver entre nós.
Franzi a testa.
— Está dizendo que inventei isso? — levantei-me e olhei pela a janela, mas não vi nada. — Mas estava lá. Eu juro. Eu vi uma mulher com corpo de...
— Okay, chega, fedelho. — Alby cobriu novamente a janela com a hera. — Pelo visto foi demais para você ter visto o Verdugo. Quem sabe mais tarde você esteja normal.
***
Na hora do café, eu estava junto à mesa da cozinha, com Chuck me perguntando toda hora o que havia visto pela a janela. Não havia comido nada do que estava no prato. Ficava olhando para o vazio enquanto relembrava aquela imagem assustadora da mulher-cobra.
— Você viu o que mais depois do Verdugo? — insistia Chuck. — Por favor, me conte.
Eu olhei para ele, distraído.
— Hã... eu não sei bem. Acho que Alby tem razão. Estou perdendo a cabeça. Esse lugar está me deixando maluco.
Chuck deu uma risada estridente, mostrando a comida mastigada em sua boca.
— Cara, se você não ficar firme, vai acabar fiando louco mesmo. Todos nós aqui ficamos assim nos primeiros dias. Achando que iriamos ficar loucos. Tudo o que você está passando nós já passamos.
— Ah, é? — repliquei. — Vocês já viram uma mulher com corpo de cobra fora do Labirinto? Ou já viu um celular transformando-se em uma espada reluzente? Ou já teve sonhos de um monstro com um olho só lhe agarrando com as mãos?
Chuck mastigava enquanto olhava para a mesa, pensativo.
— É, você tem razão. — disse ele, com um ar ausente. — De todos, você é o mais esquisito daqui.
Suspirei, afastando o prato para o lado.
— De onde vem a comida daqui? — perguntei, curioso. — E a Eletricidade?
— Da caixa, ora. — respondeu Chuck. — Bem, a eletricidade eu não sei. Mas uma vez por semana a Caixa nos manda suprimentos como comida, roupas e outras coisas.
Pensei nas pessoas que estavam por detrás de tudo isso. Quem eram elas? Por que faziam isso?
— Por que alguém iria fazer isso com a gente? — resmunguei. — Criar um imenso Labirinto indecifrável com monstros horríveis do lado de fora como um simples desafio. Qual o propósito disso? É loucura. Só pode ser uma pessoa psicopata. Um jogo doentio.
— Calma, cara. — Chuck cutucou meu ombro. — Não pode ficar pensando nisso direto. Apenas aceite a situação. Pare de resmungar.
— Tudo bem. — depois de uma longa pausa, voltei a falar. — Chuck, quantos anos eu tenho?
Ele me olhou atentamente.
— Diria que uns dezesseis. Se quiser saber mais... Cabelos pretos penteados de lado. Olhos castanhos escuros, ah, e muito feio.
Revirei os olhos, me sentindo inquieto.
— Obrigado. Acho que vou andar por aí. Ver se esfrio minha cabeça.
Levantei-me e saí em direção ao bosque.
***
Enquanto andava pela a Clareira, via todos os garotos em atividade. Alguns cuidando dos animais, e outros trabalhando como se fossem agricultores. Cada um devia ter o seu trabalho ali. Passei perto dos currais, das plantações, e da estranha construção com a porta de ferro. Respirei fundo, sentindo o cheiro agradável das plantas. É, talvez aquele lugar tivesse o seu lado positivo.
Fui andando em direção a parte sudoeste do Pátio, onde encontrava-se o grande bosque. Parecia uma floresta, com arvores altas e largas, folhagens densas e verdejantes. Tive um súbito desejo de explorar lá dentro. Avancei para frente e adentrei a floresta.
Não imaginava como a luz pudesse se apagar tão depressa. Avancei alguns metros adentro e o ambiente inteiro tornou-se escuro e úmido. Várias folhas secas e galhos estavam espalhadas pelo o chão. Fiquei observando tudo ao meu redor enquanto adentrava ainda mais. Até que um som de algo se arrastando veio à minha frente. Fiquei alerta. Um brilho vermelho no chão captou meu olhar. Curioso, fui ver o que era, mas o brilho vermelho se mexeu para frente, saindo de dentro das folhagens.
Era um besouro mecânico. Parecia-se com um rato de metal com os olhos brilhando na cor vermelha. Lembrei do que Chuck me dissera, que era deste modo que os Criadores nos observavam. Notei que nas costas do bicho de metal estava alguma coisa em vermelho.
CRUEL
Logo fiquei receoso. Será que aquelas palavras eram para expressar o comportamento desses besouros mecânicos.
Dei um passo para frente, e o bicho saiu em disparada para frente. Corri atrás dele, disposto a pegá-lo. Pulei sobre galhos, abaixei-me, saltei e desviei de todos os obstáculos que ali havia. Não sabia o motivo, mas enquanto fazia isso, sentia-me... confortável. Como se eu tivesse sido treinado para isso. O ar ficou ainda mais úmido. O ambiente ainda mais escuro. Depois de várias tentativas de pegar o fugitivo, acabei tropeçando em algo e caí em um pequeno córrego que havia lá, espalhando água.
— Ah, cara. — gemi, enquanto me levantava todo molhado. — Isso é que é sorte.
Estranhamente, um ímpeto de força percorreu meu corpo. Sentia-me mais alerta e ligado. Mais disposto.
Olhei para a água.
— Nossa. Água milagrosa essa. — saí de dentro, com os sapatos encharcados. Olhei para a minha direita, e vi o que parecia ser um cemitério. O lugar era pequeno. O chão abaixo era coberto por uma grossa camada de mato alto. Pude avistar várias cruzes de madeira que estavam enfiadas sobre o solo. Algumas pareciam ser recentes, outras eram malfeitas, com apenas dois pedaços de madeira pregados um ao outro por uma linha.
Aproximei-me lentamente enquanto observava. Nomes de pessoas estavam escritas nas cruzes. Ao todo haviam umas dez. Cheguei perto de uma sepultura e li o nome.George. Fiquei imaginando a causa de ele ter morrido. Passei para a outra cruz e li o nome. Stephen.
— Puxa, Stephen. — murmurei. — Por que você morreu? Uma mulher-cobra assustou você?
Passei por entre as placas e pude avistar outra sepultura coberta por uma folha de plástico escura. As bordas estavam sujas de lodo. Contraí os olhos, tentando ver o que havia do outro lado. Quando vi o que era, recuei assustado. Dentro havia os restos de um corpo em decomposição. Inclinei-me para ver novamente. O túmulo era pequeno, e só a parte de cima do defunto estava lá. Percebi que ele havia sido cortado ao meio. Os ossos já estavam com uma cor escura e marrom.
De repente, um barulho de galhos se partindo veio ao longe. Sons ásperos de algo se arrastando parecia estar se aproximando de algum lugar.
Virei-me, a procura de alguém, mas não vi nada.
— Hã... olá? — exclamei, a voz ecoando. — Alguém aí?
Outro barulho de galhos se quebrando. Depois um sibilo arrepiante. Naquela escuridão, fiquei com o coração gelado de medo.
— Isso não tem graça. — falei, tentando espantar o medo. — Estou só vendo o cemitério.
Um vulto ao longe se mexeu, o que me fez ficar com as pernas bambas. Apalpei meu bolso e senti o mini celular dentro. Tirei-o e puxei a antena. A espada reluzente logo apareceu. Eu fiquei em guarda, respirando rapidamente.
— Hã... sério... se estiverem me pregando alguma peça...?
— Quem dissse que essstou pregando uma peça? — sibilou alguém à minha frente. — Essstou armando uma cilada para enfim matar você.
Uma criatura saiu detrás das arvores, e meu corpo inteiro tremeu de horror.
Era a mulher-cobra que eu havia visto pela a janela. Ela me olhou com aqueles olhos amarelos horríveis e sibilou:
— Sssseu corpo ssse juntará ao dessses garotosss.
Ela ergueu a lança e avançou contra mim.
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