E Se Eu Também Quiser?

2 E Se Eu Deixá-lo Sozinho?


Notas iniciais
*Capítulo reescrito*
Boa Leitura.

Dean entrou no quarto com uma expressão nada boa, denotando cansaço. Na verdade, era isso mesmo; estava cansado de sempre ser o elo entre John e o irmão. Sempre ser o único que se importava.

– Mas que porra é essa, Sam?! – Olhava para as pilhas de roupas que o mais novo havia jogado no chão descuidadamente. Algumas até já arrumadas em uma das malas de sua falecida mãe.

– Eu vou embora, Dean. – Sam colocou a fotografia de volta no mesmo lugar e levantou-se.

– Mas não vai mesmo!

Sam riu. Era hilário ver o outro tentando lhe dar ordens. Ele não era mais nenhuma criança que precisava do consentimento dos outros para fazer algo. Era dono de si mesmo e, com tal, faria exatamente o que bem entendesse. Porém, durante uma fração de segundos, Sam pensou na possibilidade de Dean já estar ciente do que havia descoberto de seu pai, momentos atrás. E essa dúvida o fez perguntar, mesmo que vagamente:

– Você também sabia? — perguntou de súbito.

– Que a carne subiu de preço? – O loiro deu uma risadinha irônica, tentando utilizar-se das piadas fora de hora para quebrar o clima tenso. Mas seu irmão ainda o fitava seriamente.

– Ele também escondeu isso de você. – Concluiu o mais novo. Sam sentou-se novamente na cama, ainda inquieto.

Dean o fitou com cautela, observando a feição do moreno permanecer dura, inabalável.

– Dean... Eu... Eu não sou seu irmão. – E depois de ter dito isso, o mais novo não tinha mais coragem de olhar nos lindos olhos esmeraldinos à sua frente.

– Como assim não é meu irmão, Sammy? – Finalmente conseguira perguntar depois de um longo silêncio. – De onde você tirou isso?

Sam se levantou pela segunda vez e começou a andar pelo pequeno espaço que estava livre em seu quarto, contornando as peças de roupa esparramadas pelo cômodo.

– John me disse isso hoje, pouco antes de você chegar. – Dean revirou os olhos ao ouvir o que o irmão dizia.

– Sam, você não pode dar ouvidos para o que o pai fala. Eu posso até jurar que já o ouvi falar sozinho durante a noite! – Lógica e calmamente, o mais velho tentava fazer a situação se tornar menos tensa possível.

– Não dessa vez, Dean. Ele nunca disse nada parecido em alguma de nossas discussões. Por que ele diria isso pra mim agora? Não tem outra explicação.

"Você não tem meu sangue, garoto! Mary nunca foi sua mãe, e Dean não é seu irmão!” Recordou momentaneamente das palavras que John cuspira em sua cara.

O velho jogava tudo para fora como um turbilhão de palavras que faziam a mente do jovem trabalhar rápido, procurando sentido no que o pai lhe dizia.

"Você foi deixado na porta da nossa casa quando tinha seis meses. Se fosse por mim, teria sido deixado em um orfanato! Mas Mary sentiu pena. Então se apegou a você no momento em que o pegou nos braços. Só que eu não fui idiota, pelo contrário... Eu nunca consegui te enxergar como meu filho! Se quiser ir embora, sinta-se livre! Você não vai me fazer falta alguma."

Se um dia Sam duvidou do amor paternal de seu pai, agora tinha certeza de que era tudo uma ilusão. Nunca existiu uma família. Todos estes anos, o canalha do seu pai estava apenas fingindo ser alguém que não era.

Mas e quanto ao seu irmão? Estava fingindo também? Não poderia, poderia? E mesmo se estivesse, Dean não seria esperto o suficiente para aguentar uma farsa dessas por tanto tempo. Nunca duvidou dos sentimentos do irmão. Ele o amava, incondicionalmente. Então, acreditava que Dean, ao contrário de seu pai, aceitaria o fato de não serem tecnicamente parentes.

– Sam? Você ainda ta aí? – O moreno não percebera, mas o loiro havia levantado e se encontrava à sua frente, olhando fixamente nos olhos do caçula.

– Vamos tirar essa história a limpo, ok? – A confiança de Dean era contagiante, mesmo que forçada. Contudo, Sam sentia que John não havia mentido. Era uma situação indescritível; as voltas em sua cabeça, a decepção e principalmente a sensação de ser rejeitado o fazia se sentir totalmente só, indesejado. Sam só precisava de uma confirmação vinda da parte de John para poder sair o mais depressa possível e esvaziar a cabeça.

O velho Winchester ainda estava recostado no pequeno sofá escuro, pensativo. Quando ouviu o barulho de passos se aproximando, foi rápido em limpar as lágrimas que caíam por sua face, ciente de que os filhos não poderiam ver aquilo.

– Pai? Que história é essa que você contou ao Sammy? – Ficando à frente de seu pai, Dean perguntou impaciente e um pouco nervoso. John não teve escolha a não ser encará-lo, sem expressão alguma. Desviou o olhar do mais velho por um instante, pousando seus olhos cansados no caçula, encostado na parede da cozinha. Fitou-o com certa curiosidade e cautela.

– É tudo verdade. – O Winchester disse por fim, confirmando as expectativas do mais novo e deixando Dean vagando em seus próprios pensamentos.

– Como isso é possível? – Disse com visível incredulidade.

John não respondeu, apenas continuou olhando para o líquido escuro e forte do interior do copo que segurava com força. Sam suspirou e saiu dali às pressas; não queria mais ouvir, não queria mais ver.

– Sam, espera! – Dean tentou parar o irmão, não obtendo sucesso. Então se virou bruscamente para o pai e, estreitando os olhos, disse com visível desprezo:

– Espero que esteja satisfeito. – E aquilo não era nada do que o primogênito gostaria de dizer ao homem. Precisava controlar Sam, convencê-lo de que tudo tinha uma explicação aceitável. E isso, por si só, já esgotaria as suas energias. Afinal, o moreno era imprevisível.

Dean bufou e meneou a cabeça, dando as costas para pai e seguindo rumo às escadas. Ao chegar ao quarto, para sua surpresa, Sam já estava com as duas malas prontas e seguras em cada mão.

– Sam, você não pode ir embora!

– Ah é? Então me observe. – falou friamente, irredutível, passando pelo irmão e descendo os degraus apressadamente.

– Sam, você não está pensando direito... Deixe-me ajudá-lo! – Dean pedia, seguindo o irmão como uma sombra.

O moreno parou em frente à porta e virou-se para o louro no intuito de se despedir. Mas, na verdade, Sam estava relutante em deixar o irmão.

– Me desculpe, Dean. Eu preciso ir. Preciso tirar um tempo para esfriar a cabeça. Longe dessa coisa toda...

– Até de mim? – Perguntou receoso, com medo da resposta que receberia.

– Me desculpe.

Então, despreocupadamente, jogou suas malas para o lado e abraçou o irmão com força, sentindo os braços protetores de Dean se fecharem contra sua cintura. O mais velho ainda esperava por mais alguma coisa. Qualquer coisa. Mas sabia que Sam nunca diria nada que o pudesse levar para onde estava indo. Caso contrário, Dean estaria lá no dia seguinte, fazendo o impossível para arrastar seu irmão de volta para casa. Então não perguntou nada. Apenas ficou se culpando por deixar as coisas saírem dos trilhos.

Tudo o que eu fiz foi em vão, pensava Dean enquanto se rendia em parar o irmão, e apenas admirava aquele imenso garoto se afastar aos poucos, ainda com certo receio.

Mas Dean ainda não podia deixar seu irmão ir. Não sem ao menos dizer o que pelo menos achava sentir por ele. O quanto amava aquele garoto que tanto protegeu, de tudo e todos, durante todos esses anos. Doentio? Não se importava, na verdade. Apenas sentia, e escondia até de si mesmo.

– Sam, eu... – Dean estava prestes a dizer, mas foi interrompido por um carro desconhecido que parou em frente a sua casa, buzinado com intensidade.

Sam virou-se para o irmão, esperando com ansiedade pelo que o loiro lhe diria. Dean pareceu desconfortável e então repuxou seus lábios em um sorriso um tanto sem graça.

– Só porque não temos o mesmo sangue não quer dizer que não sejamos família.

Mais uma vez, o motorista do carro buzinou. O barulho fez Sam acordar do transe e, consequentemente, esfregar os nós dos dedos contra seus olhos. O caçula então pegou suas malas do chão e retribuiu o sorriso. Um sorriso que não transmitiu nada mais que a tristeza que sentia.

– Prometa que vai manter contato. – Disse sério.

– Eu vou. – Respondeu Sam, olhando pela última vez para aqueles olhos verdes e cintilantes. Nunca se esqueceria daquele brilho acolhedor que o reconfortava nas horas em que queria desistir de tudo.

Então, sentindo que um pedaço de si ficava para trás em cada passo que dava, seguiu rumo àquela conhecida Volkswagen. Abriu a porta traseira e, enquanto jogava suas malas no espaço vazio, ainda sentia o olhar do irmão sobre si. Depois de dar a volta no carro e abrir a porta do carona, entrou em seguida. E, sem olhar para aquela casa que lhe trouxe tanto sofrimento, fechou a porta e suspirou.

– Você tem certeza de que quer fazer isso, Sam? – A jovem loura sentada no banco do motorista perguntou ao mais novo. – Ainda dá tempo pra desistir. – Continuou. Precisava ter certeza de que Sam estava certo do que estava prestes a fazer.

O mais novo ficou pensativo por um tempo, encarando a rua deserta à sua frente pelo vidro transparente do carro. Então, indiscretamente, encarou a loura que esperava uma resposta, as mãos fixas no volante denotavam a ansiedade.

– Sim, eu tenho certeza. – Por fim disse pesadamente. Não importava o que ele realmente queria, mas sim o que precisava.

A garota pisou firme no acelerador, fazendo Sam se remexer um pouco desconfortavelmente no banco.

– Não se preocupe... Tudo vai ficar bem.

Dean estava certo, não importava a semelhança genética. Eles sempre estariam ligados por uma força que ambos não compreenderiam.

– Obrigado, Jess. – Disse baixinho.

Os jovens então se afastavam cada vez mais da vista cansada do Winchester mais velho. Por fim, o veículo sumiu pela longa estrada que seguiria direto para futuro incerto de ambos, o afetando drasticamente.

Continua...