E Se Eu Também Quiser?
3 E Se Eu Estiver Sonhando?
Notas iniciais
Boa Leitura, povão.
Ele estava entorpecido. Não sentia absolutamente nada, e seu cérebro parecia estar totalmente inerte, pois não formulava pensamentos coerentes. A solidão tomou conta de si por completo, esmagando-o de dentro para fora. Sam havia o deixado, e isso se tornava mais real cada minuto, a cada instante em que seus olhos perscrutavam o nada pela rua deserta. Deus, por que me sinto assim, perguntava o rapaz a si mesmo enquanto tentava controlar sua respiração com certa dificuldade.
Depois de um longo tempo, parado e perdido em devaneios, o jovem Winchester decidiu entrar. Sam disse que precisava de um tempo, então daria esse tempo ao irmão. Afinal, a escolha fora dele. Sam cresceu, e muito. Pôde não ter amadurecido o suficiente, mas pelo menos o bastante para decidir o que fazer com sua vida, e isso fazia o loiro se sentir inútil. Dean sentia medo, na verdade. Medo do que Sam enfrentaria sem a sua proteção.
Notando o silêncio quase gritante que o cômodo exalava, concluiu que John não estava mais em casa. Deveria ter saído pela porta dos fundos, rumo ao bar de seu velho amigo Billy, um companheiro de caça. O primogênito nunca entendeu por que motivos eles saíam tanto para caçar, já que nunca vira o pai chegar em casa com algum animal. Apenas uma vez John apareceu com um cervo, mas, segundo relatos de Billy, no dia posterior ao ocorrido, foi um descuido da parte do pai que acabou atropelando o animal acidentalmente. Dean via aquelas "escapadas" do velho, ou como uma maneira de aliviar o estresse, ou como uma tentativa de livrar-se momentaneamente da obrigação de ser pai, porque, às vezes, o rapaz percebia como o homem ficava desgastado com tantas obrigações e responsabilidades sobre seus ombros. Esse trabalho não era fácil sem o auxílio de sua falecida esposa e, mesmo com a grande ajuda que Dean lhe dava segurando as pontas com Sammy, era cansativo, principalmente para alguém que já sofrera tanto.
Trancou a porta e virou-se para a pequena sala vazia e não muito arrumada. Os homens da casa não costumavam pecar na organização, mas aqueles dias estavam sendo difíceis. John parecia procurar encrenca com Sam apenas por diversão e isso deixava Dean fora do sério. Por que motivos um pai se empenharia tanto em plantar a discórdia entre a família? Sim, isso era esquisito demais. O tratamento que Dean recebia parecia vir de outro homem, como se o loiro fosse o preferido do velho. O caçula apenas olhava com certo ressentimento para o loiro quando este era elogiado por algo fútil que Dean fazia; seja arrumar o motor do carro, até a escolha certeira do filme que costumavam assistir aos sábados.
Para que isso tudo, pai? Se Sam não é de fato o seu filho de sangue, por que torturá-lo por algo que ele não pôde escolher? Por que destruir o pouco que tínhamos, colocando o seu precioso orgulho sempre à frente, perguntava retoricamente, pois sabia que o pai não as responderia, caso fosse indagado.
Com as mãos trêmulas, Dean segurava o copo e tomava o líquido em goles alternados, antes que tivesse um colapso nervoso. E isso não era exagero. Por todos esses anos, nunca questionou o porquê de seu pai ser uma espécie de sargento. Nunca se importou tanto, na verdade. Acreditava que isso era consequência da perda de sua mulher – fato aceitável já que era "feliz à sua maneira" ao lado de Mary –, e que, depois da tragédia, transformou-se naquele ser amargo, sempre se acabando em bares até altas horas da noite.
Mesmo sabendo da situação que o pai se encontrava, não pôde deixar de sentir raiva do mais velho. Ódio talvez fosse a palavra certa. Naquela noite, quando John voltasse de onde quer que tenha ido, ele ouviria umas boas verdades do filho. Dean não tinha muito a perder. Desde sempre o obedeceu calado, foi um bom filho. Mas por que tinha mais direitos que o irmão? O que o tornava tão especial? Seu sangue?
Jogou o copo na pia com violência e correu para a escada, subindo os degraus em passos largos e adentrando a primeira porta à direita, seu quarto que desde sempre dividira com Sam. Embora o lugar estivesse uma bagunça, com várias roupas do irmão e pertences do mesmo jogados pelo chão, o cômodo parecia mais espaçoso que antes. Principalmente ao deparar-se com a cama vazia em que Sam passava tanto tempo estudando. Sentou-se na mesma e esperou. Aguardou pelo momento em que deixaria a realidade fixar em sua mente e fazê-lo acreditar que aquilo não era um sonho ruim.
Então, virou-se lentamente para o lado, onde pôde ver sobre o criado-mudo aquela fotografia que tanto gostava. Aquela simples imagem que lhe trazia ótimas lembranças, era a única que podia o reconfortar naquele momento de angústia e melancolia.
Flash On
Era uma noite muito fria, um pouco atípica para a estação em que estavam. Não se lembrava de quando foi a última vez em que sentiu seu corpo tremer quase convulsivamente, na vã tentativa de se aquecer. O sono ainda não havia chegado, mas podia ouvir o leve ressonar que o irmão fazia enquanto dormia. Por que não? Eu Já fiz isso uma dúzia de vezes quando éramos crianças, pensou o loiro enquanto caminhava tropeçando em seus próprios pés, até ficar de frente ao rapaz moreno que dormia embrulhado até o pescoço por um grosso cobertor. Tão adorável.
Sem pensar muito, deitou-se ao lado do irmão que acordou no momento em que sentiu o colchão movimentar-se, ouvindo o irritante ranger da cama. O loiro perguntou se tinha espaço para si, recebendo o silêncio como resposta. Sam gostava da companhia do irmão, mesmo quando não diziam nada. E ali estavam, abraçados, em uma conversa muda entre os corpos que se encontravam em perfeita sincronia. Ambos aproveitando a temperatura um do outro.
O mais velho se perguntava o que Sam estava achando daquilo. Não era como se os dois nunca tivessem feito esse tipo de "companhia". Na verdade era algo até comum. Somente a excitação que Dean sentira foi o que deixou as coisas um pouco mais embaraçosas.
Continuou acariciando o peitoral do irmão, sentindo o calor extremamente agradável que o outro exalava o descongelar aos poucos. Logo, sentindo-se confortavelmente seguro e confortável, adormeceu sentindo o coração de Sam bater acelerado no peito.
xXx
O Sol já estava alto àquela hora da manhã, lançando seu majestoso brilho e calor contra o vidro fino da janela do quarto. O frio da noite anterior havia desaparecido quase por completo, deixando apenas como rastro de sua existência o dia parcialmente nublado, porém, abafado e quente.
Sam foi o primeiro a acordar. Não se lembrava com clareza do que acontecera no meio da noite passada, mas sabia que acordara por algum motivo. Porém, ao recuperar todos os sentidos e perceber o braço forte que o enlaçava pela cintura, encaixou os fatos e deixou que um breve sorriso bobo percorresse os seus lábios.
O caçula tentou se livrar gentilmente do abraço firme de Dean, antes que loiro acordasse. Ficaria um clima estranho entre eles, e Sam sabia disso. Porém, percebendo que sua companhia estava tentando escapar, Dean apertou se apertou ainda mais contra o outro.
– Dean! Você ta... Me deixando... Sem ar! – o moreno sussurrou com a voz rouca. Mas o mais velho pareceu não entender o que o outro disse, então continuou o apertando enquanto o acariciava por trás com sua ereção matinal.
– Não, Sam! Você não vai me deixar... – o loiro disse por fim, grogue, encostando seus lábios rosados e carnudos no pescoço do caçula que se arrepiou no mesmo segundo em que sentiu aquele toque repentino e ousado naquela parte sensível do corpo.
Estar ali, com Dean tão próximo, era tudo o que precisava para se sentir amado e protegido. Mas aquilo era errado, era insano. Dean então, ao acordar, se deixaria levar pela razão e se afastaria de Sam no instante em que percebesse a sua visível situação.
Com dificuldade, o mais alto conseguiu desbloquear seu braço esquerdo que estava por baixo de seu corpo. Não muito suavemente, deu uma cotovelada no peito de Dean, que se sobressaltou e retirou o braço de cima do caçula no mesmo instante, devido ao susto.
Apertou os olhos com força, procurando se adaptar à claridade. Então, de uma maneira um tanto atrevida, inclinou-se para o irmão, sussurrando baixinho em sua orelha:
– Eu estava te machucando, Sam? – mais rouca que o habitual, ainda assim sua voz soava a mais sensual possível. Sam deu graças a Deus por seu irmão não ter visto seus olhos arregalarem, e torcia para que não percebesse o tom de vermelho intenso que suas bochechas adotaram.
– O-o quê? – gaguejou pelo nervosismo. Um silêncio tomou conta do quarto e Sam teve vontade de virar para trás para ver o que o mais velho estava fazendo.
– Ah, deixa pra lá... – O moreno suspirou de alívio por Dean ter dito algo. Sam não viu, mas o loiro esperava paciente até que seu "volume" diminuísse para tamanho natural, então, em ímpeto, o rapaz levantou-se da pequena, mas confortável cama. – E então, Sammy? O que vai ter pro café da manhã?
– Você não existe, Dean! – Sorridente, Sam também se levantou e andou até Dean, derrubando-o na sua cama e fazendo-lhe cócegas em seguida.
Seria tão mais fácil se você soubesse, pensou o loiro, retribuindo-lhe o gesto.
Flash Off
Dean deixou porta-retrato cair no chão e depois jogou-se sobre a cama de seu irmão, sentindo o suave cheiro conhecido impregnado nos lençóis e travesseiro.
Nobody said it was easy
Ninguém disse que seria fácil,
It’s such a shame for us to part
É uma pena nós nos separarmos
Nobody said it was easy
Ninguém disse que seria fácil,
No one ever said it would be this hard
Ninguém jamais disse que seria tão difícil assim
Oh take me back to the start
Oh, me leve de volta ao começo...
As lágrimas teimosas começaram a descer por sua face, frias e convictas de aquele ser o momento oportuno para transparecerem a fraqueza do mais velho. Não fazia mal. Estava pondo para fora grande parte do que repreendeu por todos esses anos.
Sentindo um grande alívio quando finalmente cessaram, Dean Winchester, esgotado, acabou adormecendo.
~*~
A estrada era desconhecida, coberta por incontáveis poças de lama que se uniam vagamente à vegetação rasteira em suas extremidades. Uma sensação estranha tomava conta de seu âmago.
“Não me deixe, Dean...”, a voz de Sam era clara, porém distante. “Você prometeu que nunca me deixaria Dean. Por que você me deixou? Por que não me impediu?” Então, gradativamente, a voz começou a se transformar em outra, mais grossa e mais firme que a de seu irmão caçula.
“Porque você não pode me impedir, Dean. Você é fraco, e nunca vai conseguir me encontrar.” Agora era seu pai que falava, sua voz transbordando deboche.
O loiro olhava para todo lado, procurando. Mas, procurando quem? Sammy ou o seu pai? Quais eram as suas prioridades, naquele momento?
“Eu vou te encontrar, Sammy! Nem que essa seja a última coisa que eu faça nesta vida!” O jovem gritava aos ventos, sem ter a quem se dirigir. Estava enganado. No fim da longa estrada na qual se encontrava, uma silhueta se formava em meio a escuridão. Não podia dizer se era um homem, ou se era mulher, mas seus olhos brilhavam como nunca visto antes. Era sombrio; sinistro, para não dizer apavorante. A pessoa ousou dar apenas um passo em direção ao rapaz.
"Acorde!"
~*~
Assustado e ofegante, ouvindo vozes exaltadas vindas do quarto de seu pai, Dean acordou lembrando claramente de seu sonho. Algo que logo optou por deixar de lado, sabendo que seu John já se encontrava em casa naquele instante. Não podia perder essa oportunidade. Levantou-se da cama e então, sentindo uma leve tontura, o jovem rapaz seguiu pelo corredor, parando somente quando estava à frente da porta fechada do quarto do mais velho.
As vozes saíam abafadas, porém distinguíveis. John e uma segunda pessoa se encontravam presentes no cômodo. Winchester inclinou-se com o objetivo de escutar melhor o que se passava dentro do aposento.
– Parabéns, John! Você conseguiu cumprir a sua parte do plano. – A voz melodiosa fez o rapaz se roer de curiosidade. Uma mulher. Mas quem poderia ser? Não tinha a mínima ideia, afinal, John nunca ousara levar mulher alguma em seu quarto, depois que sua esposa falecera.
– Mas e quanto a Sam? Ele vai ficar bem? – ouviu o pai perguntar curioso, talvez preocupado.
– Não se preocupe, querido, ele está em boas mãos. Só certifique-se de que Dean não o encontre. Ainda não estamos cientes do que pode acontecer, caso eles se reencontrem antes do momento certo. – A pessoa continuava se pronunciando com uma tranquilidade impressionante.
– Tudo bem, Dean não vai encontrar o irmão. Você tem a minha palavra. Eu irei impedi-lo. – Falou firmemente e foi imprescindível Dean não se lembrar de seu sonho, com seu pai o desafiando. Aquela foi definitivamente a gota d'água.
Girou a maçaneta e empurrou a porta com pouca delicadeza, tendo ampla visão de todo o cômodo. Seu pai se encontrava sentado na cama, tendo ao seu lado uma presença feminina um tanto familiar. Seus olhos quase saltaram das órbitas ao reconhecer aqueles cabelos dourados que tanto recordava. Não era possível, era?
– Mãe?! – Perguntou assustado até os ossos.
Continua...
Notas finais
Música do capítulo: Stand, da banda Rascall Flatts
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