E Se Eu Também Quiser?
4 E Se Eu Manter Segredos?
Notas iniciais
Boa leitura.
– Você sabe que eu estou me arriscando muito ao vir aqui, John. – disse repreensiva. – Pensei que tínhamos esclarecido tudo da última vez. – enquanto andava pelo quarto do caçador, Mary falava com cautela, utilizando o seu calmo e melodioso tom de voz. John, sentado à beirada da cama e com os dedos das mãos entrelaçados no lençol fino, fitava a mulher com uma expressão abobalhada.
Já se fazia muito tempo. Treze anos, exatamente. John estava longe de esquecer os suaves traços daquele rosto fino, o cabelo louro e reluzente que se movia livremente conforme a mulher caminhava pelo cômodo.
– Eu sei, eu sei... É que... Eu precisava conversar. – suspirou, relaxando os ombros. Mary nada disse, apenas o olhou pacientemente enquanto esperava o homem dizer algo.
– Você não deveria ter feito aquele feitiço de invocação, John. – dessa vez, Mary falou com um pouco mais de rapidez. – Você deveria segurar as pontas sem mim, como sempre fez.
– Eu só... Só preciso ter certeza. Não quero... Não posso deixá-lo sozinho nisso, ele é o meu filho! E... E eu o amo. – John disse abaixando a cabeça. – Assim como o Dean é.
– Eu sei, amor. – sentou-se ao seu lado e esticou a mão para acariciar-lhe o rosto, lembrando o caçador de todo o amor que exalava quando viva.
Era apenas muito irônico da parte dele. Winchester sempre fora o caçador impecável, matando e destruindo tudo o que fosse sobrenatural. E agora estava ali, sentado ao lado de um espírito, tendo uma conversa ao todo agradável. Ainda restava um pouco de dúvidas sobre as verdadeiras intenções de Mary. Pedir para um caçador acreditar era muito. Em toda a sua experiência que teve com espíritos, sempre acabava reforçando o conceito de que nada mais eram do que algo que não deveria estar entre nós; independente do que quisesse, isso era irrelevante. John poderia despachar Mary para o seu devido lugar a qualquer momento, sabia disso. Mas ela apenas o alertara, apenas sussurrara em seu ouvido, e isso foi o suficiente para John abrir os olhos e tomar uma providência.
"Nossos filhos se aproximarão por uma conexão diferente; mais forte. Eles se sentirão atraídos por... Um sentimento mais intenso. Você não pode deixar que isso aconteça. Eles não podem ficar juntos, John. Pelo menos não agora."
Automaticamente, o caçador lembrou-se do dia em que chegou de sua caçada com Bobby, há um ano. Acabara passando a noite exorcizando demônios do corpo de algumas crianças, e só conseguiu retornar à sua casa no dia seguinte, pela manhã. Como de costume, após chegar de uma viagem longa, verificava seus filhos antes mesmo de recolher-se em seu aposento.
Então vira os dois juntos; abraçados, confortáveis, próximos demais. Sam encontrava-se esparramado pela minúscula cama, enquanto Dean tinha o braço firme e protetor sobre sua cintura. Foi imprescindível John não abrir um sorriso fraco ao ver a cena. E assim foi; Winchester não ousou sequer comentar a respeito porque não havia o que ser comentado. Eram apenas irmãos dormindo juntos, sem nenhuma malícia. Era nisso que o mais velho acreditava até Mary aparecer e bagunçar a cabeça do homem.
– Sim, vai acontecer. – indiferente, disse após um rápido suspiro. – Eu sei que pode ser difícil para você confiar em mim, John, mas é verdade. Eu não estou mentindo. – O homem segurou uma das mãos frias que o acariciavam levemente e a entrelaçou entre os seus dedos cálidos.
– Quando eu estava lá em cima, eu... Eu descobri algumas coisas.
– Que coisas? – Perguntou após o silêncio se tornar incômodo.
– Acredite, querido, se eu não soubesse do que sei, talvez pudesse ser diferente para os dois... Mas é perigoso. Ambos podem se machucar, caso estejam juntos. Por ora, nós precisamos afastá-los.
– Por quê?
– John, eu já disse... Não é seguro para eles. Não é seguro para você.
– O que você tanto esconde? – perguntou resignado, soando como um pedido. A mulher nada disse, apenas olhou fixamente para os olhos do ex-companheiro, deixando a tensão se intensificar entre eles. O que ela poderia dizer, afinal? O Winchester não poderia saber da verdade. Não fazia parte das regras.
– O Sam... Ele... – como poderia dizer que praticamente expulsou o filho de casa? Não queria nem mesmo aceitar isso. Arrependido? Não. Aquela sensação de mal estar desapareceria em dois, três dias no máximo. Então, poderia dizer que ele saiu por vontade própria, não poderia? Mas, no fundo, sabia que foi sua culpa. Sabia que foi ele, John, quem provocou aquilo tudo. Foi o velho quem lançou o peso sobre os ombros de Sam e deixou o filho à deriva. – Eu consegui.
– O quê? – sobressaltou-se. A verdade era que já sabia disso. Estava acompanhando os passos dos garotos há algum tempo, no escuro. John não fazia idéia... Mas isso não tinha mais importância. Só precisava executar o seu papel perfeitamente, mesmo que soasse falso e entediante. – Parabéns, John! Você conseguiu cumprir a sua parte do plano. – Mary disse, controlando sua falsa excitação para que sua atitude não aparentasse muito duvidosa.
– Mas e quanto a Sam? Ele vai ficar bem? – ousou perguntar receoso, aparentemente preocupado. Por debaixo daquela máscara orgulhosa e fria, existia um homem com sentimentos, com preocupações e receios. Sempre se importara, só nunca deixou ninguém se aproximar o bastante para notar isso.
Você não me impressiona, John. Um patético sentimentalista que usa uma capa para encobrir as suas fraquezas. Isso não me impressiona, apenas me deixa com náuseas.
– Não se preocupe, querido, ele está em boas mãos. – agora sorria aberto, sentindo-se incrivelmente mais leve, como se tivesse executado uma missão impecavelmente, o que não deixava de ser verdade – Só certifique-se de que Dean não o encontre. Ainda não estamos cientes do que pode acontecer, caso eles se reencontrem antes do momento certo.
Não sorria. Você vai colocar tudo em risco. Controle-se, ou ele irá perceber!
John não podia avaliar a feição indecifrável e um tanto pensativa de sua falecida esposa. Estava cabisbaixo, assimilando o que havia feito. Não pensara em dizer a verdade a Sam, sobre não ser seu filho de sangue, mas, naquele momento, aquela foi a única coisa que veio a sua mente. Como que, de alguma maneira improvável, alguém houvesse o influenciado a falar o que falou; o manipulado. Era uma teoria ridícula, absurda, talvez incompreensível, não era? Sua mente ferrada estava o enganando outra vez.
– Tudo bem... Dean não vai encontrar o irmão. Você tem a minha palavra. Eu irei impedi-lo – Mary relaxou ao ouvir a confirmação que precisava. Depositou um suave e rápido beijo sobre a testa pouco enrugada do companheiro, fazendo o mesmo fechar os olhos rendendo-se aos desejos que há tanto não colocava em prática. Fechou os olhos enquanto aproveitava o momento.
Quando os lábios do caçador, moldados em uma forma convidada, estavam próximos o suficiente dos da loura, o susto que John levou ao constatar que a porta havia sido aberta com violência quebrou aquele clima entre os dois, fazendo ambos se afastarem.
Graças a Deus!
– M-Mãe? – O rapaz disse em uma mistura de medo, incredulidade e uma sensação esquisita em seu âmago. Esperança, talvez?
Isso não era possível, era? Sua mãe estava morta e muito bem enterrada. Tinha certeza disso porque fora o primeiro a jogar um punhado de terra sobre o caixão. Lembrava-se com clareza dos momentos amargos que passou durante o funeral, com seu pai. Lembrava-se do velho o arrastando para os fundos da casa, tentando controlar os espasmos agonizantes do filho. As marcas ainda eram visíveis no corpo do rapaz...
Espera... Ele... Ele consegue me ver?! Mas o que diabos... Mary então desapareceu no ar, involuntariamente. Transformou-se em uma densa fumaça negra, ausentando-se por completo do campo de visão do Winchester mais novo.
– Dean, você não devia... – O velho então percebeu que estavam apenas ele e o filho presentes no quarto. – Não! Não, não, não... – Lamentava-se, a mão perscrutando freneticamente o lençol frio e engomado sobre a cama.
– O que raios está acontecendo aqui? – Dean, após lutar contra o torpor momentâneo e unindo as sobrancelhas em visível confusão, bradou perdido em seus próprios pensamentos. Não conseguia, muito menos poderia encontrar alguma explicação plausível para o que acabara de ver. O que aquilo... O que era aquilo que acabara de ver?!
– Ah, Droga... – gemeu baixo, massageando as têmporas com convicção enquanto tentava conter as fortes pontadas que recebia no lugar. Algo estava errado, porem não sabia o quê. Apenas sentia que sua cabeça explodiria a qualquer momento. A dor agonizante, agora acompanhada por uma tontura nada agradável, fez o jovem louro recuar cambaleante até escorar-se na parede, ao lado da porta.
– Você não está em condições para conversar agora, Dean. Vá para o seu quarto. É uma ordem. – disse ríspido, após encher os pulmões de ar. O rapaz, então, sentiu uma sensação reconfortante, capaz de encobrir todos os seus sentidos. Parecia que estava sendo envolto por um manto invisível, podendo assim se sentir seguro, agradavelmente tranquilizado. Livre.
– Conversar? E quem disse que eu quero conversar? Tudo o que você sabe fazer é mentir! – não entendia de onde as palavras eram formadas, apenas as dizia sem nem mesmo pensar nelas, algo automático. – Por que você afastou o Sam da gente? – perguntou raivoso.
– Por que você não para de bancar o sensível e aceita o fato de que ele foi embora porque quis? Eu o testei e ele falhou. Não conseguiu aceitar a verdade e desistiu de nós dois!
O jovem Winchester então atravessou o espaço vazio que os separava e ficou frente a frente com o pai sentado, receoso na beirada da cama. Agarrou-o brutamente pela camisa, inclinando o suficiente para sentir o cheiro de álcool impregnado em seu hálito enquanto falava:
– O que você acha que está fazendo, seu moleque? – Disse tentando desvencilhar-se das mãos firmes do mais novo contra seu peito.
– Eu poderia te dar uma lição, sabia? Você iria aprender como é ser humilhado, não ter importância. Sabe como é, John? Você sabe? – falou com os dentes trincados.
Dean não era daquele jeito. O caçador poderia contar quantas vezes o loiro se impôs às suas palavras, às suas ordens. Sempre fora obediente e submisso, um filho exemplo. Mas agora o rapaz surpreendia o pai com palavras afiadas, talvez até piores do que as que Sam comumente lhe dirigia.
John se livrou habilmente dos braços fortes do filho e levantou-se, encarando Dean com indignação no olhar.
– O que você queria que eu fizesse? Queria que eu deixasse vocês dois seguirem em frente com essa maluquice de maricas? – perguntou agressivo – Você deveria é me agradecer!
– Te agradecer?! – Indignado, Dean franziu o cenho e bufou. – Claro. Com certeza você vai concorrer ao titulo de pai do ano, não vai? – falou, parecendo não ter escutado a última frase que John dissera.
– Tudo o que eu fiz foi pra proteger vocês dois.
– Ah, cale essa boca, seu verme desprezível! – virou as costas para o pai, e John, por sua vez, segurou o ombro do filho com a mão esquerda, obrigando-o a parar e observá-lo contra sua vontade.
– O que aconteceu com você? Acha que sua mãe gostaria de vê-lo agir dessa maneira?
– Não sei, pai... Por que você não pergunta a ela? Já que ficam de bate-papo até altas horas da noite, que tal conversarem sobre isso também? – Agora se sentia como Sam. Pensava como Sam.
Tinha a sensação de que algo o impulsionava a fazer as escolhas difíceis; algo conseguia torná-las extremamente fáceis, aos seus olhos. O frenesi tornava-se intenso, talvez instigante. Mas... Seria capaz de deixar o altruísmo de lado e agir igual ao irmão? Seria capaz de imitá-lo minuciosamente? O que restava da família que tanto lutara para manter unida, afinal de contas?
– Quer saber? – puxou seu ombro bruscamente, retirando a mão firme que o segurava. – Eu não preciso ficar mais aqui. – Sorriu. – Eu não quero ficar mais aqui.
– O quê? – bufou incrédulo com o que o filho dizia. – E o que tem em mente, espertalhão? Quer seguir o seu irmão como um cachorrinho? Amadureça um pouco, Dean! Ele foi embora porque não te quer por perto! Não quer nenhum de nós para atrapalhar aquela fantasia ridícula de uma vida estranha e impossível que tanto tem sonhado. Não somos nada além de barreiras; um grande empecilho, sempre o atrasando.
– Não! – Sorriu sarcástico, sua boca carnuda e rosada contrastando os dentes claros – É aí que se engana. Você é a única barreira. Você é quem nos atrapalha, e não adianta desmentir porque, bem lá no fundo, você sabe a verdade. – Aproximou-se impulsivo. – Não foi a mim que ele deixou, foi apenas a você. Então agora, papai, que tal se conformar com a perda de outro filho?
John continuou imóvel, ainda surpreso com a ousadia do filho. Enquanto ouvia o rapaz descer os degraus com pressa, continuava pensando no que pôde acarretar essa mudança no jovem. Seus devaneios foram interrompidos ao ouvir o barulho estridente do Impala, e logo se viu parado, em frente à janela, observando seu antigo veículo percorrer em disparada pela rua silenciosa.
xxx
Ainda não acreditava no que havia feito. Não se lembrava do dia em que teve a audácia de responder ao pai, muito menos enfrentá-lo em uma briga. Na verdade, nunca brigara com John. Houve poucos desentendimentos entre os dois, mas nada que pudesse ser considerado demasiadamente grave.
Isso só pode ser coisa do Sam, pensava enquanto conduzia seu carro impecavelmente pelas ruas conhecidas de seu bairro. Sabia que ele me influenciaria a seguir o perfil de filho rebelde...
Repuxou os lábios em um sorriso involuntário.
Sammy... Onde é que você está? Teimava em recordar os lugares possíveis que o moreno escolheria, mesmo sabendo que o outro era esperto o suficiente para não escolher nenhum deles. Quando deu por si, já estava com o celular em mãos, passeando com os dedos pelos contatos de sua lista telefônica.
Droga. Eu não quero ligar. Eu não posso. Ele fez sua escolha, decidiu tirar uma folga. E quanto a mim? O que devo fazer? Os pensamentos atordoados chocavam-se uns aos outros em uma batalha invisível e silenciosa. Qual decisão tomaria, afinal? Qual seria a mais sensata?
Dean jogou seu celular no banco do motorista e, pisando fundo no acelerador, passara a ansiar pelo momento em que a bebida amenizaria suas dores e o sexo afastaria os seus problemas. Pelo momento em que não precisaria sentir e, consequentemente, não precisaria se preocupar. Era algo momentâneo, sabia disso. Mas, por ora, era o suficiente.
Continua...
Notas finais
Música do capítulo: "Breaking The Habit", da banda "Linkin Park". =)
Beijão, galera!
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