E O Resto Rio Afora
6 Capítulo 6
Notas iniciais

Billy a levou para um bairro próximo, pouco movimentado e de casas afastadas umas das outras. Adelia não era acostumada a visitar os vizinhos, mas ficou imensamente feliz por estar ali sem nenhum arranhão. O amigo cuidara para que não fossem vistos, esgueirando-se com ela com cautela e escondendo-se sempre que sentia alguém por perto. O que acontecera a Jeff ainda lhe deixava triste e atordoada, mas sobre isso sabia que nada poderia fazer.
Adentraram uma casa com jardim de grama alta, que roçava em seus joelhos, a pintura descascada e as janelas de madeira pobre. Havia poeira nos poucos móveis e estava escura, as lâmpadas quebradas. Embora estivesse à noite, ela conseguiu ler na parede da sala algo parecido com “Fume no talento” e ela entendeu que alguns garotos usavam a residência para ficarem altos. Mesmo assim, ela seguiu Billy pelas escadas e habitaram um dos quartos. A cama rangeu quando Billy se sentou, levantando uma camada de poeira.
— Conseguimos. — Ele respirou aliviado, sorrindo para Adelia e convidando-a a sentar. — Você está bem?
— Estou, obrigada. — Ela aceitou, resguardando a preocupação em relação à Hannibal. Não deveria tê-lo deixado lá, contudo, não iria irritar Billy logo agora. Acabou por sentar-se ao lado do amigo, olhado o cômodo. Há muito tempo aquela casa fora abandonada à própria sorte. — Pelo visto até imóveis são testados. Como ficou sabendo desse lugar? Quando estávamos vindo, você parecia saber exatamente para onde ir.
— Eu... Eu estive trabalhando em algumas coisas. — Billy confessou pouco à vontade, havia coisas que ele preferia não entrar em detalhes. Seu orgulho o calava.
— Por isso sumiu por alguns dias? — Adelia ajeitou-se, sentando-se de frente para ele. — Me conte o que andou fazendo, quero ouvir.
— Lembra da conversa que tivemos sobre vivermos em outro lugar, apenas você e eu? — Apesar da fraca luz provinda do posto, Adelia decifrou um leve tom rosado no rosto de Billy. — Então, pensei também sobre o que você disse sobre a gente começar algo sem estrutura. Nunca fui à escola, por isso usava o meu tempo livre para aprender a ler e escrever com um moleque de quinze anos, não ria de mim!
— Por que eu riria, Billy? — Os lábios de Adelia sorriram para o amigo, orgulhosos. Ele fazia em segredo o mesmo que ela. — Isso é muito legal da sua parte, mostra que você se importa com o seu futuro.
— Não só com o meu.
Adelia guardou silêncio, sentindo o peso das palavras de Billy. Apesar de saber o que ele nutria por ela, desta vez o sentimento foi muito mais forte do que antes. Não eram somente palavras, o jeito como ele as pronunciara também demonstravam o quanto era especial para ele. Sentiu-se grata por tê-lo ali consigo, por tê-la guiado para um local seguro e zelado para que tivessem uma qualidade de vida melhor.
Sem muito medir suas atitudes, Adelia aproximou-se de Billy e o beijou no rosto timidamente. Talvez ele interpretasse mal, porém, ela o fazia de todo o coração. Gostava do amigo, tinha apenas ele no mundo e sequer se imaginava vivendo cada dia sem ele. Notou-o tenso com seu gesto e se afastou, não querendo deixá-lo desconfortável.
— O que foi isso? — Billy perguntou, lembrando-a de que usara as mesmas palavras para interrogar Hannibal.
— Eu não sei, só... Achei que deveria fazer isso. — Ela honestamente respondeu, o coração um pouco descompassado. Apenas não sabia dizer se era pela presença do amigo e o que havia feito, ou a adrenalina que passaram antes de estarem ali. — Bom, eu vou arrumar alguma coisa para a gente comer. Obrigada por estar se esforçando por nós dois.
— Adelia...?— Ele a chamou, mas a moça o deixou no quarto antes que ouvisse.
Havia um misto de sentimentos dentro dela que Adelia não conseguia entender ou decidir. De um lado existia o carinho, admiração e respeito que cultivava por Billy, alguém que desde criança estivera ao seu lado e que gostava dela, embora tivesse um jeito peculiar de mostrar isso e que de dez palavras que saíam de sua boca, nove eram xingamentos; e do outro Hannibal: Um homem culto, inteligente e misterioso, que mal conhecia e que despertava nela o desejo do saber. Era nítido o vencedor daquela batalha, todavia, mesmo assim, ainda restava dúvida. Aquele sentimento estranho de que não deveria ter abandonado Hannibal sem saber como ele estava, persistia.
Enquanto remexia nas mochilas, pensava se ele voltara para casa ou se continuava lá no alto do morro, olhando pela janela e imaginando o que faria, porém, algo dentro dela alertava que Hannibal não precisava de cuidados e zelo, que ele era capaz de se virar sozinho. Em sua conversa com ele, Adelia percebeu que Hannibal não estava sendo totalmente honesto, o que era uma opção e ela não o cobrava verdades, mas que esperava mais, se tratando do tempo em que conviveram. O brilho nos olhos dele indicava que enxergava bem mais do que uma pessoa comum. Talvez ela não precisasse mais se incomodar com aquele fato.
Voltou para o quarto com biscoitos e garrafas de água e encontrou Billy do mesmo jeito que o deixara, entretanto, ele não segurava um jornal quando ela saíra por breves instantes. Viu as sobrancelhas escuras e grossas se unirem na tentativa de entender o que lia e devagar, Adelia se sentou, logo tendo o olhar dele sobre ela. Acomodou a comida no colchão e o encarou, esperando pela notícia.
Billy apenas estendeu o jornal a ela. A data era do dia anterior e ela conseguiu identificara fotografia de Hannibal Lecter estampada na primeira página, demorando-se um pouco mais para compreender a mensagem. Seus lábios se moviam, formando as sílabas e as juntando... Assim que conseguiu entender a história, Adelia sentiu as mãos tremerem e sua respiração falhar.
— Isso... Isso é verdade? — Adelia olhou o amigo em busca de consolo, recusando-se a acreditar que aquele jornal acusava Hannibal Lecter de atos monstruosos.
— Acho que eles não publicariam se não tivesse alguma coisa a ver. Pense, Adelia... As coisas em Chesapeake só começaram a dar errado depois que ele chegou, Jeff sumiu e Keith nem sequer fala mais comigo. Tem que ter um motivo.
— Mas esse?! — A moça se colocou de pé, o jornal preso na mão. Olhou novamente para a foto de Hannibal e mesmo que sua mente quisesse fazê-la se convencer de que não era ele, no fundo, ela sabia o que significava. — Pode alguém cometer todos esses atos e ser gentil ao mesmo tempo?
— Claro que é possível, cacete! Pare de tentar achar algum erro! Esse é Hannibal Lecter, o cara que você salvou! — Billy se descontrolou em seu nervosismo, Adelia tinha que encarar a realidade. — Foi sorte a gente não ter morrido, sabia?
Adelia não soube o que falar. Sentou-se na cama novamente, deixando o jornal escorregar de seus dedos. Então, todo o mistério e cavalheirismo vinha de um homem com uma mente insana e coração de pedra, no entanto, a imagem que ela tinha de Hannibal contradizia a verdade. Ao longe, sons de biscoitos sendo quebrados a trouxeram de volta e ela invejou o apetite de Billy diante do que descobriram, pois seu estômago não seria capaz de segurar alimento nenhum.
Quando se deitaram aquela noite, Adelia não conseguiu dormir. Sua mente estava perturbada demais e não havia forma de acalmá-la. Saiu da cama sem fazer barulho e desceu as escadas, seus olhos acostumando-se com a escuridão. Apenas uma pessoa poderia confirmar tudo aquilo e lhe dar paz.
(...)
Adelia percorreu todo o caminho até seu antigo lar, o estado em que o bairro fora abandonado feriu seu coração. Vivera em Chesapeake durante anos e agora se viu obrigada a deixá-la devido às intempéries. Às vezes era necessário que alguma parte da vida fosse guardada no passado para que uma nova fase fosse escrita. Ela acreditava que o que ocorrera teria efeitos significativos no futuro que ela ainda não conhecia. Porém, uma prova era certa: Billy estaria ao seu lado.
No entanto, ela não estava ali para pensar nisso e sim, cuidar de sua curiosidade sobre Hannibal, embora não soubesse se ele permanecia ali. Talvez já tivesse voltado para casa, ou habitando um novo bairro de pessoas que sequer o conheciam. Adelia não gostava de pensar que fora usada, isso a magoava profundamente. Seus pés a levaram rápidos para a entrada da casa e, apesar de um dia fora, já não a reconhecia como sua. A casa tinha uma aura diferente e expulsiva, nunca havia notado como ela poderia ser de madrugada.
Empurrou a porta, encontrando-se na sala. Distinguiu a forma do sofá e logo seus olhos acostumaram-se, possibilitando-a andar pela casa. Chamou baixo algumas vezes por Hannibal, convencendo-se de que ele fora embora. Fora tolice voltar acreditando que o veria, que teria respostas. Mesmo assim subiu as escadas para o quarto, deparando-se solitária. A casa estava vazia e ela se decepcionou.
— Eu estava certo. Fico feliz por ter esperado. — A voz de Hannibal a sobressaltou, fazendo-a se virar, espantada. Ela mal o ouvira chegando. —O que faz aqui, Adelia?
— Você sabe o que vim fazer.
— Então você descobriu? — Havia um sorriso escondido nos lábios de Lecter.
— Sim. Li em um jornal. — O rosto dela corou, tanto de orgulho, quanto de vergonha. —É verdade? Fez mesmo todas aquelas coisas horríveis?
Hannibal não respondeu de imediato. Deu um passo e depois outro, até que tivesse levado Adelia para dentro do quarto. Observou com interesse as expressões dela e lhe agradou testemunhar que em nenhum momento ela desviara os olhos dos seus. Adelia era uma mulher de qualidades e que se daria bem em qualquer área que seguisse, mas naquele momento, Hannibal queria testá-la e lhe ensinar uma última coisa.
— Você está com medo de mim?
—Eu deveria estar? —Ela rebateu, notando que a distância entre eles diminuíra e muito. Podia tocá-lo se quisesse. — Tecnicamente, o medo seria algo natural em mim diante de você, mas de algum modo, eu sei que não vai me machucar.
— Por que acha isso? — Hannibal se fez de curioso, apenas para escutá-la. Gostava da forma como Adelia explicava as coisas.
— Eu sinto. É a sua forma de ser gentil comigo.
— Billy sabe que veio até aqui?
— Provavelmente não deve ter notado, ou já teria vindo.
— Você o conhece bem... São namorados?
— Nós... Somos amigos.
— Gosta dele?
— Como amigo, sim. — Embora não devesse dar tantas respostas a Hannibal, Adelia não conseguia refrear a espontaneidade.
— Não o vê como homem? Não pensa nele durante a noite de uma forma diferente?
— Quer saber se ele me atrai? —Adelia sentiu um leve tremor nas mãos. Falar de seus sentimentos sempre era desconfortável.
— Quero saber se já transou com ele. — Hannibal foi direto, vendo os lábios dela se moverem sem pronunciar nenhum som. —Porque ele tem esse desejo: De ter você. Aposto que deve estar pensando em você sobre ele, em seu corpo, em sua voz chamando o nome dele...
— Pare! O que importa a você essa questão? — Adelia se irritou, ele sempre dava um jeito de descobrir seus segredos. Fora até ele buscando as suas respostas, mas as que respondiameram totalmente ao contrário. — Que diferença faz? Eu não entendo você, sabia?
— Adelia... Você me entende, sim. Muito mais do que a maioria. Esses olhos inocentes foram os únicos a olharem para mim de uma forma que eu não me sentisse... Alguém que não sou. — Hannibal se aproximou, segurando o rosto dela entre as mãos. — Você é a minha tela em branco, posso te pintar da maneira que eu quiser.
— Não pode se eu não permitir. — Ela não o afastou, tampouco se mexeu. Todo o seu corpo, uma vozinha em sua cabeça lhe dizia para permanecer onde estava, esperando por ele.— Precisa da minha permissão.
— Permissão? Eu já a tenho. —Adelia não se surpreendeu ao ser beijada, nem quando Hannibal envolveu sua cintura e a puxou para perto.
Seu corpo reclamando e pedindo pelos toques, até que Hannibal atendeu suas necessidades. Querê-lo era errado? Essa foi a primeira pergunta que passou por sua mente no momento em que Hannibal retirou sua blusa, deixando seu sutiã à mostra. A segunda pergunta "Estou louca?" alfinetou quando ele a despiu da calça e se livrou das próprias roupas. Nunca havia ficado tão exposta com alguém, a vergonha e a defesa em se esconder foram automáticas. Seus olhos não conseguiam se manter fixos na imagem de Hannibal, totalmente desperto e chamando por ela.
— Não. — Hannibal rosnou com o ato dela, sentando-se na cama para admirá-la. — Você está linda, Adelia. Não me prive.
Aos poucos, bem lentamente, Adelia permitiu que as últimas peças fossem retiradas. Agora não havia para onde se esconder ou correr, Hannibal deixara bem claro que aquela noite, sua primeira vez, deveria ser com ele. Destituiu a mente de dúvidas e se entregou às carícias e beijos, suas mãos curiosas tocando o corpo masculino acima do seu. Os lábios de Hannibal desciam por seu pescoço, gemeu quando a língua quente contornou seu mamilo direito e arqueou o corpo ao toque dele em seu interior, ultrapassando suas barreiras e negativas. Ela o queria, assim como o desejo dele era nítido.
Hannibal era maior do que ela, entretanto, estranhamente atingia suas proporções. Ele não teve pressa em mostrar a ela como o sexo funcionava; com paciência e um pouco de recusa conseguiu separar-lhe as pernas e se colocar entre elas. Seus dedos exploraram o clitóris e ali ele deixou sua língua brincar, observando o modo como os dedos de Adelia ora apertavam os lençóis, ora seus cabelos. Hannibal continuou, um de seus dedos explorando o interior de Adelia até ouvi-la gemer e estremecer, atingindo o ápice.
Trocaram de posição na cama: Hannibal sentou-se com as costas apoiadas na parede, enquanto Adelia se acomodava em seu colo, colocando sua entrada de encontro ao falo do psiquiatra. A dor inicial veio para acomodá-lo em seu interior, as paredes se contraindo para expulsá-lo. Adelia fechou os olhos, lágrimas mancharam seu rosto, mas mesmo assim, desceu sobre ele devagar, no seu tempo, até senti-lo por completo. Hannibal a auxiliou nos primeiros movimentos, o ar lhe faltava nos pulmões, porque ainda doía.
— Vai passar, eu prometo. — Hannibal a consolou, afastando os cabelos cor de fogo do rosto que ele tanta ansiava ver.
— Eu sei... — Adelia murmurou, as palavras dele tiveram um efeito relaxante sobre ela. Logo o ato se tornou prazeroso para ambos. Adelia movia o corpo para cima e para baixo, sentindo o membro dele dentro de si de uma forma única e diferente. O ato sexual um dia chegaria à sua vida, ela só não esperava que tudo acontecesse de uma forma tão... Respeitosa. Cada toque, cada beijo, cada olhar que Hannibal tinha ou fazia, diziam claramente que a respeitava, que ela poderia parar se quisesse, entretanto, ela continuou até o ritmo se tornar constante.
Hannibal foi o primeiro a alcançar o orgasmo. Porém, senti-lo se despejar dentro dela a fez despertar para um mundo do qual desconhecia, um mundo onde agora ela pertencia.
— Eu espero te encontrar no futuro, Adelia e desejo que seja alguém. — A sinceridade a pegou de surpresa, o prazer dele escorria de dentro dela com suavidade.
— Vou ser. — Ela aceitou, vestindo as roupas. A manhã iniciava e o adeus em breve seria dito. —Billy e eu nos esforçaremos para isso.
— Consigo vê-la se casando com ele.
Adelia sorriu, ela também se imaginava assim, no entanto, não precisava confirmar para Hannibal. Pelo jeito, ele sabia cada traço de sua vida.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por me mostrar como funciona o seu mundo.
—Foi um prazer. — Hannibal sorriu, também devidamente vestido. — Você leu a carta que deixei?
— Está aqui comigo, mas não acho que serei capaz de entender agora. Vou lê-la daqui alguns anos.
— Inteligente de sua parte.— O silêncio os cobriu depois da fala de Hannibal, embora não fosse desconfortável. — Vá, Adelia. Um "adeus" ou "até breve" não será necessário.
— Ainda assim, eu queria dizer. — Adelia sorriu, um brilho marejado nos olhos. Não se tratava de arrependimento ou culpa, tratava-se especificamente de gratidão. — Você foi o primeiro, Hannibal, em tudo. Mas...
— Não o único. — Ele completou convicto, vendo-a concordar. — Gosto disso.
— Adeus, Hannibal.
—Até um dia, Adelia.
Na vida só restava seguir.
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