E O Resto Rio Afora
7 Epílogo
Notas iniciais

Os olhos de Hannibal acompanhavam a peça com exímio interesse. Apesar de alguns anos ter se passado, Adelia Sharpe continuava a mesma menina que ele conheceu, porém, ele testemunhou uma mudança nos olhos castanhos dela. Um amadurecimento que ele tanto se empenhou em entranhar. O vestido vermelho marcava o corpo agora de mulher, a maquiagem a deixava distante enquanto representava uma peça no Teatro Municipal. Bedelia estava ao seu lado, os cabelos loiros moldados e o vestido de festa justo no corpo, mostrando-se desconfortável perto de tal situação, contudo, Hannibal Lecter mantinha a atenção em Adelia, na voz que ecoava e na forma que se movia. Lembrou-se rapidamente de tê-la sobre si e a imagem mudou drasticamente. Ele teria que aprender a enxergá-la no presente e não no passado.
Quando a peça chegou ao fim, a platéia aplaudiu de pé e o sorriso de orgulho de Adelia o atingiu. Ela não sabia que estava ali, vira o anuncio da peça “Estrela da Madrugada” e imediatamente a reconheceu. Ele não poderia seguir adiante sem antes se encontrar com ela, de um modo que ela entendesse as suas intenções. Procurou por Billy O’Brian também e o viu em um canto, de braços cruzados e trajando roupas de bom corte e formais. No dedo anelar esquerdo pendia uma aliança dourada, grossa o suficiente para ditar o status que alcançara.
Ele riu internamente. Adelia Sharpe sempre seria previsível para ele, embora ele esperasse por alguma surpresa. O elenco se retirou e as costas nuas de Adelia se afastaram; a platéia seguiu para o salão onde uma grande festa acontecia, comemorando o aniversario do local, palco de muitos grandes atores e muitos fracassos também. Adelia não era um fracasso, ele havia imaginado outra profissão para ela, mas atuar também se encaixava nela.
Bedelia dispersou seus pensamentos ao entrelaçar o braço com o seu e Hannibal lhe sorriu simples, movendo-se pela multidão, desviando das pessoas e vozes que lhe açoitavam os sentidos. Ele tinha pouco tempo e precisava saber se Adelia havia entendido quem ele era de fato, se aqueles olhos inocentes ainda o fariam se sentir bem. Um homem se aproximou, convidando Bedelia para dançar e ele a liberou, por dentro aliviado. Pegou uma taça de champanhe e caminhou entre as pessoas, procurando pelos cabelos ruivos e cacheados e os encontrou na sacada, soprados ao vento como ele se lembrava. De costas, ela ainda parecia uma menina, mas quando se aproximou, viu traços de mulher. Uma mulher que ele moldou, com uma aliança contornando o mesmo dedo que de Billy.
Ela o reconheceu, ajeitando a postura. O vestido marcava uma cintura fina e se estendia até o chão, viu os sapatos de saltos altos e gostou da visão que estava tendo. Percebeu que os dedos dela tremeram levemente ao segurar a taça, mas havia um reconhecimento nos olhos castanhos, algo que o deixou imensamente satisfeito. Ela havia crescido tanto, comparar as Adelias que conheceu era uma tarefa que ele não se sentia tentado.
Adelia perdeu alguns minutos observando o homem que salvara há anos, um pouco mais velho agora, mas ainda era possível reconhecê-lo por baixo de toda pose e roupas finas que usava. Fora uma surpresa agradável, algo em seu interior sempre soube que um dia se despediriam direito, que o encontraria para uma última lição. Percebeu quando ele mencionou sua mão esquerda e ela não pôde evitar sorrir, ao mesmo tempo constrangida e culpada. Na sacada se encontravam apenas os dois, então ela ainda podia ser a menina que Hannibal conheceu sem se sentir outra pessoa, assim como ele. Ambos se mostravam para o outro como eram e não um disfarce, Adelia odiaria interpretar um papel diante dele. Papeis se destinavam apenas às suas peças.
— Eu tinha razão. — Hannibal iniciou, vendo o rosto dela assumir um tom acima. Reflexo do vestido ou timidez, ele não se importou em saber. — Fico feliz por vê-la bem.
— Você me disse para ser alguém. — Adelia respondeu, apoiando-se na sacada. O ar tinha cheiro de cidade, fumaça e um perfume diferente que imperava, reivindicando tudo ao seu redor.— Me imaginei fazendo muitas coisas, mas aquela história nunca saiu da minha cabeça. A que você leu para mim.
— Combina com você. — Ele se aproximou, ficando a centímetros de distância. Agora, de perto, podia vê-la melhor. As sardas camufladas pela maquiagem o chatearam, mas compreendeu que com a profissão dela, aquele era um detalhe importante. — Casou-se com Billy. Você o ama?
— Acho que depois de tanto tempo, finalmente o aceitei. Ele foi gentil em esperar. — Ela suspirou, querendo dizer várias coisas ao mesmo tempo e nada também. Apenas a presença dele era suficiente. — Não voltei em Chesapeake depois do que houve, acho que nunca mais sentirei saudades de lá.
— Algumas coisas devem ser deixadas para trás. Guardá-las não nos permite evoluir. E você fez isso.
— Fizemos isso. — Ela ergueu o rosto para ele, a luz fraca da sacada fazia o brilho nos olhos dele se avermelharem, como na vez em que tinham se sentado à mesa juntos. — Você me mudou, Hannibal, me mostrou possibilidades. Estava certo quando disse que fazemos o impossível para obter o que queremos.
— Você fez?
— Sabe, um dia acordei e pensei: “Isso não está dando certo”, mas então percebi que eu precisava me empenhar mais. Não queria que o seu trabalho fosse em vão. Fiz por você também.
— Por mim? — Hannibal se surpreendeu, virando-se de frente para Adelia. O rosto de perfil continuou olhando para além da cidade movimentada, com carros nas ruas e luzes piscando. — Nunca pedi que fizesse por mim.
— Eu sei. — Ela sorriu. — Aceite, foi a única forma que encontrei para agradecê-lo por tudo.
Hannibal guardou silêncio, ouvindo as conversas alheias e a música que os camuflavam. Adelia ainda mantinha aquele lado sensível, que pensava nos outros acima de si mesma, e aquilo o agradou. Era uma boa característica, embora soubesse que um dia ela se decepcionaria. Sem que ela esperasse, ele a puxou para perto, sentindo o perfume suave e o corpo tenso por seu ímpeto e iniciou um ritmo, sua mão descansada na cintura de Adelia enquanto os dedos dela entrelaçavam os seus, acompanhando-o numa dança silenciosa. Ela havia aprendido muito mais do que ensinara, talvez não existisse mais o que mostrar ou explicar.
O corpo dele lhe trouxe lembranças e Adelia sorriu, os olhos fixos no homem que a conduzia ao ritmo distante de uma música lenta. Não havia pessoas prestando atenção neles, como se o mundo não se importasse e os tivesse envolvido em outro tempo. Adelia não contou os minutos, permanecendo no contato com ele até que a voz dele atingiu seus ouvidos:
— Você leu o que escrevi?
— Estava pensando em fazer isso esta noite. Acho que agora devo ser capaz de entender.
— Está com medo da verdade? — Ele questionou, colocando as mãos dela em seus ombros. Sentiu a pele na abertura do vestido, um toque simples e sem intenções.
— Estou com medo de entender os seus motivos. — Ela respondeu sincera, afastando-se gentilmente de Hannibal. O seu gesto pareceu irritá-lo. — Tive várias oportunidades para lê-la e parecia que nenhum momento era adequado. Talvez essa noite seja um sinal.
— Então, agora também é adequado para dizer adeus.
— Eu sei, Hannibal. Você não pode ficar, não te pediria isso também. — Seus olhos foram atraídos para o interior do salão e ela viu Billy a procurando. — Acho que a hora finalmente chegou. Estou pronta para dizer adeus, desta vez para sempre.
— Poucas pessoas se mostraram tão convictas em suas palavras, Adelia. Você é rara. — Ele ouviu passos se aproximando, pesados e ansiosos e devagar, se distanciou, deixando no ar o adeus que nunca fora dito por ele.
— Adeus. — Adelia pronunciou a palavra, sentindo um nó na garganta e os olhos ardendo. Ela se preparara para aquele momento, apenas não imaginou que seria tão rápido.
— O que faz aqui sozinha? — Billy perguntou, beijando sua testa em um carinho que ele aprendera a ter. Aprendera algo com Hannibal também. — Com quem falava?
— Um fantasma. — Ela sorriu, dando o assunto por encerrado. Não olhou para trás sequer uma vez enquanto Billy a conduzia para o meio da multidão, mas pôde sentir claramente os olhos analíticos de Hannibal queimando suas costas, aprovando sua atitude.
(...)
Adelia sentou-se na cama, tomando o cuidado em não despertar o marido. A luz fraca que adentrava a janela era o suficiente para executar o que vinha adiando. Da gaveta, ela retirou o papel dobrado e o abriu devagar, temendo o que as palavras tinham para contar. Fechou os olhos, respirou fundo e se concentrou na letra bonita e cursiva de Hannibal Lecter:
Alguns acreditam em destino, Deus ou outro ser qualquer. Eu acredito que tudo acontece porque é a lei natural da vida. Você me encontrou, cuidou de mim sem saber o que eu sou e isso eu não pude ignorar. O seu coração estava aberto, desejoso pelo saber e pouco pelo homem que invadiu sua casa e mudou sua rotina. Eu tinha muitas coisas para ensiná-la, mas não achei justo. Quero que descubra como a vida funciona por si mesma e não acho que irá demorar. Confesso que pensei em você em várias maneiras, comparei-a com Lady Murasaki e decidi que o mundo fica melhor com pessoas como você dentro dele. Eu sou o que você descobrir, mas não muda o fato de que fui totalmente sincero com você, Adelia. Isso é algo que sua mente demorará a compreender e quando acontecer, espero que não estrague a imagem que tem de mim. Odiaria que você mudasse sua forma de olhar para mim. Essa é a ultima vez que nos falaremos. Adeus, Adelia.
Hannibal Lecter.
Adelia não sabia o que esperava sentir, sequer cogitara que Hannibal pensara nas formas de tratá-la, entretanto, algo em seu interior se acalmou. Tudo estava em seu devido lugar.
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