Notas iniciais
Bom dia! Trago mais capítulo, e adoro quando estou com a história pronta, assim posso ir postando sem demorar demais. Mas como ainda estou pensando no epílogo, talvez ele demore um pouco. Novamente agradeço os comentários e carinho, e a Ana que está sempre e ajudando. Boa leitura!

Adelia voltava do rio quando viu um vulto alto passar por sua janela. De onde se encontrava, sua visão não ajudava a enxergá-lo nitidamente. Apressou-se para dentro de casa, subindo o morro com rapidez, o que em dias de calmaria levaria alguns minutos. O sol lhe castigava a pele, a alça direita do vestido escorregando no ombro, o balde de água pesando em sua mão. Largou-o na entrada, ouvindo movimentação na cozinha. Talvez Billy estivesse à procura de algo ou, na pior das hipóteses, alguém a roubava. Por Deus, que não seja isso!, ela rogou ao avançar a divisão, seu coração aos saltos lhe incomodando o respirar.

— Hannibal? — Tamanha foi sua surpresa ao vê-lo se apossar do cômodo, havia panelas fervendo no fogão e algo assando no forno. Adelia deixou o ar escapar entrecortado, observando-o se virar para ela. — Pensei que tinha ido embora. Onde esteve ontem?

— Bom dia, Adelia. — Ele fugiu da pergunta, voltando a atenção ao que fazia. A garota se aproximou cautelosa, fiscalizando seus gestos. Ela não precisava saber a procedência do que cozinhava. — O cheiro está bom?

— Maravilhoso. — Adelia confessou, aspirando o ar. — Onde arranjou tanta coisa?

— Por que tantas perguntas? — Hannibal limitou-se a sorrir, contornando a curiosidade dela. — Se te contar tudo o que faço, perde a graça. O bom é manter um pouco de mistério, não acha?

— Acontece que você é misterioso demais, Hannibal. — Ela encostou-se à pia, cruzando os braços. — As pessoas estão comentando sobre o sumiço do Jeff, não é bom ficar desaparecendo sem me dizer aonde vai.

— Você se preocupou? — Hannibal olhou-a por alguns segundos, guardando um sorriso. — Aprecio sua consideração, mas eu estava aqui o tempo todo.

— Virou fumaça ou algo do tipo? Não sou idiota e não me tome por uma, sei que ficou um dia fora. E sim, me preocupei. Esse bairro é perigoso, Hannibal e você não é daqui, não sabe onde deve pisar ou com quem falar. — A preocupação de Adelia era genuína, estimulando o psiquiatra a abandonar o que fazia para encará-la. — O que foi? Ninguém nunca se importou com você?

— Dessa forma, não. — Ele refutou sincero, dando um passo na direção dela. Os lábios de Adelia exigiam ser beijados e não compreendia ao certo o seu súbito desejo. Por fim, elevou a mão ao rosto dela, acariciando-lhe a nuca e vendo-a fechar os olhos, inclinando-se ao seu carinho.

— Senti sua falta por aqui, Hannibal.

— Assim fica difícil para mim, Adelia. — Ele abaixou-se, encostando sua testa na dela. Adelia tinha uma temperatura elevada, talvez pelo sol que estivera exposta ou devido a sua presença... Ou às duas coisas.

— Então, descomplique. — Adelia sorriu, segurando sua mão e a afastando. Aceitara-o mais do que se era permitido, sentindo o calor subir da ponta de seus pés ao seu rosto. — Não faça mais isso, ou realmente vão começar a questionar.

— Desculpe-me.

— Ora, Hannibal, o que é isso? — Adelia deixou a interrogativa no ar enquanto saía, ela precisava de um tempo sozinha, averiguando o que era aquilo que Hannibal despertava nela.

E não chegou a nenhuma conclusão concreta, que pudesse desanuviar suas dúvidas. Que Hannibal a atraía, isso Adelia jamais poderia negar, mas alguma coisa dentro dela avisava para não se envolver demais. Todo o segredo que ele implantava ao questioná-lo sobre o que fazia ou onde estava, aquilo não deveria ser aceito. Voltou à cozinha quando o escutou chamá-la e trazia entalado na garganta tudo o que gostaria de ter perguntado a ele no primeiro momento em que o viu de pé, apto a respondê-la. Os dias passaram, ela merecia.

Sentou-se à mesa, observando-o com cuidado. A postura de Hannibal ainda era receptiva, os olhos calorosos e que assumiam uma coloração avermelhada ao serem atingidos pela luz. Ela não havia reparado naquele detalhe, achando-o meramente perturbador. Algumas cores se modificavam ao estímulo de outras ou da luz e imaginou que cor seus olhos tinham agora, se Hannibal percebeu miúdas mudanças nela como ela percebia nele. Agora, muito mais do que antes, Adelia sabia que sua obrigação era desvendá-lo, de forma que Hannibal não se sentisse incomodado.

— De onde você é, Hannibal? — Ela perguntou ao ter o prato depositado à sua frente, não fazendo menção em tocá-lo.

Ele não lhe deu resposta de imediato, terminou de se servir e apenas a olhou, tentando descobrir o porquê de tanta curiosidade. Experimentou a carne temperada com salsa e coentro antes de finalmente iniciar a conversa.

— Baltimore. — Hannibal contemplou o semblante dela se modificar, demonstrando confusão. — Sei o que vai querer saber em seguida, então apenas escute. Eu sou psiquiatra, atendia em um consultório particular e por vezes assessorei o FBI em alguns casos junto com outro investigador, nada oficial. Aconteceram algumas coisas, um assassino em série nos levou aos extremos e você me encontrou aqui.

— Você lidava com pessoas assim? — Havia um tom de receio na voz de Adelia, algo que Hannibal compreendeu. — Não se envolvia demais nos problemas delas?

— Isso é inevitável quando se escolhe a minha profissão. — O médico mastigou mais um pedaço da carne, enquanto Adelia sequer havia tocado na sua. — Por isso eu tinha uma psiquiatra para me ajudar a não misturar as coisas.

— Mesmo assim, eu acho que é impossível se esquecer totalmente. — Ela comentou, levando um pedaço de carne à boca. — Principalmente se o que tem na cabeça é algo importante. Você deve ter pensado muito antes de escolher ser... Psiquiatra.

— A mente das pessoas sempre me fascinou, quis entendê-la melhor. — Ele sorriu, pousando os talheres na mesa. — Que profissão gostaria de ter?

— Eu? — Adelia piscou. Ninguém havia lhe feito aquela pergunta antes, soou um pouco longe e surreal. Contudo, se esforçou em pensar no que gostaria de ser, de estar fazendo nesse momento e, por mais que tentasse se imaginar em alguma profissão, era como se não fosse feito para ela. — Não sei, realmente não sei.

— Me fale quando descobrir. — Hannibal não se demorou na conversa; após lavar o prato, se retirou, deixando Adelia sozinha.

Adelia sentia Hannibal cada vez mais distante, como se o momento da partida estivesse prestes a acontecer. Ela sabia que um dia acordaria e não veria mais o psiquiatra em nenhum cômodo da casa, restando apenas a vaga lembrança dele e que, com o passar dos dias, se dissiparia. Era estranho pensar que Hannibal chegara para ficar pouco tempo, ainda que não soubesse lidar com tudo que ele lhe apresentava.

Ela debateu internamente em qual tipo de profissão se encaixaria, era algo inevitável ante as pessoas que tivessem algo a zelar ou se orgulhar. Talvez, no mundo de Hannibal fosse realmente importante ser alguém. Adelia suspirou, dobrando as roupas distraidamente, movimentos já decorados. Ela não gostaria de passar o resto da vida naquele bairro esquecido em Chesapeake, vivendo sem saber se o dia seguinte chegaria. O lugar se tornara ainda mais perigoso após o desaparecimento de Jeff e definitivamente, aquela vida não mais a fazia se sentir grata. Queria outra e melhor. Estaria sendo egoísta se rejeitasse a que tinha?

— Como você soube o que queria fazer da vida? — Adelia lançou a pergunta, olhando Hannibal sentado na cama. Estava curiosa, buscando um meio de justificar se querer o mesmo a deixava presunçosa.

— Decidi aos dezoito anos, eu era bom no que fazia e isso me rendeu regalias.

— Simples assim? — Ela deixou transparecer certa incredulidade.

— Nenhuma profissão é simples, todas elas exigem paciência e esforço.

— Então está dizendo que teve que lutar por seu lugar?

—Estou dizendo que, quando se quer muito uma coisa, fazemos o possível para obtê-la.

Adelia refreou as diversas perguntas que ainda tinha, perdendo tempo fixando os olhos em Hannibal. Havia algo de sombrio e distante nas palavras dele, como um segredo que ele não queria partilhar com ninguém, além de si mesmo. Decidiu por fim não importuná-lo mais; terminou de dobrar as roupas e guardá-las, tencionando abandonar o quarto. Contudo, ela não soube o que a levou a se virar, incapaz de aceitar que fosse assim.

— O impossível também?

Os olhos de Hannibal faiscaram, mas a garota permaneceu onde se encontrava.

— Se for necessário.

Adelia seguiu caminho para a sala e lá se distraiu com as palavras e o livro. Compreendia mais facilmente que história contava, embora tivesse que voltar a certos parágrafos, devido aos pensamentos que lhe tomavam. Hannibal estava diferente, parecendo quase impaciente e ferino. Será que ela tinha feito perguntas demais? Aborrecera-o com sua curiosidade? A seu ver, não havia dito nada que o ofendesse, mas talvez ela não soubesse o que ele consideraria estorvante.

E, para assomar, a história “Estrela da Madrugada” mostrava uma atriz tentando persuadir um homem viúvo a aceitá-la no papel de sua esposa falecida em um filme, cujo diretor era ambicioso e insensível, porém, acabara se apaixonando por ele. Isso não iria acontecer com ela, não teria força suficiente para se vir no lugar da personagem. Adelia Sharpe não era tão ambiciosa.

Fechou o livro com certa rudeza e o colocou sobre a mesinha, acomodando-se no sofá. A sala escura a abraçava em sua calmaria, mas Adelia ainda lutava para manter os pensamentos longe. Gostaria de conversar com Billy, entretanto, havia dias que ele não aparecia, embora tivesse o convidado. Será que ele também perdera o interesse em sua amizade? Em algum momento Adelia sabia que Billy cansaria de esperá-la, então se policiou em fechar os olhos e imaginá-lo sendo feliz com outra pessoa. Conseguiu sorrir em meio ao repentino vazio que se instalava dentro dela.

Estar sozinha nunca fora o real problema, até porque em seu quarto dormia um homem, mas não podia dizer que era a mesma coisa. Teria que se acostumar a não contar com quem sempre se mostrou presente. Rebatendo as queixas, Adelia acabou por dormir, acordando na manhã seguinte com o som de batidas na porta. Levantou-se para atender, mas Billy irrompeu pela porta com o rosto suado e vermelho.

— O que foi? — Adelia exclamou, assustada com a aparência dele.

— O pessoal da outra zona está aqui, querendo saber quem espalhou a besteira de que eles deram cabo no Jeff. — Billy fechou as cortinas e passou a tranca na porta. — Está sozinha?

— Hannibal está no quarto, eu acho. — Adelia acompanhou o amigo passar por cada janela, fechando cortinas e imergindo a casa em uma escuridão incômoda. Ouviram batidas urgentes na porta e Billy voltou, interpondo-se à frente de Adelia.

—Quieta.

Adelia abriu a boca para dizer algo, mas foi interrompida pelo som de tiro do lado de fora. Segurou a mão de Billy, nervosa, indo com ele à janela para espiar. Um homem alto e moreno tinha o braço erguido e em sua mão havia uma pistola; moradores vizinhos ousaram sair de suas casas, mas desta vez Adelia não reclamou que Billy a segurasse. Logo gritos e correria explodiram, durando cinco minutos até tudo cessar. Devagar e mantendo-a atrás de si, Billy abriu a porta e o que viu foi o bastante para exclamar um novo xingamento.

Quando Adelia se esgueirou para olhar, se arrependeu imediatamente. Sangue e corpos jaziam no chão de terra, dizendo que um massacre rápido e objetivo havia acontecido. Ela mirou o rapaz que ajudara um mês atrás deitado com o rosto enterrado na terra e, sem perceber, caminhava para ele com os olhos ardendo pelas lágrimas. O que realmente ocorrera?

— Isso é...— Ela estagnou, observando as marcas de balas em todos que estavam caídos. — Billy?

— Saia daí, tá maluca?! — A voz do amigo a repreendeu, segurando-a pelos ombros. — A gente não pode ficar aqui, Adelia. Se eles descobrirem que restou alguém, vão vir atrás da gente.

— E para onde vamos?

— Não se preocupe, ninguém vai encontrar a gente. — Billy sorriu em meio àquele cenário, instigando-a um calor incomum. — Vá pegar suas coisas.

— E Hannibal?

— É, tá, ele também. — O mau humor de Billy em relação ao psiquiatra não mudara.

Adelia entrou em casa chamando por Hannibal, mas ele não apareceu. Rumou para o quarto, encontrando-o vazio. O roupão puído estava sobre a cama alinhada, guardando um papel dobrado ao meio. Ela o guardou no bolso do jeans e arrumou algumas peças de roupa em uma mochila, calçou os chinelos e encontrou com Billy à soleira. Antes de ir, ela jogou um olhar saudoso para a casa que abandonaria e, por uma fração de segundos, ela pensou ter visto Hannibal acenando para ela.

— Anda logo! — Billy a puxou, fazendo a imagem desaparecer.

“Adeus, Hannibal...”, ela sussurrou, deixando-se guiar por Billy. E não obteve sequer uma retribuição.

Notas finais
Obrigada por ler, espero que tenha gostado. Deixe sua crítica construtiva, será muito bem vindo. Ainda temos mais um capítulo e um epílogo, e confesso que me sinto orgulhosa de estar terminando mais uma fic. Até o próximo. Beijos!