Notas iniciais
Boa tarde! Fico muito feliz por ver que a história está agradando, muito obrigada pelo carinho e comentários. Espero que gostem desse também. Boa leitura!

Sentada no sofá, as horas avançadas, Adelia tinha nas mãos um livro antigo que fora de sua mãe. Apesar de não saber do que se tratava a história, ela gostava de admirar a capa: um casal, uma mulher de cabelos ruivos e moldados em um coque bonito e adornado, de vestido vermelho de festa e os olhos verdes olhando o seu par; um homem de camisa social branca e calça preta, que pousava uma das mãos em sua cintura, insinuando uma dança à noite livre. Poderia facilmente ser confundido com Hannibal perante toda sua elegância, embora jamais fosse se comparar à moça.

Folheou-o, sentindo o leve cheiro de guardado. As páginas já estavam amareladas e as palavras se perdendo, mesmo assim, Adelia não deixava de apreciá-lo. Lembrava-se que sua mãe o segurava todas as noites, acometida por memórias e era lindo constatar o brilho nos olhos dela, encantados com o que quer que ele lhe dissesse. Livros absorviam emoções e ela gostaria que as suas também ficassem impressas ali, para que outras pessoas pudessem senti-las. Talvez não tão sinceras quanto as suas, mas que as inspirassem a deixar que o livro as absorvesse também. Era uma tremenda sonhadora.

Encostou-se ao sofá, trazendo as pernas para junto do corpo, continuando a passar página por página. Vez ou outra se perdia, a mente vagando entre os parágrafos incompreendidos. Somente voltou a si ao sentir a presença que se acomodara ao seu lado. Hannibal vestia o velho roupão e ela constatou o quanto ele ficava bem naquela simples peça. As pessoas inteligentes deveriam ser assim, ela cogitou consigo, sorrindo para ele.

— “Estrela da madrugada”. — Hannibal leu o títulobaixo, eles estavam próximos para que se alterasse a voz. — Quem o escreveu foi Carole Mortimer.

— É lindo... — Adelia murmurou, desejosa por ouvir mais. — Você pode ler para mim, Hannibal?

Hannibal abriu no primeiro capítulo, começando a narrar a história, estimulando a mente de Adelia a recriar cada fala, personagens e cenário. Perguntou-se se o que lia também tinha efeito em Hannibal e ela não soube dizer. Prestou atenção nas palavras, na forma como Hannibal as proferia, repetindo-as baixinho. O som e peso que elas tinham fizeram-na sorrir e se aproximar mais do homem, acompanhando os olhos que corriam pelo texto sem se cansar. Embora fechasse os olhos, Adelia recusou-se a dormir naquele momento. Estava envolvida demais pela trama, esperando pelo próximo capítulo, que não veio.

— O que foi? — Adelia indagou, confusa com a súbita postura de Hannibal.

O psiquiatra avaliou a jovem ao seu lado, os olhos castanhos brigavam para desvendá-lo. Admitir que Adelia o fazia se recordar de Lady Murasaki era um erro gravíssimo e inaceitável, contudo, o presente lhe condenava. O perfume natural dela lhe perturbou os sentidos tão bem ajustados, não era fácil se ver recuando perante alguém. Adelia Sharpe possuía a essência e doçura semelhantes às de Lady Murasaki, a primeira mulher que Hannibal realmente amara.

— Melhor ir descansar. — Gentilmente, Adelia lhe tomou o livro. — Obrigada por ter lido.

— Não foi por isso que parei. — Hannibal continuou sentado. — A partir de hoje quem lerá para mim, todas as noites, será você.

E conforme os dias foram passando, Hannibal apresentava o mundo das letras e palavras a Adelia. A garota aprendia rápido e se dedicava mesmo em sua ausência. Embora ficar naquele ambiente o relaxasse, Hannibal sabia que um dia teria que partir, apenas esperava dispor de tempo para ensiná-la antes da despedida. Do corredor, ele a via treinar as palavras com o cenho franzido. As mãos dela estagnaram e ela bufou, irritada consigo.

Adelia pensou em como Hannibal executava tudo com facilidade e possuía a caligrafia mais linda e impecável que já vira, faltava muito para ela. Cogitou fechar o caderno, porém, antes que ela completasse a ação, Hannibal envolveu sua mão direita com a dele. E constatou que em algo em si mudara.

Ela já estivera relativamente perto de Hannibal, entretanto, daquela vez causara uma sensação estranha. Ela não sabia explicar ao certo, e provavelmente achava melhor não nomeá-la. Seu coração parou por um segundo, para logo desenfrear, seu corpo instintivamente desejando um contato mais profundo. Os hematomas se amenizaram, deixando evidente o rosto bonito e simétrico. Desviou a atenção para o papel.

— As palavras são como desenhos. — O psiquiatra comentou, movendo a mão de Adelia. — É preciso firmeza e legividade... Relaxe, Adelia.

— Certo... — Ela fez o que pôde, esquecendo-se do corpo dele por trás do seu. Aquilo não estava lhe fazendo bem, então, incomodada, Adelia se levantou antes que a letra “A” fosse concluída. — Eu prefiro tentar sozinha, Hannibal, se não se importa.

O jeito que a respiração encurtada escapava e a forma arredia que ela o encarava, fez Hannibal solucionar mais uma duvida sobre Adelia. Ela era a típica garota caipira e virgem do interior, desacostumada a aproximação e galanteios de um homem da cidade, que desconhecia a própria beleza e prazeres de uma noite de sexo. Ela era uma tela em branco, ansiando por vida e cor e Hannibal se viu como aquele que a pintaria.

Adelia recolheu o caderno, o toque de Hannibal formigando sua pele. Billy já a tocara, a abraçara, então por que seria diferente agora? Talvez por ele ser um conhecido ou por que se acostumara? Não, de qualquer forma, ela somente se deixava levar pelo o que ele podia lhe mostrar.

— Você já foi beijada, Adelia? — A pergunta estava livre de qualquer pudor. Os lábios dela se abriram e fecharam,mudos e ele teve sua resposta.

— Não me sinto à vontade falando sobre isso com você. — Não havia lugar para se esconder ou fugir, pois ele a encurralara. Sentiu-se tonta, ansiosa por escapar.

— E por quê? — Hannibal deu um passo e Adelia recuou o dobro, divertindo-o. — Por que sou mais velho ou por que não confia em mim? Eu diria que as duas opções se encaixariam perfeitamente.

— Por favor, não chegue mais perto. — Ela implorou, procurando desesperadamente por uma brecha.

— Você deixou de pronunciar o meu nome e continua me tratando com gentileza, embora esteja desconfortável. — Faltava pouco para alcançá-la, o perfume dela tomando o espaço entre eles. Ela não precisava de muito para parecer bonita e atrativa, o jeito natural era o suficiente. — Pessoas como você são raras e insubstituíveis.

Adelia fechou os olhos quando Hannibal invadiu sua zona de conforto, exalando autoridade. Como foi que a situação mudara? Sua consciência não aceitava Hannibal, vendo-o como ameaça. Seu rosto foi erguido, envolvido pelas mãos dele.

— Olhe para mim, Adelia. — O pedido reverberou como ordem, porém, deficiente de hostilidade.

A jovem o obedeceu, o nervosismo aflorando dentro dela. Podia ouvir o coração e temeu que Hannibal também fosse capaz. Rezou para que Billy aparecesse, independentemente do que acharia e impedisse Hannibal de se abaixar e encostar seus lábios aos dela, mas não fora atendida. O beijo permaneceu leve, um reconhecimento e Adelia agradeceu por existir a parede às suas costas. Hannibal separou-se dela por um centímetro, para em seguida repetir o ato, desta vez um pouco mais ousado.

Hannibal exigiu que Adelia lhe desse passagem, instruindo-a a retribuí-lo. Os lábios e línguas se massageando desconexos até se acertarem. Uma das mãos dele escorregou para o pescoço de Adelia, depois para a cintura e lá permaneceu. Não pediu por mais nada.

Quando o beijo se findou, os lábios de Adelia se encontravam vermelhos e perigosamente atrativos.

— O que significa isso? — Adelia arranjou coragem para falar, mal percebendo que suas mãos descansavam na cintura de Hannibal.

— Significa o que você quiser. — Ele sorriu, achando graça da inocência dela. — Me conte o que sentiu.

— Eu não... Não tenho certeza.

— Ainda não sabe? — Hannibal não abrira espaço entre eles, seus olhos brilhando em pura malícia. — Devo te beijar de novo para que se decida?

— Eu sei o que senti, Hannibal. — Adelia respondeu, rápida. — Sei o que estou sentindo agora, mas não acho que seja certo.

— Não existe certo ou errado, Adelia.

— Você foi o primeiro, Hannibal e é a única informação que deve ter em mente.

— Isso me agrada. — O psiquiatra relutou em romper o contato, mas o fez. Ele conseguira o seu intento, por enquanto.

Adelia permaneceu quieta durante alguns dias, evitando a aproximação do psiquiatra. Fazia tudo rapidamente quando ele estava perto, evitando se prolongar nas conversas e nos olhares. Em sua consciência, ela sabia o quanto tinha sido prazeroso ser beijada por Hannibal, ele possuía uma maestria implacável e que, de fato, no início a assustou.

Definitivamente, Hannibal não era o tipo de homem que se atrairia por uma moça como ela, sem estudos, bons modos e que tudo que tinha certeza era de ser prestativa. Imaginou as mulheres com as quais ele saía, os tipos de lugares que visitavam ou conversas que mantinham, como no livro que jazia em sua mesa de centro.

Sentia-se como um brinquedo nas mãos dele e a sensação de poder ser movida como bem entendesse não lhe apetecia. Fora errado ajudá-lo ou estava apenas confusa? Interrogou-se enquanto estendia as roupas no varal na parte detrás da casa, parando a meio caminho. As pessoas por vezes tinham razão em não abrir suas portas para estranhos, ela era uma raridade naquele bairro, onde todos prezavam pelo próprio umbigo, se tornar como eles nem mesmo em sonhos aconteceria. Contando que tivesse pleno controle, ficaria bem.

Quando voltou para dentro de casa não encontrou Hannibal, apenas uma fragrância leve do perfume dele, que logo se dissipou. Foi até o quarto, notando a cama arrumada, o banheiro com vapor no espelho. Ele fora embora sem se despedir? Talvez as pessoas como ele tivessem o jeito estranho de agradecer, ou ele simplesmente evitara a parte chata. Bom, não ficara chateada, apenas aceitara que em algum momento de suas vidas as pessoas entram e saem sem avisos.

Passou o dia sozinha, conduzindo as palavras e satisfeita por ter conseguido escrever o seu nome. Sua caligrafia não era bonita, precisava melhorar a fim de deixá-la legível. Vez ou outra tentava ler “Estrela da Madrugada”, continuando da parte onde Hannibal parou, mas logo desistia. Deveria começar por coisas menores e controlar a ansiedade. Acabou por dormir no sofá, o caderno e caneta perdido entre suas pernas. Remexeu quando algo fino a cobriu, abrindo momentaneamente os olhos.

— Billy? — Murmurou sonolenta, fechando os olhos ao receber o carinho nos cabelos. — Você demorou, onde esteve esses dias?

— Durma.— A voz um tanto grave e ressentida soou longe aos seus ouvidos, obedecendo em instantes à ordem.

Hannibal não queria que ela visse o jeito que se encontrava, tampouco se sentia disposto a contar o porquê das manchas de sangue e o cabelo desarrumado. Com as mãos, ele sustentou as pernas de um homem relativamente alto, faltando alguns centímetros para alcançá-lo, e o arrastou até o quintal, contornando a lateral da casa. Sua natureza exprimindo os desejos monstruosos naquele bairro abandonado onde se tornaraO Estripador de Chesapeake.

Havia luzes acesas de algumas casas, mas as janelas não permitiam os curiosos de vê-lo. Evitara sair de dia, pois as pessoas demonstravam certa curiosidade quanto a sua pessoa e também, a liberdade sempre o agraciou naquele horário. Adelia tinha encostado à parede uma pá e um martelo, aquilo teria que bastar. Tivera mais dificuldade em separar os membros inferiores do homem, o suor escorrendo por seu rosto e pescoço, fazendo os cabelos se grudarem na testa. A força que executava ao romper a sintonia do osso demandou certo controle, era estranho atuar longe de casa.

Usando a pá após terminar, a cova que Hannibal cavara era relativamente funda. Rolou o corpo para dentro e despejou a terra, mantendo a superfície lisa. Seu corpo sentia a adrenalina se esvaindo, como um efeito de uma droga; seu batimento cardíaco contínuo e dentro dos padrões. Ele nunca se alterava. Voltou para a casa, Adelia continuava dormindo, perdida no mundo dos sonhos, dando-lhe sinal para prosseguir. Hannibal cuidou bem do membro, retirou a pele e separou a carne dos ossos e cartilagens, estocando os pedaços em potes. A refrigeração da geladeira de Adelia não era boa, mas o conservaria por no máximo três dias.

A noite caía alta quando tomou banhoe trajando o velho roupão, deitou-se na cama.

~*~

Adelia acordou ouvindo certo burburinho do lado de fora. A visão um pouco embaçada a fez ficar um tempo sentada, esperando que melhorasse antes de sair de casa. Pessoas se ajuntavam ao norte do bairro, as vozes distintas resmungando acusações ou interpretações do que tinha acontecido. Não se preocupou em ajeitar os cabelos ou no rosto com marcas de sono, apenas caminhou até elas tentando entender alguma coisa.

— O que está acontecendo? — Perguntou ao mesmo rapaz que ajudara dias atrás. O supercílio dele agora marcado por uma cicatriz pequena e branca.

— Alguém atacou o Jeff. — Ele respondeu, os olhos deslizando entre Adelia e o interior da casa. — Achamos melhor não envolver a polícia nisso.

— Onde está Jeff? — Ela quis saber, ficando na ponta dos pés a fim de ter uma visão melhor da casa e seu interior. Viu pessoas transitando, vasculhando à procura do homem.

— Deve ter ido embora, com medo de voltarem. Ele estava envolvido com o pessoal da outra zona, você sabe.

Sim, Adelia tinha conhecimento do que a outra zona aprontava. Era lá que os usuários de drogas iam quando sentiam falta de certa substância. Mas o fato de Jeff, um homem de quase quarenta anos, estar envolvido naquele tipo de coisa causou-lhe surpresa. Ela pensava que os jovens eram o público alvo, mas enganara-se.

— Você não devia estar aqui. — Billy a chamou, puxando-a para longe da multidão. — Quero que vá para casa.

— Você viu?

— Não vou falar disso com você.

Adelia não questionou, aprovando aquele cuidado.

— Obrigada por ter me coberto ontem. Por que foi embora tão rápido?

— Do que está falando? — Billy franziu as sobrancelhas grossas enquanto a acompanhava pelo caminho. — Tá sonhando acordada de novo? Eu não fui na sua casa ontem.

— Não? — Adelia demonstrou sua confusão, encarando o rosto de Billy. Não havia sequer um traço de mentira. — Então eu devo ter sonhado.

— Coisa que anda fazendo muito ultimamente.

— Eles vão chamar a polícia? — Adelia mudou de assunto, cruzando os braços. Parou embaixo do telhado da varanda, saindo do sol.

— Não sei. A polícia vai interrogar demais e gostamos do jeito que vivemos.

— Billy... — Adelia o segurou pelo braço, sentindo que ele se afastaria.— Você é bem vindo aquiquando quiser.

Billy sorriu, livrando-se do contato de forma singela. Ele estava empenhado em algumas coisas, as quais Adelia não precisava tomar parte agora. Pelo menos não ainda. Ele a beijou na testa e deu-lhe as costas e Adelia percebeu que o peso em suas costas havia diminuído.

Notas finais
Obrigada a todos por lerem, espero que tenham gostado. Qualquer críitica construtiva será muito bem vinda! "Estrela da Madrugada" foi o primeiro livro que li, então achei interessante que fosse o de Adelia também. Uma pena que era tão antiguinho e as traças o comeram, mas guardo a história com todo carinho. Até o próximo! Beijos!