E O Resto Rio Afora
2 Capítulo 2
Notas iniciais

“Isso é tudo o que eu sempre quis para você, Will.” Hannibal Lecter usou uma das mãos para segurar o rosto de Will Graham, que sangrava tanto quanto ele. “Para nós”.
“É lindo”. Will sorriu, levado Hannibal a fazer o mesmo. Era um sorriso sincero, compreendido por todas as coisas que passaram e que os levaram aquele ponto. O Grande Dragão Vermelho jazia a alguns metros do precipício, o sangue abrindo-se em suas costas como asas.
Hannibal deixou-se ser abraçado, retribuindo o afeto que ele tanto aguardou de Will. Quis perguntar a ele o porquê de ter demorado quando sua mão estivera estendida desde o começo, porém preferiu apenas apreciar a noite e a presença de Graham. Talvez agora eles fossem mais parecidos. Contudo, o corpo de Will pesou contra si na beirada do precipício, o Atlântico batendo furioso contra as rochas, e ele se viu caindo, levando Will consigo. Ele não se incomodou com o fato, e fechou os olhos, sentindo o baque de seu corpo contra as águas.
Aquela sensação de água congelante não o envolvia mais, e sim um roupão que lhe pinicava nos ombros e costas. Preguiçosamente sua visão estabelecia uma imagem nítida, e a primeira imagem que Hannibal teve foi o de um teto descascado. Uma única lâmpada lhe saudava solitária, apagada para não incomodá-lo. O sofá de estofado fino lhe dava uma sensação ruim nas costas e se moveu disposto a sair de cima da madeira, mas todo o corpo reclamou. Então, ele se ferira mais do que pensava. O Grande Dragão Vermelho fizera jus a seu título e quase o matara, embora o objetivo tivesse sido esse.
O que será que Jack Crawford estaria fazendo agora? Essa era uma curiosidade que Hannibal não podia negar. Sua consciência o fez pensar em Will. Onde ele estaria? Provavelmente as águas o levaram para longe, e agradeceu por isso. A história com Will Graham teria que terminar, ou ficariam eternamente no círculo vicioso. E Hannibal se cansara. Ele precisava de novos planos, novas metas, e alguém que não conhecia o ajudava. Alguém que não fazia a menor idéia do que ele era ou fizera. Por enquanto aquilo bastava.
Ao longe uma voz chegava a seus ouvidos, não era desafinada, e cantarolava uma música que variava entre lenta e triste e feliz e dançante. Com certeza era o teor de uma garota jovem. Hannibal deduziu que ela morasse sozinha, pois tudo era silencioso demais. A luz produzia a sombra dela na parede e ela dançava enquanto mexia algo no fogão. Um cheiro bom de sopa atingiu suas narinas — sim ele era perfeitamente capaz de distinguir devido a seus dotes culinários — e ele fez um esforço para se sentar. Demorou um pouco devido a dor, mas conseguira.
Colocando-se de pé e ajeitando o roupão ao corpo, Hannibal experimentou dar uns passos mancos, disposto a ver quem fora a sua salvadora. Mais barulhos escapavam da cozinha, contudo antes que ele chegasse parou em frente a um espelho, observando sua imagem: Estava limpo, embora os hematomas e cortes denunciassem que tudo o que passara fora muito mais do que um sonho. Hannibal não era acostumado a sonhar e preferia daquele jeito, contudo ele não resistiu à metáfora. Ele gostava de enfeitar as coisas quando podiam, deixando-as mais solícitas a quem as via e escutava.
Seu cabelo desarrumado era uma imagem negligente, entretanto combinava com ele naquele momento, pois era como se sentia: Completamente desarrumado e perdido, embora não lhe fizesse diferença saber onde aquela casa se situava. Apenas lhe interessava em conhecer a dona da voz, que ainda cantarolava na cozinha.
Tateando a parede, Hannibal alcançou a abertura do cômodo, e tudo era muito simples: A sua esquerda ficava uma geladeira, que escapava um som irritante, e uma mesa de quatro cadeiras de madeira, coberta por uma toalha desfiada e respingada de café; a sua direita jazia um fogão, onde quatro panelas ferviam ao fogo, ao seu lado a pia e armário. Da janela pequena e sem cortinas, ele viu o céu de tarde.
— Oh, meu Deus! — Adelia deixou cair a colher ao ver o homem de pé, observando-a. Ela não soube identificar aquele olhar, mas ele parecia bem melhor do que quando o encontrara. — Você não devia estar de pé.
— Desculpe, não foi minha intenção assustá-la. — A voz dele era grossa e polida, quase cordial e cavalheiresca. Podia-se ver que, definitivamente, ele não era das redondezas.
— Realmente me assustou... — Ela comentou, distraída, avaliando. Sem dúvidas ele era mais alto agora, ultrapassando-a duas cabeças, contudo a culpa era toda sua por ser baixa. A cor aos poucos voltava ao rosto de traços marcantes, embora ainda estivesse machucado. Os olhos castanhos e pequenos, de brilho sagaz, avaliavam-na da mesma forma. Curiosos em enxergá-la. — É melhor sentar.
— Obrigado. — Hannibal acomodou-se na cadeira à mesa, a humildade do lugar sendo sobrepujado pela personalidade daquela garota. Observou-a se movimentar pela cozinha, agora em silencio e concentrada no que fazia. Verdade que deixava transparecer o seu constrangimento e nervosismo, e talvez ela não tivesse pensado naquela parte ao ajudá-lo. — Qual o seu nome?
— Adelia Sharpe. — Ela não se virou para encará-lo, apenas se pôs na ponta dos pés para alcançar algo no armário. Demorou um pouco, mas finalmente tinha em mãos duas caixas.
— Você sabe quem eu sou?
— Eu ia te perguntar sobre isso em um minuto. — Ela comentou, ainda tentando se decidir qual das caixas combinaria melhor com a sopa. A todo o momento manteve-se de costas para o homem, com medo de que ele percebesse seu problema.
— Coloque o tempero da caixa amarela. — Hannibal optou, atraindo os olhos castanhos. Havia um rubor na face de Adelia, que ele esperava ser do calor da cozinha misturado ao da tarde.
— Você prefere?
— Eu o usaria. — O psiquiatra deu de ombros, vendo-a se voltar para as panelas. — Não sabe ler, Adelia?
As costas de Adelia se tornaram rígidas, as mãos tremeram levemente ao despejar o tempero na sopa. É claro que ele perceberia, tratando-se de alguém visivelmente estudado e inteligente. Sentiu-se pequena e muito envergonhada, evitando confirmar. Adelia não frequentara a escola, tendo coisas que a mãe julgava mais importantes negligenciando sua aprendizagem.
Podia afirmar que a maioria que residiam no bairro também não sabia, contudo não se sentia privilegia por fazer parte. Nada a agradaria mais do que identificar as palavras e proferi-las em alto e bom som, para todos ouvirem e verem que ela conseguira o que muitos não ligavam, contudo Adelia apenas pigarreou, devendo uma resposta ao homem.
O silêncio de Adelia não perturbou Hannibal e, aos poucos, o assunto foi esquecido. A moça lhe serviu do melhor que tinha, consistindo em sopa e pão para acompanhar, e não o olhou quando ocupou a cadeira a sua frente. Adelia fechou os olhos, agradecendo a Deus a comida com um rápido murmúrio e começou a comer. O único som entre eles eram os talheres no prato e algo vindo de fora, que aumentava gradativamente.
Adelia não pediu licença ao se levantar e seguiu para a porta. Uma multidão se amontoava em volta de dois rapazes, que brigavam incentivados pelos gritos dos moradores. E justo quando ela tinha um convidado. Tentou não se abater por isso e deu um passo, porém uma mão grande se apoiou em seu ombro, impedindo-a de ir. Virando a cabeça, ela o viu atrás de si, impassível com o que acontecia. Ele a fez esperar até que tudo se dispersasse e somente então a liberou. Adelia correu para o rapaz caído no chão, o rosto sangrando e sujo de terra. Não parecia ser mais velho do que ela.
— Você está bem? — Ela perguntou, ajudando-o a se sentar. Segurou-lhe o rosto, um dos olhos dele fechado pelo sangue que escorria do supercílio aberto. Aquele tipo de coisa acontecia frequentemente e sempre tendo os mais jovens como principais. E tal fato a aborrecia. — Foi só um corte, é bom ir para casa agora.
O rapaz a olhou confuso, um pouco também pelo o que havia tomado, contudo a obedeceu e cambaleou até sumir na esquina. Adelia bateu a terra dos joelhos e voltou-se para a casa. Ele ainda insistia em ficar na porta, e achou que era hora de saber como ele se chamava. Fez a pergunta com o olhar, mas do mesmo jeito que o negara uma resposta, ele retribuiu. Achou justo e os trancou dentro de casa. A essa altura a comida havia esfriado e ela precisaria aquecê-la.
— Isso é frequente. Infelizmente você não foi encontrado em um lugar de luxo. — Ela entoou um pouco de hostilidade, mas não direcionada ao homem, mas ao que acabara de se desenvolver.
— E onde é aqui?
— Um bairro abandonado de Chesapeake. — Adelia trouxe a panela de sopa para a mesa, indicando que ele poderia comer o quanto quisesse. — Você estava às margens do rio Patapsco, pensei que fosse um bêbado ou coisa assim. Mas Billy me convenceu de que você não é daqui.
— Não ligo em ser um bêbado. — Hannibal molhou o pão na sopa, levando-o a boca. — É um palpite interessante, ninguém espera realmente saber.
— Talvez haja alguém. — Adelia sorriu, pegando mais uma colher de sopa. — Eu ficaria feliz se me dissesse seu nome.
— Hannibal Lecter. — Não havia razões para mentir, não seria justo com ela.
— É um nome diferente. — Ela pensou na sonoridade do nome, ressonando em seus pensamentos.
— Sim, é. — E Hannibal não pode deixar de notar que Adelia, uma garota que morava em um bairro onde tudo começou, não fazia a menor ideia do que ele havia se tornado.
Ambos comeram sem dizer mais nada, Adelia concentrada em seu próprio mundo e Hannibal no quanto àquela garota era peculiar. Todo o estado tremeria ao ouvir seu nome ou vê-lo, contudo Adelia se comportava como se fosse comum ele aparecer ali e não questionar o porquê. Realmente ela era diferente, de um modo que o agradava. Após lavar a louça, Adelia o levou para o interior da casa e ofereceu-lhe toalhas limpas. O quarto era pequeno e com uma janela grande, que possibilitava a entrada de ar, comportava uma cama de solteiro e um guarda-roupa, apenas isso. O banheiro ficava ao final do corredor, e enquanto Hannibal se lavava ela arrumou a cama, trocando os lençóis, fronhas e cobertor.
— Você pode dormir aqui, Hannibal. — Ele gostava da forma que o seu nome dançava na voz dela. — O seu corpo deve estar dolorido e o sofá não é muito confortável.
— Então você deveria ficar aqui. — Os cabelos molhados se encontravam mais lisos do que normalmente eram. — Que tipo de homem eu seria em tirá-la do conforto de sua própria cama?
— Eu realmente não me importo com essas coisas, e está tudo bem para mim. — Adelia foi categórica, indicando a ele que deitasse. — Vou estar lá embaixo se precisar de alguma coisa.
— Adelia... — Hannibal a chamou antes que o abandonasse no quarto. Ele ainda trajava o velho roupão puído. Os olhos dela brilharam em contraste com a luz fraca do ambiente. Havia uma curiosidade e ansiedade neles, realmente a jovialidade que ela transbordava.
— Sim, Hannibal? — Ela achou que seria bom dizer-lhe o nome, como ele o fez.
— Eu posso te ensinar a ler, se quiser. — Novamente ele viu o rubor cobrir o rosto dela, acentuados pela luz. — Veja isso como uma forma de agradecimento.
A oportunidade lhe batia a porta, seria correto permiti-la entrar? Ela voltaria em outra ocasião? Adelia teve certeza de que Hannibal não se ofereceria novamente. Sorriu para ele, agradecida.
— Seria bem legal, Hannibal. Boa noite. — Dito isso, ela fechou a porta para deixá-lo descansar. As peças de cama que trocara ela ajeitou nos braços e desceu com elas.
O sofá lhe serviria essa noite e ela se acomodou sobre ele, acostumada com o estofado há muito perdido. Não havia televisão com a qual pudesse se distrair, portanto Adelia fechou os olhos. Viu-se com um livro na mão, lendo a história para Hannibal em perfeito vocabulário e sorriu tanto no sonho como no presente, levando-a a receber um peteleco na testa.
— Qual é a causa desse sorriso bobo, Adelia? — Billy interrogou próximo do rosto dela, dificultando uma visão clara. — Cadê o cara, já foi embora?
— Não... — Ela sentou-se, dando espaço para Billy. — Está no meu quarto.
— Puta que pariu, como assim tá no seu quarto? Você deu sua cama para ele? — A raiva dele não era fictícia, era muito palpável. — Adelia, você já se ligou no fato de que é uma mulher e mulheres não fazem gentilezas a homens?!
— Essas são as mulheres da sua cabeça, Billy. E quem foi que disse que mulheres não podem ser gentis com homens?
— Porque eu sou homem e sei o que se passa na cabeça deles, porra. — Billy não acreditava que estava tendo aquela conversa com Adelia. — Eu não precisaria pagar esse mico se você tivesse um pouco de bom senso. Vá lá em cima e enxote ele.
— Eu deveria enxotar você. — Adelia jogou as cobertas para o lado e foi para a cozinha com Billy em seu encalço. — Fiquei esperando você, onde esteve?
— Trabalhando, ué. — Billy sentou-se à mesa, suas costas doíam de tanto carregar peças pesadas na oficina. — Aquele velho miserável acha que sou burro de carga e fica me mandando pegar aquelas peças. Por isso que ele me aceitou de primeira.
— Não reclame tanto. — Adelia depositou um prato de sopa na frente de Billy. — Hannibal parece melhor.
— Hannibal? Que diabos de nome é esse? — Algumas gotas de comida escapavam com a fala de Billy. — Bom, pelo menos você não vai bancar a babá por muito tempo.
Adelia revirou os olhos, apoiando o queixo na mão. Billy era sempre arrogante quando se tratava dela e mais uma pessoa envolvida que não fosse ele, às vezes sentia-se irritada por tanto zelo e machismo. Teve ímpetos de contar a Billy o que Hannibal propora, contudo preferiu manter-se quieta. Não queria dar ainda mais corda para que ele reclamasse. Fez um café amargo e sentaram-se a porta de casa, observando a rua deserta e de pouca iluminação.
— Isso aqui foi esquecido por Deus. — Billy comentou, olhando para o céu, além de onde seus olhos alcançavam. Sabia que Adelia falaria algo como “não fale assim, Deus olha por nós”, contudo ela não o fez. — Um dia, vamos morar em um lugar melhor. Você e eu.
— Você e eu? — Adelia empurrou-o com o ombro, divertida. — Acho que sempre seremos nós dois, certo?
— Qual o problema? — Ele reclamou novamente, passando o braço pelos ombros dela e a puxando para perto. Adelia não se afastou, depositando a caneca no chão.
— Nenhum, é claro. — Ela riu. — Mas primeiro nós temos muito a fazer antes de pensar tão alto. — Billy a soltou, incomodado. — Nós nunca fomos à escola, Billy, como espera conquistar espaço sem estrutura alguma?
— Do jeito que fala, parece que você foi para a escola. — Embora chateado com o que Adelia revelara, havia uma verdade profunda e sentida. — Fala sério, somos mesmo esquecidos.
— Não diria esquecidos, diria... — Adelia guardou quietude, pensando. — Postos a prova.
— Já que é assim, reze para o seu Deus e diga a ele que estou cansado de provas. — Billy se levantou, começando a caminhar para casa a vinte passos dali.
Adelia contemplou as costas de Billy, vendo-o carregar todos os sonhos por aonde ia. Pensou se um dia ele teria paciência, se algum dia os realizaria e queria estar perto dele quando isso acontecesse. Terminou de tomar o café à porta, e quando entrou encontrou Hannibal Lecter parado no meio da sala. Ele escutara o que diziam e sentiu-se totalmente exposta, sem lugar para se esconder e fugir. E talvez ela não precisasse.
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