Notas iniciais
Bom dia! Fico muito agradecida pelos comentários e pelo carinho com a história e comigo, espero que a ela continue agradando vocês. Agradeço a Ana por estar me ajudando na correção dos capítulos. Desejo uma boa leitura a todos!

Billy O’Brian, de fato, iria acabar morto por acatar tudo que Adelia dizia. De manhã, antes de o sol nascer, ela foi até a sua casa e o importunou, pedindo algumas peças de roupas emprestadas para Hannibal Lecter, alegando que as dele não secariam antes das duas horas da tarde. Embora ralhasse muito e tivesse dito não várias vezes, acabou cedendo uma calça jeans e uma camisa, que acabaram ficando mais apresentáveis em Hannibal do que nele. Aquilo feriu seu ego, vendo-o com indigestão.

O que havia de estranho com ele? Quando se olhava no espelho, via um rapaz de cabelos pretos e olhos azuis, corpo forte e moldado, tudo bem comportado em seus 1,75 de altura. Então, como em Hannibal poderia ficar melhor? Ele, um homem que aparentava quarenta anos de idade e que já possuía fios brancos no cabelo e barba? De repente pegou-se querendo ter uma parcela da boa aparência dele, até mesmo de sua posição. O que o acalentava era ver que Adelia o tratava como um homem comum, sequer o desprezando quando estavam juntos. Tudo o que fazia o incluía, como se somente existisse os dois, como antes de Hannibal ser encontrado por ela. E ele era extremamente agradecido por isso.

Mesmo assim, ver Hannibal com suas roupas feriu-lhe mais do que um soco, embora não devesse, já que quem usava roupas emprestadas era o próprio Hannibal. Tentou ver a situação como engraçada, mas durou pouco. Encontravam-se os dois a sós na cozinha de Adelia, esperando-a voltar do rio e Billy sentiu a garganta apertar por não ter o que falar. Não que estivesse intimidado, ele apenas não queria se esforçar para um relacionamento amigável. Avaliou-o: os ferimentos demorariam a se curar, ou seja, demoraria também para deixar Adelia em paz. Bufou, ele gostaria de soltar um bom xingamento agora.

— Você tem planos bem ambiciosos, Billy. — Hannibal iniciou o diálogo, mirado-o com atenção. Por um segundo, sentiu-se imerso em seu consultório em Maryland e a sensação foi ao mesmo tempo agradável e desconcertante. Ele havia perdido aquilo também. — Ouvi sua conversa com Adelia ontem à noite.

— E por que tava ouvindo? — A hostilidade se fez presente na voz de Billy, que apoiou o braço no encosto da cadeira. — Alguém ferido deveria estar descansando.

— Estou ferido e não morto. — Hannibal rebateu, inclinando-se para frente. — Se continuar a ter esse comportamento, Adelia vai preferir viver sozinha.

— O que quer dizer com isso? — As sobrancelhas grossas de Billy se franziram, zangado pelo modo como Hannibal apresentava suas ideias.

— Você quer que as coisas mudem, mas não faz nada para isso. As coisas não caem do céu, Billy, é preciso lutar por elas.

— Acha que não estou?! — Os olhos azuis de O’Brian faiscaram fúria, destinadas ao psiquiatra. — Você acabou de chegar e já sai dizendo sobre as pessoas sem as conhecer, se eu estivesse em seu lugar faria questão de ficar totalmente na minha.

— É da minha natureza observar e interpretar as pessoas, Billy. — Hannibal demorou-se em pronunciar o nome do rapaz. — Faz parte do que eu sou. E eu vejo o que você tanto tenta esconder, apenas Adelia não percebe.

— Escuta, cara, guarde isso para você. Não me faça gostar ainda menos de você. Se te aceito aqui é por causa dela, só isso. Não somos obrigados a conversar.

— Você estaria sendo rude e isso para um homem afasta qualquer tentativa de um bom relacionamento, ainda mais no seu caso.

Billy crispou os lábios, mordendo-os para não dizer algo ofensivo. Não queria que Adelia visse que estava tratando-o mal, contudo, não podia ouvir todas aquelas suposições sem se defender. O jeito seguro com que Hannibal o analisava, deixava-o com raiva por saber que tudo era verdade. Billy nunca fora desvendado por ninguém e agora um estranho o fizera com louvor. Ele gostava de Adelia, não... O sentimento que nutria por ela avançava o gostar, ele a amava e gostava do modo de poder ficar perto dela sem ter aquele clima esquisito, sem que ela soubesse e gostaria que assim continuasse. Hannibal chegara e ameaçava a estabilidade dos dois.

— Você já tentou jogar essa análise para cima de você mesmo? — Billy disse entre dentes, comportando-se em respeito à Adelia. — Acha que conseguiria se desvendar tão bem? Pois eu duvido, cara.

— Eu me conheço e sei o que quero fazer da minha vida. Não fique aborrecido, você ainda é jovem e tem muito que aprender antes de tomar decisões.

— Pra mim já deu, que cacete! — Billy se levantou, a presença de Hannibal fazendo seu sangue correr nas veias. Suava e tremiae optou porver se Adelia precisava de alguma coisa.

Do alto do morro ele pôde vê-la se empenhando em tornar as roupas de Hannibal próprias para o uso novamente. A água batia em suas coxas, reluzindo a pele que, por mais que ela ficasse horas no sol, apresentava pouca coloração; o vestido suspenso um pouco abaixo da cintura, uma alça pendida dos ombros... Adelia era bonita e não se dava conta de que com um olhar poderia seduzir qualquer homem e ele tivera e infelicidade de cair nos encantos dela. Sorriu, apreciando-a sem que ela o visse, contemplando os cabelos ruivos e cacheados presos no alto da cabeça para não atrapalhá-la.

Vez ou outra limpava o suor e molhava o rosto, refrescando-se e ele não sabia até quando conseguiria guardar o seu segredo. Que não era mais tão seu, agora que Hannibal descobrira. Billy fechou as mãos, as unhas machucando de leve as palmas. Definitivamente, ele precisava esquecer que Hannibal podia lê-lo minuciosamente.

—Billy! — Adelia acenou para ele, sorrindo às margens do rio Patapsco e toda a raiva se esvaiu.

Billy desceu o morro, impulsionado pela vontade de senti-la mais perto e parou apenas quando as mãos dela se projetaram em seu peito, impedindo-o de beijá-la. Ele tentara beijá-la daquela forma uma vez, há anos e havia entendido que Adelia pensava nele de maneira diferente, contudo, algo se agitava dentro dele naquele momento. Ele a queria.

Levou uma das mãos à cintura de Adelia, fechando os dedos na pele macia por baixo do tecido. O corpo dela naturalmente o rejeitava, não porque ele não a atraía, mas porque a forçava. Olhou para ela, constatando o quanto Adelia se mostrava assustada com sua atitude.

Rapidamente ela se ergueu, ajustando o comprimento do vestido. As mãos tremiam e o coração palpitava feito louco dentro do peito, seu cérebro lhe dando informação para correr para longe. Contudo, seus pés pareciam presos ao chão por algo que ela não podia ver e um par de lágrimas escorreu por seu rosto. Ela não reconhecia Billy, manchando a imagem que mantinha dele. Ao dar um passo para trás, Adelia tropeçou e teria caído se Billy não estivesse atento.

— Me solte. — Adelia pediu, a voz falhando miseravelmente. Ela não queria estar se comportando como uma garota que nunca tivera contato mais profundo com um homem, mas ninguém poderia culpá-la por sê-lo.

— Adelia...

— Tudo bem, Billy, só... Quero que me solte.

Ele a atendeu e não ousou segurá-la quando Adelia lhe deu as costas, subindo o morro com as peças de Hannibal na mão. Ele a magoara sem intenção e tudo por culpa das palavras daquele homem. Erguendo os olhos, ele viu Adelia chegando à casa e falando algo com Hannibal, fazendo um gesto displicente. Presenciou quando Adelia escondeu uma mecha de cabelo atrás da orelha e entrou. Estava na hora de ir trabalhar.

Adelia passou por Hannibal depressa, indo para a parte detrás da casa. A pintura nas paredes dizia a idade de quando fora construída, algo perto dos anos setenta, e não seria surpresa ver que carecia de atenção. Talvez, quando juntasse dinheiro suficiente, a reformaria. Por enquanto ela teria que olhá-la e achá-la bonita, mesmo que não fosse. Jogou a calça de Hannibal nos ombros enquanto estendia a blusa de material caro e de costura forte, usando pregadores para segurá-las. Em seguida pendurou a calça, mantendo-se de costas para ocultar as lágrimas que desciam envergonhadas.

Jamais um homem se aproximara tanto, jamais uma respiração a perturbara, jamais seu coração palpitara apreensivo com alguém. E Billy desencadeou todas essas emoções dentro dela, que explodiam para fora. Ela gostava de Billy, porém, não com a mesma intensidade que ele gostava dela; achou que mostrara verdadeiramente o quanto o queria bem e como amigo, mas parecia que não fora o suficiente. Talvez devesse se afastar, dar um tempo até que os pensamentos do amigo se organizassem.

— Adelia... — Hannibal chegou manso, não queria assustá-la e acabar com a oportunidade de ela lhe confidenciar o que a afligia.

— Eu preciso ir à cidade, você vai ficar bem sozinho? — Ela se voltou para ele, os olhos um pouco vermelhos e molhados. Mesmo assim, o sorriso lhe enfeitava os lábios. — Vai ser rápido. Aqui do lado mora o Keith, ele pode te dar uma força.

— Você se preocupa bastante com as pessoas. — Não foi uma pergunta, Hannibal afirmava. — É uma característica boa e ruim. Boa porque isso te faz uma pessoa empática, ruim porque pode não obter nada em troca.

— Não ajo assim para obter algo em troca, eu sou assim, Hannibal.— Pela primeira vez, Adelia notou o tom irritado na própria voz. Contudo, não se preocupou em se desculpar daquela vez. — Daqui a pouco você vai poder usar suas roupas, me desculpe. Eu não demoro.

Adelia se dirigiu para o quarto, pegando o dinheiro dentro da cômoda, porém, antes de sair ela deu uma olhada: a cama estava perfeitamente alinhada e seu quarto nunca pareceu tão vivo e altivo. Hannibal Lecter estava se tornando parte daquela casa e ela não queria se ver sentindo sua falta quando ele fosse embora. Agitou a cabeça para espantar tais pensamentos e logo já se encontrava na porta, chinelos devidamente calçados. Por mais que gostasse de sentir o chão sob os pés, ela achou que não seria uma boa ideia continuar assim.

— Eu já volto.

Hannibal apenas concordou, vendo-a se distanciar. Os cabelos esvoaçando assim como o vestido de tecido leve. Olhando a casa, Hannibal não podia deixar de notar que faltava uma refeição decente. E ele iria providenciar.

~*~

— Quem está na sua casa? — Uma senhora de idade interrogou Adelia ao vê-la passar, correndo para alcançá-la. — Vejo que até fez compras. Deve ser alguém especial.

Adelia fixou os olhos na senhora, vendo toda curiosidade transbordar dos olhos pequenos. O ruim de morar em um bairro pequeno é que todo mundo sabia de todo mundo e, caso ainda não soubessem, procurariam descobrir para contar. Ela não achava graça em comentar a vida alheia e nem lhe apetecia deixá-las a par do que acontecia na sua privacidade. Formulou várias respostas, mas todas Adelia achou indecente demais. E ela jamais destrataria alguém que tivesse idade avançada.

Apenas desviou, tentando continuar o caminho para casa, mas a senhora se pôs entre ela novamente. O sorriso que ela deixava à mostra indicava poucos dentes, mas afiados e ávidos por qualquer coisa que pudesse sair dizendo. Adelia poderia inventar qualquer coisa e ela acreditaria, mas o problema era que ela não fazia ideia do quê. Não tinha o dom para mentiras e ficaria óbvio que não queria partilhar nada de sua vida pessoal, ou seja, uma ofensa aos moradores daquele bairro em Chesapeake.

— Meu tio, Jack. Ele está com problemas e veio passar uns tempos. — Adelia disse a primeira coisa que lhe abateu, e se empenhou em continuar. A mão enrugada lhe segurou o braço.

— Pensei que não tinha família. — A mulher alfinetou, capturando a mentira no ar.

— Me desculpe, mas a senhora deveria cuidar da própria vida e deixar a dos outros em paz. Não interessa quem está na minha casa, nada tem a ver com a senhora. — Adelia tremia, sentindo o coração socar seu peito como esmurros. — Me dê licença.

— Menina mal criada.

Adelia ouviu-a resmungar enquanto seguia depressa. Sua casa ficava há alguns metros à frente, mas nunca lhe pareceu tão longe como agora. Era natural que perguntassem por sua família, afinal, o único parente que todos viram foi sua mãe e infelizmente, ela morrera, abandonando-a naquele mundo grande e hostil. Já seu pai, desde que se conhecia por gente, não tinha lembrança alguma dele, sequer nome ou rosto. Para ela, ele era um fantasma, alguém que sua mãe não queria que fizesse parte de sua vida. E ela se via satisfeita com aquele cuidado, pois confiava em sua mãe e não a questionava, embora alegasse que teria sido bom conhecê-lo.

Em todo caso, ela espantou a dúvida que a mulher plantou em sua mente e se apressou para casa. Ao abrir a porta, um cheiro delicioso de carne e batatas lhe arrebatou as narinas e ela quase deixou as sacolas caírem. Cogitou se não tinha entrado na casa errada, mas ao ver Hannibal vir a seu encontro e pegar as sacolas de suas mãos, ela já não sentia mais o chão. Deixou que ele a conduzisse para a cozinha e viu o banquete que ele havia montado. Tudo estava bem preparado, apetitoso e Adelia não se recordava de já ter visto algo parecido em sua casa.

— Acho que não... — Ela balbuciou, distraída. Então, uma questão a confundiu, impedindo-a de se sentar. — Onde foi que conseguiu tudo isso?

— Você disse para eu pedir ajuda a Keith.

Adelia não aceitou de imediato. Hannibal queria mostrar gratidão, mas não estava conseguindo com graça e louros. Algo dentro dela, no fundo de sua mente, gritava para que ela repensasse o convite. Por outro lado, se não se sentasse e comesse, seria uma grande desfeita. Devagar, ela acomodou-se à mesa enquanto Hannibal lhe servia, acompanhando os movimentos do anfitrião.

Hannibal colocou no prato da moça a melhor parte da carne, assim deveria fazer aquele que preparou o banquete, um gesto de cortesia. Em sua mente podia escutar a voz de um dos criados de Lady Murasaki ao ensiná-lo a assar um peixe. Sorriu para Adelia, que retribuiu com um gesto ameno.

A moça aguardou por Billy, a fim de não partilhar da refeição sozinha, achando extremamente errado, mas era de se esperar que ele não viesse depois do que partilharam às margens do rio Patapsco. Sendo assim, Hannibal acomodou-se à mesa, de frente para ela, pegando o garfo e faca. Adelia ficou alguns segundos o observando cortar a carne com maestria e levá-la à boca, aprovando o gosto e textura. Logo, os olhos castanhos de Hannibal recaíram sobre ela, indagativos.

Receosa, Adelia pegou os talheres e imitou Hannibal, que lhe sorriu amistoso. A carne derretia em sua boca, inundando seu paladar. Hannibal cozinhava maravilhosamente bem, imaginou qual seria sua profissão. Seria educado perguntar naquele momento? Elevou os olhos ao homem, optando por se manter quieta e apreciar a refeição. Era como se Hannibal agradecesse por não ter falado nada, ela teria sua oportunidade.

Ao terminarem a refeição, Adelia lavou a louça e separou um pouco para Billy. Ele poderia não ter vindo, mas ainda assim, pensava nele. Cobriu o prato com um pano e calçou os chinelos, caminhando os vinte passos até a casa do amigo. Bateu de leve na porta, notando as luzes apagadas. Talvez ele não tivesse voltado, afinal, não passava das oito horas da noite. O poste piscou, lutando para manter a lâmpada funcionando, mas acabou por se desligar. Às vezes Billy tinha razão: aquele lugar fora esquecido, por todos.

— Adelia? —Billy parou longe dela, todavia, dava para vê-la. Á meia luz, ele se arrependeu amargamente por perceber, a beleza natural de Adelia se acentuava. Sua mente pensava nela mais tempo que deveria.

— Boa noite. — Ela sorriu, varrendo o chão rapidamente com os olhos antes de encará-lo. — Trouxe a sua janta, ainda está quente. — Estendeu o prato para ele e aguardou.

Cauteloso, Billy tomou o prato das mãos dela, evitando encostar sequer um dedo em Adelia. O que ele fizera mais cedo ainda o mutilava, era como se a tivesse machucado de alguma maneira. Mas ali se encontrava Adelia, tratando-o como antes.

—Valeu.

— Tudo bem. — Adelia achou que era sua vez de falar alguma coisa. — Sobre mais cedo, Billy, quero que não se preocupe. Está tudo bem.

— Droga, não me faça pedir desculpas de novo! — Sempre que Billy ficava nervoso, a voz se alterava e o vocabulário mudava. — Cacete, eu passei dos limites e prometo que não farei mais.

— Já disse que está tudo bem. — Adelia ergueu a mão para tocá-lo, mas parou a meio gesto. Não estava realmente tudo bem. — Entre e descanse.

— Eu gosto de você, Adelia. — Billy a alcançou antes que ela se afastasse. Os olhos castanhos pairaram sobre os seus azuis, em uma conversa mutua. Não sabia por que decidira confessar aquilo justamente naquele momento, mas não poderia tragar as palavras e escondê-las.

— Sei disso, Billy. Agora eu sei disso. — Foi tudo o que Adelia proferiu aquela noite.

Notas finais
Eu acho lindo essa imagem antes do capítulo, que agora quero colocar em todas as minhas futuras fics! Agradeço por ler e pelo seu tempo, deixe sua crítica construtiva, onde devo melhorar, estou sempre aberta a opiniões de vocês. Neste vimos mais um pouquinho sobre Billy, me digam o que acharam dele. Beijos!