E Eu sou o Amor da Sua Vida?
12 Isso não deixa de ser problema meu
Notas iniciais
Mika
Qual era o problema com o Armin? O que ele estava sentindo desde que leu aquele bilhete que é mais simples que suspirar? Seja o que for que ele esteja sentindo, se for ciúmes que ele não saiba que eu estava sentindo ciúmes por Éponine estar com Victor.
O que quer que seja que Armin esteja sentindo desde que leu aquele simples bilhete está me incomodando; assim como Éponine estar ficando com Victor também estar me incomodando; deixando-me sem ter como agir.
Primeiro Armin estava de boa comigo, me machucou na maior alegria e felicidade, depois ele não está mais de boa comigo, briga comigo e ainda pega as minhas coisas. Parei por um instante para pensar, eu deixei algo á mais naquela bolsa; carta, mensagem... Como eu não pude perceber isso? O que eu estou pensando? No que eu estou focando?
Em Victor.
Esse é um problema, é um problema meu. Não deixa de ser problema meu. Isso é um problema que eu quero resolver. Eu na verdade estava gamada nele e ele está com outra, justamente com Éponine; se fosse até Déia ou Simone seria incrivelmente mais doloroso, pois Éponine é uma puta com P maior. Ma, havia problemas que mereciam um pouquinho mais da minha atenção. Uma delas era enquanto andava pelas ruas já movimentadas de Paris, mandar mensagens para Françoise para ele marcar a tour para minha turma de calouros para mercredi, que é quarta-feira, eu esperava mesmo que ele marcasse em um dia diferente do Cainan, porque eu e ele ultimamente apresentávamos Paris juntos, mas só que agora, não era possível continuarmos em um tour juntos, eu não queria mais. Não quero que Victor me veja perto dele, eu quero dar aquele calouro à certeza de que Cainan nunca tocaria em mim e que não me machucaria, mesmo que ele tenha pedido desculpas, a cena não foi boa. Caminhar e mandar mensagens são atividades perigosas em qualquer país, você pode ser roubado, ameaçado, cair, se machucar, mas naquela manhã no dormitório eu estava á mil; Sem Cainan, com Armin, conheci Victor, ignorei Kathy, odeio Éponine... Eu estou confusa, eu estou uma pilha de nervos. Tinha que ser um mês diferente, um ano diferente, diferente, depois daqueles socos, depois daquela escapada e parar no quarto de um calouro, tinha de ser diferente. Respiro mais tranquila e fundo quando vejo ao longe a Catedral; digamos que ali me sinto bem, eu me encanto para esquecer os desencantos.
O que era bem fácil por hora por que Paris é encantadora, mas ao mesmo tempo joga na sua cara que sua vida poderia ser melhor, mas você não faz nada para mudar. A Catedral de Notre Dame é a vista mais bela de Paris. Torre Eiffel? A vista mais iluminada, mais a Catedral é a mais bela; quando me trouxeram aqui pela primeira vez, eu fiquei de boca aberta o passeio inteiro, me perdi ali dentro, não se perder do grupo, mais me perdi naquele paraíso, pelo estilo gótico, uma das mais antigas catedrais francesas nesse estilo e a mais famosa; dedicada á Maria, Mãe de Jesus Cristo, cada detalhe surpreende, a Basílica de Sacré-Coeur, ou Basílica do Sagrado Coração, é linda também, uma basílica, uma catedral, tudo totalmente de deixar a boca aberta. Mas para chegar lá é preciso pegar metro, e ainda por cima precisa andar dois quarteirões e subir uma colina, eu não tenho lá muita disposição para andar e subir colinas, ainda tinha que voltar para pegar minha bolsa, marcar a tour, ir trabalhar e sei lá mais o que; eu estava com certeza atarefada, deixei a biblioteca nacional com Armin bravo comigo, e fui andando para a igreja, deixando minha bolsa com ele. Pensei em dar meia volta e pegar a bolsa de volta, mas eu estaria mais atrasada do que eu planejava, na verdade eu não planejo chegar atrasada nos lugares, apenas quero chegar lá, chegar, rezar e voltar. Mas eu estava preocupada, preocupada por eu não ter visto Cainan, preocupada por Victor ter se atrevido á ir me chamar de noite e de Cainan chamar a atenção dele. Cada passo era uma agonia, cada passo era uma pontada e uma facada no um coração, eu o deixei sozinho, eu devia ter pedido para Kathy vigiá-lo; é só questão de acreditar e confiar. Acreditar que ele vai se virar sozinho e confiar que ninguém, incluindo Cainan irá tocar nele. 07h25min, 50 minutos até a igreja, estou á pé, eu estou sozinha, estou preocupada, chateada, confusa com Armin e triste. Então eu comecei á andar, a missa era ás 08h30min, eu chegaria lá á tempo, eu simplesmente não gosto de andar sozinha, mas não quero voltar atrás para pedir a companhia de Armin que estava tão bravo comigo Deus sabe lá porque e nem entrar no dormitório para chamar Victor para ir comigo, mas havia o risco de eu encontrar com Cainan e era uma coisa que no momento eu não queria; ele me encheria de perguntas que eu não saberia responder ou talvez não quisesse.
Eu ando perto do Rio Sena, lembrando de como eu andava com o Cainan na beirada do rio trocando abraços, beijos, carinhos, mas nunca, absolutamente nunca trocar juras de amor; até que por um lado isso é bom, poderia fazer isso com Victor; poderia fazer qualquer coisa com ele, sair com ele, cuidar dele, ser a responsável dele; além de já ser, ser altamente mais cuidadosa, aquilo me deixava muito mais do que feliz, me deixava completamente esperançosa enquanto eu andava pela via Quai d’Austerlitz pensando em quais seriam os pontos turísticos em que eu levaria os alunos do quarto andar; todo ano nos levam-nos mesmos lugares e eu adoraria levá-los em lugares diferentes, estava me referindo á Victor, claro, eu nem sequer pensei nos outros alunos. Mas, se eu vou levar um andar inteiro, eu não quero só levá-los á lugares imperdíveis como impensáveis; pensei primeiramente na Torre Eiffel, porque infelizmente do dormitório e nem da escola é possível enxergar a Torre; mas da Catedral é possível; fazer um passeio e um cruzeiro no Rio Sena, ir ao Moulin Rouge, talvez, porque as apresentações forem longas não dará; corta Moulin Rouge. Tem a Catedral de Notre Dame; podemos ir à Basílica de Sacré-Coeur, visitar o Museu do Louvre, visitar o: Arco do Triunfo, as Catacumbas de Paris, Museu do Louvre, Jardim de Luxemburgo...
Quando eu cheguei á Catedral estava em cima da hora, com toda a certeza; não importa quantas vezes eu venha aqui, eu sempre vou andar de boca aberta admirada com a arquitetura dela, encantada com o ambiente, com tudo que há nela. Quando me sentei no último banco para ouvir participar da missa, e ficar remoendo dentro de mim o porquê eu não o deixei vir comigo. Quando eu venho participar de uma missa, eu sempre venho com um sorriso e permaneço com o mesmo até o fim do dia, mais hoje; essa missa parecia estar me fazendo ver todos os meus erros, tudo o que eu podia ter feito e não fiz, como trazer Victor comigo. Eu precisava falar com alguém, qualquer um. Contar dessa minha trágica vida, mas não. Eu não podia contar para qualquer um, eu sou uma monitora; eu sou uma intercambista eu...
Sou uma completa idiota, gostar de alguém que está com outra pessoa; que não fará nada pior que você, que tem uma completa liberdade que você não tem. Sendo ainda mais nova que você. Com quem você vai competir? Com Éponine Waters. Uma garota de cabelos longos, brilhantes, castanhos escuros tão atraentes, um sorriso encantador, simplesmente tudo o que um cara gostaria, tanto um cara , um homem quanto um garoto, um menino; ela tem papo, sabe se entrosar com todo mundo enquanto eu, além de ter que ser séria sou tímida, muito boba e além de tudo muito da sem graça; como é que eu fui me envolver com Cainan? E eu me pergunto isso todos os dias, quase toda hora e todo o segundo, ele é o tipo de rapaz que gosta de interagir, sair, passear e eu adoro ficar em casa, sou muito preguiçosa. Ou talvez seja porque eu seja muito ocupada viva correndo de um lado para o outro. Trabalhe, estude, cuide dos outros, e seja completamente frágil em quase tudo que eu faço, mas isso não deixa de me fazer pensar o motivo de “Porque Cainan se interessou em mim? Por mim?” Eu não tenho nada de mais. E se eu continuar pensando nisso nem Victor vai me achar fantástica. Mesmo que ele não ache, preciso encantar. Ele já está perto de mim isso ajuda muito, mas, estar perto é o suficiente?
Eu congelei no banco, era segunda e logo daria 9horas, outra missa iria começar e eu estava lá parada, eu olhei em volta e vi que havia pessoas saindo, pessoas entrando da Catedral, felizes, encantadas, mas para mim era um momento tão forte, além de estar me sentindo vazia, sozinha, eu estava preocupada, estava apaixonada; eu queria tanto ficar com aquele menino que chegava á doer. Eu abaixei minha cabeça contendo derramar lágrimas para não borrar minha maquiagem, eu só queria ficar com ele, eu só queria abraçá-lo, e mesmo que isso foi estranho conhecer alguém e já querer ficar com ela o resto da vida. Aprendi que Deus tem a pessoa certa para cada um de nós e sinto que ele é o cara mais do que certo para mim; mas eu sinto, eu senti com Cainan; no final eu poderia ser uma garota que quer casar com um monte de caras.
Para de surtar!
—Srta. Sales! Senhorita Mikaele Sales! – O Padre Leandro me chamou alegre uns três bancos atrás de mim; eu me virei feliz, porque ele era um dos poucos padres, poucos únicos, que fala português, ele é tão brasileiro quanto eu mas, sabe como é né? Ser mandado em missões ás vezes os deixam longe de suas casas, nos conhecemos aqui e quando literalmente eu estava desesperada era com ele que eu vinha e ainda venho conversar. – Como é bom te ver aqui minha jovem. – Eu dei um sorriso aliviado, não iria chorar. Levantei-me do banco indo na direção dele, ela devia ter uns 40 e poucos anos, mas ele era muito bom, carinhoso e acho que ele se sentia excluído pelos outros padres, então por isso companhias brasileiras eram calorosas, boas e bem vindas. Eu o abracei com todo o carinho que eu podia, eu sei como é s sentir excluído. – Em que missa estava indo? Como você está? Porque não te vi esse fim de semana?
—Sempre na das 08h30min, ás vezes 09h00min, ou ás 12h00min; sempre aqui. – Eu dei um sorriso, ele devolveu o sorriso, na verdade eu precisava parecer feliz. – É a mais perto...
—Quase uma hora.
—Me acostumei. Como o senhor está?
—Estou bem, graças á Deus. – Ele parou um instante. – O que foi isso na testa?
—Eu bati a cabeça na cabeceira da cama, foi meio estranho por que... – Hesitei. – Eu sou desastrada.
—Está difícil no colégio, no dormitório? – Acenei positivamente.
—Mas, quanto mais difícil for sua recompensa será mais gratificante. – Acenei. – E como está com Cainan?
Foi aí que a conversa ficou mais difícil, eu odeio mesmo falar de Cainan quando eu não estou de bem com ele, eu faço de tudo para parecer bem com ele, porque o Padre Leandro falou que iria nos casar. No dia eu fiquei tão feliz, eu e ele planejamos tanta coisa, depois que ele falou aquilo, planejamos cada detalhe, cada enfeite, tudo, como se fossemos casar no dia seguinte, mas havia algumas intrigas.
—Estamos bem.
Lógico, bem. Eu estava aflita, afoita, estranha, com uma aceleração no peito algo como ansiedade, uma sensação ruim; o por quê? Porque exatamente eu não sei, mas fiquei tão agitada que eu comecei á ficar com dor de cabeça. Preciso de um curativo de um remédio para dor.
Dei uma enrolada na conversa com o Padre e disse que eu precisava trabalhar o que não era mentira, já que eu dei minhas coisas com Armin contra minha vontade; falei que tentaria trazer Cainan para ele vê-lo antes de começar as aulas, pedi para ele ter paciência com todo mundo, mesmo que se sentisse excluído, ele não estava sozinho. Eu fui para biblioteca, eu ia voltar andando de novo, mas como eu estava cansada eu fui de metro, minhas pernas doíam, minha testa doía, minha cabeça doía e principalmente a minha consciência doía. Eu sabia que estava com problemas com Armin; quando se vai de metro da Catedral até a Biblioteca tem que descer e do mesmo jeito ir andando até lá e no momento minha maior preocupação era essa, era ele. Assim que eu entrei na biblioteca fui procurando por um platinado com piercings e talvez arrumando uma estante de livros. Revirei a biblioteca com o olhar, não tinha muita gente, então devia estar fácil de achar. Caminhei revirando os olhos pela biblioteca caminhando em direção á sala dos funcionários, que era uma sala escondia perto da sala dos estoques, ela é enorme, há colchonetes, armários com cadeado, é a sala em que às vezes distribuímos o que vamos fazer naquele dia no trabalho. É onde com certeza Armin teria colocado minha bolsa; quando me aproximei da porta ouvir alguns barulhos dentro da sala, não barulhos quais queres, era gemidos, gemidos sendo abafados, junto com baques nas paredes e nos armários; não era possível que alguém estava fazendo sexo ali dentro... Pensando bem, afastados de tudo e de todos, era possível sim; respirei fundo e com cuidado e silêncio para não ser notada abri a porta e observei a cena toda, sem pronunciar uma só palavra, eu queria ver aquela cena, mas eu travei e fechei a porta com cuidado. E fiquei encostada nela paralisada, com a boca aberta, era algo que eu não pensaria em ver naquele dia, nem naquele mês, nem aquele ano, nem por um tempo, não ver, não ver nunca mais. Eu estava chocada porque quando você está preocupada com uma coisa, e vê outra coisa que te impressiona e te deixa de boca aberta te deixa paralisada, você precisa se acalmar.
Digamos que o ritmo estava tão bom que não deu para ouvirem a porta se abrindo. Não a abri devagar, ela fez um barulho na verdade pareceu que eu não fui sequer notada, eu foquei aquela cena na minha cabeça com a porta meio aberta atrás e mim para mais ninguém entrar; difícil não acreditar que era Katherynne, a gauchinha da Kathy; ela estava com as costas na parede, encurralada pelo meu cunhado, irmão do Cainan, Matheus que a segurava com uma mão em sua cintura e com a outra na sua bunda, eles estavam colados, pressionados, se descabelando, Kathy... Impossível continuar descrevendo ela colocando a mão naquele lugar em especial dele... Eles estavam se divertindo dando uma de safados ( o que eles eram mesmo) Oh meu Deus do Céu! A mão que segurava a cintura dela subiu até a sua nuca enroscando em seus cabelos, vorazmente, com vontade, com desejo, eles mordiam os lábios um do outro, parecia que eles não precisavam respirar, aliás, esfregando-se com força encostando um no membro do outro, sem mais nem menos; podia haver uma multidão ali, eles continuariam dando o seu show.
Será que Victor me daria ter uma sensação dessas? Faria isso comigo desse jeito? Será que se...
—KURZ! – Berrei os assustando e minha voz invadiu todo o ambiente, mais não os fazendo se separarem, ela só me olhou com um sorriso safado, riu para mim, e continuou agarrada nele e ele nela. Eu fiquei olhando eles dois uma brecha dos dedos para poder os observar e lembrar... Que quando uma de nós pegava a outra com o seu Sr. Silva a outra devia ser melhor e mais safada, menos formal; claro que eu e Cainan não éramos loucos e ousados como aquele casal ali, mas tínhamos carinho... TÍNHAMOS. Fechei os olhos sem graça, era algo bem fofo e lindo de se fazer com o Cainan, mas depois de ontem duvido que ele queira fazer algo comigo como daquele jeito; Não duvido, na verdade não sei. – O que é que vocês estão fazendo aqui? Vocês dois? Aqui dentro? Como conseguiram entrar bem aqui dentro? Porque você não está no dormitório? – Apontei para Kathy que passou uma mecha do cabelo para trás. – E Porque você não está trabalhando? – Apontei para Matheus, eles riram para mim.
Matheus não é um cara de muitas palavras, ao menos não comigo, não mais, antes éramos, ele sempre foi bem vestido, com roupas realmente estilosas, fazia tanto tempo que eu não via ele, na verdade eu apenas o via quando havia um encontro de casais e nós juntávamos alguns casais e passeávamos pelas ruas de Paris á noite. Era algo bem... Legal...
Nunca mais vou conseguir fazer isso de novo, sair com ele, com Cainan, sendo que eu gostaria muito mais de sair com Victor do que com qualquer outra pessoa. Eu estou com um problema muito sério gostando daquele menino que está com Éponine, isso só me deixa com a auto-estima baixa, porque entre eu e Éponine, ele preferia Éponine; eu nasci completamente no ano errado, se tivesse nascido no ano certo, eu teria a idade dele e seria completamente mais proveitoso para mim, para ele, para nós. Tudo o que eu precisava tudo o que nós precisávamos; eu não sei se ele precisava mas eu já estava quase ajoelhando aos pés dele pedindo para que ele me desse uma chance, ou duas.
—Eu vim procurar você e por sorte Téo estava aqui. – Respondeu Kathy abraçando Matheus, eu me aproximei deles e os separei com o braço sem parecer grossa; rolou um climão. – Armin tinha me dado sua mochila para eu guardar e...
—Isso foi antes ou depois de você tentar ou colocar a mão dentro das calças dele? – Ela riu.
—Antes né? Então ficamos aqui. – Peguei minha bolsa no armário e a abrir pegando a parte de cima do uniforme que se usa na biblioteca junto com o meu crachá, mandei minhas duas mensagens para colocarem minha turma de tour na quarta feira fechei a mochila e guardei ela no armário, pisquei.
—Cadê o Armin? – Kathy apontou para baixou. – No estoque, pediu para você ir lá depois. – Acenei positivamente.
—Agora se retirem, por favor, e me dêem a chave que ele deu para vocês. – Pedi segurando a maçaneta da porta e com a mão fazendo o sinal para que eles saíssem, eles sorriram para mim e Matheus encochou Kathy na minha frente, segurando na sua cintura com força e saindo da sala sorrindo; juro que eu não precisava ver aquilo; mesmo que se fosse eu e aquele calouro, hãn seria outra história, com certeza melhor do que agora. – Eu espero te encontrar no dormitório quando
Eu tinha duas opções ou ia ao estoque ver o que Armin queria e acabar com esse mistério todo, ou começava o meu trabalho. Eu optei em ir te o quadro e ver o que me designaram á fazer hoje.
...
Arrumar os livros que deixaram nas mesas; eu ri, adoro isso, nossa, como eu adoro. Literalmente eu adoro isso, e nem tem sido tão difícil fazer isso porque desde que a Biblioteca nacional começou á oferecer um aplicativo para tablets Gallica iPad e Android’s que é um aplicativo que pode ser baixado gratuitamente na App Store e Google Play, fornecendo acesso a quase 2 milhões de documentos, principalmente a partir das coleções da Biblioteca em si; no caso o aplicativo permite que eles procurem dentro de todos os livros digitalizados cada documento e podem baixar-lo na íntegra ou em parte: o usuário pode facilmente construir e enriquecer a sua própria biblioteca. No caso, eles usam mais os aplicativos do que os próprios livros, menos mal para nós que temos que recolher e colocar os livros no seu devido lugar. E era de manhã, não havia tantos livros á se recolher. Eu gosto de trabalhar com os registros, tanto com os livros que saem da biblioteca quanto aos que entram na biblioteca; é algo rápido e interessante, você conversa, você interage, você simplesmente, esquece de muita coisa fazendo isso.
Mesmo eu amar mexer com livros, abrir-los cheirar-los, abraçá-los e admirar-los, eu estava infeliz, eu estava triste, eu estava... Estava me sentindo inferior; eu quem sempre preferia Simone para arrumar o meu cabelo do que Éponine e agora parece que aos encantos e mãos daquela louca eu perdi aquele menino. Eu nunca fiquei assim, repensando na minha vida amorosa. Entre aspas eu tinha talvez algo com Cainan, eu só não tinha certeza, talvez sim, talvez não, se fosse um não, eu tinha uma esperança de me encontrar com “Antonie”, ele mesmo sendo um doce, amargo e azedo ainda estava no dormitório, temos a mesma idade e há um Armin ciumento. Mas há um calouro novinho, um menino recém chegado á Paris que não sabe de muita coisa, mas aparentemente sabe beijar, sabe conquistar, sabe encantar, sabe ser um fofo...
Eu estava apoiada sobre a mesa, sentada em uma cadeira, com duas pilhas de livros na minha frente, uma com vinte livros e outra com trezes e sabe? Há uma grande diferença, que chega á ser engraçada, a pilha que tem 20 livros, todos os com cerca de 300 folhas tem quase o mesmo tamanho da que tem 13. Ou seja, números não significam nada, eu ficar com Victor é questão de coragem, coloquei a mão na pilha menor para organizá-la e guardar-la quando de repente tocaram a minha mão.
Se há algo que me gela é tocarem na minha mão do nada quando está tudo quieto e algo me toca, eu tenho medo de fantasmas e assombrações. Levantei a cabeça assustada e vi uma imagem diferente da qual eu já tinha visto. Olhos castanhos, pele parda, escura por tomar muito sol, um sorriso perfeito, correção, bonito, não zoado nem separado pequenos ou quebrados, bonito, belo de se admirar.
—Mikaele...
—Guilherme... O. o que está fazendo aqui?
—Nossa que jeito de recepcionar não só um leitor, como um ator, como seu cunhado. – Ele sorriu, Guilherme é o irmão mais velho do Matheus e do Cainan, ele tem seus belos 25 anos, ele já é um homem de estrutura média, com uma barba rala, possuí os olhos mais claros que os dos irmãos dele e é magro; claro que atores são bem magros (creio que ele seja uma exceção para ser totalmente magro desde antes de ser ator) e como ele está nesse ramo á um bom tempo...
Eu estava sendo observada por aqueles olhos mortais, igual á de seus irmãos, com a exceção de ser mais claro, aquilo não era um “observada” qualquer e nem ruim, porque quem observa outra pessoa não deixa com que ela perceba, faz tudo ás escondidas, com um cuidado para não ser notado e com certeza não daria “sorrisos” á quem está observando.
—Digo por quê... – Engoli secamente. – Você mora á umas sete horas de Paris. – Guilherme riu, só falta Cainan ter ligado para ele reclamando que eu o machuquei, comecei á tremer, mantive a calma, ele não faria isso; ou faria? Faria dependendo da resposta dele.
—Eu sei... – Ficou em silêncio, me levantei da cadeira para começar a pegar os livros. – Mas, a Bibliothèque nationale de France fica no caminho para o dormitório do colégio Depardieu. Gostaria de uma carona? – Eu gelei, Cainan fofocou para ele; bem para ele, com um diploma, com notas exemplares e invejáveis? Um ator, diretor, roteirista, cineasta, produtor, coreógrafo, um ganhador de troféus, logo com ele que poderia ajudar á me tirar desse mundo do cinema?
Eu fiquei em silêncio pegando alguns livros nos braços. Acalmando-me e pensando nas desculpas que eu falaria caso ele perguntasse por que eu fiz o que fiz com o irmãozinho querido dele.
—Eu tenho que recolher os livros e colocá-los na estante. – Fui sincera. – Eu já cheguei atrasada. – Ele se sentou em uma cadeira perto da qual eu estava.
— Eu espero, seria muita ignorância minha não dar uma carona para a minha cunhada. – Meu rosto queimou. – Eu espero.
—Obrigada. – Afinal ele estava me oferecendo carona, e meus pés estavam doendo.
Então fui guardando os livros, organizando os que estavam em lugar errado, Kathy, Téo e Gui se encontraram e ficaram conversando, até fiquei mais aliviada porque, eu poderia ir ver o que Armin queria o que ele tinha. Quando terminei eu desci até o estoque e fui rápida porque eu odeio ser surpreendida. Como sempre havia quilos e quilos de caixas ainda fechadas e livros novos, uns nas estantes, vários no chão, alguns fechados, poucos abertos, e nenhum sinal daquele platinado.
—Armin? – O chamei em tom moderado, não sabia quantas pessoas estavam ali em baixo.
—Oui? – Ele estava do meu lado, eu me assustei e arfei surpresa. Fiquei um instante parada, respirando fundo pelo susto. – Eu te assustei?
—Talvez... – Naquele dia, o estoque estava cheio e como fazia um tempo que não foi limpado, meu nariz começou á coçar, me deu alergia e a luzes deixavam o ambiente apertado, que fosse ou agora ou nunca mais. – Porque queria me ver?
—Eu? Logo eu te ver? Não sei se você percebeu, mas se eu não te acompanhei hoje significa que eu não quero te ver. – Fiquei quieta. – Você me magoou você recebeu um bilhete e guardou e quando eu te mandei umas cartas...
—Armin; você está com ciúmes? – Perguntei no tom mais tranquilo que podia manter em minha garganta. – Quer que eu lhe explique porque fiquei com o bilhete?
—Não precisa explicar, eu sei. O fato de você ter rasgado os meus para Cainan não ver e não se livrar daquele é que me incomoda.
—Isso não faz sentido sabia? – Quando falei isso alguém tampou meus olhos e apertou a minha garganta, ouvi Armin dar um riso abafado. Não era um assalto, não era um seqüestro, porque ele não fez absolutamente nada, então era alguém que eu conheci, eu fiquei mais tranquila. – Quem é?
— A escorpiana que sabe o que quer leal, muito ciumenta, sexy, paz e amor, enigmática, determinada, manipuladora e a mais inteligente que você já viu. – Por Deus...
—Niedja? – As mãos saíram do meu pescoço e ela se virou para mim, era aquela moça de cabelos cacheados castanhos claros super belos com um nariz bem feito, magra e mais alta que eu, quem não é mais magra que eu? Namorada de Gui, do mesmo ano do Cainan, uma das minhas concunhadas favoritas, no caso só tenho dois cunhados, então Kathy e Niedja são minhas duas concunhadas encantadoras.
O que eu posso dizer dela? Ela é de Pernambuco e veio para França no ano seguinte que eu vim para cá; ela e Cainan se tornaram bons amigos com uma coisa á mais; Niedja gosta de mexer com signos, gosta de fazer uma consulta astral para quem está preocupado, não como cigana, mas como curiosa, ela e Guilherme se conheceram assim que Kathy me conheceu e junto com Cainan e o grupo da escola passeamos pelas Catacumbas de Paris. Ele apareceu lá porque ia apresentar no Moulin Rouge um musical, Niedja se apaixonou por ele e entre perdeu seu namorado para Éponine, Déia não achou ruim perder para Niedja, aliás, ela é uma pernambucana linda, fala bem e não é como Déia no quesito de ser exigente, ela não achou ruim. Eles dois tem sete anos de diferença, mas estão juntos, tanto que ela passou o final do ano em Bordeaux com ele, não me perguntem fazendo o que, porém entre Gui e Nie sendo sete anos de diferença e eu e Victor sendo apenas cinco anos não é nada.
—Que saudades. – Nos abraçamos e eu olhei para Armin. – Você combinou isso?
—Entre partes.. – Ele riu. – Mas sim, eu tenho ciúmes de você.
—Câncer faz um bom par com peixes. – Ela me empurrou para cima de Armin.
—Niedja! Sou sua concunhada! Namorada do Cainan lembra?
—Aquele leonino? – Ela ergueu uma sobrancelha. – Eu vejo nos seus olhos, o seu coração não é mais dele; aconteceu alguma coisa na transação do ano passado para esse. – Ela mantinha um sorriso no rosto e Armin me abraçava, eu mexi os ombros com aquela situação.
—Rowell... – Ele riu e me soltou. Ela tinha razão nessa parte, eu conheci o garoto mais encantador do mundo. – Nie isso não deixa de me fazer ser namorada dele. – Armin riu.
—Uns dois socos na cara fazem. – Niedja abriu a boca animada.
—Me conta tudo.
—Eu vou para o dormitório agora, eu tenho que organizar meu andar; então; deixem-me sair primeiro para fofocar... – Eles sorriram animados. Eu dei aquele suspiro quando sai da sala do estoque, droga Niedja para de dar razão ao meu coração, tenho que dar razão ao cérebro e não ao coração. Eu ainda fiquei um tempão no balcão da biblioteca organizando os manuscritos por computador e para a minha surpresa Guilherme ainda estava me esperando quando peguei meu celular para verificar se receberam a minha mensagem, ele veio até o balcão.
—Está quase na hora do déjeuner e você precisa comer, Cainan me mataria se eu não cuidasse bem da futura noiva dele. – Dei um sorriso sem graça
—Sério, eu tenho que ir para o dormitório.
—Então vamos ué. – Ele pegou esse sotaque nordestino eu quis rir, mas me contive. – Vou pegar o carro, te espero em dez minutos. Foi o tempo de eu bater meu cartão, avisar ao Armin e á Niedja, tirar o uniforme guardá-lo e sair. A rua estava movimentada como sempre e fiquei esperando Guilherme, ele ia fazer uma cena lá; eu já imaginava, porque ele já não brigava comigo agora?
Ele parou o carro um pouco distante de mim abrindo a janela ele sorriu e eu devolvi o sorriso, incrível que com a pessoa que você tem menos contado você conseguir se interagir mais. A porta do passageiro abriu, entrei, sentei, coloquei o cinto e senti aquele cheiro de lavanda, era novo, só podia né? Enquanto ele dirigia atento notei que o banco de trás estava repleto de livros, cadernos, uma bolsa e a duvida me consumiu.
—Quanto material de estudo.
—Sim; acreditaria se eu dissesse que me chamaram ás pressas para ser professor de francês do quarto ano? – Gelei e ao mesmo tempo fiquei chateada, eu não daria aula ao quarto ano? Eu não daria aula para Victor? Sério que eles fizeram isso comigo? – Eu e Cainan vamos nos divertir bastante. – Putz; ele não contou...
—Aan... Guilherme, ele e eu trocamos. – O carro deu uma freada mordi os lábios e com o impacto eles sangraram. – Ele disse que o quarto ano seria mais tranquilo para mim por que...
—Ele trocou com você e não me avisou? – Porque ele avisaria? – Poxa... Vamos ter que dividir o ensino.
—Isso é ruim?
—Eu gostaria de fazer isso como meu irmão, assim como eu dei aula para ele eu queria dar aula com ele. – Eu fiquei quieta, eu não sabia se o que eu iria falar iria agradá-lo, talvez aceitar uma carona fosse arriscado demais, por isso ele saiu de Bordeaux para vir para Paris? Bom, ao menos ele não ligaria tanto se ele olhasse a maquiagem roxa no rosto dele.
Não costuma demorar tanto para ir da biblioteca para o dormitório, no máximo dez minutos, mas demorou, pedi para descer do carro e fui correndo para o dormitório, de mochila de lado, casaco pesado e tudo mais, menos a touca, eu estava com pressa, primeiro que quem devia apresentar o professor era eu, segundo pelo tour, terceiro, eu queria ver Victor, nem que fosse de longe entrar no quarto dele de novo, um abraço, eu estava obsessiva por ele. Eu fiz força para empurrar a porta central do hall de entrada do dormitório, estava com o cabelo cheio de neve e estava cansada de tanto correr.
—Marcou?
—O que?
—A tour dos alunos do 4º andar.
—Então, isso tinha que ser marcado pessoalmente, o 1 º,2 º, 3 º, 5 º, 6 º e 7 º andar já marcaram, como semana que vem começam as aulas, o único dia disponível pára você fazer uma tour será dia 26 segunda-feira. – Françoise me respondeu asperamente, eu abri a boca e bati a mão no balcão com raiva, cruzei os braços e fiquei ali esperando Guilherme.
Que droga viu? Como Kathy disse, eu devia ter ido cedo. Havia uma população de alunos no hall de entrada, com certeza esperando para irem fazer o curso de francês, eu quem deveria apresentar o Guilherme á eles, e pelo visto tentar arrumar a data de fazer o tour por Paris, dia 26 é na outra semana e não vou agüentar para fazer isso. Foi então que eu o vi, fiquei paralisada e me arrepiei por inteiro. Foi aí que Guilherme triscou em mim e a magia se desfez, eu não era mais a princesa com coroa no salão de dança com o príncipe do outro lado.
—Sim?
—Me apresente aos calouros do 4º andar. A primeira aula você pode assistir.
Tinha como não ficar animada? Desde que ele não encontrasse com Cainan hoje, estava de boa para mim.
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