Dunkelheit: Dark Humans
8 Swords of Light
Notas iniciais
Capítulo 8: Espadas de Luz
It's just a game, not a war
(Feel the drums and they hum so loud
Shooting guns from a one-man crowd)
We cannot gain as we lose more
(No fun and no love and not proud
What they've done to a lover's home town)
Aomine ainda estava em estado de choque. Mas quem não ficaria assim, se seu melhor amigo fosse sequestrado? E não apenas seu amigo. Seu Elo. A Rainha havia percebido aquilo antes mesmo de o próprio Aomine perceber, e isso o deixava furioso. Desde quando ela os espionava, e o quanto sabia sobre eles?
Não que isso fosse realmente importante para ele no momento: a única coisa em sua cabeça era Kise. Não saber como ele estava consumia Aomine pouco a pouco, enquanto observava a tripulação conversando intensamente, sentado no convés. Depois de um tempo, ele percebeu que Momoi havia se sentado ao seu lado, mas não olhou para ela.
– Dai-chan? – ela o chamou.
– Agora não, Satsuki – ele disse, desanimado. Ele sempre foi preguiçoso, mas sua voz soou estranha até mesmo para ele. – Não estou a fim de conversar.
Ela pareceu triste, mas não insistiu. Aomine sentiu vontade de se bater por dentro, como pode falar daquele jeito com Momoi? Mas então se lembrava de Kise. O seu Kise. O loiro de olhos dourados que o seguia para todo lado, tentando ser forte como ele. E o seu Elo, que havia perdido antes mesmo de reconhecer.
Ele respirou fundo e enterrou a cabeça nas mãos. Não era do tipo de fazer estratégias e pensar muito, preferia quebrar tudo que estivesse em seu caminho. Mas não podia sair quebrando as coisas para salvar Kise, não adiantaria de nada. Só lhe restava esperar que seus amigos terminassem de discutir sobre o que fazer. Kuroko havia dito que dezenas de guardas da Rainha haviam abordado ele e Kise quando estavam indo vender as mercadorias, e os espancaram. Kuroko teve apenas ferimentos leves, mas Kise foi levado pelos guardas. Eles retiraram a adaga do cinto de Kise, jogaram-na para Kuroko e mandaram que ele a entregasse para Aomine.
O moreno suspirou, sentindo-se derrotado. Cansado de ficar sentado, Aomine se levantou e foi até a cabine principal. Passou por marinheiros e piratas assustados, conversando baixo, preocupados. Antes mesmo de chegar à sala, ele pode ouvir as discussões e os gritos.
– Em hipótese alguma! – ele ouviu Nijimura gritar, assim que abriu a porta. Momoi estava atrás de si, e deu um pulo ao ouvir o grito do capitão.
– Isso é ridículo! – discutiu Midorima. – Não me deixou ir atrás de Takao. Eu compreendi. Mas Kise? Vai abandoná-lo?
– O que?! – exclamou o de cabelos azuis, e as pessoas na sala pareceram notá-lo pela primeira vez. – Não vai fazer nada sobre o Kise?
O capitão hesitou ao ver os olhos cheios de raiva de Aomine. Momoi se mexeu inquieta atrás dele, pronta para controlá-lo caso a Sombra tentasse assumir o controle. Percebendo o que estava fazendo, Aomine tentou se controlar. Mas era difícil, só o pensamento de abandonar Kise o deixava com vontade de partir o navio ao meio.
– Eu não disse isso – respondeu Nijimura, olhando para Midorima. – Eu disse que não podemos ir até o castelo. É o que ela quer. Sair em uma busca louca e desesperada não vai ajudar ninguém.
Midorima estava estranhamente descontrolado. Talvez estivesse assim desde o desaparecimento de seu Elo, mas Aomine não havia notado. Ele sentiu simpatia pelo amigo, apesar de não se darem muito bem. Afinal, ele sabia exatamente como o outro se sentia.
– O que sugere então, capitão? – perguntou Momoi.
– Eu não sei! – ele exclamou, frustrado. – Estou tentando pensar! Mas as coisas estão saindo de controle – ele olhou para a mesa à sua frente. – Quem eu estou tentando enganar?
A última frase soou baixa e desesperada, e todos na sala ficaram em silêncio. Aomine fechou a porta, não querendo que ninguém os atrapalhasse, e olhou para o capitão. Ele se sentou em sua cadeira, e apoiou a cabeça nas mãos.
– Quando montei esse grupo, não pensei muito nas consequencias – ele admitiu. – Eu queria ajudar as pessoas. Sentia raiva vendo a realeza se esbaldando em comida e bebida enquanto algumas pessoas comem areia para sobreviver. Quando descobri que era um Miracle, decidi que não ficaria mais parado – ele olhou para os outros na sala. – Então encontrei vocês. E formamos a Teiko. Parece até coisa de super-heróis de desenhos infantis. Usamos nossos poderes para salvar o mundo. Crianças de 15, 16 e 17 anos enfrentando a capital, e roubando-os. Como fui idiota.
– Não fale assim – interrompeu-o Akashi, que estivera apoiado na parede até aquele momento, sem se pronunciar. – Você é um excelente capitão.
– Obrigado, Akashi, mas não é verdade. A Rainha esteve nos manipulando esse tempo todo – ele deu uma risadinha triste. – Realmente acreditamos que estávamos vencendo, mas sempre foi mentira. Estivemos brincando de piratas esse tempo todo. E agora a Rainha se cansou, e quer seus brinquedos de volta – ele ficou sério. – Ela está planejando alguma coisa. Por que nos deixar roubar durante todos esses anos? E por que ela começou a sequestrar as pessoas seis meses antes de o torneio começar?
– O Torneio começa mais cedo este ano – concordou Midorima. – É realmente estranho. Eu até entendo que ela tenha sequestrado Takao para me atrair. Mas, se ela queria fazer isso, não era mais fácil nos sequestrar nas outras chances?
– Ela está fazendo um jogo de emoções – disse Momoi. – Ela quer que nos desesperemos.
– Sim, mas por quê? – disse Nijimura, a ninguém em particular. – É como se ela estivesse...
Mas, antes que ele terminasse, um telefone tocou. Todos estremeceram, levando um susto, e olharam ao redor em busca da origem do som. Então Aomine percebeu que era o seu celular que tocava, e o puxou do bolso rapidamente.
– Meus deuses – ele disse, tremendo. – É o Kise.
Momoi arregalou os olhos, e os outros o olharam com interesse.
– Atenda – disse Nijimura.
Aomine engoliu em seco, antes de aceitar a chamada. Colocou o telefone no ouvido, apreensivo, e escutou.
– Kise? – ele perguntou, finalmente.
– Ponha no vivo a voz – ordenou uma voz poderosa, autoritária, e feminina. E ele soube na hora quem era.
A Rainha em pessoa.
Com o coração disparado, ele afastou o telefone do ouvido. Olhou para os amigos, e murmurou “a Rainha”, fazendo todos perderem o fôlego. Ligou o vivo a voz, e colocou o telefone sobre a mesa do Nijimura.
– Pronto – ele disse, alto o suficiente para que ela ouvisse.
– Ora, ora – ele ouviu-a dizer, e seus amigos estremeceram. – Estão todos aí? O capitão idiota e seu imediato psicopata também?
– Sim – respondeu Nijimura, olhando para Akashi, que havia empalidecido visivelmente. Aomine perguntou por que ela o havia chamado de psicopata. O que ele havia feito? – Estão todos os generais da Teiko. Quem é você?
– Você sabe a resposta – ela riu, mas era uma risada maligna e fria. – Deveriam se sentir honrados. Não é todo dia que recebem uma ligação da Rainha.
– O que você fez com o Kise, sua vadia?! – berrou Aomine, prestes a se descontrolar. Não iria aguentar aquela ladainha por muito tempo.
– Que mal educado – ela disse, parecendo se divertir. – Não é assim que se fala com uma dama.
– Dai-chan, controle-se – disse Momoi, encarando-o. – Pedimos desculpas, Vossa Majestade.
Ela fez uma careta ao dizer aquilo, mas estava com medo de que algo acontecesse a Kise se fossem rudes. Aomine entendeu, e decidiu se controlar mais.
– Muito melhor. Garotas sempre são mais inteligentes – Aomine pode ouvir o sorriso na voz dela. – Muito bem, vamos aos negócios.
Todos ficaram tensos. Até mesmo Kuroko parecia ansioso, e isso não melhorava o clima da sala.
– Eu não sei o que vocês estão pensando – ela começou. – Mas não podem me enfrentar. Se eu disse venham, então vocês vem. Já seqüestrei os Elos de três de vocês, e ninguém veio até mim – o tom dela se tornou ameaçador. – Acham que estou de brincadeira?
Silêncio. Ninguém ousava respirar, e Nijimura estava suando. Aomine ficou ainda mais confuso. Três Elos? Ele sabia de Kise e do Elo de Midorima, mas quem era o terceiro?
– Eu não blefo – ela continuou. – Se acham que eu sequestro as pessoas para ser boazinha com elas, estão muito enganados. Eu sou a Rainha. Meu dever é ser honesta, e é isso que eu faço. Mas parece que vocês, ou pelo menos seu capitão, não entenderam isso. Então liguei pensando – uma pausa. – Acho que vocês precisam de uma demonstração.
Mais silêncio, e ela colocou o telefone de Kise em modo vivo a voz também. Aomine podia ouvir os sons ao redor dela. Passos. Vozes. E aquilo era... Ferro batendo em ferro?
– Fale algo para seus amigos – eles ouviram-na falar novamente. – Eles devem estar com saudades.
Aomine sentiu que ia explodir, pois sabia com quem ela estava falando.
– Kise! – ele gritou. – Kise, você está bem?
– Aominecchi? – sim, era a voz dele! – Eu... Eles me acorrentaram... – ele soluçava. – Aominecchi, socorro...
Aomine então sentiu medo. Muito medo. Estavam machucando o seu Elo. Seu coração parecia prestes a se romper a qualquer momento, e ele não conseguia respirar. Seus amigos estavam em estado semelhante, Nijimura se agarrava à mesa com força, encarando o celular, e Momoi havia se apoiado na parede para não cair.
– Ah, que bonitinho – A Rainha falou. – Estão ouvindo isso? Ele está com medo. E sabe por quê? – a voz dela estava mais próxima do telefone. – Por que ele sabe que vai sofrer por culpa de vocês.
Um arrepio percorreu o corpo de Aomine, e ela se afastou do telefone novamente.
– Os ferros estão prontos? – ela perguntou a alguém. Aomine ouviu uma resposta abafada. – Ótimo. Está pronto, Ryouta-chan?
– O que você vai fazer? – eles ouviram Kise choramingar. – Não, por favor...
– Pare! – Aomine sabia o que era aquilo. – Pare, eu faço o que você quiser!
– Deveriam ter feito isso quando eu seqüestrei o primeiro Elo – ela disse, friamente. – Agora é tarde demais. Seu precioso Kise vai sofrer.
– Não há necessidade disso – tentou dialogar Nijimura, ainda apavorado.
– E não desliguem o celular – ela ignorou-o. – Se fizerem isso, eu mato o loirinho na hora. E os outros dois também. Vocês vão ouvir até o fim.
E então Kise gritou. Foi um grito muito alto, que cortou o silêncio da sala. Momoi gritou junto, começando a chorar, mas Aomine não conseguia se mexer. Kise gritou de novo, e os olhos de Kuroko se arregalaram, enchendo-se de água. Estavam marcando Kise com ferros em brasa, Aomine sabia. Já havia se queimado, e a dor era insuportável. Não podia nem imaginar pelo que Kise estava passando.
Mais um grito. Midorima havia empalidecido, e caiu de joelhos. Devia estar imaginando o que fariam com Takao. Aomine sentiu seu coração se partir pouco a pouco, cada grito arrancando um pedaço de sua alma. E eles não paravam.
Ele também caiu de joelhos em algum momento, e sentiu as lágrimas escorrerem por sua face. Quando aquilo teria fim?
Depois do que pareceu uma eternidade, os gritos pararam. Eles ainda podiam ouvir Kise chorando e soluçando, mas ele havia parado de gritar. Aomine estava ainda em choque, e não se levantou.
– E então, gostaram do show? – disse a Rainha, parecendo estar se divertindo.
– Seu monstro! – berrou Momoi. – Monstro!
– Até você está sendo rude, querida? – ela estalou a língua. – É isso que acontece quando se convive muito com meninos.
– O que você quer? – disse Nijimura. Ele também tinha lágrimas no rosto.
– Que pergunta boba! Eu não quero nada. Só queria mostrar o que acontece com quem me desafia – ela parou. – Estou esperando você, Daiki-chan. Seu Ryouta-chan também está.
E com isso, ela desligou o telefone, e a sala ficou em silêncio novamente, exceto pelos soluços de Momoi. Aomine olhou para o capitão, mas nem precisou pedir.
– Vá – ele disse, caindo na cadeira, exausto. – Vá atrás dele. Eu não posso negar isso a você agora.
– Capitão... – Aomine se ergueu. Agora que havia visto do que a Rainha era capaz, tudo o que ele queria era ir atrás de Kise, mas sabia que havia mais coisas em jogo. – Deve haver alguma coisa que possamos fazer...
– Não há nada! – ele gritou, e Aomine recuou, assustado. – Vocês não entenderam? Acabou! Nós perdemos! – ele estava chorando. – Eu perdi. A culpa de tudo isso é minha. Onde queríamos chegar? Somos crianças! Não temos a menos chance! – ele encarou Aomine. – Vá atrás dele, Daiki. Não abandone seu Elo, como eu fiz. Ou você vai se arrepender pelo resto de sua vida.
Aomine o encarou, chocado.
– Vá! – gritou o capitão novamente, e Aomine correu para fora da cabine.
Momoi o seguiu até o seu quarto. Ele abriu uma mala, e começou a jogar suas roupas dentro, sem se importar de verdade com o que estava levando.
– Dai-chan – ela o chamou. – Você vai mesmo atrás do Kise?
– Eu não tenho escolha – ele disse. – Você viu do que a Rainha é capaz.
– Eu sei – ela ainda tinha lágrimas nos olhos. – Eu queria ir junto.
– Não – ele fechou a mala, e se virou para ela. – Você fica aqui, em segurança. Eu não quero ter que me preocupar com duas pessoas sendo torturadas.
Eles pararam, e se encararam por um momento. Ele se lembrou do momento em que ela o acalmou, levando-o para uma praça da cidade. Ela havia tentado lutar contra ele, e eles haviam se divertido. Fora há apenas algumas horas, mas pareciam dias.
– Satsuki, me desculpe – ele sorriu. – Acho que não vou poder te ensinar a lutar.
Ela não sorriu de volta. Abraçou o próprio corpo, tentando visivelmente segurar o choro.
– Daiki – Aomine se surpreendeu ao ouvir o próprio nome. Ela nunca o chamava pelo primeiro nome. – Tome cuidado.
– Vou tomar – ele então tomou coragem para fazer algo que sempre teve vontade. Puxou-a para um abraço, e ela retribuiu imediatamente. Sentiram o calor de seus corpos juntos, as lágrimas que derrubaram pela mesma pessoa, as lembranças que partilhavam.
Infelizmente, tiveram que se separar. Aomine ainda sorria quando pegou a mala, e saiu do quarto. Porém, assim que chegou à porta, Momoi o chamou novamente.
– Daiki – ele parou e se virou para ela. – Você me perguntou se eu sentia ciúmes de você ou do Kise – ela sorriu. – A resposta é... De você.
E com isso, Aomine teve mais uma fonte de energia. Com a imagem do sorriso da garota em sua mente, ele partiu do navio. Os tripulantes olhavam para ele com expressões tristes, provavelmente tendo ouvido a conversa na cabine. Enquanto ele atravessava o convés, eles retiraram os chapéus, e ergueram as espadas para o céu.
Aomine não estava sozinho, nem Kise. Nunca estariam. Com esse pensamento, ele entrou em um pequeno barco, e partiu em direção a terra.
Momoi caminhou apressadamente até a cabine do capitão. Entrou sem pedir licença, e fechou a porta atrás de si. Nijimura conversava com Akashi, ambos tensos e preocupados.
– Shuuzou – ela chamou o capitão pelo primeiro nome. Não fazia aquilo na frente de ninguém, pois poucos sabiam de sua intimidade, e era melhor assim. O capitão tinha que parecer forte e maduro. – Aonde estamos indo?
– Tirando suas próprias conclusões? – ele olhou para ela, erguendo uma sobrancelha. – Aomine já se foi?
– Acabou de ir embora – ela disse, magoada. Ainda via o rapaz de cabelos azuis saindo pela porta do quarto, carregando sua mala. – O que vai fazer, já que obviamente não está preocupado com a sua tripulação.
– Não seja injusta – ele franziu as sobrancelhas. – Eu me preocupo muito. Mas Kise não é a tripulação inteira. Eu tenho que pensar em todos.
– E é isso que está fazendo, parado aqui conversando?
– Estávamos discutindo qual seria a melhor decisão a tomar agora – Akashi falou pela primeira vez. – A Rainha claramente sabe de todos os nossos planos e movimentos. Fomos tolos em pensar que não estávamos sendo observados.
– Isso eu já percebi. Mas o que faremos então? Ficaremos parados aqui, até que ela decida nos atacar e levar todos para o mesmo destino de Kise?
– Acalme-se, Satsuki.
– Não vou me acalmar. Meus melhores amigos foram levados pela Rainha, e estamos muito perto de fazer o mesmo!
– Ninguém vai ser levado – Nijimura se levantou, sério. – A Rainha não sabe tudo sobre nós.
Momoi parou, esperando que ele continuasse. Vendo que ela não iria mais falar (por enquanto, pelo menos), ele continuou.
– Tem um lugar que ela não conhece – ele circulou a mesa, caminhando lentamente. – Um lugar que somente três pessoas conhecem, e eu sou uma delas. É uma caverna, onde podemos esconder o navio e toda a tripulação.
– E por que ela não saberia da existência desse lugar? Ela sabe de tudo – Momoi disse, descrente.
– Como eu disse, somente três pessoas conhecem esse lugar. Não é algo da tripulação, é um lugar pessoal, então não há como ela saber.
Satsuki se acalmou um pouco. Nijimura parecia convincente, e talvez fosse uma opção.
– Você sempre escondeu esse lugar – ela comentou.
– Não com esse objetivo. Era apenas uma caverna especial para mim. Eu a descobri quando criança, com meu melhor amigo e o homem que se tornou meu Elo.
Momoi não fez comentários sobre isso. Ela não sabia quem era aquela pessoa, mas já havia ouvido falar que Nijimura um dia teve um Elo, que morreu de maneira trágica. O capitão nunca falava daquele assunto, e ninguém tinha coragem de perguntar.
– A Rainha, mesmo que saiba desse lugar, nunca irá pensar que fomos para lá – ele terminou. – É seguro.
– E se ela descobrir? – pressionou Akashi.
– Shuuzou tem razão – Momoi concordou. – É o lugar mais seguro que temos. Qualquer outro local será muito mais óbvio. Pelo menos, essa caverna é uma solução imediata. Podemos procurar outros locais depois, talvez até tentarmos sair da colônia, mas nesse momento temos que pensar rápido. Não temos uma opção melhor.
– A essa hora da madrugada, acontece o efeito Névoa – Nijimura disse. – Seremos encobertos por ela, e dificilmente seremos rastreados. A Rainha não saberá nem a direção que tomaremos.
– Podemos nos assegurar disso indo em uma direção contrária à caverna, e quando adentrarmos a Névoa, alteramos nosso curso para ela – Akashi sugeriu, aceitando a local.
– Ótima ideia. Fale com a tripulação e os navegadores, e mande traçarem a rota no mapa. É tão fácil despistar alguém quanto é se perder, dentro da Névoa.
Ele anotou as coordenadas da caverna em um papel, e o entregou para Akashi. O rapaz saiu da cabine, apressado, deixando Momoi sozinha com Nijimura. Ele suspirou, cansado, e sentou-se na cadeira novamente.
– Eu lamento muito, Satsuki – ele disse. – Eu não queria que nada disso tivesse acontecido. Se eu fosse um capitão melhor...
– Não diga isso – ela se sentou sobre a mesa. – Você fez o seu melhor. Somos todos crianças aqui – ela riu, amargamente. – Temos quatorze anos. Quatorze. Somos completas crianças.
– Mas temos um navio e uma tripulação.
– Só por que somos altos e Miracles, então eles nos seguem. Acreditam em nós. Mas a verdade é que estamos assustados e perdidos. Todos nós, não só você.
– Mas sou o capitão, é meu dever guiá-los.
– E você fez isso maravilhosamente – ela sorriu, dessa vez sinceramente. – Nunca teríamos ajudado tantas pessoas, nem feito nada disso sem você. Me desculpe por tê-lo pressionado.
– Não é necessário se desculpar.
Ele sorriram um para o outro, e Momoi sentiu seu coração mais leve. Apesar de ainda estar triste por Aomine e Kise, talvez houvesse uma maneira de salvar o resto da tripulação, e até mesmo conseguissem salvá-los depois. Tudo ficaria bem, enquanto estivessem unidos.
Pelo menos, era o que ela desejava. Mas, ao olhar o rapaz cansado à sua frente, e relembrar a voz cruel e a astúcia da Rainha, seu coração se encheu de dúvida. Algo a atormentava, uma sensação de que havia algo errado naquela história. Aquele era seu dom como Miracle: ela sentia, sabia, analisava. E sua Sombra lhe dizia que alguém estava escondendo alguma coisa. Como uma analista nata, Momoi sabia que qualquer detalhe omitido ou mentido afetava todo um plano ou conclusão. Se alguém não estava sendo totalmente honesto, então a operação estava em jogo. A vida da tripulação toda estava.
Ela continuou a pensar no que poderia estar errado. Levantou-se da mesa, e Nijimura a olhou com curiosidade.
– Vou para o meu quarto – ela disse.
– Tudo bem – ele acenou.
Ela se retirou, pensativa. Podia usar seu dom para meditar por longos períodos de tempo, e analisar todas as informações que seu cérebro recolhera: conversas, palavras, tudo que ela havia visto, ouvido e tocado. Ela podia juntar tudo como um quebra-cabeça, até encontrar a peça defeituosa.
Entrou em seu quarto e sentou-se em sua cama. Podia sentir o navio começar a se mover, e sabia que não teria muito tempo, por isso logo começou a meditar, desejando que a resposta logo viesse. Repassou rapidamente, com seu dom, as conversas que haviam tido desde que o jovem chamado Takao havia sido sequestrado. Ninguém havia dito nada suspeito, pelo menos nem tanto. A conversa mais importante fora a com a Rainha, em que ela dissera que havia sequestrado três pessoas para afetá-los.
Será que o problema estava aí? Sabiam que Midorima fora um dos afetados, e Aomine fora o outro. Havia mais alguém? Sua Sombra a disse para analisar todos os Miracles da tripulação. Ela não era, tinha certeza (é óbvio). Kuroko não podia ser, ele não tinha Elos. Passava quase todo o tempo no navio, então seu Elo só poderia ser alguém da tripulação, mas ninguém fora sequestrado. Havia uma mínima possibilidade de ele ter tido alguma relação com alguém da cidade, mas seria muito difícil, pois era ela a parceira dele nos dias em que iam vender seus produtos.
Certo, Kuroko tinha que ficar de lado no momento. Momoi pensou no próximo. Murasakibara com certeza não era, e não somente por que era difícil imaginá-lo com um Elo, mas por que também ele nunca saia do navio. Na verdade, ele ficava trancado no porão o tempo todo, por causa de alguns... Problemas. Ou seja, se por algum milagre ele tivesse um Elo, seria alguém da tripulação, e ninguém havia sido sequestrado.
Então restavam apenas Nijimura e Akashi. O Elo de Nijimura havia morrido, então não podia ser ele. Seria... Akashi? Momoi franziu a testa. Akashi era frio e calculista, não gostava de se relacionar com as pessoas, e só falava com Nijimura. Porém, ele era a única opção restante. Faria sentido que ele estivesse escondendo seu Elo, mas ainda era uma ideia estranha de aceitar.
Sua Sombra a cutucou mentalmente, e Momoi percebeu que o problema não estava ali. Certo, alguém não estava sendo honesto, mas ter mais um Elo sequestrado não faria diferença àquela altura. Ou, pelo menos, não os afetaria a respeito de se esconder. Tinha que ser algo mais curioso. Momoi repassou o restante das conversas, e parou na que tivera com Nijimura. Certamente o capitão estava estranho enquanto falava sobre a caverna. Era ali que estava o erro.
Então Momoi arfou, lembrando-se de uma coisa. Ele havia dito que havia descoberto a caverna com seu amigo e o homem que virou seu Elo. Na hora, Momoi havia entendido que ele havia descoberto a caverna com apenas uma pessoa, ou seja, que seu amigo havia se tornado seu Elo. Nijimura também havia dito que apenas três pessoas sabiam a localização da caverna, e Momoi pensara que eram ele, seu Elo falecido, e Akashi.
Por que estava pensando naquilo? Era algo tão estúpido e trivial, mas esse era seu dom: encontrar as informações até nos lugares mais improváveis. Nijimura havia escrito as coordenadas da caverna em um papel para Akashi. Ou seja, ruivo não sabia a localização dela. Ele não era uma das três pessoas. E Nijimura havia descoberto o local com outras duas pessoas: uma era seu amigo, e a outra era seu Elo.
Era isso! O amigo de Nijimura ainda estava vivo, andando por aí, e poderia ser um problema. A Rainha sabia de tudo, e se descobrisse sobre esse amigo, ele poderia contar sobre a caverna. Mas... Por que ele se lembraria dela? Por que pensaria logo naquele lugar, para eles se esconderem?
Isso a sua Sombra não podia lhe dizer. Era uma informação que não tinha: precisava pesquisar. Talvez, quando chegassem à caverna, Momoi poderia explorar o local e encontrar algumas pistas.
Ela abriu os olhos, saindo de seu transe. Escutou os tripulantes gritando no convés, e o barco havia diminuído a velocidade. Provavelmente já haviam chegado à caverna: quando Momoi meditava, o tempo passava mais devagar para ela.
Levantou-se da cama, se alongando e estalando os ossos. Ainda teria muito a fazer. Não havia dormido, comido ou descansado, mas não havia tempo para isso: ela tinha que proteger sua tripulação, ou nunca teriam chance de salvar Aomine e Kise.
– Ei, Shuuzou – Momoi chamou-o, enquanto se sentavam para comer um rápido lanche. – Será que você podia me contar mais sobre o seu Elo?
Ela havia ponderado muito a respeito, e percebeu que a melhor e única forma de conseguir informações era perguntando à Nijimura. A caverna era enorme, tinha muito espaço para o navio e para que os tripulantes andassem por ela, para relaxarem e se esticarem em terra firme, mas não havia nada além daquilo. Ou seja, não havia pistas.
Nijimura a olhou por um longo tempo, parecendo ponderar sobre a pergunta. Estavam sentados no convés, embaixo do mastro, observando a tripulação andar pela caverna.
– Por que está me perguntando isso agora? – ele finalmente disse.
– Fiquei curiosa – ela tinha que enrolá-lo. – Você nunca fala sobre ele.
– Por que não é um assunto que eu goste de falar – ele olhou para baixo. – Ele morreu, e isso foi muito doloroso para mim.
– E eu lamento muito – ela disse, sinceramente. – Eu entendo como se sente. Acabei de perder meus dois melhores amigos. Não é como um Elo, mas o sentimento é o mesmo – ela olhou para baixo também. – Eu só queria conversar um pouco. Conversar ajuda, Shuuzou. Você está muito estressado, e ficar guardando esse tipo de coisa só para você piora a situação.
Ele olhou para ela novamente, sério. Momoi percebeu que ele ainda estava fechado, então ela teria que tentar um pouco mais.
– Não precisa ser específico. Só... Me diga como ele era.
O capitão pareceu finalmente amolecer. Ele suspirou, e encarou as paredes da caverna.
– Ele era... Divertido. Alegre. Estava sempre pulando de um lado para o outro, tentando me animar. Eu sou mal-humorado desde criança – eles riram. – E ele tentava me fazer sorrir sempre que podia – sua expressão ficou melancólica. – Eu sinto saudades daquela época. Nem faz tanto tempo, apenas alguns anos, mas eu sinto como se décadas tivessem passado. Eu sinto falta deles.
Aí estava. Eles. Então havia mesmo mais alguém.
– E como era o seu amigo? – Momoi decidiu perguntar.
– Ah, ele era muito tímido, mas extremamente inteligente. Foi ele quem descobriu esse lugar. Ele era meu melhor amigo, e uma das poucas pessoas que não me julgava por ser um Dunkelheit.
– Então ele não era um?
– Não. Meu Elo era, mas ele não. E mesmo assim, ele não tinha medo de nós. Ele era uma boa pessoa. Mas... Não sei onde ele está, agora. Espero que esteja bem.
Ficaram em silêncio, encarando a parede. Momoi não havia conseguido nenhuma informação, mas era bom ouvir o capitão desabafar. Então, quando ela menos esperava, ele se levantou.
– Venha – ele chamou. – Vou te levar até o túmulo dele.
Momoi arregalou os olhos, mas o seguiu. Desceram do barco, e Nijimura a guiou através de uma fissura na parede. Atravessaram um túnel muito escuro, e desembocaram em uma pequena praia. Elas eram raras no subterrâneo, mas existiam.
Nijimura andou alguns metros, até parar na frente de um amontoado de pedras. Momoi parou ao seu lado, e observou. Uma grande pedra estava fincada na areia, e duas palavras haviam sido riscadas nela: Hideki Marumo. Ela continuou parada, sem olhar para Nijimura, mas percebeu a tristeza emanando dele. Agora que estava ali, ela não sabia o que fazer.
– Eu sinto muita saudade dele – ela então percebeu que ele estava chorando. Corou, pois nunca o havia visto daquela maneira. – Às vezes eu queria poder voltar no tempo, e impedir que ele saísse da caverna. Impedir que ele... Morresse.
– Não fique pensando nisso – Momoi tentou consolá-lo, abraçando-o. – Se pensar assim, as coisas vão ficar piores. Você não pode mudar o passado.
– Eu sei – ele enxugou as lágrimas, e se afastou da garota. – Vou entrar, e ver como a tripulação está indo. Vai ficar aqui mais um pouco? O ar da praia é maravilhoso.
– Eu já te alcanço – ela disse, sorrindo.
Nijimura caminhou de volta para a caverna, e Momoi observou-o se afastar. Ficou parada um tempo, até que ele desapareceu dentro da caverna, e finalmente olhou ao redor.
Uma pista, ela precisava de uma pista. Qualquer coisa que falasse sobre o amigo de Nijimura, sobre quem ele era... Isso faria alguma diferença? Talvez não, mas seu instinto dizia que ela deveria procurar alguma coisa. Talvez a ajudasse a solucionar aquele pequeno mistério.
Andou pela praia, olhando entre as rochas. Talvez houvesse algo escondido. Ela podia sentir. Porém as pedras eram muito juntas, e ela não podia ver nada entre elas. Decepcionada, ela voltou ao local do túmulo, sem saber o que fazer. A verdade é que ela não sabia nem o que estava procurando, ou se havia algo para procurar.
Ela estava quase desistindo quando algo chamou sua atenção na areia, perto da pedra do túmulo. Uma ponta de madeira. Parecia pertencer a uma forma retangular. Momoi se abaixou, olhando ao redor para se certificar de que Nijimura não estava voltando, e escavou ao redor do objeto.
Acabou encontrando uma caixa de madeira. Eureca. Se estava enterrada ali, então podia conter alguma coisa importante. Cuidadosamente, Momoi a abriu, e ficou feliz com o que encontrou.
Havia vários objetos semelhantes a brinquedos, como bolas de gude, estilingues e peões. Porém, o que chamou sua atenção foi um anel de madeira, detalhadamente esculpido. Ela sabia o que era aquilo: um anel de juramento. Quando havia um grupo de amigos, eles faziam anéis de madeira e escreviam as iniciais de todos no grupo, menos da pessoa que portava o anel, e “sopravam” um pouco de seu poder nele. Viravam anéis de juramento, onde a promessa de sempre ficaram juntos estava guardada.
Momoi deixou a caixa no chão e pegou o anel, girando-o nos dedos. Dentro dele havia as iniciais de dois nomes: H.M. e N.S. Provavelmente, Hideki Marumo e Nijimura Shuuzou. Então aquele anel devia ser do amigo de Nijimura, que era exatamente a pessoa que Momoi precisava descobrir.
Bufou, enraivecida. Por que tinha que ser justo o anel dele? Justamente a pessoa que não colocaria seu nome? E aqueles brinquedos não ajudavam em nada. Momoi abriu a caixa novamente, e começou a analisar os brinquedos novamente. Nenhum deles tinha nada, pelo menos nada interessante. Até que ela derrubou a caixa, e caiu um papel de dentro. Curiosa e desesperada, ela o abriu. Continha apenas uma pequena mensagem.
Com você, enterro minhas lembranças. Nossas lembranças. Não poderei sair dessa caverna carregando o peso que essas coisas possuem, principalmente o anel. Ele contém a promessa de ficarmos juntos, mas você se foi para sempre. Enterrarei-o com você, meu amigo, mesmo que você já esteja com o seu.
Escrevo esta carta apenas para me acalmar, pois sei que você nunca a lerá. Mas, se em algum lugar, você estiver me observando enquanto escrevo estas coisas, saiba que eu nunca o esquecerei. Você foi e sempre será meu melhor amigo.
Nijimura Shuuzou.
Momoi dobrou a carta, estarrecida. Algo estava errado, muito errado. Sua Sombra se agitava ferozmente, como se tentasse lhe dizer alguma coisa. Ela abriu a mente, e analisou as informações que havia acabado de coletar.
Havia se esquecido de que as pessoas sempre ficam com seus anéis de juramento. Tirá-lo é um símbolo de rompimento com seus companheiros, e isso causa uma dor tão intensa quanto a da separação de um Elo. Hideki Marumo havia sido enterrado com seu anel, pelo que dizia a carta. E de acordo com ela, também, o anel dentro da caixa era de Nijimura.
Momoi pegou o anel novamente. Se ele pertencia a Nijimura, havia duas perguntas: por que o nome dele estava gravado no objeto, e como ele havia conseguido tirá-lo. Mesmo que uma das pessoas morresse, a magia ainda continuava. Será que o capitão teria tido coragem de quebrar o juramento apenas por causa da morte de seu amigo?
E aí estava a outra questão: na carta, e quando Nijimura havia parado na frente do túmulo, ele em nenhum momento se referiu a Hideki Marumo como seu Elo, e nem agiu como se fosse. Ele o chamou de amigo. Melhor amigo.
Hideki Marumo era o amigo de Nijimura, não seu Elo.
O que significava que o Elo ainda estava vivo.
E estava andando por aí.
Por que não estava junto de Nijimura? E o mais importante: por que haviam quebrado sua ligação? Por que era a única forma de ficarem distantes.
A Sombra de Momoi pareceu explodir dentro de sua cabeça, e ela então conseguiu enxergar. Pegou o anel novamente. Olhou-o com atenção, e então percebeu que as letras estavam meio apagadas. Por isso ela havia lido errado: o que ela pensara se tratar de um N era na verdade um H.
H.S.
– Ah, meu deus – ela exclamou, finalmente entendendo. Sua Sombra repassava todas as cenas que ela havia visto, desde que se juntara à tripulação. Todas as brigas, todas as discussões, todos os momentos em que Nijimura estava envolvido. E ela soube, finalmente, quem era a terceira pessoa, o antigo Elo de Nijimura.
Ela jogou todos os brinquedos de volta na caixa, e a fechou, colocando-a embaixo do braço. Caminhou apressadamente de volta para a caverna, procurando pelo capitão. Por que ele não havia dito a verdade? Será que ele não percebia que havia colocado a vida de todos em risco? Estavam com a guarda baixa, sob perigo de um ataque eminente, mas não sabiam disso.
– Onde está o capitão? – ela perguntou ao primeiro tripulante que encontrou.
– Em uma galeria, no fundo da caverna – ele respondeu, meio espantado.
Momoi não esperou mais nada, e correu para o local que o homem apontara. Chegou ao fundo da caverna, onde havia uma entrada para uma pequena galeria, e viu que o capitão estava parado, encarando as paredes.
– Momoi – ele disse, sem olhar para ela. – Você está de volta.
– Sem mais conversinhas – ela disse, agressivamente.
Nijimura virou-se, espantado diante da atitude da garota, até que viu a caixa que ela segurava. Sua boca se abriu, mas ele não disse nada, os olhos ainda cheios de espanto.
Momoi sentia a Sombra ferver dentro de si. Abriu a caixa violentamente, arrancando o anel e a carta, e deixando a caixa cair com um barulho abafado no chão de pedra.
– Pode me explicar isto? – ela lhe mostrou os dois objetos que segurava.
Nijimura enrijeceu, seus olhos se tornando duros e frios.
– Você não tinha o direito de ver estas coisas – ele disse.
– Não tinha o direito? – ela repetiu, incrédula. – Você mente, esconde coisas importantes de nós, que podem custar a nossa vida, e me diz que eu não tenho o direito?
– Eu confiei em você quando te levei ao túmulo.
– E eu confiei em você quando disse que este lugar era seguro! – Momoi jogou o anel nele. – Hideki Marumo não era o seu Elo! Seu Elo está vivo, e é ele.
– Ele não é mais o meu Elo – ele disse, magoado. – Quebrei meus laços com ele há muito tempo.
– Exato! Ele te odeia, Shuuzou! Acha mesmo que ele não seria capaz de contar à Rainha sobre este lugar? Ele sabe que você veio para cá!
Mas o capitão balançava a cabeça, em uma clara negação de si mesmo.
– Ele não faria isso. Não. Ele pode não gostar de mim, mas não seria capaz...
– Nijimura! – ela estava praticamente gritando. – Será que você é assim tão cego? Ele vai fazer isso! Provavelmente já fez...
Foi só Momoi dizer estas palavras, que ouviram um som de explosão vindo da caverna. Correram para fora, e viram que dezenas de soldados entravam na caverna, em um enorme navio real.
– Droga – xingou Momoi. – Nossas armas estão no navio!
Nijimura não esperou para começar a correr. Subiram no navio o mais rápido que puderam, buscando suas armas, enquanto os tripulantes corriam de um lado para o outro, desesperados. Nijimura viu que a situação estava ruim.
– Todos peguem suas armas, e se preparem para defender o navio! – ele berrou. – Atiradores, aos seus postos! Não deixem que o inimigo se aproxime!
Os piratas gritaram em entendimento, e começaram a seguir as ordens do capitão. Quando viu que os tripulantes estavam se organizando, ele se virou para Momoi.
– Vá para o porão e se esconda – ele disse.
– Espera que isso vá fazer alguma diferença? – ele disse.
– Por favor, não aja como uma protagonista inútil. Você não sabe lutar, não tem nenhuma arma, e só vai atrapalhar se continuar aqui no meio.
– Eu não disse que vou fazer isso – ela respondeu, ofendida. – Mas eles logo me achariam no porão.
– Só não fique no meu caminho – ele se afastou, com os olhos cheios de mágoa.
Momoi suspirou. Sabia que ele estaria chateado, mas não era justo o que ele havia feito. Ela olhou ao redor, para os tripulantes tentando desesperadamente se organizar, enquanto os navios inimigos se aproximavam cada vez mais. A garota olhou ao redor, procurando por algum de seus amigos, até que avistou Kuroko.
– Tetsuya! – ela gritou, correndo até ele. O garoto estava atrás do mastro, com os olhos azuis arregalados.
– Momoi-san – ele a cumprimentou, gentil como sempre. Mas ela podia ver que ele estava apavorado, tremendo da cabeça aos pés. – É melhor se esconder, isso pode ser perigoso.
– Sempre preocupado com os outros – ela disse. Um tiro de canhão balançou o navio, e ela cambaleou. – Você também deveria sair daqui.
Ele balançou a cabeça negativamente.
– Nijimura-san disse que vai precisar das minhas habilidades – ele olhou ao redor, temeroso. – Só não entendi como.
Momoi estava ficando ansiosa. Até mesmo Kuroko seria útil, e ela não. Seria mesmo possível que, mesmo sendo uma Miracle, ela não tivesse recebido nenhum dom de combate? Todos os Dark Humans tinham algum, até mesmo os que não eram Dunkelheit.
– Acho que vou para o porão – ela disse, aceitando finalmente. – Não quero atrapalhar vocês.
Kuroko assentiu, e em seguida ela ouviu Nijimura gritar para a tripulação. Tiros foram disparados contra os navios inimigos, que já desembarcavam suas tropas na caverna. Momoi correu para baixo no convés, onde eles chamavam de porão. Fechou a escotilha e olhou ao redor.
Barris, caixas, redes... Era só o que havia lá. Nem havia lugar para ela se esconder.
Suspirando, ela se abaixou atrás de uma pilha de caixas, onde poderia ficar de olho na escotilha ao mesmo tempo em que não seria vista no primeiro momento, se alguém entrasse ali. Só lhe restava esperar, ouvindo os sons da batalha acima de si, que isso não acontecesse.
Ela ainda tinha pessoas para ajudar.
Momoi não sabia dizer quanto tempo havia ficado ali. Lhe pareceram horas. Mas ela sabia que eram apenas alguns minutos, por que os sons da batalha continuavam no convés. A qualquer minuto, porém, ela sabia que alguém poderia entrar no porão, ou a batalha acabaria. Somente um dos lados estaria de pé.
Os dois pensamentos a aterrorizavam. Ela temia que talvez eles não fossem o lado vencedor no fim, já que haviam sido pegos com a guarda baixa. Os Miracles da Teiko eram fortes, mas não tinham treinamento militar verdadeiro. Tudo que sabiam havia sido aprendido por conta própria, com ajuda, é claro de suas aptidões natas de Miracle para lutar.
E aí entrava a segunda preocupação. Se alguém entrasse no porão, ela certamente morreria, pois não sabia se defender. Momoi não temia a morte, e sim morrer sem ter chance de lutar. Será que ela não tinha mesmo nenhum dom? Faria sentido, já que cada Miracle recebia um dom, e ela tinha o dela. Mas...
– Eu queria ser mais forte – ela murmurou para si mesma, tentando ignorar o barulho acima. – Queria poder lutar ao lado deles...
Ela enterrou a cabeça nos joelhos, angustiada. Não era justo.
De repente, todos os barulhos pararam. Ela ergueu a cabeça, assustada. Nenhum grito, nenhum tiro, nenhum barulho de espadas. Os passos e vozes também haviam cessado. Só podia significar uma coisa.
Ela se levantou em um salto, caminhando até embaixo da escotilha. Ao olhar para cima, não viu nada além do mastro com a bandeira negra, e o teto escuro da caverna. Franziu a testa. Se um lado ganhasse, significava que os líderes inimigos haviam sido derrotados, ou seja, mortos. Porém, batalhas não paravam repentinamente como acontecera.
O silêncio não era normal.
– Olá? – ela gritou, mesmo sabendo que poderia ser ouvida pelo inimigo. – Nijimura? Kuroko? Alguém aí em cima?
– Eles não podem te ouvir – ela escutou alguém dizer atrás de si.
Virou-se rapidamente, erguendo as mãos em posição defensiva (mesmo que não fosse fazer diferença), e avistou uma garota de cabelos brancos e olhos azuis a encarando. Ela usava óculos prateados e esboçava um sorriso maldoso.
– Quem é você? – perguntou Momoi. Tentou recorrer à sua Sombra, para começar a analisar informações.
Porém, não obteve resposta. Não sentia nada, nem mesmo aquela escuridão estática de quando seu poder não estava sendo utilizado. Era como se ela não tivesse Sombra: vazia.
A garota de cabelos prateados riu, reconhecendo a surpresa de Momoi.
– Não vai conseguir chamar sua Sombra enquanto eu estiver aqui – ela disse. Começou a caminhar lentamente na direção de Momoi, que recuou, cautelosa.
– Quem é você e o que quer comigo? – ela tentou soar firme. Não havia visto a garota entrar no porão, e com certeza ela não estava ali antes. Ela só havia aparecido depois que a batalha havia silenciado, e ninguém a escutava...
Seria uma Miracle trabalhando para a Rainha? Existiam pessoas assim, que usavam seus poderes em troca de favores e proteção. Mas Momoi não conseguia sentir uma presença de Dunkelheit vindo dela. Ao invés disso, algo muito mais poderoso emanava dela, como se fosse Sombra pura.
– Não está me reconhecendo? – ela perguntou, fazendo um biquinho. – Depois de tantos anos juntas, eu pensei que você fosse me reconhecer quando eu finalmente me materializasse.
Momoi parou de recuar e abaixou as mãos, confusa. Observou a garota à sua frente, com um vestido preto cheio de babadinhos brancos, de braços cruzados, como se aguardasse uma resposta.
– Eu... Realmente não conheço você – não era verdade, ao todo. Algo nela lhe era familiar. A outra bufou, revirando os olhos.
– Eu já esperava isso. Vocês são tão obtusos que me espanta terem sido escolhidos como nossos hospedeiros – ela olhou fixamente para Momoi. – Eu sou aquilo que você chama de Sombra.
– S-Sombra? – Momoi empalideceu. – Você é a Sombra?
– Bem, a sua Sombra. Sim. Aquela que você sempre chamava para analisar informações, e que tentava lhe dar dicas para não entrar em confusões. Fui eu quem lhe chamou atenção para o fato de que Nijimura estava mentindo, e lhe mostrei as pistas. Sempre fui eu quem pensou por você. Agradeceria por algum reconhecimento agora.
– Obrigada – respondeu Momoi, sem saber o que dizer. – Você é minha Sombra... Mas como está materializada?
– Acredite, não é algo fácil para mim – ela analisou as unhas. – Provavelmente eu não terei muito tempo assim. Mas achei necessário, já que você estava desesperada e pedindo força – seus olhos azuis brilharam na direção de Satsuki. – Eu não sou suficiente para você?
– Não precisava perguntar isso – respondeu outra voz, e Momoi se virou novamente.
Agora era uma garota de cabelos negros e olhos vermelhos. Ela usava um uniforme militar, e tinha uma cicatriz no olho esquerdo. Ela andou até ficar ao lado da garota de cabelos prateados, com um ar de superioridade.
– Ela chamou por mim – ela disse.
– Achei que essa conversa era para ser minha – a outra revirou os olhos, claramente ofendida.
– Espere, quem é você? – Momoi agora estava mais confusa.
– Eu sou sua Sombra – a morena respondeu simplesmente.
– Não, ela é minha Sombra.
– Eu sou a Sombra que você nunca usou – ela respondeu, virando-se para encará-la. – Sou a Sombra que lhe dá força.
Momoi as encarou por algum tempo, analisando a situação. Ninguém nunca havia comentado sobre algo daquele tipo. Estaria ela ficando louca? Talvez o estresse a estivesse fazendo ver coisas.
– Você a está deixando maluca – interveio a primeira garota. – Momoi, eu sei que isso deve estar sendo confuso para você. Deixe-me explicar.
– Por favor – ela concordou.
A prateada sorriu, arrumando os óculos, enquanto a outra, apoiou-se em uma pilha de caixas.
– Você foi abençoada pelos deuses com um poder enorme – ela começou. – Dunkelheit nascem com uma enorme quantidade de energia sombria, que é o que os qualifica para se tornarem Dunkelheit, e não meros Dark Humans. Quando despertam seu verdadeiro potencial, eles recebem a nós.
– E o que são vocês, exatamente?
– Isso eu não posso revelar – ela arrumou os óculos novamente. Estava começando a se parecer com Midorima. – Mas você não precisa dessa informação.
– Meus amigos também têm pessoas como vocês?
– Sim, mas espere! – ela bateu o pé, impaciente. – Eu já vou chegar lá.
– Dramática como sempre – comentou a morena.
– O que importa é que nós existimos – a prateada a ignorou. – E passamos a viver dentro de vocês. Cada um de nós tem um poder diferente, e nós lhe concedemos esse poder. Por isso cada Dunkelheit recebe habilidades diferentes. É claro que não somos únicos, já que existem vários com super força e coisas do tipo, mas ainda assim somos diferentes. Não somos cópias.
– Você está enrolando – a outra reclamou.
– Cale a boca, eu tenho que explicar! – ela respondeu, brava. Virou-se novamente para Momoi.
– Mas o que isso tem a ver comigo? – indagou Momoi.
– Bem, você é especial. Nossos... Superiores, decidiram que você deveria receber dois de nós. Você foi agraciada com duas Sombras. Porém, você só usava a mim, pois eu era a única hospedando seu corpo.
– Não podemos hospedar a mesma pessoa ao mesmo tempo – explicou a morena. – Isso acabaria com você, e destruiria sua mente. O simples fato de você hospedar uma Sombra já exige demais de seu corpo mortal.
– Por isso muitos enlouquecem – disse Momoi, entendendo.
– Exato – a prateada concordou. – O seu autocontrole ao hospedar uma Sombra depende da quantidade de energia sombra que você possui. Alguns Dunkelheit possuem menos energia do que outros, mas suas Sombras também precisam de menos energia para executar seus poderes.
– Também há algumas Sombras que são muito poderosas – a outra completou. – Nenhuma pessoa tem energia o suficiente para hospedá-la e continuar sã. Você deve conhecer algumas pessoas assim.
Momoi assentiu. Seus próprios amigos, como Aomine, eram a prova daquilo.
– Vocês ainda não me explicaram o que vieram fazer aqui – ela disse.
– Certo, vamos parar de enrolar – disse a prateada. – A questão é que eu era a única hospedando seu corpo. Por isso você só utilizava o meu dom.
– Eu sou a Sombra que você receberia se fosse uma Dunkelheit normal – disse a morena. – Eu lhe dou força e resistência, além da habilidade de luta. Estive hospedada em seu pingente todo esse tempo, aguardando por este dia.
– O que ela quer dizer – interrompeu a prateada. – É que você pode deixar que ela se hospede no seu corpo, e ganhará a habilidade de lutar. Mas você perderá o meu dom.
– Eu não quero isso – disse Momoi. – Eu... Preciso de você também.
– Não pode ter as duas.
– Eu sei. Mas... E se você se hospedar no meu pingente, enquanto eu uso a da força?
– A da força – riu a morena.
– Vocês não podem trocar de lugar quando eu pedir? – indagou Momoi.
– Podemos – a prateada deu ombros. – Mas durante essa troca você estaria muito vulnerável.
– Eu preciso de força agora. Mas talvez no futuro eu precise de inteligência. Se eu pudesse carregar vocês para todo lado...
As duas Sombras se entreolharam, como se pensassem.
– Nosso tempo vai acabar – disse a morena. – Estamos usando nossa própria energia para nos materializar.
– Argh, tudo bem – cedeu a prateada. – Eu vim aqui para convencê-la de que você não precisa dela... Mas talvez não seja uma ideia ruim.
– Ótimo! – a morena saltou até Momoi. – Vou entrar na sua cabeça, tudo bem?
– Espere! – exclamou Momoi. – Antes de vocês desaparecerem eu quero fazer mais uma pergunta.
Elas aguardaram, observando-a.
– Por que vocês se materializaram para mim? – ela perguntou.
– Não podemos revelar mais do que já revelamos – disse a morena. – Talvez no futuro possamos discutir essas coisas.
E então, de repente, ela desapareceu, e Momoi sentiu-se ser preenchida pela sensação da Sombra. Era bom estar de volta.
A de cabelos prateados desapareceu em seguida, com a cara emburrada, e o medalhão que Momoi usava ficou mais pesado. Na verdade, ela nunca havia prestado atenção em como ele sempre foi pesado. Agora ela sabia o porquê.
Os sons da batalha retornaram repentinamente, assustando a garota. Ela lembrou-se então de que estava no meio de uma luta, e que precisava ajudar seus amigos.
– Será que eu tenho força agora? – ela murmurou para si mesma.
Com certeza, ela ouviu uma voz dizer dentro de sua cabeça, sobressaltando-a.
– Corpórea? – ela indagou, reconhecendo a voz.
Corpórea? Há! Você é engraçada. Inventa bons nomes para mim.
– Vocês não me disseram seus nomes.
Não podemos.
– Então você é a Corpórea, e a outra é a Mental. Pronto. Espere! Por que você está falando comigo na minha cabeça?
Já estragamos todo o papo de “manter oculta” quando nos materializamos para você, então dane-se.
– Você é tão educada. Igualzinho à Mental.
Você não tem uma batalha para lutar, não?
Momoi revirou os olhos mentalmente, mas era verdade. Puxou a corda que abria a escotilha, e colocou um pé na escada.
Estava prestes a entrar na luta. Finalmente não seria somente um incômodo, e poderia ajudar seus amigos. Ainda estava confusa com toda aquela história de Sombras serem pessoas, e essas pessoas poderem falar com ela. Mas o que importava era que ela tinha força para se defender agora.
Respirando fundo, ela subiu as escadas. Estava na hora de deixar o raciocínio para depois, quando Mental estivesse dentro dela. Agora era hora de bater em algumas pessoas.
Assim que saiu no porão, Momoi foi atacada por um inimigo. Se não fosse por Corpórea dentro de si, ela não teria se defendido a tempo. Agradeceu mentalmente, e se protegendo com os braços em forma de X na frente do corpo. O problema é que a haviam atacado com uma espada. Ela sentiu uma dor excruciante nos braços, e seu sangue começou a escorrer, mas ignorou a dor e deu um chute no inimigo, fazendo-o cambalear. Aproveitou a chance e o derrubou no chão, desferindo um soco em seu rosto que o fez desmaiar.
Vai com calma, disse Corpórea, se não quiser matar alguém.
– Não quero, desculpe – respondeu Momoi, desviando de um ataque de outro inimigo. – Não sei controlar a minha força ainda.
Não se canse demais, estou usando minha própria energia sombria para te ajudar.
Momoi desviou repetidamente de vários golpes, desorientando o inimigo com sua velocidade. Abaixou-se para evitar um golpe da espada e girou as pernas no chão, derrubando o inimigo de costas. Assim como fez com o anterior, mirou um golpe em seu rosto que o fez desmaiar. Não se importava de quebrar alguns ossos deles, só não pretendia matá-los.
– Você está me ajudando? – ela continuou, procurando por seus amigos. Onde estaria Nijimura?
É claro que estou. De onde acha que está vindo toda essa agilidade? Ainda mais você, que nunca treinou.
– Treinei sim! – ela se defendeu. Então avistou um borrão verde no meio da batalha, e se animou. – Midorima!
Correu pelos vários homens que lutavam, desviando de espadas e tiros. Teve que parar para lutar contra outro inimigo, mas logo voltou a correr em direção ao amigo.
– Midorin! – ela chamou, saltando do lado dele.
– Satsuki? – ele olhou para ela, estarrecido. – O que está fazendo aqui?
– Eu aprendi a lutar! Minha Sombra me ensinou!
Como se para provar o que dizia, ela enfrentou um homem com espada, derrubando-o em segundos. Midorima ainda a encarava, incrédulo.
– Volte para o porão! – ele ordenou.
– Você não manda em mim, Midorin... Olha, rimou!
– Você está brincando? – ele estava começando a ficar com raiva. Isso não era difícil, considerando a situação em que estavam. – Estamos no meio de uma batalha! Você não tem treinamento!
– Eu já disse que minha Sombra está me ajudando – ela derrubou outro inimigo. – Onde está o Shuuzou?
– Ele saiu do navio – ele disse, ainda irritado. – Por quê?
– Obrigada! – ela saltou para longe dele, ouvindo-o gritar para que voltasse para o porão.
E depois eu sou a mal-educada.
– Cale a boca, Corpórea – Momoi desceu do barco, olhando ao redor em busca do capitão. – Temos que achar o Shuuzou...
Ela observou a caverna, tomada por lutas, gritos e sangue. Corpos flutuavam na água e forravam o chão. O lago estava vermelho, e os navios estavam cheios de pessoas batalhando. Os tiros ecoavam na caverna, tornando o barulho ensurdecedor.
Momoi avistou Akashi no meio da massa de corpos, lutando contra três inimigos. Ele não parecia ter problemas, desequilibrando os três. Era possível ver sua Sombra pulsando mesmo de longe.
– A Sombra do Akashi deve ser assustadora – comentou Momoi, pensando em suas Sombras.
Não me lembro de quem está com o seu amigo, para falar a verdade.
– Grande Sombra, você é...
Antes que ela pudesse reclamar mais, Momoi teve uma ideia. Se o inimigo fosse quem ela estava pensando, então Nijimura com certeza havia ido atrás dele. E, como a vida era cruel e irônica, era possível que eles estivessem se enfrentando em um lugar bem específico...
Momoi saltou em meio às pedras e desviou dos lutadores, correndo em direção à fenda na parede da caverna. Atravessou-a rapidamente, machucando os braços e pernas ao raspar das paredes da fenda. Assim que saiu do outro lado, porém, encontrou Nijimura. Mas ele estava sozinho.
– Shuuzou! – ela chamou, irritada. Ele encarava o túmulo do amigo melancolicamente. – Vai ficar aí chorando enquanto sua tripulação morre?
– Eu vim pegar uma coisa – sem olhar para ela, ele ergueu uma espada de dois gumes. Ela tinha o cabo de prata ricamente trabalhado, e a lâmina reluzia. – Era dele. Hideki Marumo. Acho que é a arma perfeita para esta batalha, não é mesmo?
Ele sorriu tristemente, e Momoi respirou fundo, se acalmando. Brigar era a última coisa que ela queria. Mas era difícil aceitar que seu capitão, aquele que sempre fora tão frio e controlado, estava agora daquela maneira: desesperado.
Ela se aproximou lentamente dele, tentando ignorar os sons da batalha que vinham de dentro da caverna. Colocou uma mão em seu ombro, e sorriu.
– Vai ficar tudo bem – ela lhe assegurou. – Nós vamos sair dessa. Toda a tripulação. Vamos salvar o Kise e o Aomine, e tudo vai voltar a ser como era antes.
– Tenho que discordar – disse uma voz arrastada atrás deles.
Viraram-se rapidamente, Momoi alerta e Nijimura erguendo a espada. Porém, aquele que viram fez tudo mudar. Shuuzou abaixou a espada, quase deixando-a cair, e não saiu nenhum som de sua boca. Momoi apenas sorriu amargamente, pois aquilo estava fadado a acontecer.
– Você é mesmo um desgraçado – ela disse, com a voz cheia de raiva.
Ele apenas riu debochadamente, sua risada ecoando na pequena praia.
– Eu até diria que senti saudades de vocês – ele ergueu uma enorme espada, quase de seu próprio tamanho, e a colocou sobre os ombros. – Mas felizmente não é verdade.
Parado em frente a eles estava a terceira pessoa daquele grande mistério. O responsável pelas informações que foram passadas à Rainha durante tanto tempo. Aquele que trouxe a guarda real à caverna secreta de Nijimura.
Ninguém menos do que Haizaki Shougo.
Fale com o autor