Dunkelheit: Dark Humans
9 Silver Guillotine
Notas iniciais
Capítulo 9: Guilhotina Prateada
It's just a game, not a war
(Feel the drums and they hum so loud
Shooting guns from a one-man crowd)
We cannot gain as we lose more
(No fun and no love and not proud
What they've done to a lover's home town)
Momoi observava Haizaki com atenção, imediatamente buscando uma brecha ou abertura para atacar. Seu ex-companheiro era forte, ela sabia, e por isso não podia se distrair. Ao olhar para Nijimura, viu que o capitão estava confuso, e sua postura estava despreparada para um ataque. Estalando a língua, ela voltou a encarar Haizaki. Teria que lutar sozinha, aparentemente.
– Ei, desde quando você luta, Satsuki? – ele perguntou, sorrindo debochadamente e balançando a enorme espada como se fosse um brinquedo. – Da última vez que eu vi você só ficava no seu quarto fazendo sei lá o que, e depois vinha com umas informações bem impressionantes. Sempre me perguntei como você fazia aquilo.
– Da mesma forma como você é idiota – ela respondeu. – Naturalmente.
Ele riu abertamente, e sua risada fria ecoou pelas paredes.
– Credo, perdeu toda aquela postura de garota intelectual de repente? – ele riu mais um pouco, erguendo a espada e apontando para a garota. – Desculpe, Satsuki, mas lutar você não sabe.
Antes que ele pudesse pensar, ela se jogou em cima dele, dando um grande impulso com a perna esquerda. Seu impulso fez um barulho estrondoso, que surpreendeu a todos, incluindo ela mesma, mas foi o suficiente para confundir Haizaki momentaneamente. Ela mirou um soco com a mão direita, mas o outro foi rápido o suficiente para pará-la com a lateral da espada. Seu soco fez a espada tremer, mas ele resistiu bem. Momoi saltou para trás evadindo um ataque de Haizaki.
– Uau – ele admitiu, sorrindo estranhamente. — Eu não esperava por isso. Conseguiu uma força absurda, hein?
Ela não esperou que ele preparar-se, e atacou novamente. Ele já estava esperando, porém, e tentou atacá-la. Momoi mudou seu percurso no último momento, saltando para o lado com uma cambalhota olímpica. Haizaki avançou, cortando o ar, e Momoi foi obrigada a recuar para se esquivar. Ela começou a ficar tensa, pois sabia que não teria muita energia restante, e precisaria de muito para derrotar Haizaki sozinha.
– Shuuzou! – ela chamou o capitão. – Vai ficar parado olhando?
– Ele não vai ter coragem de me atacar – riu Haizaki. – Não, é mesmo, Niji-
Ele foi cortado com um golpe de espada na direção do rosto. Desviou a tempo, mas ainda assim recebeu um corte na bochecha. Ele saltou para trás, com a espada em guarda, encarando Nijimura com ferocidade.
– Não se aproxime da minha tripulação – disse o capitão, erguendo a espada com imponência. Momoi percebeu que ele estava usando sua Sombra ao máximo. Talvez essa tivesse sido a única forma de ele acordar de seu transe depressivo e lutar contra seu antigo Elo.
Haizaki riu e cuspiu sangue. Seus olhos exalavam deboche.
– Sua tripulação é uma merda – ele ergueu a espada, atacando Nijimura. – Assim como você.
Momoi tentou atacá-lo por trás, mas ele era rápido, e virou um soco na direção dela. Como não estava esperando por isso, a garota for arremessada para longe. Momoi caiu no chão, apertando a barriga e tentando recuperar o ar.
“Está perdendo muita energia sombria”, alertou Corpórea. “Não vou aguentar muito mais”.
– Por favor, só mais um pouquinho – ela pediu, se levantando. Nijimura e Haizaki se enfrentavam ferozmente, recuando pela praia.
Porém, quando ela tentou andar até eles, suas pernas fraquejaram, e ela caiu de joelhos. Tentou novamente, mas não conseguia ficar de pé.
– Droga! – ela socou o chão arenoso.
“Eu disse. Seu corpo não está mais aguentando, você trocou de Sombra há pouco tempo. Além do mais, eu posso estar te dando força física e técnica de combate, mas você não tem resistência o suficiente”.
Momoi gritou de frustração, mas sabia que era verdade. Seu corpo não estava treinado para aquilo. Só lhe restava tentar não ficar no caminho e assistir à luta.
Ou não.
– Me ajude mais um pouco, Corpórea – ela pediu, apoiando-se em uma pedra e se erguendo. Suas pernas tremiam, e ela se sentia exausta, mas como poderia deixar o capitão lutar sozinho?
Assim que pensou naquilo, Nijimura levou um golpe na lateral do corpo. Ele gritou de dor, e conseguiu se afastar de Haizaki. Caiu de joelhos, apertando o ferimento, e Haizaki riu maliciosamente.
– Pobre Nijimura – ele disse. – Fraco como sempre.
– Haizaki, pare com essa loucura! – ele pediu.
– Não mesmo. Você me expulsou da tripulação, agora arque com as consequencias.
Ele ergueu a espada acima de Nijimura, e Momoi sabia que o capitão não iria aguentar. Sem raciocinar sobre o que estava fazendo, ela deu o mesmo impulso de antes, e se jogou na frente de Nijimura, esperando o golpe.
Se alguém fosse morrer, era melhor que fosse ela. Era a mais fraca, a mais inútil, a única descartável. Mas, quando pensou que fosse sentir a espada em sua carne, ela foi puxada pelo capitão, que ergueu a mão para protegê-los. Ela fechou os olhos e gritou.
Porém o golpe não veio. Ela abriu os olhos, surpresa, e viu que Nijimura estava segurando a espada com a mão. Sangue pingava no chão, mas era só. Um golpe com a aquela força deveria ter partido o braço de Nijimura ao meio.
– Maldito – Haizaki se afastou. Nijimura abaixou o braço, cansado, e segurando Momoi junto de si. – Eu tinha me esquecido da sua Sombra estranha.
– Shuuzou – sussurrou Momoi, olhando para ele.
– Está tudo bem – ele disse, sério. – Meus ferimentos já vão se curar. Mas eu preciso de um pouquinho de tempo.
Momoi entendeu o que ele queria dizer. Mesmo sem Mental, ela ainda conseguia enrolar pessoas.
– Haizaki, eu não entendo – ela disse, olhando para o ex-companheiro. – Pensei que vocês tivessem um Elo.
– Nós tínhamos – ele respondeu, analisando a espada ensanguentada. Ele também estava cansado, ofegando, e aproveitava para descansar também. – Mas Elos também podem ser desfeitos.
– Não entendo. Se vocês tinham mesmo, era por que sentiam um amor incondicional um pelo outro.
– Esse é o problema – ele deu um sorrisinho sarcástico. – Embora seja vergonhoso admitir, eu amei sim esse desgraçado. Eu o amei tanto que não posso descrever em palavras. Naquela época, em que éramos crianças felizes, eu faria tudo para ele, por ele. Mas acho que ele não sentia o mesmo por mim.
– Coisas da sua cabeça – Momoi ouviu a raiva contida na voz do capitão. – Eu sentia o mesmo por você.
– Mentira! – Haizaki de repente gritou. – Mentira, mentira, mentira! Você preferida o Hideki! Sempre preferiu!
– Hideki era tão amigo meu quando seu! – Nijimura se ergueu o chão, mandando Momoi continuar ali. – Eu sentia o mesmo que você. Éramos companheiros, mas o amor que eu sentia por ele era diferente do que eu sentia por você.
– E devia ser mesmo – Haizaki havia perdido completamente seu ar debochado. – Afinal, você estava sempre com ele. E quando ele morreu, parecia que o seu mundo tinha acabado.
Momoi não ousou dizer mais nada. Aí estava o que ela queria saber: o que havia acontecido com os três.
– Você se culpa até o hoje pelo que aconteceu – continuou Haizaki. – Diz que se arrepende de ter brigado com ele naquela noite, mesmo estando certo.
– Eu não estava certo – Nijimura admitiu tristemente. – Ele tinha razão quando disse que não deveríamos criar essa tripulação. Era melhor termos continuados quietos. E eu deixei que ele partisse desse lugar e fosse morto pelos guardas da Rainha. Eu era o culpado, eu era o inimigo dela, não ele.
– E mesmo assim, você não para de pensar nele. Mesmo depois de tanto tempo.
– E você se juntou às pessoas que destruíram a nossa vida. A SUA vida também! – Nijimura ergueu a espada.
– Exatamente – ele sorriu, o deboche novamente em sua expressão. – Depois que eu vi o quanto você o amava e quebrei de vez meus laços com você, achei que seria o suficiente. Ah, ver a sua expressão de dor quando eu quebrei o Elo. E mesmo assim você continuou confiante, com a memória DELE – ele fez uma expressão de desgosto, erguendo a espada também. – Eu percebi que não era o suficiente. Eu teria que destruir a preciosa família que você estava criando. Quebrá-los e machucá-los como eu fiz com você, como eu ia fazer com aquele idiota do Ryouta. Ele me lembrava tanto o Hideki que eu tive que escolhê-lo como primeira vítima.
– Mas aí o Shuuzou te expulsou – Momoi finalmente falou. Haizaki olhou para ela como se lembrasse que ela estava ali.
– Exatamente. Eu tive que procurar outras formas de me vingar – ele sorriu. – Agora já sabem quem passava todas as informações para a Rainha.
– Seu lixo – Nijimura atacou. – Você é desprezível – mais um ataque. – Você é infeliz – mais um ataque. – Tão infeliz que precisa destruir aos outros mais do que já destruiu a você.
Haizaki aparava todos os golpes com sua enorme espada. Ele nem parecia se abalar com os comentários de Nijimura.
– Eu vou acabar com você, Shuuzou. Vou fazer você se sentir como eu me senti um dia. Já peguei o inútil do Ryouta. O arrogante do Aomine foi junto. Midorima já é um peixe fácil, agora que levamos o amiguinho dele. Satsuki não consegue nem correr. O Murasakibara... Pfff, tenho muitas ideias do que fazer com ele. Agora, temos duas opções de como te fazer sofrer mais – ele bloqueou um ataque de Nijimura, e ficou cara-a-cara com ele. – Kuroko ou Akashi? Qual vai te fazer sofrer mais quando eu o torturar?
Nijimura gritou de raiva, girando a espada e desferindo um golpe poderoso em Haizaki. O de cabelos acinzentados, porém, apenas sorriu com malícia, e girou a espada rapidamente, fazendo a espada de Nijimura voar. Ele desferiu um chute no peito do capitão, que voou até cair aos pés de Momoi. Haizaki se aproximou e fincou a espada na areia, ao lado do rosto de Nijimura. Então ele olhou para trás dos dois, onde estava a fenda que dava para a caverna, e sorriu.
– Já escolhi qual deles, Shuuzou – ele disse, com a voz arrastada.
Momoi e Nijimura olharam assustados para a fenda, e Momoi sentiu o coração parar ao ver Kuroko amarrado por vários guardas, cheio de cortes e hematomas. Lágrimas silenciosas rolavam pelo rosto do menino.
– O pegamos tentando instalar explosivos em nossos navios – disse um dos guardas, que parecia ser de uma patente mais alta. Momoi se lembrou do que Kuroko havia dito, sobre Nijimura ter uma missão especial para ele, e soube do que se tratava.
– Há! – riu Haizaki, olhando para o capitão. – Achou que eu não me lembrava dos poderes do Tetsuya? Que pena, eu instalei um dispositivo que detecta movimento nos navios. Já esperava por essa estratégia.
– Tetsu-kun – Momoi ergueu a mão na direção do amigo, tentada a correr até lá e abraçá-lo. Ele deu um pequeno sorriso, cansado.
– Deixe ele em paz! – gritou Nijimura, o desespero começando a aparecer em sua voz. – Faça o que quiser comigo, mas deixe-o em paz!
– Você não entendeu? Eu não quero fazer nada diretamente com você. Não tem graça. Eu quero te matar por dentro – Momoi quase podia ver o veneno pingando de sua boca quando ele disse a última frase.
Mas ele retirou a espada da areia, e se afastou de Nijimura.
– Infelizmente, a Rainha tem outros planos para vocês. Renda-se, e eu não faço nada com a sua tripulação. Resista, e eu posso começar a sessão de tortura agora mesmo.
Nijimura olhou para Momoi, caída na areia com as pernas mortas, e depois para Kuroko, ferido e com medo. Finalmente ele se levantou, olhando com ódio para o ex-Elo.
– Eu me rendo – ele disse, com amargura.
Haizaki sorriu.
– Excelente. Agora você pode falar isso para a sua tripulação.
Momoi abaixou a cabeça, a derrota pesando sobre si.
– Nem sei o que dizer – falou Mental, andando de um lado para o outro. – Foi uma derrota humilhante, isso é verdade. Mas a traição de Haizaki foi ainda pior.
– O cara é louco – disse Corpórea, parecendo exausta. – Ele quebrou seu Elo por ciúmes do melhor amigo. E o cara estava morto...
– Nada disso importa – disse Momoi, sentada no chão, com os joelhos no peito. – Nós perdemos. A Rainha nos pegou. E sabe-se-lá o que ela pretende fazer com a gente.
As duas Sombras nada disseram. Momoi estava sentada no chão de uma das celas do palácio da Rainha. Não sabia como havia chegado ali, pois a haviam deixado desacordada. Não sabia como estavam seus amigos, se eles estavam ao menos vivos. Não sabia o que iria acontecer com eles. Não sabia de nada.
Pela primeira vez, ela não sabia de nada.
Ela apoiou os braços sobre os joelhos, e escondeu o rosto neles. A verdade era que ela queria chorar o dia todo, pensando em tudo que estavam perdendo a cada segundo que se passava. Como estavam Kise e Aomine? Será que a Rainha já os havia matado? Memórias de quando sua vida era mais fácil lhe assaltaram a mente, e ela viu Kise e Aomine brincando alegremente, fingindo ser piratas.
“Eu queria nunca ter pisado naquele barco”, ela pensou. “Queria nunca ter conhecido Nijimura”.
Só então percebeu o quão egoísta havia sido seu pensamento. Se nunca tivesse conhecido o capitão, não teria conhecido os outros membros da tripulação, e não teria vivido feliz. Provavelmente ainda estaria abandonada naquele beco escuro, onde Nijimura a encontrara. Nunca teria conhecido sua família, e nunca teria sido tão feliz.
O mundo não era feliz.
Ela ergueu os olhos, que estavam cheios de lágrimas, e viu que suas Sombras haviam se desmaterializado. O peso do cansaço pairava sobre sua cabeça, e Momoi finalmente desistiu, enrolando-se em uma bolinha no chão e deixando que o sono a consumisse.
Ela não sabia que horas eram quando acordou com o barulho de chaves. De repente, a porta da cela se abriu, revelando guardas do palácio. Ela se levantou, apenas para se lembrar da dor que sentia, e voltou a cair no chão.
Os guardas caminharam até ela e a ajudaram a se levantar. Um deles, com o uniforme diferente, se dirigiu a ela friamente.
– A Rainha deseja falar com você – ele explicou, mas não esperou nenhuma resposta.
Momoi teve um saco escuro jogado sobre a cabeça, e foi praticamente arrastada pelos corredores da prisão. Ela ouviu gritos e murmúrios, sons de água pingando e metal rangendo, mas não fazia ideia de por onde estava passando. Ouviu uma porta se abrir à frente, e foi arrastada por mais alguns metros, até ser jogada no chão novamente. Os guardas tiraram o saco de sua cabeça, enquanto a acorrentavam ao chão.
Estavam em uma sala escura e feia, de paredes de metal enferrujadas. Ela olhou ao redor, e percebeu que seus amigos estavam na sala, na mesma situação que ela.
Todos os seus amigos.
Conforme suas vendas foram tiradas, eles foram esboçando reações. A maioria era de surpresa.
– Aominecchi! Momoicchi! Kurokocchi! – Kise exclamava os nomes dos amigos, e Momoi nunca ficou tão feliz em ouvi-lo. Sua voz estava rouca, e ele estava muito machucado, mas estava vivo.
– Kise! – Aomine parecia confuso ao olhar ao redor. Então percebeu o que estava acontecendo. – Momoi? O que vocês estão fazendo aqui?
– Que barulhento – reclamou Midorima. – É óbvio que fomos capturados.
– Façam silêncio – pediu Nijimura. Ele estava muito abatido, Momoi percebeu. – Minha cabeça dói.
– Pobrezinhos – eles gelaram ao ouvir a voz já conhecida atrás de si. – A grande e temida Teiko não passa de um bando de crianças.
Ela caminhou até ficar de frente para eles, e Momoi a viu pela primeira vez. Era uma mulher muito bela, de cabelos louros ondulados, presos em um coque, que deixava uma mecha solta caindo sobre o ombro esquerdo. Seus olhos eram azuis como cristais, e ela usava um vestido branco coberto de pedras brilhantes. Porém, sua beleza era como a de uma bela cobra: mortal. Seus olhos não transmitiam nenhum calor ou emoção, a não ser ódio e desprezo.
– A Rainha – disse Nijimura, como se o nome deixasse um gosto ruim em sua boca.
– Em pessoa – ele sorriu, mas seu sorriso era frio. – Deveriam ficar honrados por estarem em minha presença.
– Eu só ficaria honrado se estivesse na presença do seu cadáver – disse Aomine, cuspindo no chão à sua frente.
– Adorável – ela disse, como se falasse realmente com criancinhas. – Porém inútil. Seus insultos não podem me afetar. Afinal, não sou eu quem está amarrada, não é?
Aomine abriu a boca, prestes a dizer outra coisa, quando a Rainha se aproximou de Kise e agarrou seus cabelos, fazendo-o gemer.
– Eu estou desperdiçando o meu precioso tempo falando com lixos como vocês – seu sorriso de fachada havia sumido, dando lugar a uma expressão apática. – Permaneçam calados, a não ser que queiram uma sessão de tortura ao vivo.
Ninguém ousou nem mesmo se mexer. Kise tremia da cabeça aos pés, e Momoi só podia imaginar o que a Rainha havia feito com ele durante aqueles dias. Quando ela viu que ninguém mais falaria, ela voltou a sorrir.
– Bom – ela disse, soltando os cabelos de Kise e afagando-os. – Agora podemos tratar de nossos assuntos.
Ela se afastou lentamente, observando a sala como se observasse um museu. Momoi viu que havia vários instrumentos de tortura pendurados nas paredes, mas não os observou por muito tempo.
– Vocês realmente me deram muitos problemas – ela disse. – Teiko. Roubando suprimentos da capital para dar aos pobres. Muito nobre de sua parte, devo dizer. Porém, irritante – ela se virou para eles. – Não ao ponto de eu ter que fazer o que fiz, é claro. Vocês nunca passaram de moscas de banana para mim.
Silêncio. A única coisa que podia ser ouvida era um gotejar distante. Os guardas estavam parados ao logo das paredes, encarando o vazio à sua frente.
– Porém, vocês têm algo que é um problema para mim – ela continuou, seus saltos ecoando pelo lugar. – Vocês são mais fortes do que a maioria dos Dunkelheit. Normalmente, eu não me preocupo com isso. Wunders, ou Miracles, como vocês conhecem, aparecem de vez em quando. Mas o problema é que vocês se uniram, e isso é um problema. Eu não gosto de pessoas fortes se unindo. Nada pessoal, é claro. Eu não tenho nada contra especificamente algum de vocês, mas é natural para um tirano se sentir ofendido quando seus inimigos fortes começam a se unir, vocês não acham?
Ela falava calmamente, e de maneira informal, como se eles fossem apenas amigos discutindo assuntos cotidianos. Momoi estava louca para falar alguma coisa, retrucar de alguma maneira, mas olhar para Kise a lembrava do que a Rainha podia fazer.
– Então eu passei todo esse tempo brincando com vocês – ela continuava a falar. – Não seria divertido capturá-los de uma vez, não é? Era muito melhor fazê-los acreditar que tudo estava indo bem, e esmagá-los lentamente. Quando seu ex-companheiro veio me procurar, então, eu não podia ficar mais feliz! – ela sorria largamente, mas seu sorriso não passava nenhuma alegria real. – Foi maravilhoso vê-los se desesperar. Mas admito que fiquei muito chocada quando seqüestrei alguns Elos, mas vocês não vieram buscá-los – ela não sorria mais. – Estragaram a minha brincadeira. Isso me deixou nervosa. Percebi que talvez precisasse tomar medidas mais agressivas.
Ela olhou para Kise, e sorriu de uma maneira que quase fez Momoi vomitar. O loiro estava com os olhos arregalados e fixos na figura à sua frente, como se estivesse lembrando-se de tudo que passara.
– Então eu obtive resultados. Seu amigo veio correndo até mim. Mas ainda não era o suficiente: eu precisava de todos vocês. Tive que acabar com a brincadeira, mas foi divertido enquanto durou.
Ela abaixou as costas, e seus olhos ficaram na mesma linha dos piratas. Momoi não conseguia desviar o olhar. Admitia estar morrendo de medo, pois aquela mulher podia fazer qualquer coisa.
– Eu estava pensando no que faria com vocês para o gran finale – ela sorriu. – Há várias torturas que eu gostaria de fazer, mas me ocorreu uma ideia muito melhor, algo que vai mostrar a todas as pessoas a quem vocês deram esperança, que a Rainha nunca perde.
Ela ergueu as costas novamente, olhando-os de cima, e deixando a situação ainda mais assustadora.
– Eu vou executá-los na abertura do Torneio – ela disse. – Na frente de todas as colônias sob meu domínio, e o domínio de aliados. Todos os Dark Humans verão seus amados heróis seres guilhotinados no estádio em que acontecerão os Jogos da Morte. Não é uma visão grandiosa?
– Não – Nijimura falou, cortando a risada da Rainha. Ela franziu a testa, irritada por ter sido interrompida, mas ele continuou. – Por favor, não faça isso.
– Acho que eu disse que não queria ouvir suas vozes – ela disse, aproximando-se de Kise a afagando sua face. O garoto enrijeceu perante o toque. – Mas como você é o capitão, estou curiosa para ouvir o que tem a dizer. “Por favor” não é algo que me convença – ela sorriu. – Tem algo a me oferecer, capitão?
Nijimura ficou sério, e Momoi franziu a testa, estranhando. Não era como se ele estivesse pensando, era como se a Rainha estivesse lhe insinuando algo. Algo que Nijimura sabia, e que ela queria.
Momoi sentiu que algo estava muito errado.
– Tenho – ele disse, e sua voz parecia tremer um pouco. – Eu tenho algo a lhe oferecer. Algo que sei que quer muito.
A Rainha sorriu maniacamente, esperando que ele dissesse.
– Eu lhe dou a minha vida em troca da deles – disse o capitão, com a cabeça erguida.
Momoi arregalou os olhos, e ouviu arquejos e exclamações dos companheiros. A Rainha se afastou de Kise, agora parecendo verdadeiramente feliz.
– É uma bela moeda de barganha, capitão – ela observou-os de longe. – Mas seus companheiros parecem surpresos. Será que não contou para eles?
– Contou o que, Nijimura? – Midorima estava pálido.
O capitão olhou para ele, mas antes que pudesse responder, a Rainha começou a rir.
– Nem mesmo seus líderes e amigos sabem, capitão? Você é um rapaz solitário – ela se aproximou um pouco. – Permita-me lhes dizer, então – ela encarou os piratas. – Como sabem, suas Sombras lhes dão dons especiais. Cada um de vocês tem um dom. O dom de seu capitão é muito especial e único, como se o Criador lhe tivesse dado a missão de liderar. A Sombra dele não permite que ele seja morto por armas comuns, ou por qualquer tentativa de assassinato. A única forma de matá-lo é se ele entregar deliberadamente a própria vida.
Silêncio seguiu-se a essa declaração, exceto pelas risadinhas da Rainha. Momoi encarava Nijimura com descrença. Não teria acreditado na Rainha, se não estivesse vendo a tristeza nos olhos do amigo.
– Nijimura... – Akashi parecia perdido, pela primeira vez. – Isso é verdade?
– Sim – disse o capitão, erguendo os olhos para olhá-los. – É tudo verdade.
– Não é lindo? – disse a Rainha. – Ele sempre guardou isso consigo. Nunca faria sentido para mim tentar matá-lo. Mesmo se eu fizesse o que contei, e tentasse guilhotiná-lo na abertura do Torneio, os únicos a morrer seriam vocês. Ele sobreviveria para ver seus cadáveres. Mas ele pode salvá-los, entregando-me sua vida. Vocês têm um grande capitão!
– Não – Akashi balançava a cabeça desesperadamente. – Não. Não. Não faça isso, por favor.
Nijimura encarava o chão.
– Eu nunca fui um bom capitão – ele disse. – A única coisa que eu tinha era isso: imortalidade. Eu veria vocês morrerem, mas nunca seria ferido para morrer. É uma maldição que me persegue – ele sorriu tristemente. – Mas eu sabia que, quando chegasse o momento, eu poderia entregar minha vida para salvar a de vocês.
– Vou lhe dar dez minutos para falar com eles, capitão – disse a Rainha, gesticulando para seus guardas e retirando-se do aposento. – Despeça-se com carinho.
Ela fechou a porta atrás de si, e o ambiente ficou escuro e pesado. Akashi tinha o rosto marcado por lágrimas, e os outros não sabiam como reagir perante a notícia. Seu capitão, seu amigo, seu líder... Iria morrer?
– Momoi – ele começou, sorrindo. – Você é maravilhosa. É a única garota da tripulação, mas também a mais corajosa. Foi você que percebeu todos os erros que cometi, e tentou me avisar. Quem sabe se eu tivesse lhe dado ouvidos...
– Você não poderia ter impedido – ela disse, sorrindo. Sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. – Não é sua culpa.
– Obrigado, Satsuki, mas é sim. Conto com você para guiá-los com sábias palavras. Não deixe que eles cometam erros como os meus.
Ela assentiu, e ele se virou para o próximo.
– Midorima. Você é o mais sério entre nós. Depois de Akashi, é claro – ele deu uma risadinha. – Mesmo assim, tem um coração enorme. Enquanto eu o proibi de salvar a pessoa que amava, como eu fiz, você resistiu, e demonstrou que é uma grande pessoa por dentro. Continue usando seu coração dessa forma, e tenho certeza de que chegará longe.
Midorima assentiu, lutando para reprimir as lágrimas, que corriam soltas apesar de tudo. Nijimura sorriu uma última vez para ele, e se virou para o próximo.
– Murasakibara. Acho que sabe que palavras não são suficientes para descrever como me sinto em relação a você. Eu teria que contar uma história inteira, mas você é o protagonista dela. Você já sabe. Não deixe que as pessoas te chamem de monstro, por que você não é. Tenho certeza de que, um dia, você encontrará alguém que o vê além da aparência.
O gigante de cabelos roxos assentiu lentamente, mas era possível ver lágrimas em seus olhos. Momoi nunca falara com ele, assim como os outros. Ela pouco sabia sobre ele, mas parecia significar muito para Nijimura.
– Aomine – ele sorriu. – Sempre apressado e estressado. Cuidado com seus desejos e impulsos, eles são perigosos. Mas, às vezes, essas suas emoções intensas são tudo que precisamos ao tomar uma decisão difícil. Nem sempre o raciocínio lógico vale mais do que os impulsos do coração. Cuide para que a Sombra nunca leve seu sorriso e sua alegria, Aomine. O mundo vai precisar dela.
– Kise. Nossa pequena luz. Não posso nem imaginar as coisas pelas quais você passou, mas aguentou firmemente. Eu acredito em você, apesar do que disse. Acredito que a sua alegria e seu amor farão uma grande diferença no futuro. Não deixe que esse mundo cruel tire isso de você. Lute com todas as suas forças, pelos seus companheiros e pela sua família.
– Kuroko. Não sei nem o que dizer a você. Dizem que sua presença é fraca, mas eu acredito que apenas ela é suficiente para melhorar o ambiente. Você é bondoso e corajoso, e não hesita em salvar e proteger seus companheiros. Preciso que você continue fazendo isso, pois eles irão precisar de você.
Então ele se virou para a última pessoa restante. Akashi o encarava com incredulidade, como se ainda não acreditasse no que estava acontecendo.
– Akashi – a voz de Nijimura era quase um sussurro. – Não tenha medo. Não chore. Você é quem eles mais precisarão quando eu me for. Você é sábio, e um verdadeiro líder. Muito melhor do que eu. Sempre que eu ia tomar uma decisão, eu lhe consultava, e você sempre nos guiou pelos caminhos certos. Eu confio que você irá cuidar de todos da maneira correta. Akashi Seijuurou, meu imediato, meu companheiro, meu irmão, meu amigo. Meu tudo – ele sorriu, olhando para Akashi como se ele fosse a única pessoa no mundo. Um entendimento caiu sobre Momoi diante dessa cena, de que talvez Nijimura não estivesse sem Elo, afinal. – Eu o nomeio o novo capitão da Teiko, e da Geração dos Milagres.
Ninguém respirava naquele momento especial. Um novo capitão havia chegado. E o melhor deles estava indo embora.
– Conto com você, Akashi – ele disse, finalmente.
A abertura do Torneio era sempre um momento de animação e esperança, apesar do destino trágico que levavam os participantes. Era um momento até belo, de certa forma. Mas não daquela vez.
Momoi não podia fazer nada. Não podia gritar, protestar, correr, ou fazer qualquer outra coisa além de chorar, ao ver seu amigo ser levado ao tablado onde seria executado. Não houve palmas, nem festejos na arena lotada. Apenas o silêncio que precedia a morte de um herói.
Nijimura subiu com dificuldade os degraus que o levavam para a sua morte. Em cima do tablado de madeira estava uma guilhotina prateada, preparada para sua próxima vítima. Os guardas dispostos no local estavam sérios, alguns até cabisbaixos. Mas Nijimura estava com a cabeça erguida.
Os ex-membros da Teiko estavam ajoelhados no chão, na frente do tablado, acorrentados a um poste de metal. Momoi estava entre Aomine e Kuroko, que estavam sérios, quase que surpresos. Era algo surpreendente, afinal, seu capitão sempre estivera presente. Não... Estaria mais?
– Como todos sabem – disse a Rainha, sua voz amplificada por um microfone, parada na frente do tablado. – Este é o capitão do grupo pirata Teiko. Depois de muitos anos roubando e saqueando o que pertence ao governo, a mim, ele e seu grupo foram capturados, e receberam sentenças pesadas. Seu líder, porém, precisa de mais do que punições mundanas. A pena que lhe foi concedida é a morte.
A última palavra ecoou pelo local, e apenas alguns murmúrios foram ouvidos da plateia. Todos sabiam o motivo de estarem ali, afinal de contas. Por isso, observaram em silêncio enquanto Nijimura era forçado a se ajoelhar e apoiar a cabeça no local correto, para que a lâmina decepasse a sua cabeça. O simples pensamento fez o estômago de Momoi se revirar.
– Vejam todos! – ela apontou para o capitão. – Vejam como seu líder herói se ajoelha e se curva perante mim! Perante o meu poder! Espero que se lembrem disso a partir de agora. NADA pode me derrotar. Eu sou a Rainha das colônias, a monarca suprema, a Deusa a quem vocês devem respeito. Eu sou absoluta!
Os membros da Teiko a encaravam abismados. O quão louca podia ser a Rainha? Ela sorriu de maneira macabra, voltando-se para Nijimura, que a olhava com ódio no olhar.
– Lembrem-se dessa cena. Nijimura Shuuzou, ajoelhado aos meus pés, com a cabeça prestes a ser decepada. Esse é o destino dos fracos e fracassados.
Então ela se retirou do palco, e um homem mascarado subiu em seu lugar. O carrasco se aproximou de Nijimura, parando ao lado de uma espécie de alavanca. Momoi se contraiu, e percebeu seus amigos se mexendo nervosamente. Ela não queria ver aquilo, mas a Rainha havia ameaçado torturar Kise ou outra pessoa se alguém não olhasse. Não havia escapatória.
Por isso, olharam para frente com firmeza, mesmo que seus corações estivessem apertados e os olhos cheios de lágrimas. Momoi piscou, fazendo com que elas caíssem e molhassem seu rosto. Pelo menos, com a visão embaçada, ela não veria com tantos detalhes a morte do amigo. Ainda assim...
Nijimura olhava para eles. Não havia medo em seu olhar, apenas tristeza. Como se ele lamentasse que aquilo estivesse acontecendo com seus amigos, e Momoi sabia que era assim que ele se sentia. Não conseguiu conter um sorriso, que o capitão viu. Ele sorriu de volta, e essa foi a última cena que ela viu. Antes que a lâmina descesse, trazendo a morte consigo.
O som da guilhotina batendo no chão ecoou pela Arena, e Momoi viu sangue. Muito sangue. Respingado na lâmina, no chão do tablado, escorrendo por entre as frestas na madeira. Havia algo redondo, com fios negros recobrindo-o, caído diante da guilhotina. O sangue saia daquilo. A cabeça decepada de seu capitão, mas Momoi não se importou com ela. Não foi a última visão que teve de Nijimura
Sua última visão foi o sorriso de um jovem que deu tudo por um mundo melhor, mas no fim não recebeu nada em troca.
A Geração dos Milagres estava prestes a fazer aquilo mudar.
Fale com o autor