Dunkelheit: Dark Humans
7 Shadow Blade
Notas iniciais

Capítulo 7: Lâmina Sombria
Um dia antes do sequestro de Takao
Era noite de festa no navio. A tripulação tinha acabado de concluir, com sucesso, um grande saque, e estava agora se dirigindo à cidade onde distribuiriam os bens com os cidadãos. Grandes barris de cerveja eram distribuídos e músicas velhas eram tocadas em um radio tão velho quanto elas, enquanto alguns tripulantes dançavam animadamente, e outros bebiam sem se preocupar com o amanhã. Todos estavam animados, pois o saque tinha sido maior do que o de costume, e tinha sido extremamente fácil de concluir.
Quase fácil demais, pensava Nijimura, o capitão do navio. Ele era o único que não festejava, e se encontrava pensativo, olhando para a imensidão de água que rodeava o navio.
O capitão sabia que havia algo errado assim que chegaram ao cofre da Capital, encontrando uma quantidade de dinheiro maior do que a autorizada pela própria. E tudo ficou ainda mais entranho quando ele notou que o numero de guardas tinha diminuído, e que o intervalo entre uma ronda e outra estava maior. Foi praticamente o roubo mais fácil que tiveram em anos, e isso era muito estranho. A tripulação acreditava que as mudanças pudessem ter relação com o Torneio. Talvez eles estivessem muito preocupados em organizá-lo para prestarem atenção em suas riquezas, mas isso não fazia sentido. Mesmo sabendo que a data do torneio estava próxima, a Capital não era do tipo que pararia de proteger seus cofres apenas para se focar em outra, mesmo que ela fosse mais importante no momento. Eles sempre sabiam de tudo. O sistema deles era perfeito. Ou quase.
– Qual é o problema, Nijimura? – perguntou um jovem de cabelos vermelhos, surgindo no convés.
– Akashi – disse Nijimura, surpreso. – Porque não está com os outros? A festa parece estar boa.
– Faço-lhe a mesma pergunta, capitão. O que te preocupa?
Nijimura o observou atentamente antes de responder. Seu imediato estava sem expressão, como o usual.
– Responda-me uma coisa – Nijimura olhou novamente para o grande rio subterrâneo no qual se encontravam. As águas estavam calmas e quase sem ondas. – Você acredita que o motivo pelo qual saímos tão facilmente dos cofres é por uma simples distração da Capital?
– É o que todos acreditam, não é? – Akashi disse, simplesmente.
– Mas o que você acha, Akashi? – disse Nijimura, se virando e olhando profundamente nos olhos do outro. O menor não se abalou com o olhar.
– Sinceramente, acredito que a Capital não nos deixaria passar tão facilmente, independente do que estivesse acontecendo. Eles têm mantido controle sobre o povo por anos, e acredito que, se realmente fossem tão descuidados a ponto não nos perceberem, eles não poderiam manter esse controle.
O capitão encarou Akashi por um tempo, parecendo analisar o que ele havia dito. Ele andou até o menor e pousou uma mão em seu ombro, dando-lhe leves tapinhas. Seu olhar ficou sombrio repentinamente, e ele deu um leve sorriso.
– Você é inteligente, Akashi. Continue assim. Quando as coisas piorarem, eles precisarão de você.
O menor olhou sem entender para o capitão. O modo como ele falava era misterioso, e fazia Akashi desejar saber o que se passava em sua cabeça. Tão rápido quanto chegou, o olhar sombrio desapareceu, e ele voltou a sorrir.
– Bom, apesar de tudo, nosso roubo foi um sucesso, e devemos comemorar. Porque não nos juntamos aos outros?
Akashi assentiu, e os dois foram em direção às escadas, onde desceram até o "salão de festa" improvisado, encontrando seus colegas já bêbados dançando e rindo.
Do outro lado do salão, um homem alto bebia um copo de cerveja sozinho. Sua pele morena o distinguia dos outros membros da tripulação, e ele observava sorrindo a farra que seus amigos faziam. Ele viu com o canto do olho quando Akashi e o capitão chegaram, e agora observava enquanto um louro chamava uma garota de cabelos cor-de-rosa para dançar. A mesma o rejeitou no início, mas o louro não aceitou um não como resposta, e os dois então começaram a dançar alegremente. Apesar de ser a única mulher da tripulação, Momoi não se sentia desconfortável. Pelo contrario, se sentia melhor no meio de um monte de homens iguais a ela do que entre um monte de pessoas que a julgavam por ser uma Dunkelheit.
Aomine não sabia se era por causa da bebida ou por causa do sono, mas, enquanto olhava para Momoi, se pegou pensando que Kise tinha sorte por tê-la conhecido, e Aomine tinha mais sorte ainda por ter sido apresentado a ela pelo louro. Antes que pudesse perceber o que estava fazendo, ele começou a notar as curvas perfeitamente delineadas da menina, seus cabelos esvoaçantes rodeando seu rosto e descendo até seus peitos–
– O que esta olhando, Aomine-kun? – Aomine quase caiu com o susto, quando um garoto pequeno, de cabelos azuis-claros apareceu ao seu lado. O menor tinha mania de surgir do nada, assustando seus colegas. Isso era muito útil durante os roubos, mas era assustador às vezes.
– Tetsu, que susto! De onde você veio?
– Estava observando a Momoi-san? – Kuroko ignorou a pergunta, fazendo Aomine corar.
– N-não – ele respondeu.
– Momoi é muito bonita, não acha, Aomine-kun? – perguntou Kuroko. Aomine não sabia porque, mas a ideia de que mais alguém notara aquilo o incomodava. Nunca tinha parado para notar, mas Momoi parecia muito inadequada e desprotegida em um ambiente cheio de marmanjos, e Aomine não gostava da ideia de que os membros da tripulação ficassem notando seu corpo.
– Sim – ele disse, tentando não parecer irritado.
– Kise-kun parece bem próximo dela. Será que eles estão namorando? – Kuroko continuou pressionando. Se Aomine não conhecesse Kise muito bem, ele teria se preocupado com a pergunta, mas eles eram amigos há muito tempo, então ele sabia que não precisava se preocupar com a relação dos dois.
– Não. Tenho certeza de que não. – Aomine respondeu.
De repente se lembrou da época em que eles eram menores. Kise e ele se conheceram quando ainda eram muito pequenos e cresceram juntos. Eles sempre brincavam que eram piratas, e era engraçado se lembrar disso considerando que agora passavam a vida dentro de um navio, saqueando coisas como piratas. Mas ele se lembrava perfeitamente de como eles pegavam gravetos, e com panos velhos cobriam um olho, enquanto saiam por ai brandindo suas espadas. Aomine sempre ganhava as "lutas" deles.
Ele se levantou, notando que Kuroko já havia desaparecido novamente, e então se dirigiu ao centro do local, onde começou a dançar com os amigos.
A noite prosseguiu divertida, até o capitão desligar o som e mandar todos irem dormir, selecionando entre eles quais cuidariam do navio durante o resto da noite. Todas as noites antes de dormir, Momoi ia até cada um deles e dava um boa-noite, acompanhado de um singelo beijo na bochecha de cada um, como uma mãe faria com seus filhos. Naquela noite Aomine teve certeza de que havia bebido muito quando Momoi veio lhe dar boa noite.
– Boa-noite, Aomine-kun – disse a menina, e depositou um beijo em sua bochecha enquanto o mesmo corava. Ele nunca havia corado antes, e por uma incrível sorte Momoi não notou o que o mesmo fizera, mas um certo loiro notou, e sorriu maliciosamente com a informação que acabara de adquirir.
– Bom, pessoal eu vou dormir, boa noite! – disse Kise, escandaloso e indiscreto como sempre.
– Eu vou com você, Kise – disse Aomine, se levantando e Kise sorriu ainda mais.
Quando estavam se dirigindo para seus quartos, Aomine se aproximou dele.
– Oe, Kise. Vamos treinar amanhã?
– Como quiser, Aominecchi – Kise sorriu, acenando antes de entrar em seu quarto.
Aomine observou a porta se fechar, e continuou parado durante um tempo. Talvez estivesse mesmo bêbado, por mal conseguia andar devido ao balanço do navio. Mas que raios, ele vivia ali há anos! Depois de seguir se apoiando nas paredes, ele conseguiu chegar ao seu quarto, e caiu na cama antes mesmo de tirar as roupas.
Naquela noite ele não sonhou, mas podia jurar que passou a noite escutando a gostosa e suave risada de Momoi enquanto dormia. E de manhã ele acreditou estar sonhando quando ouviu a voz de Momoi o chamando.
– Aomine-kun – dizia ela. Mas ele não abriu os olhos. – Aomine-kun — Chamou novamente, desta vez tocando em seu braço.
Aomine abriu os olhos e se assustou ao constatar que Momoi realmente estava ali o chamando.
– Que susto, Satsuki! O que está fazendo aqui? – ele se sentou rapidamente, se arrependendo imediatamente ao sentir a dor de cabeça proveniente da sua ressaca. Ele observou quando Momoi deu um sorriso.
– Kise-kun está te chamando para vocês treinarem – ela disse, juntando as mãos e balançando de um lado para o outro.
– Ah, ok – ele colocou uma das mãos na cabeça. Sentia que iria explodir a qualquer momento. – Diga a ele que já vou.
Momoi saiu do quarto e Aomine se levantou da cama. Foi até seu pequeno banheiro e parou em frente ao espelho. Sua cabeça doía e a luz incomodava, mas o que estava realmente o perturbando era o modo como agiu ontem durante a festa. O que era aquilo? Corar? Gaguejar? Desde quando Aomine Daiki faz estas coisas? Só podia ser culpa da bebida, mas não tinha certeza, já que não tinha memórias muito claras de quando ficava bêbado. Na maioria das vezes, bebia tanto que acordava no dia seguinte sem se lembrar de nada da noite anterior. Será que ficava daquele jeito toda vez que bebia?
– Droga – ele deu um soco na pia. Abriu a torneira, pegando um pouco de água e jogando no rosto. Não havia nenhum sinal do bom humor do dia anterior, e em seu lugar um sentimento de irritação se instalava, enquanto ele sentia sua cabeça latejar. O dia já não tinha começado bem, e ele sentia que por alguma razão não iria melhorar.
Aomine encarou o chuveiro, que parecia chamá-lo para um banho refrescante, e então ele olhou para o relógio, que marcava 8h00. Eles chegariam à cidade em mais ou menos uma hora. Se não fosse treinar com Kise naquele momento, eles não conseguiriam treinar no mesmo dia. Ele olhou novamente para o chuveiro, e então tomou uma decisão.
– Dane-se o Kise. Ele que me espere para treinar – Aomine retirou a roupa que estava usando e entrando no box. Ele sabia que Kise ficaria bravo, principalmente porque fora Aomine quem o convidara para treinar, mas ele não se importava com isso naquele momento.
Aomine relaxou, sentindo a água gelada batendo em sua pele. Ele não gostava quando a água estava muito quente, por isso tomava banhos gelados com frequência. Sentia-se mais incomodado com o calor do que com o frio, e isso o irritava, pois não conseguia relaxar. Ele considerava sagrada a sua hora do banho, era o momento em que esvaziava a mente e se preparava para qualquer coisa que precisasse enfrentar. Enquanto ensaboava seu corpo, sua mente foi clareando e até a dor de cabeça pareceu amenizar. Depois de estar limpo e relaxado, ele saiu do banho.
Enquanto se vestia, pensando no treino ao qual estava prestes a ir, uma energia começou a se apoderar de seu corpo. A competitividade era uma característica muito presente em sua personalidade, e ele apreciava uma boa competição. Sabia que qualquer membro daquela tripulação era capaz de lhe proporcionar isso, Kise principalmente. Os dois começaram a treinar com espadas de verdade assim que se juntaram à Teiko. Aomine sempre fora melhor, mas Kise treinava muito e tinha melhorado consideravelmente durante os anos. Aquele seria um treino interessante.
Aomine colocou suas botas e foi até seu armário, onde guardava sua espada, e pegou a mesma, juntamente com outro embrulho menor. Ele prendeu a espada ao cinto e saiu, indo em direção ao deque principal.
– Aominecchi, porque tanta demora? – perguntou o loiro assim que Aomine apareceu no deque. Ele estava com uma cara emburrada, e Aomine sabia que ele estava muito irritado. Segundo seu relógio de pulso, eram 8h34min, o que significava que eles teriam menos de meia hora de treino. Neste tempo eles não poderiam nem começar a se divertir.
– Pega logo sua espada – disse Aomine. Um sorriso surgiu em seu rosto e ele encarou Kise desafiadoramente. O louro também sorriu, adquirindo a mesma energia competitiva de Aomine. – Já estamos muito atrasados para perder mais tempo com discussões idiotas.
Aomine pegou sua espada, deixando o outro pacote em um canto do deque, longe de onde iriam lutar, e se posicionou no centro do deque.
– Isso foi sua culpa, Aominecchi. Mas vou perdoar isso, vamos ao que interessa – Kise segurou a própria espada como Aomine o havia ensinado anos atrás. Os dois se encaravam ferozmente e esperavam uma brecha para atacar o outro.
– Oe, Kise – disse Aomine, antes dos dois começarem a se atacar. – Tente me vencer, eu tenho algo para você. Mas não posso te dar se você for um perdedor – ele abriu mais seu sorriso e soltou uma risada intensa. O loiro só o observou enquanto isso. – Me desculpe, pedi algo impossível. Deste jeito nunca poderei te dar meu presente. Então faremos assim: me atinja uma vez e você recebe o que quero te dar.
– Não seja tão confiante, Aominecchi. Hoje é o dia em que eu vou te vencer – Kise tinha os olhos âmbar brilhantes, cheios de energia.
– Não diga bobagens, Kise. O único que pode me vencer sou eu.
E com isso, ele atacou.
Kise bloqueou seu golpe com destreza, e Aomine sentiu uma pontada de orgulho. Mas não facilitaria para o amigo. Assim que seu golpe não funcionou, ele girou a espada, mirando na lateral de Kise. Novamente foi bloqueado, e o louro lhe deu um sorrisinho presunçoso. Sentindo que seu orgulho estava em jogo, Aomine decidiu dar tudo de si.
Porém, seus golpes eram todos aparados pelo menor, que estava tão rápido quanto ele. Com sua habilidade de copiar o que os outros faziam, ele aprendeu rápido, mas não só isso: ele lutava o mesmo estilo de Aomine. Sem compatibilidade, a luta não avançava, e Aomine tinha seus golpes bloqueados, mas sem ser atacado.
O moreno logo começou a ficar entediado com a luta. E esse foi seu erro. Distraiu-se por um momento, e Kise, ao invés de bloquear seu golpe, desviou o corpo, e rapidamente atacou, derrubando a espada de Aomine. Ele arregalou os olhos, surpreso, e Kise se aproximou, colocando a lâmina da espada horizontalmente em sua garganta.
– Ganhei, Aominecchi! – ele exclamou, sorrindo. – Agora quero o meu presente.
Aomine não pode deixar de sorrir. Estava feliz pelo amigo, mas ainda tinha algumas cartas na manga. Não era conhecido como o lutador mais forte da Teiko por nada.
– Acho que não, Kise – ele disse, e o louro sentiu algo gelado lhe espetar as costelas por cima da roupa.
Ao olhar para baixo, Kise constatou que Aomine tinha uma adaga na mão. De onde ela viera era um mistério, mas o que importava era que ele estava encurralado. Sabia que o maior poderia arrancar seu coração mais rápido do que ele cortaria sua garganta. Claro que, ali, era um treinamento, e ninguém pretendia ferir ninguém, mas eles sempre consideravam as possibilidades de uma luta real, para definir os resultados. Percebendo que não teria escapatória em uma luta de verdade, Kise retirou a espada do pescoço de Aomine, abaixando-a ao lado do corpo.
– Você venceu, Aominecchi – ele admitiu. – De novo.
– Há, eu disse! – Aomine abaixou a adaga também. – O único que pode me vencer...
– ...sou eu mesmo – completou Kise, revirando os olhos. – Mas eu quase consegui arrancar a sua cabeça!
– Só por que eu deixei.
– Ah-hã – Kise disse, descrente.
– É verdade, seu pirralho! – Aomine bagunçou seus cabelos. – Estava muito chato, eu me distraí.
– Sei, sei – Kise se focou na adaga na mão do amigo. – Mas e isso? Não sabia que podíamos trapacear.
– Isso – Aomine ergueu a adaga, girando-a para Kise ver. – É o motivo do nosso treinamento. – Eu queria te mostrar algumas formas alternativas de luta.
– Com uma adaga? – Kise ergueu uma sobrancelha.
– Exatamente. Às vezes, a espada não será suficiente, ou talvez você a perca. Uma adaga escondida no cinto pode ajudar muito, e até mesmo salvar a sua vida. Ela é leve e discreta, e vai te deixar preparado para qualquer coisa.
– Uau – o menor tinha os olhos arregalados, observando a arma com fascinação. – Nunca tinha pensado que uma faca comprida pudesse ser tão útil.
– Não é uma faca comprida, é uma adaga – Aomine estalou a língua, estendendo a arma para o amigo. – E é sua.
– Sério? – Kise parecia que estava prestes a sair saltitando por aí. Pegou a adaga animadamente, observando-a com os olhos brilhando. – Obrigado, Aominecchi!
Aomine sorriu, observando seu amigo. A verdade era que gostava muito da presença dele. Sempre estiveram juntos, e ele não sabia como seria sua vida sem o louro animado. O simples pensamento o entristecia.
– Vocês aí, se preparem porque estamos chegando – Nijimura apareceu no deque principal. Ao olhar na direção dele, os amigos notaram que boa parte da tripulação da Teiko assistia sua luta. Estiveram tão imersos assim? – Temos que nos preparar para descarregar tudo o mais rápido possível. Não queremos que a polícia nos pegue, não é? – ele parou diante deles, com os braços cruzados.
– Como se eles fossem capazes – disse Aomine, com um sorriso de escárnio. Estava suado, levemente cansado e podia sentir a ardência do pequeno corte feito pela espada de Kise em seu pescoço, mas estava mais do que satisfeito. Como ele havia previsto, aquele foi um treino interessante, e a audiência ali reunida era uma prova disso.
– Você quase perdeu para mim, Aominecchi. Se continuar assim, um dia vai ser pego pela polícia – disse Kise, se afastando e guardando a própria espada e a nova adaga. Ele estava muito satisfeito, nunca havia chegado tão perto de vencer Aomine, e o orgulho por ter chegado tão longe queimava em seu peito, alimentando seu ego e o incentivando a treinar mais.
– Não brinque comigo, Kise. Você não chegou nem perto de ganhar – Aomine sorriu com o comentário e Kise retribuiu o olhar. – Ainda tem muito a aprender. Mas como eu disse, o único que pode me vencer sou eu.
– EI, as duas mocinhas já terminaram de conversar? – reclamou Nijimura. – Porque se ainda não terminaram, podemos dar mais uma volta – o capitão não ligaria de os dois ficarem conversando se não estivessem tão próximos da cidade. Todos ali sabiam que o trabalho não acabava quando eles voltavam para o navio com o saque, eles ainda tinham muito trabalho para colocar a “mercadoria” dentro da cidade sem serem pegos pela capital. Tinham que parar em diferentes pontos da cidade e negociar com diferentes pessoas, “vendendo” pequenas partes do que roubaram. Assim a capital não conseguia descobrir para onde iam os roubos, e o navio estava livre de qualquer vestígio, para o caso de algum policial querer fazer a vistoria. A rainha já sabia que eram eles que roubavam da capital, mas, mesmo vivendo suprimidos pelo governo, o povo ainda tinha algumas leis para os protegerem, e uma delas dizia que sem as provas eles não poderiam prender os tripulantes do navio.
– Relaxa, Nijicchi, já acabamos aqui. Estamos prontos para receber ordens – disse um Kise sorridente. Ele adorava esta parte do trabalho. Sonhara em ser pirata desde pequeno, mas sentia muita falta de passar algum tempo em terra firme, por isso adorava vender as mercadorias na cidade. Passar algum tempo no meio de pessoas desconhecidas, e algumas vezes até aproveitar algum bar nos tempos livres.
– Oe, fale por você, Kise – disse Aomine, colocando as mãos nos bolsos.
– Muito bem, então. Vocês já sabem como funciona: peguem a mercadoria e vão vender em duplas. Um faz o acordo e o outro fica de olho para ver se não tem vigias da capital por perto. Vamos chegar em 15 minutos, e eu juro que se algum de vocês atrasar eu boto para fora do navio desta vez. – Nijimura parecia irritado, e lançou um olhar incriminador para Aomine. O mesmo costumava se atrasar para sair do navio e por várias vezes eles quase foram pegos com mercadoria dentro do navio por causa destes atrasos. O capitão não estava realmente irritado, mas tinha que ser duro para ser levado a serio por Aomine.
– Vamos, Kise – disse Aomine, começando a andar em direção a sala onde guardavam as mercadorias.
– Na verdade, Aominecchi, eu gostaria de ir com o Kurokocchi hoje. Tenho alguns assuntos a resolver com ele, e seria bom se eu pudesse aproveitar enquanto estamos na cidade para fazer isso – disse o loiro. Aomine já estava de costas para o mesmo e parou de andar quando ouviu isso. Eles sempre iam juntos, já conheciam um ao outro e faziam o trabalho bem mais rápido quando estavam juntos. E Kuroko já tinha uma dupla, Satsuki sempre ia com ele. – Tudo bem trocarmos de dupla hoje, Kurokocchi e Momoicchi? – Kise perguntou, e Aomine olhou para os dois, que estavam no meio da pequena plateia que os assistiu treinar. Viu quando Satsuki olhou para Kuroko e o mesmo assentiu.
– Tudo bem, Kise-kun – disse Kuroko, inexpressivo como sempre.
– Ótimo. Aominecchi, Momoicchi, boa sorte vendendo a mercadoria de vocês – disse Kise, indo em direção a Kuroko e o levando para a sala de mercadorias.
Aomine ficou parado e notou Satsuki se aproximando. Aquilo estava muito estranho, Kise não era o tipo de pessoa que tinha assuntos para resolver na cidade. Ele era muito brincalhão para isso. Kise só sabia passear e beber enquanto estavam na cidade. Ele provavelmente estava aprontando alguma.
– Então, Aomine-kun – disse Satsuki ao lado do mesmo. – Como você e o Kise-kun costumam fazer?
– Ah, nós fazemos exatamente como o capitão manda. Um vende enquanto o outro fica olhando em volta da área, e ficamos revezando. Mas acho que isso não vai funcionar para você. Parece meio perigoso deixar você andando pelas redondezas de um lugar escuro sozinha.
– Podemos fazer como eu faço com o Tetsu-kun – sugeriu Satsuki, parecendo alegre. – Eu geralmente faço todas as vendas. Nós não pegamos muitas mercadorias porque demoramos muito para vender tudo, mas funciona.
– Como assim? Vocês sempre chegam com a mesma quantidade de dinheiro que nós. Como vocês vendem menos? – Aomine perguntou. Estava confuso, todos eles vendiam a mesma coisa, ou pelo menos lucravam a mesma coisa. Sua linha de raciocínio foi cortada pela risada que sua mente tinha memorizado aquela noite.
– Digamos que o capitão prefere que nós vendamos os produtos um pouco mais caros. Ele dá menos para mim e para o Kuroko porque ele sabe que eu consigo fazer o pessoal pagar mais – Satsuki parou de rir.
– O que você quer dizer com isso? – perguntou um Aomine ainda mais confuso. Satsuki segurou em seu braço, o puxando em direção as mercadorias.
– Você vai ver.
E ele realmente viu. Quando eles chegaram à cidade, tinham levado muito menos mercadoria do que Aomine estava acostumado, mas ele entendeu o porquê. Satsuki falou que ele só precisava ficar vigiando as coisas ali por perto, se mantendo distante o suficiente para não ser notado e perto o suficiente para socorrê-la se fosse necessário. Depois disso, a menina abriu o casaco que mantinha sempre fechado, revelando assim um decote interessante, e colocou a saia em cima da blusa, puxando até a cintura e revelando metade de suas cochas. Nesta hora Aomine entendeu, e não gostou de ter entendido.
Satsuki e Kuroko usavam a beleza e o corpo de Satsuki para fazer os clientes pagarem mais pelas mercadorias. Aomine tinha que admitir que era uma ideia genial, mas ele não gostava nem um pouco. Satsuki parecia muito vulnerável vestida daquele jeito, parecia que alguém a agarraria e a levaria embora no primeiro instante que Aomine tirasse os olhos dela, e pelo modo como os homens daquele lugar olhavam para ela, era uma possibilidade válida.
Quando finalmente acabaram de vender tudo, horas depois, eles voltaram ao navio. Aomine estava incomodado com a forma da venda, mas haviam realizado o trabalho, e era isso o que importava. Ou pelo menos, era o que ele dizia para si mesmo. Quando todos haviam voltado ao navio, saíram da cidade, indo até um ponto mais isolado no fim do grande lago subterrâneo. Lá era mais quieto, e chamava menos atenção.
Quando chegaram lá, Aomine estava limpando sua arma e preparando sua espada para afiar. Sua luta com Kise havia danificado um pouco a lâmina, mas nada grave demais. Ele não precisaria ir a um ferreiro. Então um tripulante que estava perto se retirou, mas não antes de se dirigir a Aomine.
– Ei, Daiki – ele disse. – Você viu o Kise por aí?
– Hum, não – ele disse. – Ele saiu para vender a mercadoria com o Kuroko. Eles não estão por aí?
– Parece que eles não voltaram ainda – disse o homem, dando ombros, e saindo do deque.
Continuou limpando a arma, mas ele estava no deque frontal do navio, e viu que Satsuki e uma das únicas tripulantes mulheres estavam no deque principal conversando. Aomine queria ignorá-las, mas ultimamente estava sendo realmente difícil ignorar algo quando Momoi Satsuki estava envolvida. Ele sacudiu a cabeça, tentando agir normalmente. O que estava acontecendo? Desde quando se importava tanto com o que ela estava fazendo?
Porém, ao perceber que não conseguiria ignorar, ele continuou observando, enquanto elas terminavam de conversar e a mulher ia embora. Ele viu de longe quando Satsuki começou a olhar para o grande lago. Ela estava apoiada na amurada, o olhar distante, em algum ponto da água. De onde estava, Aomine estava bem escondido, pois o timão o ocultava, mas ele conseguia ver tudo. Via os cabelos claros de Momoi, esvoaçando ao vento que penetrava até mesmo o subterrâneo, e via a forma como ela sorria, provavelmente perdida em pensamentos. Parecia calma e feliz, e isso aqueceu o coração do moreno, por algum motivo.
De repente ela enrijeceu, parecendo notar algo na água, e Aomine imediatamente ficou tenso. Seguindo seu olhar, ele conseguiu localizar um pequeno barco no lago. Um barco cheio de algo que ele não conseguia identificar. Ele forçou um pouco a visão, tentando descobrir o que era. Por causa da correnteza, ele estava se aproximando lentamente, e Aomine finalmente conseguiu ter uma visão melhor. O barco estava cheio de... Flores? Era isso mesmo? Sim, ele podia ver. Eram flores verdes.
Porém, quando Aomine voltou seu olhar para onde Satsuki estava, ela não se encontrava mais lá. Aomine se levantou, indo em direção ao deque principal para procurá-la, a preocupação o assombrando, quando a mesma voltou acompanhada de Midorima. Aomine parou, e se abaixou atrás do leme. Não queria ser visto, pois sabia que não diriam nada se ele estivesse por perto, principalmente Midorima. Satsuki parecia preocupada, e automaticamente Aomine também ficou, mas ele só pode confirmar que algo realmente estava errado quando Midorima viu o barco. Ele não ouviu o que o de cabelos verdes disse, mas viu quando ele pulou na água, nadando até o pequeno barco. Mas que raios ele estava fazendo?
Discretamente, Aomine engatinhou até a amurada, para observar o que o amigo fazia. Satsuki havia corrido em busca de uma escada, para que ele pudesse voltar para o barco. O moreno voltou sua atenção novamente para Midorima, que estava arremessando as flores para fora do barquinho, em busca de algo. O moreno ficou observando quando ele parou, pegando algo entre as flores, mas daquela distância ele não soube dizer o que era.
Momoi jogou a escada para fora, chamando-o. Ele não olhou para ela, mas saltou novamente na água e nadou até a escada. Ao subir no barco, porém, Aomine conseguiu ver o que ele segurava. Sua reação foi a mesma de Satsuki: choque.
Era o símbolo dourado da capital.
Tudo depois disso passou muito rápido. Ele não estava no escritório junto a Midorima e Momoi, mas soube que o capitão não deixaria Midorima ir atrás do garoto que foi levado. Ele passou pelo corredor da sala de Nijimura no exato momento em que o mesmo dizia:
– Eu disse não. Lamento muito, Midorima, mas não posso permitir isso. E se vocês não eram próximos, como você diz, então não sei por que está tão preocupado.
Uma fúria começou a crescer dentro de Aomine. Ele não tinha um Elo, mas sabia que seria doloroso se alguém querido para ele fosse levado, se esse alguém estivesse correndo perigo. Ele não entendia porque o capitão não deixava Midorima ir atrás de seu Elo, e não queria entender. Naquele momento a sombra começou a tomar conta dele, ele começou a pensar menos e agir mais por instinto. Ele teria entrado naquela sala e brigado com seu próprio capitão se alguém não tivesse segurado seu braço. Ele se virou violentamente na direção da pessoa e viu Satsuki ali.
– O que esta fazendo, Aomine-kun? – perguntou a menina. – Acalme-se.
Aomine olhou novamente para a porta. As sombras estavam escurecendo seus pensamentos e o impedindo de raciocinar. Satsuki o puxou para ela e segurou seu rosto. Ele queria entrar naquela sala agora e brigar com Nijimura, talvez até ir junto de Midorima atrás de seu Elo.
– Aomine-kun – chamou Satsuki, mas o moreno não a escutava. Estava muito tomado pela raiva. Ela podia sentir as sombras tomando conta do garoto a sua frente. Aquilo não estava dando certo, precisava acalmá-lo. Aomine não se lembrava, mas ela já o vira tomado pelas sombras uma vez, e ele quase machucou Kise. As lembranças tomaram sua mente.
Aconteceu dentro do navio. Eles estavam viajando, e Kise havia se aproximado dele, enquanto o moreno limpava sua espada no deque principal.
– Aominecchi – disse Kise, sentando-se ao seu lado.
– Bom dia, Kise – Aomine o cumprimentou.
– Eu, erm... – o louro hesitou. Isso chamou a atenção de Aomine, que parou de mexer na espada e olhou para o amigo, com uma sobrancelha erguida.
– Diga – ele pediu.
Kise olhou para ele, corando, e em seguida desviou o olhar. O maior não se lembrava de tê-lo visto assim, e estava estranhando a situação.
– Kise? – ele chamou.
– Eu... – Kise ainda estava hesitante. – Eu queria falar com você, Aominecchi.
– Pois então fale, oras! – que raios ele estava pensando?
– É que é um assunto complicado – Kise olhou para ele timidamente. – Eu tenho medo de você não ser mais meu amigo.
Aquilo foi a gota d’água. Aomine deixou a espada de lado, inclinando-se na direção de Kise com o olhar sério.
– Kise – ele disse, severo. – Eu nunca, ouviu? Nunca vou deixar de ser seu amigo. Mesmo se você decidir destruir o mundo, eu ainda vou ser seu amigo. Você é a pessoa mais importante do mundo para mim.
Isso fez Kise ficar ainda mais vermelho. Ele respirou fundo, tomando coragem para continuar.
– Aominecchi, eu... – ele parou, mas reconsiderou ao ver o olhar de Aomine. – Eu... Amo você.
Ficaram em silêncio por um tempo, Aomine tentando compreender o significado daquelas palavras. Ele podia fingir que havia entendido “amor fraternal” ou coisa do tipo. Mas a verdade era que ele sabia o que Kise queria dizer. Suspirou, não sabendo como dizer seus sentimentos.
– Kise... – ele olhou para o amigo, que parecia extremamente preocupado. – Eu não sei como te dizer isso, mas... Eu não gosto de você desse jeito. Me desculpe.
Os ombros de Kise caíram, e ele parecia à beira das lágrimas. Aomine sentiu seu coração se apertar.
– Mas eu te amo, mesmo assim. Kise, eu nunca conseguiria viver sem você. Eu não posso retribuir os seus sentimentos, mas eu posso aceitá-los – ele sorriu. – Eu aceito que você me veja dessa forma. Se você concordar, eu ainda posso ser seu amigo.
– Aominecchi... – Kise estava sem palavras.
Aomine pegou as mãos do amigo. Nunca havia passado por aquele tipo de situação, mas as palavras estavam saindo de sua boca.
– Eu sempre vou estar aqui – ele disse. – Do seu lado. Eu vou te proteger, Kise. Eu juro, nada vai nos separar.
Um sentimento puro e diferente se espalhou pelo seu peito. Ele não sabia o que era aquilo, mas o mundo ao redor de Kise estava diferente. Era como se tudo fosse mais escuro, e o menor fosse sua luz. Uma necessidade enorme de estar com ele, de protegê-lo, nasceu. Aomine não conseguia expressar esse sentimento, mas estava decidido a fazer tudo ao seu alcance pelo amigo. Sempre.
Sempre.
– Ah, que lindo – ele ouviu uma voz, vinda da escada para o deque principal.
Ele soltou rapidamente as mãos de Kise, e os dois olharam para a fonte da voz. Um rapaz alto, de cabelos rebeldes e cinza-claros estava apoiado no leme, com uma expressão debochada no rosto. Haizaki, um dos Miracles da Teiko.
– Haizaki – disse Aomine, franzindo as sobrancelhas. – O que você quer?
– Nada – ele deu ombros, se aproximando lentamente. – Eu só queria bater um papo com o Ryouta aqui.
Kise se levantou, olhando para o outro rapaz. Ele parecia desconfortável.
– Poderia me acompanhar? – perguntou Haizaki, com uma educação falsa.
Sem responder, Kise o seguiu, olhando uma última vez para Aomine. O moreno observou até eles desaparecerem no deque, e voltou a limpar a espada. Uma sensação de desconforto havia se instalado nele. Não gostava de Haizaki, o rapaz tinha muita inveja de Kise, por alguma razão, e não respeitava ninguém, nem mesmo Nijimura. Já tinham visto muitos conflitos na tripulação por causa dele. O maldito.
Aomine estava imerso nos pensamentos, até que ouviu um grito. E era um grito conhecido. Levantou-se em um salto, e correu para o deque, onde os outros tripulantes estavam se reunindo.
O que viu o deixou em choque.
Kise estava caído no chão, com um enorme corte no peito, e Haizaki apontava uma espada para ele. Nijimura se aproximou, bufando.
– Haizaki! – ele gritou. – O que está fazendo?
O rapaz olhou sem expressão para o capitão, balançando a espada.
– Vocês vivem dizendo que o Ryouta é melhor do que eu. Mais forte – ele riu, cínico. – Eu quis testar se ele era mesmo. Hum, parece que não.
Nijimura parecia estar se controlando para não bater em Haizaki naquele momento. Ele era o capitão, não podia fazer aquelas coisas.
Aomine não tinha esse problema.
Ele sentiu quando a Sombra começou a dominá-lo. Ao ver seu amigo caído no chão, sangrando, ele se lembrou da promessa que havia feito alguns minutos antes. Proteger. Não conseguia cumpri-la nem por cinco minutos? Que tipo de amigo ele era?
Depois disso, ele foi dominado. Na época, Momoi conseguiu acalmá-lo, e no dia seguinte Aomine acordou sem memórias, e todos concordaram em não tocar no assunto. Haizaki foi expulso da tripulação, por atacar um companheiro, e nunca mais foi visto.
Momoi tinha que fazer o mesmo agora: acalmar Aomine. Ela segurou o rosto dele em suas mãos e o fez olhar para ela.
– Dai-chan – chamou a menina. Ela aprendera que o mesmo atendia melhor aos seus chamados quando ela usava o apelido. O moreno pareceu notá-la, e parou de tentar se virar para a porta. Ele fechou os olhos, mas a Sombra ainda estava lá. – Você tem que se acalmar, Dai-chan. Brigas não vão resolver nada agora – dizia ela enquanto afagava o rosto do maior. Ele abriu os olhos lentamente, e suspirou. As sombras estavam indo embora.
De repente, Aomine se virou, e continuou andando como se tentasse fugir daquele lugar. Sua consciência estava voltando, e se ele continuasse ouvindo a conversa dentro do escritório ele se irritaria de novo. Satsuki o seguiu.
– Dai-chan, onde está indo? – perguntou a menina, não notando que ainda o chamava pelo apelido. O moreno ainda estava muito bravo para notar também.
– Para a cidade – disse ele, de forma curta e grossa. Ele foi até o deque, pegando sua arma e sua espada e descendo do navio.
– Espera, Dai-chan – dizia Momoi. A mesma corria para tentar alcançá-lo, mas o ele não parecia se importar.
Os dois então foram até a cidade, e quando Momoi notou que não adiantaria falar com ele, ela simplesmente continuou a acompanhá-lo, enquanto ele andava por toda a cidade. Ela não queria deixá-lo sozinho, não poderia correr o risco de deixar a Sombra dominá-lo. Então ela só acompanhou Aomine, que andou pelo que pareceram horas. Já estava no meio da noite. Eles deveriam estar dormindo agora, e provavelmente o pessoal do navio devia estar preocupado com eles.
Enquanto isso, Aomine andava na cidade sem se preocupar com nada. Só tentava direcionar sua atenção para qualquer coisa. O barulho de seus passos no chão, as diversas árvores florescentes espalhadas pela rua, a brisa gelada vinda do lago ali do lado. Qualquer coisa que o distraísse era boa. Depois de andar muito, ele já podia sentir que estava controlado, e agora notava o barulho dos passos leves que o seguiram por todo esse tempo. Aomine não gostava de perder o controle, e a ideia de fazê-lo perto de Satsuki o preocupava ainda mais, então só parou de andar quando teve certeza de que nenhum rastro de Sombra estava lá, esperando para dominá-lo.
Ele parou em uma pequena praça iluminada por uma única, porem grande, árvore. A árvore ficava no centro da praça, e pequenos bancos estavam espalhados, formando um circulo ao redor dela. Lojas fechadas e prédios apagados circulavam o local, formando uma praça circular que parecia extremamente aconchegante. Ele parou de andar e notou que os passos atrás de si pararam também. Ele olhou para cima, vendo o teto onde deveriam ter estrelas, mas em seu lugar o desenho de uma lua feita de tinta fosforescente dominara o ambiente.
– Porque me seguiu? – perguntou o moreno.
– Achei que seria prudente tomar conta de você enquanto não estava consciente – disse ela, se aproximando lentamente.
– Mas eu estava consciente – mentiu Aomine. A menina deu alguns passos em direção a ele, ficando ao seu lado e olhando para o teto também.
– Nós dois sabemos que isso não é verdade, Dai-chan – O moreno, agora mais consciente, olhou surpreso para a menina, notando o apelido.
– Dai-chan? Desde quando você me chama assim? – Momoi percebeu que se esquecera de voltar a chamá-lo de Aomine-kun e corou.
– Por quê? Isso te incomoda? – o moreno pensou por algum tempo antes de responder.
– Não, de maneira alguma – depois de suas palavras um silencio constrangedor se instalou. Os dois ficaram só olhando para o “céu”, sem querer olhar um para o outro. Depois de algum tempo Momoi riu, chamando a atenção de Aomine.
– O que foi? – perguntou o mesmo.
– Nada, só estava pensando em quando nos conhecemos. Kise-kun nos apresentou, e naquela época eu era uma menina muito caseira, e já que vivi a vida inteira dentro de casa eu estava faminta por aventuras. Quando Kise-kun chegou com um convite para conhecer um navio eu não pude recusar. Eu era apaixonada por ele naquela época – Momoi parou de falar por um momento, surpreendendo Aomine com a revelação. – Eu me lembro que depois disso toda vez que via vocês treinando eu sentia inveja de vocês, e toda vez que eu pedia para ele me ensinar ele dizia que eu não podia, porque era muito pequena e indefesa.
– Bem, você realmente parece muito pequena e indefesa – confessou Aomine. – Garotas não deveriam empunhar armas.
Momoi se virou para ele com uma cara indignada.
– Era isso o que ele me dizia. Não vai me dizer que foi você que ensinou isso para ele também? – ela perguntou, recebendo um sorriso sacana como resposta. Ela se aproximou, fazendo sinal de negação com a cabeça. – Que coisa feia, Dai-chan – Momoi se aproximou bastante de Aomine, o deixando levemente nervoso com a proximidade para notar que a mesma buscava o cabo da espada com a mão. – Vou te provar que isso não é verdade – ela alcançou a espada e a empunhou apontada para Aomine.
Depois de se recuperar da surpresa, o mesmo voltou a sorrir, desta vez desafiadoramente, e se aproximou dela.
– Quer apostar quanto que eu tiro essa espada de você em menos de 1 minuto? – disse ele, provocando a menina.
– É o que vamos ver – disse Momoi, e se afastou dele dando um giro rápido e levantando a espada, que desceu com força em direção a Aomine, mas o mesmo era treinado e muito rápido, e desviou por muito pouco.
– Ei, você vai acabar se machucando – ele disse. Momoi continuou brandindo a espada, sem escutá-lo, e ele não pode deixar de admirar como ela parecia saber o que estava fazendo. Sua postura estava errada, e ela não tinha movimentos precisos, mas estava concentrada.
Depois de um tempo tentando acertá-lo, ela desistiu, baixando a espada com um biquinho.
– Não é justo, Dai-chan – ela reclamou.
– Claro – ele estendeu a mão, pedindo a espada, que lhe foi entregue de mal grado. – Ei, mas até que você não é tão ruim.
Ela corou, satisfeita com o elogio.
– É claro que não! – ela sorriu. – Eu disse para você. Não é por que sou mulher que não posso lutar!
– Hum, sei – ele parou para pensar. – Mas ei, como você aprendeu esses movimentos?
Ela pareceu envergonhada.
– Eu sempre observei você e o Kise treinando, e tentava copiar – ela olhou para o maior timidamente. – Estava muito ruim?
– Não – ele sorriu. – Na verdade, estava muito bom para alguém que nunca treinou.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, até que Momoi se pronunciou.
– Sabe, eu ficava com ciúmes quando vocês treinavam – ela disse, começando a andar de volta para o barco.
– Como assim... – Aomine balançou a cabeça. De repente, uma ideia lhe ocorreu. – Mas, espere. Você ficava com ciúmes de mim ou do Kise?
Ela parou de andar, virando-se para ele com um sorriso travesso.
– Isso é assunto para a nossa próxima aula – e saiu saltitante.
Aomine a seguiu, ainda desconfiado da informação.
Voltaram para no navio rindo e conversando. Aomine estava se sentindo bem melhor, sem o peso da Sombra, e Momoi parecia feliz. Ele a provocava com suas falhas na luta, e ela fazia cara feia e o chamava de machista. Além disso, eles só riram.
Porém, Aomine sentiu que algo estava errado assim que se aproximaram do cais. O barquinho em que tinham vindo ainda estava lá, mas conseguiam ver as luzes do navio acesas ao longe. Aomine franziu as sobrancelhas. Àquela hora o navio deveria estar quase completamente apagado, por descrição e por que todos já estariam dormindo.
Momoi também percebeu, e entraram no barco preocupados. Enquanto remavam até lá, Aomine começou a ver que o navio estava completamente aceso, e havia muitas pessoas no convés. Perguntou-se se aquilo tinha alguma coisa a ver com Midorima, mas achou improvável. O rapaz de óculos não era do tipo de fazer escândalo.
Quando finalmente chegaram ao navio, subiram pela escada que haviam deixado. Os tripulantes mal os notaram chegar, de tão imersos que estavam em seus sussurros. Aomine foi abrindo espaço na multidão, que comentava “que terrível”, “o que vamos fazer?”, “a capital está mesmo seqüestrando as pessoas?”. Aomine chegou à conclusão de que realmente estavam falando de Midorima. Mas por que tanto burburinho?
Finalmente encontrou seus amigos. Nijimura, Akashi e Midorima estavam ao redor de Kuroko, falando apressadamente. Akashi parecia nervoso, e Nijimura tinha o cenho franzido. Aomine e Momoi se juntaram ao grupo, curiosos.
– O que aconteceu? – perguntou Aomine. – Alguém foi sequestrado?
Ele olhou para Midorima ao dizer isso, mas então notou que o centro das atenções era Kuroko. Lembrou-se que ele não havia voltado para o navio, e havia saído com Kise.
Kise...
– Kuroko, onde está o Kise? – ele perguntou.
Todos olharam para ele, sérios. Um nó se formou em sua garganta, e ele teve um mau pressentimento. Sentiu Momoi apertar seu braço, mas não conseguia olhar para ela.
– Aomine-kun – Kuroko o chamou, lhe estendendo um embrulho. – Creio que isto seja seu.
Aomine olhou para os amigos mais uma vez, confuso, mas eles não lhe disseram nada. Pegou o embrulho, que era pesado, e o abriu. Seu coração parou momentaneamente.
Uma adaga. E uma maçã dourada, perfurada por duas flechas.
Era a adaga que havia dado a Kise mais cedo, manchada de sangue. E o símbolo da Capital. Ele olhou para Kuroko, não conseguindo acreditar naquilo. Não, não podia ser. De todas as coisas, de todas as pessoas. Não era possível.
– Parece que a Rainha está atacando com todas as forças este ano – comentou Akashi. – Dois sequestros diretamente envolvidos com a Teiko, no mesmo dia.
Aomine não respondeu, pois só conseguia olhar para a maçã dourada. A maldita maçã dourada. Midorima olhou para ele com compaixão, pois era o único ali que entendia sua dor. Ele tinha o mesmo símbolo.
A realidade finalmente caiu sobre Aomine. E ela pesava.
Kise havia sido sequestrado.
E o alvo era ele.
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