Notas iniciais
obrigada pelas visualizações e os acompanhamentos ^^ eu não esperava isso tudo no primeiro capítulo! convenci meu melhor amigo a ler minha fic! ele gostou :3 espero q vcs também gostem! esse segundo capítulo é bastante similar ao primeiro, mas a partir do terceiro capítulo as coisas começam a mudar e ficar mais legais :D aliás, acho q muita gente vai gostar do casal desse capítulo ^^ boa leitura!

Capítulo 2: Flores Verdes

“Uncertain hooves,

Let instinct choose,

Their every move to leave

Us cornered.”

Takao arremessou uma pedra com toda a sua força. O pequeno pedaço de concreto bateu em uma parede da construção abandonada e se despedaçou, espalhando poeira. Ele se abaixou e pegou outra pedra, e arremessou novamente.

– Até quando vai ficar fazendo isso? – perguntou Miyaji, sentado em um enorme bloco de concreto ao seu lado.

– Cale a boca.

Miyaji ergueu uma sobrancelha.

– Nossa, o que está acontecendo com você? Sempre foi tão educado e impossível de incomodar.

Takao olhou para ele, os olhos brilhando de raiva.

– Vai mesmo fazer isso? – ele parou de atirar pedras. – Nosso irmão foi levado. Levado. Nunca mais vamos ver o Shun, e você sabe disso. E o Moriyama foi atrás dele, por que nós não estávamos em casa quando aconteceu – ele olhou para frente. – Eu me pergunto, se nós estivéssemos lá, não poderíamos ter feito algo...

– Pare – Miyaji se levantou. – Não ouse se martirizar por algo que você não poderia ter impedido. Acha que temos alguma chance contra os guardas reais?

Takao abaixou a cabeça, e deixou cair a pedra que segurava. Quando voltou a olhar para Miyaji, seus olhos estavam cheios de lágrimas.

– Não faz nem um dia, e eu já sinto tanta saudade dele...

Miyaji não conseguiu aguentar ao ver as lágrimas rolarem pelo rosto do irmão, e o puxou para um abraço. Takao colocou os braços ao redor de sua cintura, e chorou com o rosto escondido em seu casaco.

– Eu também sinto – Miyaji afagou os cabelos do mais novo. – Mas nós temos que ser fortes. O papai e as nossas mães estão muito abalados, principalmente a Nara. Se começarmos a nos desesperar, só vamos piorar as coisas. Tenho certeza de que o Shun está bem – Takao se afastou para olhar nos olhos do irmão, que sorriu. – O Moriyama foi atrás dele. Vai dar tudo certo.

– Se você acha... – Takao se afastou do abraço, limpando as lágrimas na manga do casaco. Então sorriu, e Miyaji ficou aliviado ao ver a expressão habitual voltar ao rosto do irmão. – Obrigada, Kiyoshi-nii.

– Sem problemas – Miyaji corou. – Eu sou o mais velho, tenho que tomar conta de vocês.

Takao riu, e os dois começaram a caminhar para longe do prédio abandonado. Gostavam de vir ali para conversar, ou apenas terem um momento de paz, longe da vila. O prédio era para ter se tornado uma base da polícia, mas foi abandonado antes mesmo de ser utilizado. Assim, muitos haviam aproveitado aquele espaço para praticar movimentos de luta, fazer festas, e muitos haviam feito desenhos com grafitti, deixando o prédio antes cinzento, agora colorido. Izuki, Takao e Miyaji haviam dado sua contribuição ao plantar flores luminosas por todo o lugar, iluminando-o.

– Vai para casa agora? – perguntou Takao.

– Na verdade eu só ia te acompanhar – ele disse. – Papai me pediu para buscar umas coisas do outro lado da cidade.

– Hum – Takao tentou não deixar seu contentamento transparecer. Ele não pretendia ficar em casa, e estava aliviado ao saber que não teria problemas a esse respeito.

Chegaram em casa, e Miyaji se despediu, logo partindo para seus afazeres. Takao entrou em casa, fechando a porta atrás de si, e respirando fundo.

Era sábado.

Era dia de vê-lo.

Com um sorriso no rosto, Takao atravessou a casa, em direção ao quintal. Lá, eles cultivavam algumas flores que criavam, misturando os DNAs de flores já existentes. A energia sombria que corria em seus corpos os permitia fazer isso, mas era uma arte muito delicada e complicada. Seu pai os havia ensinado desde pequenos a criar flores, e por isso tinham tanta facilidade, mas uma pessoa comum não saberia como fazer.

Ao chegar ao quintal, Takao logo avistou a flor que queria. Era uma camélia, grande e linda, mas de coloração completamente verde. Takao colheu-a gentilmente, e logo a embrulhou em um papel especial, para que ela não amassasse durante o trajeto que teria que fazer. Saiu de casa feliz, olhando ao redor para ter certeza de que ninguém o havia visto e pudesse relatar ao seu pai.

Seguiu pelas ruas iluminadas por árvores brilhantes. Toda a iluminação da cidade era graças à sua família, que havia providenciado as plantas e percebido que eram uma ótima fonte de iluminação. Era graças a isso que tinham mais dinheiro, e não passavam mais fome. Takao pensou, agradecido, que as flores eram basicamente a razão de sua existência. Sendo o último filho, ele nunca teria nascido se seu pai não tivesse certeza de que poderia dar-lhe uma vida razoável.

Finalmente chegou ao seu destino: o cais da cidade. Sim, havia um cais no subterrâneo. Na verdade, havia vários rios ali, e o maior deles se estendia à sua frente. A cidade ficava em uma espécie de caverna gigante, e o cais ficava no fim dela, já que o rio passava beirando a cidade, encostando nas paredes da caverna. De onde estava, Takao podia ver de onde o rio vinha: uma enorme abertura na parede do lugar, formando um túnel extenso e escuro. Ele sabia que aquele era o caminho para outras cidades subterrâneas: outras colônias. Ele vivia na colônia japonesa, e sabia da existência das outras, mas apenas mercadores com o selo real podiam navegar para outros lugares.

Mercadores... Ou piratas, Takao pensou com um sorriso. Com isso, não demorou a avistar a pessoa que procurava, sentada em um dos pubs que ficavam no cais, uma fonte de diversão e alívio para os viajantes. Aproximou-se do lugar, indo em direção à mesa em que sempre sentava.

– Bom-dia – ele cumprimentou o homem à sua frente.

O jovem ergueu os olhos do livro que estava lendo, e o fechou com um movimento de mão.

– Bom-dia, Takao – ele se endireitou na cadeira.

– Está lendo outro livro? – perguntou Takao, enquanto se sentava. – Ou este é o mesmo?

– É o mesmo – ele olhou para o livrinho em cima da mesa. – Apenas um romance bobo para me distrair.

Uma atendente logo veio à mesa deles, perguntando o que queriam.

– O de sempre, Akane – Takao disse, piscando para a jovem.

– E o senhor? – ela sorriu para Midorima.

– O de sempre, também – ele ajeitou os óculos, empurrando-os com o dedo do meio, um hábito que divertia Takao.

– Certo, volto daqui a pouco – Akane sorriu, e se afastou.

– E então, como anda a vida? – perguntou Takao, debruçando-se sobre a mesa.

– Muito bem – disse Midorima, encarando uma parede. – Não tivemos mais problemas.

Takao assentiu. Ele entendia o que o outro quis dizer: não haviam tido nenhum confronto com o governo. Midorima fazia parte do maior grupo de piratas do subterrâneo: a Geração dos Milagres. E esse nome tinha vários significados. O primeiro era que eles eram um milagre que apareceu na vida das pessoas. Eram muito fortes, e roubavam os vastos suprimentos do governo e distribuíam ao povo, que passava fome enquanto o palácio dava enormes banquetes. Esse também era um dos motivos pelos quais a Rainha queria capturá-los com tanto afinco, mas eles contavam com a proteção do povo.

O outro motivo era o maior de todos, entretanto. Os líderes da Geração dos Milagres eram da raça mais poderosa que havia: os Miracles. Por isso o grupo tinha esse nome. Os Milagres controlavam a energia sombria de uma forma absurda, o que os tornava tanto poderosos como perigosos. Takao sabia que estava se arriscando ao se aproximar daquele rapaz, mas não podia evitar. Desde que o conhecera o achava fascinante, com seus cabelos verdes, assim como os olhos, escondidos atrás de óculos e adornados de longos cílios. Midorima era alto e esguio, mas Takao não duvidava de sua força. As mãos de dedos longos estavam sempre enfaixadas e bem cuidadas, mas o mais alto se recusava a dizer o porquê daquilo.

– Shin-chan – Takao chamou-o pelo apelido. – Eu trouxe um presente para você.

– Não me chame assim – Midorima corou. – Meu nome é Midorima Shintarou.

– Hum-hum, Shin-chan – o mais baixo sorriu diante da irritação de Midorima. Às vezes pensava se não estava se arriscando ao irritar uma das pessoas mais poderosas do mundo, mas então descartava a ideia. Ele não acreditava que Midorima pudesse machucá-lo. Pegou o embrulho com a flor e entregou-a ao amigo. Midorima pegou o pacote, e Takao viu curiosidade em seu olhar. Assim como Izuki fazia com Moriyama, Takao levava uma flor diferente a cada encontro, apesar de os deles serem mais raros.

O maior abriu o pacote, e seus olhos fitaram a flor verde durante algum tempo. Pegou-a delicadamente com seus longos dedos, e apreciou a flor em todos os seus detalhes. Takao sorriu: ele sempre fazia isso com as coisas que ganhava, e por isso Takao gostava de lhe dar presentes. Sabia que seriam apreciados.

– É uma camélia? – ele indagou, finalmente, olhando para Takao. – Tenho certeza de que você me trouxe uma.

– Eu trouxe uma camélia vermelha – Takao concordou. – Mas essa é diferente. Essa eu criei. É uma camélia verde.

Midorima fitou a flor durante mais alguns segundos.

– E por que você fez uma camélia verde?

– Para você – ele sorriu. – Eu fiz essa flor especialmente para você. Eu a chamo de Midori.

Takao pode ver o rosto de Midorima ficar vermelho. Ele guardou a flor cuidadosamente de volta no pacote.

– O-obrigada – Takao se surpreendeu ao perceber que o maior havia gaguejado. Havia conseguido despertar alguma emoção nele?

– De nada – ele sorriu.

– Você é o único que sabe criar flores em sua família? – perguntou Midorima, numa óbvia tentativa de mudar de assunto.

– Não, toda a minha família sabe. Inclusive, meu irmão criou uma flor linda outro dia... – ele parou, ao lembrar-se de Shun, e seu sorriso morreu. Obviamente, Midorima percebeu.

– Está tudo bem? – ele perguntou.

– É... – Takao sentiu o aperto no coração voltar, e sentiu uma necessidade enorme de desabafar. Precisava que alguém o escutasse. – É que esse irmão... Foi levado.

Seguiu-se um silêncio entre os dois, em que Midorima o encarou, de olhos arregalados.

– Mas... Não, isso é impossível...

– É bem possível – Takao balançou a cabeça. – Eu não estava em casa, mas meus pais me contaram o que aconteceu. Disseram que ele estava no quarto quando eles chegaram. Arrombaram a porta e entraram, destruíram nosso quarto, espancaram-no até ele desmaiar, e então o levaram, deixando um distintivo para trás.

Por algum motivo, Takao não derramou nenhuma lágrima ao pensar naquilo. Seu coração estava estranhamente frio, e algo em sua mente lhe disse que isso não era um bom sinal.

– Um distintivo... – Midorima ecoou. – Então ele foi levado como isca?

– Sim. Um grande amigo nosso, que era muito próximo do Shun, chegou em casa e viu tudo. Meus pais disseram que ele entrou no quarto, e quando viu o distintivo... – um arrepio percorreu o corpo de Takao ao se lembrar do relato. Aquilo, sim, o afetava ainda. – Eles disseram que ele gritou muito, muito alto. E quando saiu de lá, os olhos dele estavam cheios de sombra – ele olhou nos olhos de Midorima. – Ele se tornou um Sinner.

Midorima parou, pensativo. Akane chegou com dois cafés e colocou na mesa. Os dois agradeceram antes de continuarem a conversa.

– Então seu amigo era um Sombrio, antes?

– Sim. Absolutamente normal.

– Estranho, muito estranho. Tem certeza de que o distintivo era para o seu amigo?

– Absoluta. Eles deixaram um símbolo para trás. Meu irmão e meu amigo tinham um Elo.

Elo. Era apenas um nome que haviam encontrado para falar de uma ligação muito forte entre duas pessoas. Uma ligação forte o suficiente para que, se uma fosse sequestrada, a outra estivesse disposta a ir atrás dela. E Moriyama havia provado que ele realmente tinha um Elo com Shun.

– Impossível – Midorima o interrompeu. – Até onde você me contou, tanto seu irmão quando seu amigo eram Sombrios.

– E o que isso tem a ver? – Takao inclinou a cabeça para o lado.

– Que, para haver um Elo, pelo menos uma das partes tem que ser um Dunkelheit.

Ao som da última palavra, o ambiente pareceu ficar silencioso. Dunkelheit. Apesar de saberem da existência deles, a palavra nunca era usada.

Nascidos na colônia alemã, os Dunkelheit eram Sombrios possuídos pela energia sombria. Eles eram extremamente poderosos, mas também eram loucos, e muitas vezes matavam todos ao redor em ataques de fúria. Os Dunkelheit se dividiam em três raças: Sinners, Crowns e Miracles. Entretanto, apesar de Midorima ser um Miracle, Takao não o temia. Mas o nome ainda era um tabu.

– Mas o Moriyama se tornou um Sinner – ele contestou.

– Apenas depois de ver o que havia acontecido. Se a Rainha sequestrou seu irmão como isca, ele tinha que ser um Dunkelheit desde antes do sequestro.

Takao ficou pensativo diante disso. Realmente não sabia como responder àquilo. Tinha certeza de que eles tinham um Elo.

– Não estou duvidando de suas palavras – apressou-se em dizer Midorima. – Mas apenas acho estranho que isso tenha acontecido. Realmente, as coisas têm estado estranhas ultimamente. Não tivemos nenhum conflito com o governo, os mantimentos reais têm estado menos guardados, há menos patrulhas pela cidade... E não é só aqui. Por todo o subterrâneo tem estado assim.

– Faz alguma ideia do que posse estar acontecendo?

– Nenhuma – Midorima balançou a cabeça, e Takao viu que ele estava preocupado. – E o fato de a Rainha já estar começando a seqüestrar as pessoas só torna as coisas mais estranhas... – ele suspirou. – Diante disso, temo que não possamos mais nos ver.

– EH?! – Takao exclamou. – Por quê?

– Se ela já começou com os sequestros, significa que ela vai tentar atingir os Miracles. Continuar me aproximando de você o coloca em perigo. Nem sei se já não está. É melhor pararmos de nos falar, pelo menos até que o Torneio comece.

– Certo – disse Takao, cabisbaixo. Não era muito próximo de Midorima, mas o considerava um amigo, e saber que não poderia mais vê-lo o entristecia.

– É melhor eu ir, e dar as notícias ao resto da tripulação – ele se levantou. – Nós ainda nos veremos depois, Takao.

– Tudo bem – Takao se levantou, tentando não deixar que sua decepção aparecesse. – Boa sorte.

Eles trocaram um aperto de mãos, e Midorima se virou para ir embora, levando o embrulho com a flor. Porém, antes de sair do pub silencioso, ele se virou novamente para Takao.

– E... Obrigada pela flor – ele corou ligeiramente. – Ela é realmente muito bonita.

Dizendo isso, ela saiu do local, deixando Takao com um sorriso no rosto. Aquele idiota, não conseguia nem agradecer por algo!

O mais novo voltou a caminhar pelas ruas, indo para casa. As ruas estavam estranhamente silenciosas, apesar de ainda estar por volta da hora do almoço. Takao caminhava pela rua que antes era movimentada, até encontrar o problema. A rua havia sido bloqueada pela polícia, e as pessoas tinham que fazer um desvio por uma viela lateral.

Takao se apressou em sair das vistas dos policiais. Eles trabalhavam para a Rainha, e eram famosos por espancarem qualquer um somente por poderem fazê-lo. Assim, as pessoas os evitavam com afinco. Takao se enfiou na ruazinha escura, cheia de latas de lixo, e pensou se não era melhor ter voltado e feito um caminho mais movimentado. Mas, ao olhar para trás, viu que dois policiais haviam entrado na viela também. Olhou para frente acelerando o passo, querendo sair dali o mais rápido possível.

Porém, no fim da viela, surgiram mais dois policiais. E Takao travou. Ele sabia o que era aquilo: eles o estavam cercando. Ele já havia visto isso acontecer com várias pessoas quando andava na rua, os espancamentos esporádicos. Mas ele sentiu que aquilo era diferente, e lembrou-se de Midorima dizer que ele corria perigo por se socializar com ele.

Não pode ser, pensou. Ele apenas conversava com Midorima, e eram em raras ocasiões. Então por que estavam atrás dele? Por que ele?

Enquanto os policiais se aproximavam, memórias lhe assaltaram. Seu pai lhe dizendo exatamente o que havia acontecido quando levaram Shun, e recordando as palavras que Moriyama havia lhe dito. Eles vão voltar. Não vão desistir até terem levado todos eles. Mas por que eles? O que tinham de tão especial.

Seu sangue gelou. Miyaji. Ele precisava avisar Miyaji. Mas os policiais já estavam a menos de um metro dele, cercando-o e sacando seus cassetetes. O desespero o assolou, e ele sabia que não adiantava pedir, se entregar, implorar, ele não poderia escapar do que estava por vir.

Todos ergueram suas armas. E quando elas desceram, tudo ficou escuro.

Midorima estava deitado em sua cama, com a flor de Takao girando entre seus dedos. Era realmente uma flor muito linda, assim como todas que o rapaz lhe dava. Midorima não sabia o que estava acontecendo com ele. Por que se preocupava tanto com Takao, sendo que nem eram próximos? Por que gostava tanto da companhia dele? Por que sentia sua falta, e ansiava por seus encontros?

– Por que ele viu mais do que os outros – disse uma voz na porta de seu quarto.

– Momoi – ele virou a cabeça para olhá-la. – Eu disse em voz alta?

– Disse – ela riu, aproximando-se e deitando ao seu lado na cama. – Que linda essa flor. Ele que te deu?

– Sim – ele voltou a observar a camélia. – Diga-me, Satsuki. O que é este sentimento que me assola quando estou com ele?

– Hum – ela parou, pensativa. – Acho que você gosta dele, Midorin.

– Gostar? Como assim?

– Como eu disse, ele viu mais do que os outros podem ver. Ele te viu como você é, sem a sombra. Ele não se importa se você é um Dunkelheit – ela sorriu. – Esse rapaz é bem especial. E é seu único amigo. Como você poderia não gostar dele?

– Eu gosto dele... – Midorima tentava se acostumar com o pensamento. Sentimentos, emoções, eram coisas que ele não sentia há anos. Desde que havia se tornado um Miracle. Poderia Takao despertar essas coisas nele novamente? – Não pode ser. Nem somos próximos.

– Às vezes gostamos de alguém, mesmo que a vejamos por pouco tempo – Momoi deu ombros. – Você tem sorte de ter alguém que goste de você – então ela arregalou os olhos e agarrou o braço dele. – Midorin... Você acha que, você e ele... Podem ter um Elo?

– Não seja ridícula! – Midorima exclamou, assustando-a. – Não diga essas coisas. Eu não tenho um Elo. Não posso ter. Se eu tiver, ele vai... A Rainha...

– Deuses – ela se sentou na cama, olhando para ele. – Midorin, acho que vocês têm um Elo.

– Não! – ele se ergueu. – Miracles não têm Elos. Eu disse a ele hoje que não nos veríamos mais. Não tenho nada com ele.

Mas Satsuki ainda parecia preocupada com ele. Midorima não podia aguentar aquela possibilidade.

– Deixe-me em paz, Satsuki – ele a enxotou. – Saia do meu quarto.

Ela ainda estava preocupada, mas o deixou sozinho com seus pensamentos. Ele voltou a se deitar, e de repente se sentiu muito cansado. Tirou os óculos, colocando-os ao lado da flor em cima da mesa de cabeceira. O navio balançava com o movimento do rio, deixando-o sonolento, e ele adormeceu em pouco tempo.

E sonhou. Não sonhava há anos. Miracles não podiam sonhar, pois sonhos eram coisas de luz, e eles eram feitos de sombra. Mas aquilo era definitivamente um sonho. Estava em um grande campo, deitado, olhando para o céu. Em seu sonho, o céu era violeta, e o Sol era uma enorme esfera fosforescente. Ele nunca havia visto a superfície, então seu subconsciente devia ter criado uma a partir do subterrâneo. Mesmo assim, era um lugar tranquilo e relaxante. Ele respirou fundo, absorvendo o ar puro de seu sonho.

Então sentiu algo roçar sua mão. Olhou para o lado e viu Takao deitado ao seu lado, também observando o céu. Ele sorria, aquele sorriso com que Midorima havia se acostumado, e que o deixava estranhamente feliz. Takao olhou para ele, e Midorima prendeu a respiração. Seus olhos não estavam mais azuis, como eram normalmente. Estavam amarelos, e as íris haviam dobrado de tamanho.

– Olá, Shin-chan – disse Takao, mas sua voz estava diferente. Estava... Mais fria. Seu sorriso de repente não era mais tão bonito.

Midorima não conseguia falar, apenas observou enquanto o menor parecia se transformar ao seu lado. Ele parecia ter passado maquiagem ao redor dos olhos, por que eles se tornaram escuros e borrados. A maquiagem negra se parecia com... Penas? Penas castanhas.

– Gostou, Shin-chan? – ele disse. – Graças a você, eu estou assim.

Então ele se levantou, e de suas costas nasceram asas de penas marrons. Ele abriu as asas o máximo que pode, olhando para Midorima, mas este estava paralisado. Os olhos amarelos o encaravam vorazes, querendo destruí-lo, rasgá-lo, como um falcão...

Midorima acordou assustado, ofegante e com as roupas coladas com suor. O que raios havia sido aquilo? Primeiro ele havia sonhado, coisa que não acontecia nunca, e ainda por cima era um pesadelo? Um pesadelo muito estranho...

Ele voltou a se deitar, normalizando sua respiração. Estava realmente preocupado com Takao, ao ponto de imaginá-lo virando um... Um o quê?

Não conseguiria mais dormir, então levantou-se da cama. Ao olhar do relógio, percebeu que já era noite, e isso atrapalharia seu sono depois. Não que isso realmente o incomodasse naquele momento. Pegou os óculos, e observou a flor verde em cima da mesinha de cabeceira. Tinha que fazer alguma coisa a respeito daquilo, antes que realmente se tornasse um Elo...

Seus pensamentos foram cortados quando Momoi abriu a porta de seu quarto, chamando por ele. Midorima estava preparado para dizer algo rude, mas então viu o olhar desesperado da garota e percebeu que havia urgência em sua voz.

– Satsuki? – ele perguntou, cauteloso. – O que aconteceu?

Ela estava ofegante, e agarrava-se à maçaneta da porta fortemente.

– Mi-midorin... – ela gaguejou. – Você tem que ver uma coisa.

Midorima não pensou duas vezes antes de segui-la até o deck superior apressadamente. O que poderia ser tão urgente, ao ponto de apavorar a garota? Chegaram ao deck, e Midorima percebeu que estavam ancorados em outro cais.

– Satsuki, o que... – ele se calou quando ela caminhou até a amurada, fazendo um gesto para que ele a seguisse. – O que foi?

– Venha logo, Midorin! – ela estava irritada. Achando melhor não contrariá-la, ele caminhou até parar ao lado dela.

E então ele viu.

E desejou não ter visto.

Era um barquinho pequeno, de madeira, com um poste fino de madeira na ponta, onde havia uma lanterna antiga presa, iluminando-o. Estava parado ali de alguma forma que Midorima nunca poderia entender, mas isso era irrelevante. Por que o que o chocara era o que estava dentro do barco.

Flores verdes. Milhares delas, forrando o barquinho até a beirada, algumas flutuando na água ao redor. E no meio delas, alguma coisa brilhou, mas Midorima nem se importou. Por que as flores verdes eram camélias.

Não. Não pode ser. Por favor, não deixe que isso aconteça... Ele nem sabia a quem estava pedindo, só não podia aceitar aquilo. As camélias verdes pareciam zombar dele, gritando em seus ouvidos que ele era o culpado. O culpado por terem levado Takao. A culpa começou a consumi-lo, e a Sombra que o possuía há muito tempo pulsou em sua cabeça, liberando seu lado louco e selvagem. Ele quis rasgar, matar, fazer qualquer um sofrer. E iria.

Mas as camélias verdes ainda estavam ali. E elas o lembravam de Takao, que, mesmo sabendo o quanto Midorima era perigoso, nunca deixou de falar com ele, de lhe levar flores, de ser seu amigo... De fazer uma flor só para ele.

Ele nem percebeu quando murmurou, mas Momoi olhou para ele confusa.

– O que você disse, Midorin? – ela perguntou, preocupada.

– Eu disse – ele olhou para ela, os olhos verdes brilhando por trás dos óculos. – Que essas flores são minhas.

Sem pensar no que estava fazendo, pulou a amurada e se jogou no rio, ouvindo Momoi gritar atrás dele. Nadou até o barco, pulando para dentro com uma agilidade que ele não sabia que tinha. Vasculhou ferozmente, jogando as flores para fora, até achar o que queria. Puxou da bagunça um distintivo dourado, com uma maçã furada por duas flechas. Olhou para o barco, e viu Momoi jogando uma escada para ele. Saltou do barquinho, e subiu pela escadinha.

Tinha que fazer alguma coisa.

Nijimura o observava, sério. Midorima já havia contado ao capitão tudo que havia acontecido, e só esperava uma resposta. Akashi, seu imediato, estava encostado em uma parede, silencioso.

– Midorima, eu lamento muito – disse o capitão, por fim. – Mas o que você espera que eu faça?

Midorima sentiu vontade de gritar, mas nunca deixaria sua imagem controlada se desfazer.

– Capitão, eu preciso ir atrás dele – ele disse, pacientemente. – Eu não posso deixá-lo lá. Você sabe o que fazem com as iscas que não trazem resultados – ele sentiu seu coração se apertar.

– Sim, eu sei – concordou o capitão. – Mas pense bem, Shintarou. Raciocine comigo – ele olhou sério para o de cabelos verdes. – Você disse que nunca foram muito próximos, apesar de eu ter certeza de que vocês têm um Elo.

Midorima concordou, a contragosto.

– Tenho que admitir que talvez, por algum acaso estranho do destino, nós tenhamos um Elo. Mas eu posso garantir que nunca fomos próximos. Nós apenas sentávamos em uma mesa, conversávamos por uma hora, e depois seguíamos nossos caminhos.

– Certo – Nijimura balançou a cabeça. – Então, a Rainha blefou.

Midorima ficou confuso.

– Me desculpe?

– Isso é um blefe. Nós, da Geração Milagrosa, nunca temos contato com gente de fora. Ela não sabe se vocês têm um Elo, simplesmente pegou a primeira pessoa com que viu você conversando, e a sequestrou. Se você for até lá, vai confirmar as suspeitas dela, e isso eu não posso permitir. Não posso perder nenhum de vocês para o governo.

Midorima estava prestes a perder o controle. Socou a mesa, assustando Momoi e fazendo até mesmo Akashi demonstrar alguma surpresa.

– Faz ideia do que está dizendo? – ele praticamente gritou. – Acha que posso ficar aqui, parado, enquanto o governo mata um garoto por culpa minha? Eu preciso salvá-lo!

Nijimura se levantou, e Midorima recuou. Sabia que havia passado dos limites.

– Eu disse não – ele estava frio. – Lamento muito, Midorima, mas não posso permitir isso. E se vocês não eram próximos, como você diz, então não sei por que está tão preocupado.

– Por que... Eu gosto dele – Midorima admitiu, surpreendendo a todos. – Eu gosto muito dele.

– Não diga besteiras – Akashi falou pela primeira vez. – Nós não temos sentimentos. Não mais.

– Por isso mesmo. Ele me fez sentir algo, pela primeira vez em anos – mas ele sabia que aquela batalha estava perdida. Mesmo assim, encarou seu capitão nos olhos – Não vou atrás dele. Mas não vou deixar de sentir.

E dizendo isso, saiu da cabine. Momoi foi em seu encalço, olhando preocupada para ele.

– Midorin, eu lamento muito – ela disse.

– Eu sei – ele disse, surpreendendo mais uma vez. – Eu sei disso.

Ele entrou em seu quarto, e Momoi não o seguiu. Fechou a porta e tirou as roupas molhadas, jogando-as em qualquer canto.

Aquilo era tão bom. Sentir. Há quanto tempo ele não tinha essa experiência? De alguma forma, quando pensava em Takao, era como se a sombra não pudesse atingi-lo. Como se a maldição pudesse ser quebrada.

Ele sorriu com o pensamento. Sabia que era impossível, mas ainda tinha uma esperança. Deitou-se na cama, sem trocar de roupa, e esperou o sono chegar. Nem se preocupou em sonhar.

Ele queria poder sonhar para sempre.

Notas finais
eai, o que acharam? :D tadinho do Kazu-chan! e os sonhos bizarros do Midorima :S o q será que ele vai fazer? ah, uma coisinha que meu amigo me disse. a história ainda está um pouco confusa, mas o objetivo é esse mesmo. nem os próprios personagens entendem o que está acontecendo! mas no capítulo 4 as coisas vão começar a ser melhor explicadas, e perguntas serão respondidas. no capítulo 10 ou 11 eu vou explicar tudinho nos mínimos detalhes, e se ainda houverem dúvidas elas serão respondidas! é isso, espero que tenham gostado do capítulo ^^ sei que muita gente tem vergonha ou preguiça, mas eu realmente gostaria de uma opinião imparcial (ou seja, de pessoas que não sejam meus amigos da escola ou minhas primas), então por favor, comentem e me digam o que estão achando! até o próximo capítulo, kissus!