Notas iniciais
Então, gente! :D essa é a primeira fic que eu posto aqui no site, espero que gostem. Eu já postei no AS, mas o pessoal lá é meio desanimado. Acho que tem mais gente que gosta de ler fanfic de banda e artista. Espero que os otakus e otomes do Nyah sejam mais animados ^^Esse é o primeiro capítulo, e o casal que vai aparecer é MoriZuki (Moriyama x Izuki), mas eles NÃO são o casal principal. Na verdade, não tem um casal principal. Coloquei eles no começo por que eu amo esse ship, e por que eles me inspiraram para a fic :) a imagem de capa não é minha, eu encontrei no tumblr.Boa leitura, gente, espero que gostem! Deixem reviews, eu preciso saber se as pessoas gostaram.(ah, não sei se é interessante, mas a música que me inspirou para esse primeiro arco da história é Ben Moon - Majesty feat. Veela. É uma música linda, e eu acho que traduz bem o sentimento dessa parte da história)

Capítulo 1: Flores Negras

“It’s not enough,

I’ve given up,

They’re wielding guns,

We’ve been taken over.”

Ele sentiu o vento bater em seu rosto, desarrumar seus cabelos e puxar suas roupas. As folhas das arvores farfalharam, e ele podia jurar que ouvia os sussurros do vento. Ainda assim, caminhava com calma na trilha que beirava o lago de águas violeta.

A água não era violeta de verdade. A cor era resultado das folhas fosforescentes das árvores, Sakuras que haviam sofrido mutações há décadas. Quem olhasse de longe veria um lago colorido, cercado por árvores de troncos finos e negros, com folhas brilhantes, estas também flutuando no lago, como pequenos barcos. E essas folhas eram o que iluminava tudo ao redor, pois não havia céu.

Moriyama lembrou-se mais uma vez daquele detalhe. Ele sempre se perguntava como as coisas se pareceriam com a luz do Sol. Tudo que ele conhecia vinha da escuridão, constante na cidade. Ao olhar para cima, havia apenas um teto de concreto, cheio de pichações e grafite fosforescentes, uma tentativa de colorir o cinza que os aprisionava. Haviam desenhado uma lua púrpura, cercada por estrelas prateadas, que brilhavam não importando o horário. Moriyama sabia que na superfície havia um Sol, e que ele brilhava durante o dia, e trocava de lugar com a Lua durante a noite. Mas isso ele nunca havia visto. O único céu que conhecia era aquele artificial.

A vila ficava ao redor do lago. Era ali que as pessoas, os Sombrios, moravam. As casas eram simples, feitas de madeira e barro, e iluminadas por velas e lampiões. Por causa da escuridão do subterrâneo, todos plantavam Sakuras ao redor das próprias casas, para conseguir mais luz. Apesar de querer do fundo de sua alma poder ver o Sol uma única vez, Moriyama reconhecia que o subterrâneo era lindo, do jeito deles.

Ele abriu a sacola que levava, verificando se o conteúdo ainda estava inteiro. Uma caixinha com oito bolinhos estava ali dentro. A família de Moriyama tinha uma confeitaria, e seu pai lhe ensinava a fazer todos os tipos de doces. Quando pequeno, ele comia tudo sozinho, mas com o passar do tempo começou a se sentir muito solitário. Desejou que alguém pudesse comer junto com ele, dizer se estava bem. Muitas perguntas giravam em sua cabeça de criança. “Eu acho bom esse bolinho, mas o que as pessoas acham? Será que se outra pessoa provar, ela vai achar tão bom quanto eu? Que sabores ela vai perceber primeiro? Nós sentimos os mesmos sabores ao provar a mesma coisa, ou nossas línguas sentem gostos diferentes?”.

Ele não tinha irmãos, e sua família se resumia à sua mãe e seu pai. Não tinha amigos, pois quase nunca saia de casa, para ajudar seus pais na confeitaria. A vida no subterrâneo era árdua, e todos eram muito pobres. Um passo em falso e você passaria de pobre para sem-teto, então todos davam tudo de si para sobreviverem mais um dia. Assim, a vida de Moriyama era muito solitária: apenas ele e seus bolinhos.

Até que um dia seu pai lhe pediu ajuda para fazer uma entrega. Moriyama levou um pequeno bolo de aniversário para um amigo de seu pai. Aparentemente, um de seus filhos faria aniversário naquele dia, e a família havia juntado todas as suas economias para comprar um bolinho.

Parou em frente a uma casa simples, como as outras, mas esta era muito mais bela. Flores enfeitavam todos os cantos do jardim, das janelas, do telhado. Flores que brilhavam, tornando a casa um pequeno Sol colorido em meio à escuridão. Moriyama lembrava-se de ter ficado encantado, encarando todas aquelas flores estranhas aos seus olhos. Bateu na porta timidamente, perguntando-se que tipo de pessoas morariam ali.

Um homem de meia-idade, de olhos bondosos e cabelos escuros, abriu a porta. Sorriu ao ver Moriyama parado ali, estendendo uma pequena caixa.

– Aqui está o bolo que pediram – ele disse, baixinho.

– Ah, que bom! – o homem pegou a caixa animadamente. Então olhou para Moriyama. – Você deve ser o filho do Shinzako, certo?

– Sou Moriyama Yoshitaka – ele assentiu.

– Ora, você deve ter a idade do meu filho – ele parou para pensar. – Por que não entra? Seu pai me disse que você não conhece quase ninguém da vila!

Moriyama corou, sem saber o que dizer. Estava sendo convidado para entrar na casa de um desconhecido, mas tinha que admitir que estava curioso para conhecer outras pessoas de sua idade. Antes que pudesse pensar mais, o homem segurou seu ombro e o puxou para dentro, rindo.

– Está com vergonha? – ele sorriu. – Não precisa ficar assim, eu te segurei no colo quando você ainda era um bebezinho.

Moriyama arregalou os olhos, e o homem riu.

– Eu e seu pai somos amigos de infância. Haha, não seria interessante se você se tornasse amigo de um filho meu? A história se repetindo. Oh, eu não disse meu nome – ele apressou-se em dizer. – Sou Shimizu Shen.

– Prazer, Shimizu-san– Moriyama disse, apertando as mãos atrás das costas. A casa era muito bonita, de paredes brancas, e cheia de vasos de flor. Tomando coragem para falar, ele perguntou: — Senhor, por que tem tantas flores na sua casa?

– Hum, você gostou das flores? – ele perguntou, passando pela sala.

Moriyama assentiu.

– Minha família tem uma floricultura, Moriyama-kun. Sabemos tudo sobre flores, inclusive que elas são uma ótima forma de iluminação. Por isso enchemos nossa casa com elas – ele piscou. – Afinal, as flores nunca param de brilhas. Velas acabam um dia.

Eles chegaram à cozinha, onde duas mulheres estavam sentadas à mesa, conversando. Uma delas era loira, de olhos castanhos. A outra tinha cabelos negros e olhos azuis profundos. Outra mulher, de cabelos negros e olhos cinzentos lavava a louça na pia. Elas ergueram os olhos quando Shimizu Shin entrou, e sorriram carinhosamente.

– Querido! – exclamou a loira. – O bolo chegou?

– Sim – ele assentiu, entregando a caixa à mulher. – Lembram-se de Moriyama, meu amigo de infância? – elas assentiram. – Este é o filho dele. Vamos, diga seu nome, filho. Não tenha medo.

– Ahn... Eu sou Moriyama. Prazer – ele curvou-se respeitosamente.

– Prazer, querido – a loira foi até ele, sorrindo. – Sou Miyaji Yuri, a primeira esposa.

– Izuki Nara, a segunda esposa – disse a de olhos cinzentos, terminando de lavar a louça.

– Takao Hinata, a terceira esposa – disse a de olhos azuis, por fim.

Era permitido entre os sombrios ter mais de uma esposa, desde que todas elas fossem bem tratadas e o marido tivesse condições de manter uma vida digna à todas elas. Entre os humanos isso era considerado um tabu, mas era algo normal para os sombrios. E as três mulheres de Shimizu pareciam se dar muito bem. Além disso, era uma sociedade matriarcal: as mulheres tinham os direitos de liderança e de sobrenome da linhagem.

– Quem é o seu filho? – perguntou Moriyama.

– Eu tenho três filhos – ele disse. Então olhou para as mulheres. – Onde estão os meninos, falando nisso?

– Brincando no quintal. Um momento, vou chamá-los – Izuki Nara saiu da cozinha. Moriyama ouviu-a gritar alguma coisa, e então ela voltou com dois meninos. Um deles era loiro de olhos castanhos, e o outro tinha cabelos negros e olhos azuis. Moriyama soube na hora de quem eram filhos.

– Meninos, este é Moriyama Yoshitaka. Ele trouxe o bolo de aniversário.

– Olá – o de olhos azuis se aproximou, sorridente. – Meu nome é Takao Kazunari. Pode me chamar de Kazunari, mas eu acho um nome muito comprido, então as pessoas me chamam de Takao mesmo. E esse chato oxigenado é o Kiyoshi. Ele não gosta de falar com as pessoas.

– Não é nada disso! E eu não sou oxigenado – Miyaji franziu as sobrancelhas e cruzou os braços, mal-humorado. Moriyama não conseguiu segurar um sorriso.

– Quem está fazendo aniversário? – perguntou.

– Ah, é o Shun – disse Takao. – Ele está no quarto, fazendo sei lá o quê. Quer vir chamá-lo?

– Pode ser – disse Moriyama, dando ombros, e acompanhando os irmãos pela casa. Podia ouvir as mães e Shimizu dando risadinhas atrás deles, mas não olhou para trás.

– Ei, Shun, vamos entrar – disse Miyaji, mal-humorado como sempre. Sem bater na porta, abriu-a e entrou no quarto.

Moriyama entrou timidamente, e encontrou um garoto de cabelos negros e olhos cinzentos sentando na cama, lendo uma enciclopédia sobre flores. Ele olhou para cima, e sorriu ao ver Moriyama.

– Oi – ele fechou o livro e se levantou. – Eu ouvi você entrar. E ouvi toda a conversa na sala. Obrigada por trazer meu bolo.

– De nada – Moriyama corou. Achava aquele menino muito fofo, mas nunca iria admitir isso.

– É bom ver um rosto novo de vez em quando – disse Takao. – Nós não vemos muita gente. Estamos sempre aqui, ajudando o papai a cuidar das flores novas, e depois levando para a loja.

– Eu também fico ajudando meu pai na confeitaria – disse Moriyama. – Vocês são os primeiros garotos da minha idade com quem converso.

– Nossa, então não se traumatize. Nem todos os garotos são estranhos como nós – Takao brincou, e todos riram.

Moriyama sorriu com as lembranças. Mal sabia ele que aqueles garotos se tornariam seus melhores amigos. Especialmente Izuki Shun, o garoto de olhos prateados, que adorava falar de flores, e sabia tudo que havia para saber sobre elas. Assim como Moriyama, ele se perguntava se as pessoas conseguiam sentir o cheiro das flores como ele sentia. Isso fez com que os dois se aproximassem muito, e passassem a se ver toda semana. Miyaji e Takao se encontravam com eles no começo, mas então começaram a sair para outras coisas, que não quiseram dizer o que era. Assim, Moriyama e Izuki passaram a sair sozinhos. Juntos, e sozinhos. E fizeram um acordo. Toda semana, Moriyama levaria um doce para ele, e em troca Izuki lhe daria uma flor, cada semana uma diferente.

Moriyama parou em frente à casa da família, iluminada como sempre. Bateu na porta, e aguardou que alguém a abrisse. Não demorou muito para que a esposa loira e sorridente viesse atendê-lo.

– Bom dia, Moriyama-kun! – ela exclamou. – Pode entrar.

– Bom-dia, Miyaji-san – ele entrou. – Aqui estão os bolinhos da semana.

– Oh, que amor – ela pegou a caixa. – Seus doces são sempre ótimos. Oh, o Izuki está te esperando no quarto dos meninos.

– Obrigada – ele sorriu, e caminhou pela casa que conhecia tão bem. Passara muito tempo ali, e o senhor Shimizu dizia que ele já era parte da família. Parou em frente à porta do quarto que os três irmãos dividiam, e bateu três vezes.

– Pode entrar – ele ouviu uma voz dizer.

Abriu a porta, e encontrou Izuki sentando na cama, escrevendo em um caderno. Isso lembrou-o do dia em que se conheceram. Mas, agora, Izuki escrevia sobre as plantas, e não apenas lia sobre elas.

– Bom-dia, garoto das plantas – ele fechou a porta atrás de si. – Os bolinhos estão com a sua mãe.

– Oh, fez bem em me lembrar – ele foi até a janela, e se debruçou sobre o parapeito, pegando algo do quintal. Voltou segurando uma flor, e estendeu-a para Moriyama.

Ela tinha quatro pétalas brancas, e um miolo com pequenas hastes roxas. Na ponta das hastes, havia uma bolinha de luz cor-de-rosa fosforescente.

– Que linda – Moriyama cheirou-a. Tinha um cheiro doce e suave. – Como se chama?

– Pôr-do-sol – ele disse. – Eu não sei como é um pôr-do-sol de verdade, mas eu imaginei que, se o sol se pusesse aqui no subterrâneo, seria assim.

– Então essa você criou? – Moriyama pousou a flor delicadamente sobre a cama, e se sentou ao lado de Izuki.

– Sim – ele sorriu. Adorava criar novas flores. Essa era uma das vantagens de ser um Sombrio: podiam fazer coisas que os humanos só podiam sonhar. – Ei, o que acha de darmos um passeio no lago?

– Pode ser – Moriyama se levantou.

– Eba! – Izuki saltou da cama, já pegando suas roupas e se vestindo.

Quando terminaram, Izuki saiu saltitando da casa, gritando um tchau para a mãe e as outras mulheres. Moriyama mal teve tempo de acompanhá-lo, e já estavam na beira do lago, caminhando.

– Ah, eu acho esse lugar tão lindo – Izuki suspirou. – Meus irmãos não saem comigo. Eles estão ocupados com outras coisas.

– Faz alguma ideia do que são essas coisas? – perguntou Moriyama.

Izuki deu ombros.

– Não sei. Mas eu tenho um palpite – ele olhou maliciosamente para Moriyama.

– Calma aí – Moriyama sorriu. – Acha que essas “coisas” são “alguém”?

– Eu tenho certeza. E eu também tenho certeza de que são pessoas muito agradáveis, por que de vez em quando os dois não dormem em casa.

– Caramba – Moriyama riu. – Então só você está preso em casa?

– Não exatamente. Afinal, eu também estou ocupado com algumas coisas neste exato momento.

Ele não olhou para Moriyama, mas Yoshitaka corou mesmo assim. Não sabia em que sentido Izuki havia dito aquilo, mas era o suficiente para fazer seu coração bater um pouco mais rápido. Mas que droga, por que esse tipo de coisa acontecia quando estava com Izuki?

Sentaram-se em um banco de pedra, de frente para o lago, e debaixo de uma Sakura. O banco estava forrado de pétalas fosforescentes, que em pouco tempo começaram a cair em suas cabeças. Ficaram um tempo observando o lago, em silêncio. Mas o olhar de Moriyama se desviou lentamente para observar Izuki. Ele estava tão lindo, sob as luzes das árvores e do lago, com pétalas no cabelo negro, e os olhos prateados que Moriyama tanto amava fixos nas águas brilhantes. Então esses olhos encararam Moriyama repentinamente, e ele virou o rosto, corando.

Izuki deu um pequeno sorriso, apoiando a cabeça no ombro de Moriyama.

– Fico tão feliz de você ter levado aquele bolo para o meu aniversário – ele disse. – Por que você levou daquela vez?

– Meu pai estava ocupado com a loja. E... Foi a primeira vez que eu havia feito um bolo para vender. Eu queria ver se vocês achariam bom ou não...

Izuki olhou para ele, sorrindo.

– Foi o melhor bolo de aniversário que eu já comi.

Moriyama tinha certeza de que estava parecendo um pimentão. Seu coração estava batendo mais rápido do que deveria, com certeza.

Ficaram mais um tempo conversando, até que decidiram que já estava tarde. Despediram-se, prometendo se ver outra vez no dia seguinte. Seria o dia de folga de Moriyama. Ambas as famílias podiam dar folgas para os filhos, já que suas situações financeiras estavam muito melhores. O que significava que Moriyama poderia ver Izuki mais vezes. Esse simples pensamento o fez sorrir, enquanto voltava para casa.

Só quando deitou-se para dormir e olhou para as milhares de flores em seu quarto que se lembrou da flor que Izuki lhe dera naquele dia. Havia esquecido-a na casa dele. “Amanhã eu pego”, pensou. Fechou os olhos e adormeceu, no quarto iluminado por milhares de cores diferentes.

– Bom-dia, pai – ele disse, ao sentar-se para tomar o café-da-manhã.

– Bom-dia – o pai ergueu uma sobrancelha. – Está animado hoje.

– É por que é meu dia de folga – ele respondeu, preparando seu leite.

– Hum, tem certeza de que não é por que vai poder passar mais um dia com o Shun?

– Do que você está falando? – Moriyama quase derrubou o copo.

Mas seu pai apenas riu, terminando de tomar o próprio leite. Saiu para trabalhar, deixando Moriyama com os próprios pensamentos. Este terminou seu leite, escovou os dentes e partiu para a casa de Izuki.

Bateu na porta, como sempre, e aguardou. Estava ansioso para falar com o amigo, e pareceu demorar uma eternidade para que alguém atendesse a porta. Já abriu seu sorriso de sempre, pronto para cumprimentar quem quer que houvesse aberto a porta.

– Bom-dia, Miya... – ele parou ao ver que a loira não sorria. Ao invés disso, tinha os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. Quando viu Moriyama, ela soltou um gemido e começou a chorar dolorosamente.

– Não, por que tinha que ser você... – ela chorou.

– Miyaji-san – Moriyama ajudou a mulher a se manter de pé. Ela parecia que ia desmaiar a qualquer momento. – Acalme-se. Vamos, sente-se no sofá.

Ele a levou até a sala, mas o que viu lá apenas o chocou ainda mais. O senhor Shimizu estava sentado no sofá, o rosto marcado por lágrimas, enquanto abraçava a esposa Izuki, que chorava alto, como se estivessem espancando-a. Takao Hinata estava encostada em uma parede, com uma mão cobrindo a boca, enquanto lágrimas molhavam seu rosto. Quando viu Moriyama, porém, desatou a chorar.

Moriyama não conseguia pensar. Nem queria. Algo estava muito errado, de verdade. Ajudou Miyaji a se sentar, e aproximou-se de Shimizu. O homem parecia paralisado. Não levantara o olhar nenhuma vez, e as lagrimas desciam por sua face em silêncio. Moriyama se ajoelhou na frente dele.

– Shimizu-san – ele disse, cautelosamente. – O que aconteceu?

Somente então ele pareceu se dar conta da presença do jovem. Olhou para ele, com os olhos mortos. Então arregalou-os, e começou a soluçar.

– Não – Moriyama segurou sua mão. Estava cansado daquilo. A pressão, a tristeza, era muito para ele aguentar, sem saber o que estava acontecendo. – Você não pode chorar. Seja lá o que for que esteja acontecendo, não chore. Seja forte por suas mulheres.

Shimizu engoliu os soluços, e respirou fundo. Fechou os olhos, apertando Nara junto a si. Então abriu os olhos e encarou Moriyama.

– O que aconteceu? – o jovem perguntou. – Me diga, o que aconteceu?

Shimizu o encarou firmemente, apertando sua mão.

– Eles o levaram – ele disse, as lágrimas descendo novamente por sua face. – Eles levaram o meu menino – os soluços saíram novamente, como se cada palavra arrancasse um pedaço de sua barreira. – Levaram o Shun.

Ele já chorava tanto quanto as esposas a essa altura. Moriyama só conseguia encará-lo, segurando sua mão macia e bondosa. As palavras não conseguiam entrar em sua cabeça. Eles o levaram. Levaram meu menino. Levaram o Shun. Shun. Shun. Shun. O nome parecia ecoar pela sala abafada. O coração de Moriyama batia forte, como se quisesse rasgar a si próprio, derramando o sangue pelo tapete. Uma dor que ele não poderia nem imaginar o afligiu, e ele entendeu as palavras. Shun se fora. Ninguém sairia com ele para andar ao redor da lagoa. Ninguém provaria seus doces. Ninguém lhe entregaria flores luminosas toda semana.

Ninguém o observaria com olhos prateados como diziam ser a Lua. Ninguém sorriria para ele, enquanto desenhavam estrelas nas páginas de cadernos de botânica. Afinal, as flores não eram como as estrelas do céu, iluminando a cidade da escuridão.

Izuki, você era minha estrela. Moriyama sentiu algo se remexer no fundo de sua cabeça. Algo sujo, escuro, que pulsava insistentemente. Algo que guardava desde o dia que nascera, e que seus pais haviam lhe ensinado a manter escondido.

A Sombra.

Moriyama levantou-se, sem olhar para a família em sofrimento. Caminhou lentamente até o quarto de Izuki, observando as paredes da casa em que o havia conhecido. Seu primeiro amigo. Parou em frente à porta, e bateu três vezes.

Desta vez ninguém respondeu. Ele abriu a porta mesmo assim, adentrando o quarto cheio de flores.

Seu coração parou de bater.

Tudo destruído, como se tivesse havido uma luta ali. Os cadernos estavam rasgados, as folhas amassadas e espalhadas por todo lugar. As flores estavam despedaçadas, e não brilhavam mais. A escuridão era palpável. E havia uma coisa suja ali. Uma coisa ruim, podre, cruel.

A Sombra pulsou novamente.

Em cima da cama de Izuki, estava o símbolo da capital: uma maça com duas flechas transpassando-a. O distintivo estava manchado de sangue, e preso a alguma coisa. Moriyama aproximou-se do símbolo cautelosamente, imaginando de quem seria aquele sangue.

A Sombra pressionava sua cabeça, fazendo seus olhos quererem saltar para fora das órbitas. Moriyama ajoelhou-se ao lado da cama, pegando o símbolo, e finalmente vendo em que estava preso.

A flor que Izuki lhe dera no dia anterior não brilhava mais. As pétalas haviam se tornado negras, e estava manchada de sangue. Era um convite, e Moriyama o entendeu perfeitamente.

A Sombra assumiu o controle.

Ele gritou, um urro de dor, de perda, de frustração. Gritou até perder a voz, e então chorou, com o rosto apoiado na cama destruída. Aquilo não era natural, e ele sabia disso. O quarto foi preenchido por uma escuridão pulsante, que saía dele. Era culpa dele. Tudo culpa dele. Se não tivesse se aproximado de Izuki, aquilo não teria acontecido. Eles não teriam um Elo.

Levantou-se, as sombras girando ao seu redor. Pegou a flor negra, colocando-a dentro do casaco, e caminhou para fora do quarto. Ele conseguia ver as coisas mais claramente agora, como se tivesse rompido uma barreira. Uma nuvem negra pairava na sala, rodopiando ao redor da família em prantos.

Não. Ele observou melhor, e viu que a sombra não estava em todos. Somente nas mulheres. E a sombra que saia de Takao Nara era a mais poderosa que já havia visto. Pensou bem, e caminhou até ficar de frente para Shimizu. Observou o homem que considerava como seu tio, chorando cheio de dor. Agora ele entendia tudo.

Shimizu olhou para ele, com os olhos cheios de dor. Mas, assim que encarou Moriyama, sua expressão passou a ser de terror.

– Moriyama... Você... Não pode ser...

– Tome conta deles – ele o alertou, calando-o. – Eles irão voltar. Não vão desistir até terem levado todos.

As mulheres pararam de chorar, e o encararam, as expressões cheias do mesmo terror do marido.

– Moriyama... – sussurrou Yuri.

Mas ele não ficou para ouvir. Já havia visto e dito tudo o que precisava. Deu as costas para sua segunda família, e caminhou para a própria casa. Só havia mais uma coisa que precisava fazer.

As pessoas o olhavam com pavor no olhar, e desviavam de seu caminho. Ele sabia que havia libertado algo que não devia, e agora não havia volta. A Sombra estava no controle. Caminhou até a floricultura, onde seus pais estavam. Não bateu para entrar.

– Oh, Yoshi – disse seu pai, sorrindo enquanto fazia um bolo. – Já está de volta? – ele então ergueu os olhos do bolo, e seu sorriso desapareceu. Seu semblante se tornou sombrio. – O que você fez?

– Eles o levaram, pai – ele disse, sua voz rouca por causa dos gritos que havia dado. – Levaram o Izuki, e deixaram isto – ele retirou o símbolo preso à flor de dentro do casaco. – Pai, me ajude. Eu não sei o que fazer.

Seu pai deixou tudo de lado e aproximou-se dele. Parou, encarando-o, e então o abraçou.

– Meu filho – ele disse, e Moriyama percebeu que ele estava chorando. – Meu filho. Eu sabia que isso aconteceria um dia. É por isso que eu não queria que você tivesse amigos. Mas como eu poderia te negar isso, quando você parecia tão feliz – ele se afastou, olhando nos olhos do filho. – Agora você é um Sinner. Não pode ficar aqui.

– Mas para onde eu devo ir? – ele disse, sentindo os olhos arderem. – Eu sinto tanta raiva, pai... Eu preciso destruir alguma coisa...

– Não deixe isso te dominar! – seu pai gritou, assustando-o. – Eu já fui um Sinner. Eu sei como é isso. Não deixe que a Sombra o domine, ou você nunca poderá salvar Izuki – ele acariciou sua face gentilmente. – Você sabe para onde ir. Sabe para onde o levaram.

Moriyama assentiu, e seu pai sorriu.

– Então vá – ele se afastou. – Antes que sua mãe volte, ou ela vai ter um infarto. Vá!

Moriyama assentiu, e correu para o quarto. Pegou uma mochila, socou suas roupas dentro dela. Olhou ao redor, pensando no que queria levar. Então lembrou-se de um pacote que havia ganhado do pai quando tinha 15 anos. Foi até o armário, e lembrou-se do que o pai havia dito. Abra quando nada mais for o suficiente. Quando você desistir de tudo. Na época não compreendera, mas agora entendia que seu pai sabia que ele seria dominado pela Sombra. Abriu o pacote, e seu coração pulou um batimento ao ver o conteúdo.

Uma arma. Uma Heckler & Koch, tipo MP5SD5. Coronha retrátil, seletor para rajadas de 3 tiros e silenciador integral. Pegou a arma com cuidado, sentindo seu peso. Então sentiu um choque passar por seu corpo, saindo da arma, que engatilhou.

– Ela gostou de você – ele ouviu uma voz atrás de si. Virou-se e viu seu pai parado na porta, observando.

– Como assim?

– Eu era um Shooter, quando me tornei um Sinner. Essa era a minha arma. Ela nunca me decepcionou – ele sorriu. – Eu sabia que você seria do mesmo tipo que eu.

– Ela engatilhou sozinha – Moriyama observou a arma. – Mas não tem munição. Não é meio desvantajoso, ter que ficar colocando munição?

Seu pai deu um sorrisinho de canto.

– Você vai descobrir em breve que o Shooter é uma posição muito forte. E não, você não precisa de munição.

Moriyama ergueu uma sobrancelha, mas decidiu não fazer mais perguntas. Guardou a arma de volta no pacote. Assim que ela saiu de sua mão, desengatilhou automaticamente.

Ele terminou de arrumar sua mochila. Colocou-a nas costas e virou-se para o pai.

– Acho que você está pronto – ele disse, analisando-o. Uma centelha de tristeza surgiu em seus olhos. – Boa sorte. Não deixe que a Sombra assuma o controle. É mais fácil fazer isso quando se é um Sinner, a maldição não é tão forte.

– Há piores?

– Com certeza – seu pai assentiu. – Agora vá. Seu amigo está esperando.

Moriyama assentiu, e caminhou para fora do quarto. Saiu de casa sem olhar para trás, pois a Sombra sussurrava apenas um destino para ele.

Espere por mim, Izuki. Ele pensou. Eu vou te salvar.

Notas finais
e então, o que acharam? ficou muito dramático? :P espero que tenham gostado! ah, mas quem não gosta de MoriZuki, fala sério, um conta piadas ruins e o outro cantadas ruins... eles foram feitos um para o outro XDcomentem e me digam o que acharam! o próximo capítulo será de outro casal, dessa vez BEM mais conhecido, acho que é o terceiro mais popular ^^ beijinhos!