Dunkelheit: Dark Humans
6 Broken Hearts
Notas iniciais
Capítulo 6: Corações Partidos
Hanamiya estava feliz que pelo menos não havia tido pesadelos. Porém, ao sair de casa para ir à escola, encontrou com Kiyoshi no caminho.
Era só o que faltava. Hanamiya decidiu ignorá-lo, as cenas da noite anterior voltando à sua mente em flashes, que ele tentou espantar com todas as suas forças. Mas Kiyoshi o olhava de maneira estranha, e isso não estava ajudando.
– Está tudo bem, Makoto? – ele perguntou.
– Argh, é claro que está. Bem, tirando a visão que eu fui obrigado a ter ontem.
Kiyoshi deu um pequeno sorrisinho.
– Uma visão bastante agradável, pelo jeito que você ficou olhando.
Hanamiya ficou vermelho. Não, roxo. Da cabeça aos pés, com certeza. Olhou com um misto de horror e incredulidade para o garoto ao seu lado, que começou a ter um ataque de riso.
– Você fica vermelho muito fácil! – ele disse, ofegante por causa dos risos.
– Você é doente! – Hanamiya se afastou dele, incrédulo. – E pervertido, também!
– Se for para chamarmos alguém de pervertido...
– Tá, já entendi! Não precisa continuar – ele abaixou a cabeça, decidido a nunca mais olhar para o rosto de Kiyoshi, antes que mais coisas comprometedoras acontecessem.
Mas eles se sentavam em carteiras vizinhas, o que significou que Hanamiya foi obrigado a aturar Kiyoshi o dia inteiro. E é claro, o maior insistia em se sentar com Hanamiya para almoçar, o que era mais irritante ainda.
– Eu não sei mais o que fazer para te demonstrar que eu NÃO GOSTO DE VOCÊ! – ele apontou um dedo para Kiyoshi, enquanto caminhavam para casa. – Pare de me seguir!
– Makoto, você é muito chato – ele balançou a cabeça. – E eu já disse, este é o caminho da minha casa...
– A sua casa não é do meu lado o dia inteiro! Então por que você insiste...
– Ah! – Hanamiya teve esperança de que ele finalmente havia compreendido. – É por que você é o meu único inimigo, lembra? Então eu tenho que ficar com você, ou nossa inimizade nunca mais será a mesma.
Hanamiya rangeu os dentes. Aquele cara e seu sarcasmo não tinham fim. Era ainda pior do que o próprio Hanamiya, o rei das mentiras e manipulações! Ou ele achava que era.
Parou na frente da porta de sua casa, lançando um olhar de nojo para Kiyoshi.
– Eu juro que se você fizer outro show de nudismo na frente da minha janela, eu arremesso um tijolo na sua cabeça. E eu tenho boa pontaria.
– Sem problemas – Kiyoshi riu. – Agora eu já sei que aquele é o seu quarto.
Hanamiya decidiu não comentar que não se ficava pelado na frente da janela de ninguém, e abriu a porta de casa, ouvindo uma despedida de Kiyoshi. Fechou a porta, aliviado por se livrar dele.
Mas seu alívio sumiu assim que sentiu um clima pesado na casa. Estranho. Uma atmosfera estranha pairava sobre o lugar. Hanamiya caminhou cautelosamente pelo hall, passo a passo, procurando por Shizuka. Seu pai não estaria em casa àquela hora.
– Shizuka? – ele chamou. – Onde você está? Eu cheguei!
Era óbvio que tinha chegado, mas sentiu a necessidade de falar alguma coisa. No entanto, ninguém respondeu. A casa estava em completo silêncio, e um calafrio percorreu o corpo de Hanamiya. Então ele apoiou a mão na parede, e sentiu algo pegajoso. Afastou-se com um salto, e olhou para a mão.
Uma substância pegajosa e vermelha a revestia. Com um tremor, ele olhou para a parede, e viu que havia marcas de sangue, inclusive de mãos, manchando-a. Ele olhou ao redor, cada vez mais desesperado.
– Shizuka, onde você está?! – ele gritou, andando mais rápido pela casa. – Shizuka!
– Ela está aqui – uma voz o chamou, vinda da sala.
Ele virou-se lentamente, apenas para ver que o dono da voz era seu pai. E que ele segurava Shizuka pelos cabelos, amarrada e amordaçada, com o vestido todo sujo de sangue. Seu pai apoiava uma faca no pescoço dela, e um sorriso maligno estava em seus lábios.
– Você tem estado diferente, Makoto – ele disse. – Começou a me dizer umas coisas estranhas. Como se tivesse sentimentos. Há! Essa é boa. Nesses doze anos que tomei conta de você, nunca demonstrou sentimentos. Mas com a Shizuka você era sempre tão bonzinho! Tão preocupado... – ele ficou sério. – Então achei melhor cortar o mal pela raiz.
– Pai... – ele não conseguia falar.
– Tsc, tsc, eu não sei o que você acha que vai conseguir falando comigo. Eu estou realmente chateado com você, Makoto – ele apertou mais a faca no pescoço de Shizuka, fazendo-a arquejar. – Estou cansado dessa sua língua solta.
Hanamiya estava paralisado. Como poderia fazer o pai parar? Como poderia salvar a irmã? Ele não tinha nenhuma arma, e seu pai tinha. E tinha uma refém. Conversar não adiantaria. O que poderia fazer?
Então sentiu a Sombra pulsar, chamando-o para usá-la. É claro. A Sombra, sua companheira desde sempre, aquela que o compreendia de verdade. Ele sempre poderia contar com ela. Seu temor desapareceu, e ele relaxou. Seu pai percebeu isso, e se retesou.
– Não sei o que está pensando, mas não vai adiantar – ele disse. – Eu estou na vantagem aqui!
– Hum – Hanamiya balançou a cabeça. – Sabe qual foi o seu maior erro, papai?
O homem ficou tenso diante da palavra “papai”. Sabia que Hanamiya nunca a usaria com ele.
– Você sempre me desprezou por eu ser um Crown – ele deu um passo à frente, os olhos brilhando. – Eu, a mamãe, todos os Dunkelheit. Aliás, todos fazem isso. Como se nós fossemos alguma espécie de doença contagiosa. Mas a verdade é que somos bombas nucleares, prontas para explodir – ele deu outro passo, e dessa vez seu pai recuou. – E você acabou de ativá-la.
– O que... – antes que pudesse dizer qualquer coisa, a mão de Shizuka já o havia atravessado na barriga. Ele olhou para ela, estarrecido, e viu as amarras arrebentadas aos pés da jovem. Ela retirou a mordaça e se afastou dele com um sorrisinho. – Você também é uma...
– Eu disse para não nos subestimar – Hanamiya pegou o que restou das amarras e amarrou o pai, retirando a faca de sua mão. – Vou chamar a polícia, e você vai ser preso por violência contra os empregados e escravidão. Também vou chamar uma ambulância, para você não morrer.
– Por que simplesmente não acaba comigo? – ele perguntou, enquanto Hanamiya o sentava em uma cadeira.
– Por que diferentemente de você, eu não mato. Eu não sou e nunca vou ser um assassino.
Seu pai ainda teve a ousadia de dar uma risadinha.
– Tanto faz. Você vai se dar mal do mesmo jeito – ele olhou para Shizuka. – Ela está sem emprego, e sem lugar para morar. Vai se tornar uma mendiga, e será morta pela polícia. E você, ainda é menor de idade. Vai ter que ir para um orfanato. Ou simplesmente será morto pela polícia, também.
Hanamiya hesitou. Era verdade. Ele não tinha para onde ir. Não tinha família nem amigos que pudessem lhe oferecer abrigo.
Amigos? Uma ideia lhe ocorreu. Seria muito egoísta de sua parte, mas que opção tinha?
– Eu tenho para onde ir – ele deu um sorrisinho, tirando o de seu pai. – Não vou te dizer onde é, obviamente. Mas eu tenho onde ficar. Não preciso de você.
E pela primeira vez, seu pai ficou em silêncio. E Hanamiya soube que, pela primeira vez, havia ganhado.
Não podia acreditar que estava ali, na frente da casa de Kiyoshi. Havia passado dois dias com Shizuka na sede da polícia, dando depoimentos e mostrando as marcas de espancamentos. Felizmente, a polícia era muito rígida e não era corrupta nesse ponto, e seu pai logo foi condenado a 40 anos de prisão. Hanamiya se sentiu aliviado, e Shizuka estava ao seu lado para lhe dar apoio. Agora só faltava tomar coragem para bater na porta de Kiyoshi Teppei e pedir ajuda.
Engolindo o orgulho, Hanamiya bateu três vezes. Sentiu Shizuka afagar seu braço, lhe dando apoio, e respirou fundo. Alguns segundos depois, a porta se abriu, revelando Kiyoshi.
– Makoto! – ele exclamou, surpreso. – Você está bem? Faltou na escola por dois dias!
– Eu... Precisava da sua ajuda – ele disse, hesitante.
Kiyoshi o encarou profundamente.
– Pode dizer.
– Eu... Nós... Podemos entrar? – ele indagou, e Kiyoshi pareceu se dar conta da situação.
– Ah, é claro – ele se afastou, e os dois entraram na casa.
Era muito bonitinha, Hanamiya tinha que admitir. Agradável de morar, com certeza, sem aquele clima pesado de sua antiga casa. Kiyoshi os guiou até a sala, onde havia um sofá e duas poltronas de cor creme. Hanamiya e Shizuka se sentaram no sofá, e Kiyoshi sentou-se em uma poltrona de frente para eles.
– E então, o que aconteceu? – Kiyoshi estava sério.
Hanamiya abriu a boca para falar, mas então uma senhorinha apareceu na porta da sala, olhando curiosamente.
– Quem é, Teppei? – ela perguntou.
– Ah, desculpem-me – ele imediatamente voltou a sorrir. – Vovó, esse é meu amigo da escola. Hanamiya Makoto. Hanamiya, esta é minha avó, Kiyoshi Sakura. Erm, eu não sei quem é essa garota com você, Makoto.
– Eu sou Hanamiya Shizuka – ela sorriu. – Sou irmã do Makoto.
Kiyoshi parecia surpreso, e Hanamiya tentou agir naturalmente diante da escolha do sobrenome. O verdadeiro sobrenome de Shizuka era Mukame, mas provavelmente era melhor que dissessem que eram irmãos. Afinal, faziam coisas que só irmãos tinham intimidade o suficiente para fazer.
– Oh, então prazer – disse a avó. – Sintam-se em casa. Querem um chá?
Hanamiya e Shizuka recusaram respeitosamente, e a senhora se retirou com um sorriso. Então o clima sério voltou à sala, e Kiyoshi os encarou.
– Makoto, ela é mesmo sua irmã? – ele indagou. – Pensei que Shizuka fosse o nome da sua empregada.
Hanamiya suspirou. Era melhor contar toda a verdade. Respirou fundo, e contou a Kiyoshi tudo que acontecera, desde que era pequeno. Era estranho se abrir daquela forma com alguém, mas sentiu um pouco de alívio ao fazer isso. Nem parecia ele, todo sensível desse jeito. Terminou dizendo que não tinha para onde ir.
– Eu terei que ir para um orfanato, e a Shizuka vai ter que morar na rua – ele disse, e Kiyoshi uniu as sobrancelhas. – Então... Eu sei que é chato pedir isso, mas... Será que podemos ficar aqui durante um tempo? Pelo menos até conseguirmos um lugar para ficar...
– Makoto – Kiyoshi o interrompeu. – Você pode ficar o tempo que quiser – ele sorriu. – Meus pais adorariam ter mais alguém morando conosco! Viemos de uma família grande, e estamos acostumados ao calor humano. Mas meus pais trabalham o dia inteiro, e eu vou à escola, então minha avó acaba ficando sozinha. Shizuka ajudaria muito ficando aqui e tomando conta da minha avó. Poderia fazer isso?
– Mas é claro! – ela parecia genuinamente feliz. – Eu gosto de cuidar das pessoas – ela olhou para Hanamiya, pegando sua mão e segurando-a.
Hanamiya corou, e olhou para Kiyoshi.
– Mas e eu? Provavelmente vou ser só um estorvo.
– Você é meu amigo – Kiyoshi disse, com aquele seu jeito de “isso é óbvio”. – Você estava certo quando disse que eu não tinha amigos. Não tinha mesmo. Eu sou um Crown, e apesar de as pessoas não fugirem de mim, elas nunca conseguem se aproximar de verdade. Você é o primeiro amigo que eu tenho – ele deu um sorriso. – Mesmo que seja meu inimigo!
Dessa vez, Hanamiya teve que sorrir também. Ele também não tinha amigos. Podia considerar Kiyoshi um? Parou para pensar em todos os dias que passaram juntos. Bem, se Kiyoshi não era um amigo, então ninguém nunca seria.
– Então – continuou Kiyoshi. – Você também é muito bem vindo nesta casa!
– Obrigado – Hanamiya agradeceu. – Eu nem sei como agradecer por isso.
– Só o fato de você se lembrar de mim, e confiar que eu te ajudaria já é agradecimento o suficiente, Makoto. Obrigado.
Diante disso, Hanamiya só pode corar e se encolher no sofá.
Os dias seguintes foram inesquecíveis para Hanamiya. Os pais de Kiyoshi o acolheram surpreendentemente bem, cheios de animação. A mãe, Haruka, o abraçou e disse que era seria como um filho para ela, e o pai, Himitsu, colocou uma mão em seu ombro e disse que ele era muito bem vindo, dando o enorme sorriso que Hanamiya sabia de quem Kiyoshi havia puxado.
A avó era muito legal, e adorava ficar cozinhando com Shizuka. Sua irmã estava no céu. Nunca havia sido tão bem tratada na vida, e estava aprendendo muitas receitas novas. Sentavam-se para jantar como se fossem uma só família, todos falando alto, rindo e contando as novidades do dia. Até mesmo Hanamiya estava sorrindo mais, como ele nunca imaginou que fosse capaz de fazer. Finalmente, havia encontrado uma família.
E estava se aproximando cada vez mais de Kiyoshi. Muito contra a sua vontade, ele estava passando mais tempo com ele, e notando coisas que não queria notar. Como que ele tinha os mesmos olhos calorosos de sua mãe. Como ele tinha mãos enormes, e conseguia segurar uma bola de basquete e carregá-la apenas com a mão. Como ele era forte o suficiente para erguer a cama com apenas um braço, para pegar o colchão em que Hanamiya e Shizuka dormiam.
E principalmente, o aumento de contato físico que estavam tendo. Quando se sentavam para almoçar, Kiyoshi sempre colocava um braço ao redor de seus ombros, e ele não fazia questão de se desvencilhar. Quando se sentavam à mesa de jantar para fazerem as lições de casa, às vezes Hanamiya sentia uma mão afagar seu joelho, e rapidamente se concentrava em sua lição, antes que Kiyoshi visse o rubor que subia em sua face.
E um dia, contra a sua vontade, Hanamiya percebeu que estava gostando de Kiyoshi Teppei.
E é claro que Shizuka percebeu também. Conhecendo Hanamiya como ninguém, ela notou tudo o que estava acontecendo, e um dia, quando Kiyoshi estava ajudando a avó na cozinha, ela se sentou com Hanamiya para conversar.
– Você está gostando do Teppei, não está? – ela deu um sorrisinho malicioso.
– Não sei do que está falando – droga. O maldito rubor estava de volta.
– Não se faça de idiota comigo, Makoto! Acha que eu não noto como você olha para ele? E, é claro, como ele olha para você?
– E-ele não olha para mim.
– É claro que olha, e te garanto que gostaria de fazer mais do que olhar.
– Não diga essas coisas estranhas! – ele se afastou dela, indo para a sala. – E não me perturbe com isso!
– Já vi que vou ter que dar um empurrãozinho nessa relação – foi a última coisa que ele ouviu ela falar, e sentiu um arrepio ao pensar no que ela poderia estar tramando.
Os outros dias se passaram do mesmo jeito, e Hanamiya até se esqueceu da ameaça de Shizuka. Então começou a perceber que ela estava ficando cada vez mais próxima de Teppei, e isso o fez ficar com ciúmes. É claro, tinha que ter um ciúme maldito no meio. Makoto se sentia como uma garotinha do fundamental apaixonada pelo senpai. Mas que droga era aquela?
Infelizmente, ele não conseguiu afastar o ciúme, e cada vez que via Shizuka e Teppei trocando carícias, ele tinha vontade de se sentar entre os dois, e depois ter uma conversinha com a irmã. É claro, depois de dar um bom soco em Teppei.
Até que um dia foi a gota d’água. Makoto ia entrar no quarto, quando viu que a porta estava fechada. Estranho. Eles nunca fechavam a porta. Grudou o ouvido à porta, e tentou ouvir o que se passava lá dentro.
– Ah, Teppei, você é tão maravilhoso... – era a voz de Shizuka.
E pelos deuses, ela estava gemendo.
Não teve dúvidas: abriu a porta e entrou pronto para matar alguém. Shizuka e Teppei estavam na cama, no maior amasso. Felizmente, nenhuma roupa havia sido retirada no processo, mas isso não impediu que Makoto ficasse vermelho de raiva.
– Shizuka! – ele gritou. Felizmente, os pais haviam saído com a avó para alguma feira que estava tendo na cidade, e voltariam só mais tarde. Ou, com certeza, a família toda já estaria ali, e isso não seria legal. – O que você pensa que está fazendo?
Ela e Teppei se afastaram rapidamente, levantando-se da cama.
– Erm... – Shizuka começou. – Eu estava conversando com o Teppei...
– Que conversa mais animada, hein? – Makoto sentiu uma veia pulsar em sua têmpora. – Saia desse quarto imediatamente. Depois eu falo com você – olhou para quem julgou ser o culpado: o atacante de sua irmã. – Vou ter uma conversinha de homem para homem com o Teppei.
Shizuka saiu do quarto, mas não antes de esboçar um sorrisinho para Makoto, e ele gelou. Quando a porta se fechou atrás dele, lembrou-se das palavras que ela havia dito: “Já vi que vou ter que dar um empurrãozinho nessa relação”. Estava sozinho com Teppei, em um quarto fechado. Ops.
Virou-se para abrir a porta, mas antes que pudesse fazer isso, sentiu braços fortes ao seu redor. Sentiu Teppei aproximar a boca de seu ouvido, sussurrando sensualmente.
– Não íamos ter uma conversa de homem para homem? – Makoto sentiu um arrepio percorrer seu corpo. Tentou se afastar, mas Teppei o apertou junto ao seu corpo. – Está com medo, Makoto-chan?
– Achei que chan não combinasse comi- Ah... – ele suspirou quando Teppei mordeu o lóbulo de sua orelha, seu corpo inteiro se arrepiando, e mandando aqueles arrepios para... Uma certa região. – O que está fazendo?
– Humm – Teppei o apertou mais junto de si. – Conversando.
Antes que pudesse responder, Makoto sentiu-se ser puxado para trás. Teppei o derrubou na cama, e deitou-se por cima dele, prendendo-o.
– Teppei – Makoto estava vermelho. O que raios aquele idiota estava fazendo? E aquela maldita da Shizuka, ela ia pagar por aquilo depois! – Saia de cima de mim...
– Sabe, Makoto – Kiyoshi acariciou levemente sua bochecha, e Makoto se calou. Sua mão era tão quente, tão macia... Espere, o quê?! – Da primeira vez que conversamos, achei você desagradável. Mas você foi o primeiro que realmente me enxergou. Mesmo que você tentasse se afastar de mim, eu não sei, eu sentia algo por você. Como se você pudesse me entender. Eu queria muito te entender, também.
Makoto ficou em silêncio. Lembrou-se das conversas que tivera com Teppei, e de como sua vontade de fazê-lo sofrer começou a sumir gradativamente. De como passou a gostar da sensação de ter alguém perto de dele, que o escolhesse ao invés dos outros. Teppei continuou a falar.
– E então, depois de tudo que você passou, você se lembrou de mim – ele sorriu, encarando os olhos verdes de Makoto. – Você não tem ideia do quanto eu fiquei feliz. De saber que você sabia que podia contar comigo, que eu te ajudaria. Por se lembrar de mim.
– Eu... – ele se sentiu na necessidade de dizer algo também. – Você nunca deixou de tentar falar comigo. Então eu pensei que você... Seria a única pessoa disposta a me ajudar – ele desviou o olhar. – Eu não conheço muitas pessoas, como você sabe...
– Olhe para mim – ele segurou o queixo de Hanamiya, e ele voltou a encarar aqueles olhos castanhos e calorosos. Ele sorriu. – Você é muito lindo, Makoto – ele passou os dedos suavemente por seu rosto, parando em seus lábios. – Principalmente quando não está carrancudo.
– Pare de dizer essas coisas estra-
Sua fala foi cortada pelos lábios de Kiyoshi pressionando o seu. Ficou parado, chocado demais para reagir. Teppei o estava beijando. Teppei o estava beijando. Subitamente, sua mente foi completamente preenchida pelo garoto acima dele. Seus lábios eram macios, e suas mãos acariciavam seu rosto e seus cabelos.
Então o beijo se intensificou, e Kiyoshi abriu a boca, passando a língua por seu lábio inferior. Hanamiya sabia o que aquilo significava, e sem pensar muito abriu a boca, deixando Kiyoshi penetrá-la com sua língua. Suas línguas se encontraram, enroscando-se avidamente, e Hanamiya colocou os braços ao redor do outro, passando a mão por suas costas e sentindo seus músculos por baixo da camiseta fina que usava. Subitamente a imagem do outro dia, quando viu Kiyoshi nu, voltou à sua mente, e ele sentiu um arrepio se concentrar entre suas pernas. De repente suas calças pareceram muito apertadas.
Ah, não, ele pensou. Então sentiu Kiyoshi ficar animado, as ereções se apertando por baixo das calças. Hanamiya tentou não pensar naquilo, e continuou beijando Teppei avidamente.
Mas o outro parecia ter outros planos. Fez Hanamiya abrir as pernas e encaixou-se no meio delas, fazendo o menor interromper o beijo com um arquejo.
– O que está fazendo? – ele olhou para Kiyoshi, os olhos arregalados, mas o outro apenas sorriu e voltou a beijá-lo.
Então começou a mover o quadril no ritmo do beijo, e Hanamiya não conseguiu conter um gemido. Droga, droga, droga, aquilo não podia estar acontecendo. Mas estava tão bom... Começou a mover o quadril também, e Kiyoshi gemeu contra sua boca.
– Makoto... – ele sussurrou, descendo a boca para seu pescoço. Começou a distribuir beijinhos, enquanto Hanamiya gemia e suspirava. Que merda, não conseguia se controlar.
Kiyoshi começou a mover o quadril mais rapidamente, e seus beijinhos se tornaram mordidas. Hanamiya enterrou os dedos em suas costas, o prazer sendo mais do que ele podia aguentar. Soltou um gemido alto quando Teppei chupou a pele sensível de seu pescoço, e sabia que havia deixado uma marca. Aquele idiota, como iriam explicar aquilo para os pais depois?
Os pensamentos sobre os pais logo foram apagados de sua mente, quando Teppei entrou com as mãos debaixo de sua camiseta, sentindo todo o seu tórax. Hanamiya podia se orgulhar de ter um corpo de músculos bem delineados, e Kiyoshi logo percebeu esse fato. Os movimentos com o quadril se intensificaram, e Makoto estava começando a gemer mais alto do que pretendia. Sentiu um calor se acumular em seu baixo-ventre, e o prazer estava intenso demais. Se continuasse assim, ele iria...
– Ah, Teppei! – ele gemeu, sentindo-se desfazer nas calças. Teppei parou com os movimentos, olhando-o, parecendo surpreso.
Makoto estava ofegante e tonto com a onda de prazer que havia tido. Teppei tirou as mãos de dentro de sua camiseta, e se afastou para observá-lo por inteiro.
– Erm, Makoto – ele olhou para entre as pernas do garoto. – Você, por um acaso...
– Cale a boca! – ele exclamou, sentindo o rosto ficar vermelho.
Fechou os olhos, não conseguindo acreditar. Havia feito aquilo. Com Kiyoshi. De todas as pessoas, havia sido com Kiyoshi. Seu cérebro ainda estava confuso demais para processar tudo aquilo. As coisas só pioraram quando abriu os olhos e viu Teppei olhando para ele com um sorriso.
– Posso ver? – ele perguntou.
Makoto nem percebeu quando lhe deu um forte tapa no rosto, fazendo o sair de cima dele. Hanamiya usou a oportunidade para sair da cama, caminhando para o banheiro.
Fechou a porta atrás de si, vermelho. Que grande merda havia acontecido. Uma merda tão grande que não tinha palavras para descrever. Mas foi uma merda tão boa... Afastou os pensamentos de sua cabeça, abrindo o zíper da calça e retirando-a. Sentia-se pegajoso dentro da boxer, e sabia que não era um bom sinal. Abaixou a roupa íntima, e viu que ela estava cheia de um líquido...
Oh, céus, ele tirou a roupa, tentando não pensar naquilo. Sua vida estava perdida. Reputação, o que é isso? Entrou debaixo do chuveiro, sentindo a água quente acariciar seus músculos, e pensou em como seria encarar Kiyoshi daquele momento em diante. Não daria certo.
Mas então lembrou-se das coisas que ele havia dito. Será que Teppei realmente gostava dele? Bem, ele não parecia o tipo de pessoa que faria aquele tipo de coisa simplesmente por prazer. Corou com o pensamento. Será que ele... Também gostava de Teppei, mais do que deveria?
Apoiou a testa na parede, os pensamentos girando. Maldito Kiyoshi Teppei, aquele pervertido!
Como esperado, Teppei estava sempre com um sorrisinho quando fazia contato visual com Makoto. Na hora do jantar, depois que todos estavam na casa, Makoto planejava se sentar bem longe dele, mas é claro que isso não aconteceu.
– Está chateado? – sussurrou Teppei, olhando-o de canto.
– Chateado? – Makoto achou a pergunta idiota. – Por que eu estaria chateado?
– Bem, você me deu um tapa e saiu correndo...
– Mas é claro! Você estava falando coisas vergonhosas... E muito erradas.
Ouviu Teppei dar uma risadinha, e corou, irritado.
– Não é engraçado – ele franziu as sobrancelhas.
– É sim – Teppei ainda ria.
– O que foi, meninos? – perguntou a mãe, sorrindo.
– Nada, mãe – Makoto decidiu continuar comendo seu bife. Então percebeu que todos ali o encaravam, ligeiramente surpresos. Parou, confuso. – O que foi?
– Você me chamou de mãe – a mulher tinha lágrimas nos olhos.
– Ah... – ele corou. Na verdade, nem havia percebido. – É... Acho que chamei.
Ela se desfez em lágrimas, e se levantou para abraçá-lo. Ele devolveu o abraço, sem jeito.
– Makoto, você é um filho para mim também – ela se afastou, secando as lágrimas. Então olhou para Shimizu. – Você também é. Estou tão feliz por estarem aqui!
Makoto ainda não conseguia acreditar. Estava ali há pouquíssimo tempo, e ainda assim aquelas pessoas o consideravam parte da família? Uma sensação quente se instalou em seu coração. Carinho. Acolhimento. Amor. Coisas que nunca teve, desde que sua mãe morreu. Ele viu que Shimizu sorria para ele, com os olhos marejados, e não pode evitar sorrir de volta.
– Viu? – Teppei lhe disse, e ele virou-se para olhá-lo. – Vocês são da família, agora.
Makoto só conseguiu balbuciar um agradecimento, corando e abaixando a cabeça para o prato. Ainda não sabia lidar com aquilo.
Mais tarde, já na hora de dormir, Shimizu disse que iria ajudar a lavar a louça do jantar, e deixou Makoto sozinho com Teppei. Pelo sorrisinho que ela exibia, ele julgou que ela já sabia do que havia acontecido no quarto mais cedo. Não com todos os detalhes, ele esperava...
Sentou-se no colchão em que dormia, sem olhar para Teppei. Sentia os olhos do maior sobre si, mas não tinha coragem de devolver o olhar. Ficaram em silêncio durante um tempo, até que Teppei decidiu se pronunciar.
– Sobre hoje... – ele hesitou, e Makoto corou.
– Eu prefiro não falar sobre isso – ele ainda se sentia irritado.
Por mais que Teppei houvesse lhe dito coisas bonitas, ainda havia dúvida dentro dele. Será que ele realmente gostava dele, ou fizera aquilo apenas para provocá-lo, ou se aproveitar dele? Essa dúvida não queria deixá-lo de nenhuma maneira, e isso o deixava incomodado.
– Você se arrepende? – perguntou Teppei, surpreendendo Makoto.
– Como assim?
– Você... Desejaria que aquilo nunca tivesse acontecido?
Ele o olhava intensamente, esperando uma resposta verdadeira. Makoto ponderou. Por mais que tivesse achado bom, com todas aquelas dúvidas que o assolavam, talvez se não tivessem feito aquilo as coisas estivessem melhores.
– Eu acho que sim – Teppei pareceu decepcionado. – Quer dizer, eu até que gostei, mas... – ele respirou fundo. – Acho que não foi certo.
– Ah – Teppei pareceu murchar. – Entendo. Me desculpe, então.
Eles ficaram em silêncio novamente, até que Teppei o quebrou de novo.
– O problema sou eu? – ele perguntou.
– Não é exatamente você – Makoto deu ombros. – Só que eu não sei... Eu me sinto confuso. Eu... Tenho medo de você ter feito aquilo para se aproveitar de mim.
Teppei pareceu genuinamente surpreso pela sugestão.
– Eu nunca faria uma coisa dessas – ele balançou a cabeça. – Eu gosto de você, Makoto. Muito.
– Você diz isso, mas de alguma forma eu não consigo acreditar. Não consigo acreditar que alguém goste de mim. Até a sua família – ele apontou para a porta. – Não consigo acreditar. Não consigo aceitar os sentimentos que você dizem que tem por mim. Talvez seja por que eu nunca fui amado, mas esse tipo de coisa é estranha para mim.
– Está dizendo... – Teppei estava realmente hesitante. – Que você não gosta de mim?
Makoto se sentia cansado. Aquilo era tudo muito confuso para ele.
– Sim – ele admitiu, tristemente. – Não consigo aceitar seus sentimentos, Teppei. Não consigo acreditar que goste de mim, de verdade. Não depois das coisas que eu falei, do modo como eu agi.
Teppei estava cabisbaixo, e Makoto sentiu um aperto no coração. Logo agora que as coisas estavam mudando... Droga, por que Teppei tinha que gostar dele? A vida seria mais fácil se cada um ficasse quieto no seu canto.
– Então eu vou provar – Teppei ergueu a cabeça, repentinamente decidido. Ele olhou firmemente para Makoto. – Eu vou te provar o quando eu gosto de você!
Makoto uniu as sobrancelhas, mas tinha que admitir que gostava daquilo. Aquele era o Teppei que conheceu, decidido a não deixar que nada o abalasse. Apenas assentiu, e Shimizu entrou no quarto.
– Vamos dormir, meninos – ela disse, deitando-se ao lado de Makoto. – Apague a luz, Teppei.
– Certo – ele lançou um último olhar na direção de Makoto, e então apagou a luz.
Makoto se ajeitou na cama, com Shimizu abraçando sua cintura. No dia seguinte falaria com ela sobre seus planos malignos e pervertidos... Mas não agora. Por enquanto, ele só queria descansar.
Uma semana se passara, e a relação entre Makoto e Teppei não havia melhorado. O maior havia dito que provaria seu amor... Mas nada havia acontecido ainda. Makoto se perguntava se estava certo, e Teppei não gostava realmente dele. Começou a se perguntar se não era um incômodo naquela casa, se o mandariam embora depois que Teppei se cansasse...
– Você está com depressão – disse Shizuka, enquanto lavavam a louça.
– O quê? – ele olhou para ela como se fosse louca? – Do que está falando?
– Você está com sintomas de depressão – ela o olhou severamente. – Não tem comido direito. Não dorme bem. Rejeita os sentimentos das pessoas como se fossem falsos. E fica achando que é um incomodo nesta casa, que o papai, a mamãe e a vovó não gostam de você, mesmo depois de terem dito o contrário. Eu vou ter que te bater para você parar com isso?
– N-Não – ele se encolheu, e ficou pensativo. Estaria mesmo com depressão? Estava mesmo rejeitando as pessoas. Era como se seu corpo, sua mente não conseguisse processar sentimentos bons dirigidos a ele...
– Será que é a Sombra? – Shizuka disse, de repente.
– Acho que não. A Sombra não me afeta dessa forma.
– Eu sei disso. Você a controla. Ela muda de acordo com os seus sentimentos. É assim com todo mundo, lembra? Mas é bem possível que ela esteja refletindo a sua insegurança em forma de rejeição. Se você tentar melhorar isso, talvez consiga sentir outra vez. Sentir as coisas boas.
Makoto ficou ainda mais pensativo. Talvez ela tivesse razão. Talvez ele estivesse mesmo tão inseguro que sua sombra rejeitava as pessoas como forma de proteção. Ele pensou em Teppei, e em seus sorrisos, e sentiu um aperto no coração. Suspirou.
– Shizuka, eu preciso te contar uma coisa – ele disse, olhando para o prato que enxugava.
Sua irmã o olhou atentamente.
– Diga. Sabe que pode confiar em mim.
Ele engoliu em seco, não ousando encarar os olhos de Shizuka.
– Eu... Acho que gosto do Teppei – ele admitiu, fechando os olhos.
Esperou que ela risse dele, ou soltasse alguma exclamação. Mas ela estava em silêncio. Makoto abriu os olhos, confuso, e encontrou-a encarando-o com o rosto sério.
– Essa declaração foi ridícula – ela disse, brava. – E falsa. Você não pode achar que está gostando de alguém. Ou você gosta, ou não gosta. Se o sentimento é forte ou fraco é outra história. Agora olhe para mim – ela se aproximou, segurando o braço de Makoto para impedi-lo de recuar. Seus olhos estavam a centímetros dos dele. – E me diga exatamente o que você sente pelo Teppei.
Ele encarou os enormes olhos de Shizuka, incentivando-o a falar. Engoliu em seco, e viu que não tinha escapatória. Ela iria importuná-lo para o resto de sua vida se não falasse, ou pior: faria outro plano pervertido.
– Eu... – ele respirou fundo. – Eu gosto do Teppei. Muito. Quando eu mudei de escola, já estava preparado para continuar sozinho, e continuar vivendo a mesma vida com que me acostumei. Mas então ele apareceu, e não se importou com minhas ofensas ou o meu jeito fechado. Ele foi a primeira pessoa que quis se aproximar de mim de verdade – ele não estava mais olhando para a irmã. Na verdade, não estava olhando para nada. Apenas as lembranças dançavam diante de seus olhos. – Ele é gentil comigo. Sei que sempre posso contar com ele, e que ele vai me ajudar. Quando estou perto dele, pareço outra pessoa. Sentimentos que eu nem imaginava que existiam estão no meu peito. Toda vez que ele sorri, ou que me abraça, ou que diz que gosta de mim, esses sentimentos parecem que vão explodir – ele finalmente encarou a irmã, que o observava estarrecida. Ele finalmente havia entendido. – Eu o amo. Muito – ele abriu um largo sorriso. – Eu amo Kiyoshi Teppei. E amo o papai, a mamãe, e a vovó. E amo você, Shizuka.
Ela começou a chorar, e se atirou nos braços dele. Ele a abraçou firmemente, sentindo-a soluçar em seu peito, e deu um largo sorriso. Amar era tão bom. Fazia tudo parecer lindo. Sentiu a Sombra se acalmar aos poucos, e sua cabeça ficou mais leve. Então isso era ser feliz?
– Eu também te amo, Makoto! – ela disse, se afastando e secando as lágrimas com o pano de prato. – Esperei onze anos para ouvir você dizer isso, e valeu a pena – ela deu um pequeno sorriso. – Obrigada.
Isso apenas fez com que ele ficasse mais feliz. Ficou tentado a puxá-la para um novo abraço, mas foram interrompidos pelo pai, que entrou esbaforido na cozinha. Ele estava pálido e ofegante, e Makoto ficou instantaneamente preocupado, a Sombra retornando ao seu lugar de defesa.
– Pai? – Shizuka perguntou, cautelosa.
– Venham para a sala – ele disse, fraco. – Agora.
Dizendo isso, retirou-se do local, deixando Makoto e Shizuka confusos. Eles se entreolharam, perguntando um ao outro o que raios estava acontecendo. Secaram as mãos e caminharam para a cozinha.
Makoto começou a sentir o pavor lhe invadir a mente. Em segundos, felicidade havia se tornado medo. Insegurança havia voltado, e o peso da tristeza voltou a pressionar sua cabeça. Antes ele não havia percebido o que o afligia, mas agora que havia experimentado o alívio, os problemas pareciam piores do que antes.
Chegaram à sala, onde a família toda estava reunida. Vovó estava em sua poltrona, o pai estava de pé, andando nervosamente de um lado para o outro, e a mãe e Teppei estavam sentados no sofá. Assim que entraram na sala, Teppei se ergueu em um salto, e puxou Makoto para seus braços.
– Teppei... – ele disse, confuso. Todos estavam tensos, e Teppei não sorria. Muito pelo contrário, parecia apavorado.
– A polícia está do lado de fora da casa – ele disse, quase um sussurro. O coração de Makoto se apertou.
– Como assim? – eles se afastaram um pouco, mas Teppei ainda o segurava, como se estivesse com medo. – O que eles querem?
Antes que alguém respondesse, Makoto ouviu alguém falar do lado de fora, com a voz ampliada, provavelmente por um auto-falante.
– Vamos avisar só uma vez – disse uma voz masculina. – Senhor Kiyoshi, sabemos que há um Krone refugiado em sua casa. Entreguem-no, e sua família não sofrerá nenhuma punição. Resista, e não hesitaremos em abrir fogo contra todos.
Makoto gelou. Como haviam descoberto que havia um Krone ali? Mas isso não fazia sentido. Havia três Krones morando na casa. De quem eles estavam falando?
– Não sabemos quem eles querem – disse Teppei, verbalizando seus pensamentos. – Mas eles têm um scanner. Eles vão saber localizar quem é Krone e quem não é. Se entrarem nessa casa, nós três seremos pegos.
– Temos que sair daqui – disse Shizuka, agitada. – Papai, não há nenhuma saída por trás da casa?
– Estamos cercados – ele disse, balançando a cabeça. Se tentarmos sair, eles vão saber.
– Tem um esconderijo no quintal – disse a mãe, recebendo olhares de todos. – É um porão, e os scanners não conseguem rastreá-lo, por ser blindado. Construímos para casos como este. Mas só cabe uma pessoa. Duas, se estiverem apertadas.
Todos se entreolharam, pensando em uma solução. Se entregar estava fora de cogitação, na opinião de Makoto. Mas, ao olhar para Teppei, soube que era exatamente o que ele estava pensando.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, porém, uma voz conhecida falou pelo alto-falante da polícia. Makoto ficou rígido, e ouviu Shizuka soltar uma exclamação.
Aquela maldita voz estava de volta.
– Makoto? – seu pai disse, e ele pode ouvir o sorriso em sua voz. – Ah, meu filho, eu sei que está aí. Pensou que pudesse se esconder de mim? – uma risada fria. – Eu disse que o faria pagar. Devia ter me matado quando teve a chance. Agora vamos, saia daí antes que essas pessoas fiquem feridas. Você quer isso, meu amor?
Makoto sentiu vontade de vomitar ao ouvir aquele homem chamá-lo de filho, ou de “meu amor”.
– É a mim que ele quer – ele disse. – E à Shizuka também.
– Não vamos deixar você ir – disse a avó, decidida. – Levem-nos para o esconderijo. A polícia pode procurar o quando quiser, se não os encontrarem não poderão fazer nada.
– Eles já sabem que há um Krone aqui – Makoto balançou a cabeça. – Vão matar todo mundo se nenhum Krone aparecer.
Seguiu-se um silêncio, e quase era possível ouvir seus cérebros pensando em uma solução. Então Teppei quebrou o momento.
– Eu vou – ele disse, olhando firmemente para Makoto.
– O QUÊ? – ele gritou, indignado. – Ficou louco? É claro que você não vai! Espera que eu me esconda enquanto eles fazem sei lá o que com você?
– Exatamente – ele estava sério. – Você vai fazer exatamente isso.
Makoto ia responder, mas viu que Teppei estava diferente. Seus olhos castanhos estavam âmbar, e brilhavam com uma luz estranha. A Sombra dele estava acordada.
Antes que pudesse reagir, Teppei o agarrou, imobilizando seus braços. Makoto se debateu, tentando se livrar.
– Me largue! Teppei! – ele exigiu, mas já estava sendo arrastado para os fundos da casa. – TEPPEI!
Shizuka veio atrás deles, gritando para que parassem, mas Teppei estava decidido. No quintal, jogou Makoto no chão, deixando-o tonto. Abriu uma escotilha no chão, escondida pela grama, enquanto Makoto se levantava.
– Entre – ele ordenou, indicando o porão.
– Não! – Makoto recuou. – Eu não vou aceitar isso! Eu não posso deixar você ir... – lágrimas se formaram em seus olhos. – É tudo culpa minha. Eu irritei meu pai, e me escondi na sua casa. É culpa minha sua família estar em perigo. É culpa minha... Você ter que fazer isso.
Teppei o observou, sério, enquanto Makoto chorava. Alguns minutos antes, ele estava descobrindo o sentimento de felicidade. Agora, estava vendo a única pessoa que se aproximara dele querer se sacrificar. Não conseguiria permitir aquilo.
– Teppei, eu quero viver com você – ele disse. – Se você se entregar, como eu vou... – ele gaguejou. Lembrou-se da conversa que tiveram alguns dias antes. – Como você vai me provar que gosta de mim?
Teppei pareceu carregar um enorme peso nas costas. Encarou Makoto intensamente, até trincar os dentes, e agarrar o braço de Shizuka, arremessando-a no buraco no chão. Ela gritou enquanto caia, e Makoto ouviu um baque quando ela atingiu o chão.
– Assim – Teppei se aproximou ferozmente dele, e Makoto se afastou.
– Teppei! – ele gritou, quando o maior agarrou seu braço. – Não, por favor! Não faça isso!
Embora tentasse lutar, Teppei era muito mais forte do que ele, e Makoto foi arremessado com Shizuka no buraco. Caiu de costas ao lado dela, olhando para cima para ver a silueta do amigo, recortada contra o teto do subterrâneo.
– Makoto, eu te amo – ele disse. – E é por isso que estou fazendo isso – ele fez uma pausa. – Espero que agora você aceite meus sentimentos.
E dizendo isso, começou a fechar o alçapão. Shizuka começou a gritar desesperadamente para que ele não fizesse aquilo, e Makoto só conseguia pensar nas palavras que ouvira. Teppei o amava. Estava provando isso. E tudo que ele havia feito fora gritar ofensas, rejeitá-lo, brigar com ele. Terminaria assim?
– Eu aceito! – ele gritou, enquanto a luz era cortada. – Eu aceito seus sentimentos, Teppei!
Antes de o alçapão se fechar, ele pode jurar ter visto um sorriso no rosto de Teppei. Então tudo ficou escuro, e ele caiu no chão, chorando. Sentiu Shizuka abraçá-lo, aos prantos, e tudo que pode fazer foi afagar suas costas.
– Vai ficar tudo bem – ele disse, com a voz embargada pelas lágrimas. – Vai dar tudo certo, Shizuka.
Mas nem ele acreditava nas próprias palavras. Kiyoshi Teppei se fora, e ele sentia isso. A Sombra pulsou uma última vez antes de ele perder a consciência, exausto.
Acordou com um barulho de algo raspando contra metal. Estava escuro, mas ele sentia Shizuka apoiada em seu braço. Ela se mexeu, e ele percebeu que ela estava acordada.
– Makoto, o que foi isso? – a voz dela soou, fraca, no escuro.
– Não sei – ouviu o som outra vez, e o alçapão começou a se abrir. Ele se ergueu de um salto, esperando Teppei aparecer e dizer que estava tudo bem. Mas não havia nada ali em cima, apenas um braço.
Teppei não vai voltar, ele pensou consigo mesmo. Mas de quem era aquele braço?
Percebeu então que o membro estava ensanguentado, cheio de cortes e feridas. Pedaços do que parecia ter sido uma camisa estavam pendurados, rasgados e chamuscados. O alçapão se abriu completamente, e seguiu-se um silêncio. Eles não conseguiam subir, pois era fundo. O braço ficou parado durante um tempo, e ouviram alguém ofegar pesadamente.
Então um banquinho foi atirado para dentro do buraco. Makoto se desviou rapidamente, evitando ser acertado no rosto. Olhou para Shizuka, que estava com o rosto sujo e marcado de lágrimas. Ela assentiu, e ele posicionou o banquinho de forma que podia subir para a superfície.
Agarrou a borda do buraco e içou-se para cima, caindo na grama ao lado da pessoa que havia aberto do alçapão. Olhou para o lado, e gelou ao ver quem era.
Era o pai de Kiyoshi, e seu pai adotivo. Ele estava sujo e ferido, as roupas estavam rasgados, ele tinha cortes por todo o corpo e um ferimento profundo sangrava em seu peito. Ele respirava com dificuldade, e estava deitado no chão. Makoto percebeu que ele havia se arrastado até ali.
– Pai! – ele exclamou, vendo Shizuka se içar para fora do buraco pelo canto do olho. – Pai, fale comigo!
Ele se debruçou sobre o homem, que o olhou com os olhos iguais aos de Teppei. Antes, Makoto havia pensado que ele tinha os olhos da mãe, mas era apenas quando sorria. Quando estava sério, os olhos eram de seu pai. Himitsu enrijeceu e tossiu sangue, assustando Makoto.
– Pai? – ele chamou, mais uma vez.
– Makoto... – o homem disse, com a voz rouca e sussurrada. – Veja... Além...
Então ele parou repentinamente. Todos os seus movimentos pararam. Seu peito não subia e descia mais, e seus olhos estavam vidrados em um ponto distante. Makoto deitou a cabeça em seu peito, e não ouviu o coração.
– Não... – ele sentiu as lágrimas rolarem por seu rosto mais uma vez. – Não, pai... Não...
– Makoto – ele ouviu Shizuka chamar. Olhou para ela, e viu que olhava para trás dele. – Olha...
Ele virou-se para observar a casa, e ficou em choque. Estava destruída. As janelas estavam quebradas, as portas arrebentadas, e uma pilha de coisas haviam sido queimadas no quintal. Makoto se levantou, horrorizado.
– Mãe! – ele chamou. – Vó! Teppei! Alguém!
Correu para dentro da casa, buscando algum sinal de vida. O quarto que dividia com Teppei havia sido revirado, a cama estava quebrada, e suas coisas estavam espalhadas pelo chão. Continuou procurando, mas encontrou apenas mais destruição. A cozinha havia tido todos os armários abertos, os pratos e copos estavam estilhaçados no chão. A geladeira estava aberta, e a comida também cobria o chão. Os banheiros também haviam tido os espelhos quebrados, e os outros quartos estavam igualmente destruídos.
Na sala, encontrou a avó. Ela estava caída no chão, sem vida. Shizuka caiu ao seu lado, gritando, uma demonstração de puro terror.
– Não! – ela gritou. – Não, por favor, vó! Vó!
Ela continuou gritando até ficar rouca, e mesmo assim não parou. Makoto assistiu àquilo sem esboçar reação. Era como se tudo de ruim estivesse caindo sobre sua cabeça, de uma vez. Ele saiu da sala, indo para o jardim, deixando Shizuka com seus gritos e lágrimas.
O jardim antes era cheio de flores. Sua mãe adorava cultivá-las, iluminando o local, deixando tudo um pouco mais alegre. Mas agora estava tudo destruído. As flores haviam sido arrancadas e despedaçadas, e suas pétalas exibiam apenas um brilho débil.
O mais chocante, porém, era o corpo estendido no jardim, em meio às flores destruídas. Era sua mãe, e ela ainda respirava. Makoto correu até ela, ajoelhando-se ao seu lado. Seus cabelos castanhos estavam emaranhados, e seu corpo estava ferido. Um ferimento de tiro sangrava abundantemente em sua barriga.
– Makoto... – ela disse, ao vê-lo. – Meu anjo, você está bem...
– Mãe – ele afagou seu rosto. – Calma, vai dar tudo certo.
Ela lhe deu um sorriso fraco, como se não acreditasse em suas palavras.
– Não para mim – ela fez uma careta de dor. – Você estava certo... Eles não nos pouparam. Mesmo depois que o Kiyoshi se entregou – ela tossiu, cuspindo sangue.
– Mãe, não fale! – ele disse, desesperado.
– Ele era um bom menino – ela continuou, ignorando-o. Ele percebeu que ela nem o via mais, apenas falava. – Tão lindo. Ficamos muito felizes quando ele nasceu, já que eu sou estéril. Eu não poderia ter filhos. Mas o Teppei nasceu, e sempre foi um filho maravilhoso. Ajudou em casa, foi simpático com as pessoas, mas sonhava em ter um amiguinho – ela sorriu, sonhadora. – Quando ele conheceu você, ele mudou. E então eu ganhei mais dois filhos lindos – seu sorriso morreu, e ela voltou a encará-lo. – Havia um homem com a polícia, e ele queria você. Mas os policias disseram que o Teppei era o Krone, e ele ficou nervoso. Reviraram a casa, te procurando... Mas não encontraram – ela deu um riso fraco. – Meu filho lindo...
– Mãe... – ele só podia ouvi-la enquanto a vida dela se esvaia. Ela não parecia mais falar nada coerente. Ele ouvira dizer que os Dunkelheit enlouquecem quando estão à beira da morte, mas nunca pensara que veria aquilo diante de seus olhos.
– É tudo tão lindo – ela olhava para o teto. – Eu sempre imaginei como deve ser lá em cima. Agora eu vou poder ver – ela deu um sorriso, e dessa vez ele era verdadeiro. Ela não sentia mais a dor. – Deve ter muitas flores. Mas elas não devem brilhar, por que lá em cima eles têm o Sol e a Lua para iluminar suas vidas.
– Mãe, lá em cima não tem ninguém...
– É claro que tem! – ela disse, como se estivesse apenas ensinado matemática para um filho teimoso. – Tem anjos, meu bem. Criaturas lindas, que estão a nossa espera. Ah! – ela sorriu novamente. – Eu posso ver. Que lindo...
Ela continuou dizendo coisas sem sentido, sua voz diminuindo até se tornar um sussurro. Makoto ficou ao seu lado, segurando sua mão. Conforme o tempo foi passando, ele começou a perceber que ela parecia brilhar. As flores também voltaram a brilhar, como se estivessem vivas.
– Makoto – sua mãe o chamou. Ele olhou para ela, surpreso ao constatar que ela parecia mais jovem. – Nós temos que ir lá para cima. É nosso lugar de direito, sabe. Nascemos lá, morreremos lá. Nem a polícia, nem a Rainha, nem ninguém pode tirar isso de nós – ela o encarou firmemente. – Prometa-me que você nos guiará para cima.
– Eu... – ele hesitou.
– Prometa! – ela apertou sua mão.
– Eu prometo! – ele disse. – Vou levar todos, mãe! Ao... Nosso... Lugar de direito...
– Isso – ela sorriu. – Estou tão orgulhosa de você...
Então ela parou de falar, e fechou os olhos lentamente. O aperto de sua mão enfraqueceu, e seu peito parou de se mover. Makoto pousou sua mão delicadamente no chão, vendo o brilho de seu corpo sumir gradativamente, assim como o das flores.
Quando estava tudo escuro, Shizuka saiu da casa, silenciosa. Makoto não ergueu os olhos, pois ainda tinha a cabeça repleta de pensamentos. Seu pai havia tirado sua mãe biológica dele, e havia tirado Shizuka de sua família também. Então, quando ele finalmente estava conseguindo recuperar a vida e a felicidade que nunca tivera, tudo lhe fora tirado novamente.
Agarrou a grama, pensando em Teppei na primeira vez em que se viram. Seus olhos castanhos e calorosos quando se aproximou dele. E então em seus olhos âmbar quando ele o jogara no esconderijo.
Makoto, eu te amo, ele dissera. Espero que agora aceite meus sentimentos.
Tudo o que ele fizera fora rejeitá-lo. E até o fim, Teppei o protegera. Dera sua vida por isso. E ele continuava a se esconder. Seu coração estava despedaçado, cortado, mutilado, de uma forma tão cruel que ele não era mais capaz de sentir. Ele sentiu os olhos queimarem com a vontade de chorar, mas se controlou. Só um pensamento corria em sua cabeça naquele momento.
Por favor, faça parar. Por favor, faça parar. Por favor, faça parar...
Deixou que a Sombra assumisse o controle. Ela buscou a fonte de sua dor, aquilo que o consumia por dentro, e encontrou as lembranças de Teppei. Ah, como ele queria que tudo aquilo sumisse! Que nunca tivesse sentido nada!
E a Sombra acatou seu pedido. As imagens de Teppei se tornaram alvo de ódio, como um veneno, uma coisa maligna. Quando mais ele pensava, mais ódio sentia. Colocou as mãos na cabeça, puxando os cabelos. Teppei, Teppei, Teppei, Teppei... Maldito Kiyoshi Teppei. Ele ainda estava ali, sempre presente em seu subconsciente, e Makoto não conseguia se livrar daquela sensação de dor e perda. O ódio e a dor disputavam por espaço em seu coração, e aquilo o estava deixando louco.
Ergueu-se do chão, decidido. Tinha um único objetivo em mente, agora. Olhou para Shizuka, e nem se preocupou ao ver que a aparência dela havia mudado. Agora ela mostrava olhos mortos, sem vida, completamente vazios. Como se uma membrana os cobrisse, e sua íris e pupila tivessem sido substituídas por um cinza opaco. Os olhos de um Dunkelheit que havia cedido ao ódio da Sombra.
– Makoto – ela chamou. – O que quer fazer agora?
Ele a encarou. O que queria fazer? Aquilo era bem simples. Ele sorriu, mas era um sorriso sujo e perverso.
– Apenas uma coisa, irmã – ele se aproximou, encarando-a com olhos iguais ao que exibia. – Matar Kiyoshi Teppei, e acabar com a dor que nos consome.
Ela deu um sorrisinho cheio de maldade, e o abraçou pela cintura.
– Como quiser, irmãozinho. Eu irei onde você for.
Ele a abraçou também. Como sempre, ela era a única coisa que ele tinha, mas seu coração não era mais capaz de sentir, assim como o dela também não era. Até matarem Teppei com suas próprias mãos, a Sombra estaria ali, incitando ódio contra aquilo que os fazia sofrer.
Hanamiya Makoto olhou para o teto. Superfície. Aquilo o lembrou de alguma coisa. Uma promessa... A Sombra o bloqueava, tornando difícil se lembrar. Tudo bem, aquilo não importava. Nada mais importava naquele momento.
Kiyoshi Teppei tinha que morrer, de qualquer jeito.
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