Dunkelheit: Dark Humans
4 Blood Flowers
Notas iniciais

Capítulo 4: Flores Sangrentas
2 semanas antes do sequestro de Izuki e Takao.
– Boa sorte, meu amor! – sua mãe lhe deu um beijinho na testa.
– Estaremos torcendo por você! – Nara lhe deu um beijo na bochecha.
– Concentre-se, sabemos que você pode vencer – Hinata lhe deu um abraço.
– Mãe, mãe e mãe – ele olhou para as três mães que possuía. – Calma, é só um jogo...
– Mas é oficial! – exclamou o pai, colocando a mão em seu ombro. – E desta vez você não está jogando isso em um lugar perigoso e imoral... – ele lhe lançou um olhar severo, e Miyaji corou.
– É melhor você ganhar, estou desperdiçando meu dia com você! – provocou Takao.
– Pare com isso – Moriyama estava ao lado de Izuki, rindo. – Boa sorte, Kiyoshi.
– Boa sorte – concordou Izuki.
Miyaji agradeceu a todos e foi para a arena. Sentia-se um pouco nervoso, já que era uma competição oficial e tudo o mais, e havia milhares de pessoas assistindo. Acalmou-se com o pensamento de que ninguém que conhecia estaria assistindo, além de sua família...
– MIYAJI!!!! – ouviu alguém berrar na plateia. Então um coro de gritos se seguiu, chamando seu nome. Apavorado, procurou a origem do som na plateia, e teve vontade de se enfiar em um buraco quando viu quem era. Todos os homens bombados, bêbados, doidos e os garotos que freqüentavam o 7Sins estavam na plateia, torcendo por ele. Eles se destacavam facilmente da multidão, que preferia se distanciar do grupo peculiar.
– Ai meus deuses – Miyaji caminhou sem olhar para eles até a porta da arena, para pegar seu equipamento.
Felizmente eles tinham a arma que ele gostava. Miyaji manuseou a pistola cuidadosamente, sentindo seu peso, verificando se não havia nenhum problema com ela. Quando constatou que ela estava em perfeito estado, verificou-se pronto.
Foi logo o primeiro a ser chamado. Assim que entrou na arena, a plateia explodiu em gritos. Ele sabia que não eram por causa dele, e sim pela simples animação em saber que o jogo iria começar. Bem, exceto pelos caras da 7Sins, que continuavam gritando seu nome.
O homem do outro lado da arena havia escolhido uma sniper. Miyaji se segurou para não gritar com ele. Snipers eram as piores armas para se usar no jogo. Elas eram perfeitas para tiros de longa distância, em que você podia ficar parado, mas em uma luta dinâmica que envolvia velocidade, a sniper era pesada e atrapalhava os movimentos. Miyaji soube que seu jogo estava ganho assim que o sinal para começar soou.
Ele era bom, e sabia disso. Perdera para Hayama, ainda não entendia como, mas nunca perderia para qualquer outro. Assim que o homem deu o primeiro tiro, Miyaji desviou, disparando três tiros na direção do oponente. Ele foi acertado fortemente no peito, duas vezes, e uma na cabeça, e caiu instantaneamente. A multidão foi à loucura. Afinal, a luta não havia durado nem um minuto. Miyaji ouviu gritarem seu nome, e não era apenas os homens da 7Sins desta vez.
Os jogos continuaram, e Miyaji continuou ganhando. No começo ficou irritado, pois os competidores estavam em um nível muito abaixo do dele. Queria enfrentar Hayama, mas o rapaz estava em outro bloco, e só se enfrentariam se ambos fossem os melhores de seus blocos. Ou seja, a final. Isso fez com que Miyaji ficasse animado, e derrotou seus oponentes sem piedade.
As coisas começaram a ficar mais difíceis quando começou a enfrentar os competidores que sabiam o que estavam fazendo. Seu corpo começou a doer, e sentia seus pulmões queimarem. Apesar de ter bastante tempo de descanso entre um jogo e outro, estava cansado do mesmo jeito. Mas não desistiu. Nunca perderia para alguém além de Hayama. Na verdade, daquela vez, não perderia nem para Hayama.
Finalmente derrotou todos do seu bloco. O último oponente era forte, e usou o estilo das mãos nuas, assim como Hayama. Estava muito abaixo do outro rapaz, mas ainda assim era forte e habilidoso. Miyaji sentia muita dor nos lugares que fora acertado, estava ligeiramente tonto por causa de um golpe na cabeça. Como em seguida viria a final, ele teria uma hora de descanso, e poderia falar com os familiares.
Foi levado para a enfermaria para ser tratado. Sua família entrou silenciosamente, posicionando-se ao redor dele enquanto uma enfermeira cuidava de seus ferimentos.
– Nossa, filho – seu pai parecia impressionado. – Você é realmente bom nisso!
– Obrigado – Miyaji disse, cansado. – Eu era o campeão do “lugar perigoso e imoral” – ele deu um sorrisinho, e seu pai não conseguiu evitar fazer o mesmo.
– Cara, isso é muito legal! – Takao estava em um estado semelhante ao de Hayama, com os olhos brilhando. – Tenho que admitir, você é muito forte. Que demais!
– Estamos impressionados, Kiyoshi – disse Nara. – Não sabíamos que você tinha esse potencial. Poderíamos ter colocado você em uma escola desde pequeno!
– Não... – Miyaji balançou a cabeça. – Não precisa disso. Aprendi do mesmo jeito, não aprendi?
A enfermeira terminou de tratá-lo, e ele ficou mais um tempo descansando com a família. Precisava se forçar a ficar quieto, pois ainda teria que enfrentar Hayama. Deixaram que ele dormisse por uns 50 minutos, antes de acordá-lo para se preparar para a final.
Ele tinha que admitir, estava nervoso. Iria lutar na frente de toda aquela gente, e principalmente: contra Hayama. Não queria perder para ele de novo. Mas então aquela sombra lhe veio à mente, e ele se perguntou se não aconteceria de novo. Se deu um tapa mental, e se forçou a se concentrar no que acontecia naquele momento, e não no que poderia acontecer.
A Arena estava lotada, como sempre, mas as pessoas estavam ainda mais eufóricas. Era a final, é claro que elas estariam daquele jeito. Miyaji respirou fundo, vendo sua família acenar para ele, e os caras do 7Sins gritarem seu nome, torcendo por ele. Deu uma risadinha, e se voltou para o seu oponente, do outro lado da arena.
Hayama usava um gorro também naquele dia. Mas Miyaji notou algo estranho nele. Ele não sorria radiante como sempre. Tinha um pequeno sorriso nos lábios, mas não era um sorriso amistoso. Seus olhos não estavam brilhando, e pareciam... Loucos.
Como na primeira vez em que falei com ele, Miyaji se lembrou. Hayama não havia agido de forma amistosa em seu primeiro encontro. Ele parecia um animal, feroz e agressivo. Estava daquele jeito também naquele momento, e Miyaji se perguntou o que aquilo significava.
Antes que pudesse pensar em qualquer outra coisa, ouviu o sinal para começar. Sacou a arma e atirou em Hayama, tentando pegá-lo de surpresa. É claro que isso não aconteceu, mas Miyaji notou outra coisa ainda.
Ele está mais rápido. E mais ágil também. Miyaji nem teve tempo de reagir, e Hayama já estava em cima dele, atingindo-o no peito. Miyaji cambaleou, e olhou assustado para o garoto, que tinha os dentes arreganhados, exibindo os caninos afiados.
– Miyaji-san – ele disse, e sua voz parecia mais um rosnado. – Eu estou dando tudo de mim para te vencer. Dê tudo de si também.
Miyaji rolou para o lado quando Hayama investiu novamente. Continuou se esquivando dos golpes, mas não conseguia mirar sua arma, muito menos atirar. Toda a sua energia estava focada em desviar. Era impossível, Hayama estava rápido demais, muito mais do que quando se enfrentaram pela primeira vez. E ele estava diferente, quase assustador. Se Miyaji não conhecesse seu lado adorável, teria desistido na hora. Mas não podia fazer isso, não aceitaria perder. Concentrou energia na primeira bala, se afastando um pouco quando se esquivou novamente, e disparou no rosto do outro.
Estava perto demais. Ele nunca conseguiria desviar. Mas Miyaji não se surpreendeu quando ele não apenas desviou, mas acertou-o no peito, fazendo-o voar para trás e cair de costas no chão.
Igualzinho à primeira luta deles. Miyaji encarou o céu, ouvindo os gritos da plateia. A luta não havia durado nem cinco minutos. Hayama era forte demais. Ele perdera, e nem tinha como contestar isso. Da primeira vez, havia acertado alguns tiros. Dessa vez, apenas fizera papel de bobo.
– Miyaji-san? – ele ouviu a voz de Hayama, mas o Hayama que passava as tardes na floricultura. Sentou-se e olhou para o garoto, que tinha os olhos brilhantes novamente. Ele abriu um largo sorriso quando Miyaji olhou para ele. – Você está bem?
– Mais ou menos – Hayama estendeu a mão, e Miyaji a segurou para se levantar. – Você é realmente incrível, Hayama.
– Não sou não – ele parecia envergonhado. – Miyaji-san, será que você pode me encontrar depois, a sós?
– Hum – Miyaji pensou, curioso. Sua família não lhe daria uma brecha naquele dia. – Vá amanhã à floricultura, como sempre. Não vai ter ninguém lá.
Hayama sorriu, assentindo animadamente. Miyaji tentou dar um pequeno sorriso, mas a verdade é que estava muito triste. Perdera não somente uma, mas duas vezes contra a mesma pessoa. Não era uma prova suficiente para dizer que Hayama era melhor do que ele? Então por que continuava negando?
Esperava conseguir essas respostas no dia seguinte.
Quando o sininho tocou novamente, Miyaji nem pensou duas vezes ao fechar o mangá. Hayama entrou, cauteloso, e não sorriu ao ver Miyaji. Por um momento, ele pensou que Hayama havia voltado a ser como nas competições, mas então percebeu que ele estava triste.
– Algum problema? – Miyaji não sabia ser cuidadoso. Tinha que perguntar as coisas de maneira direta, ou nunca conseguiria se expressar. – Você parece triste.
– Miyaji-san – Hayama se aproximou do balcão, mas não se debruçou sobre ele, como sempre fazia. – Eu... Pensei muito, sabe. Pensei muito sobre o que falar para você agora, mas eu não sei como dizer isso... É uma coisa complicada, sabe, acho que você vai ficar muito bravo comigo, e eu não quero que você fique bravo comigo, eu quero que você goste de mim, mas você não vai gostar se eu...
– Hayama – Miyaji o interrompeu, segurando seu queixo e obrigando-o a olhá-lo nos olhos. – Diga de uma vez.
Hayama engoliu em seco, e tentou se afastar, mas Miyaji o segurou. Vendo que não tinha escolha, ele abriu a boca para falar.
– Eu meio que... Trapaceei na nossa aposta – ele desviou os olhos.
– O quê? – Miyaji puxou-o mais em sua direção, fazendo ele manter o contato visual. – Fale direito.
– Eu trapaceei! – Hayama corou, mas dessa vez Miyaji nem se importou com a proximidade. – Eu sabia que iria ganhar. Por que, nesse tipo de competição, você não teria chance contra mim se eu usasse as minhas habilidades. Eu... Eu sou um Crown, Miyaji-san.
Ficaram assim por um momento, se encarando, enquanto Miyaji processava o que ele havia lhe dito. Pensou na sombra que vira da primeira vez, e em como Hayama estava muito mais rápido no dia anterior. Pensou nas mudanças de personalidade que ele tinha, e finalmente entendeu.
– Seu... Seu merdinha – ele empurrou Hayama para longe. – Seu lixo! Você me usou, me fez acreditar que eu tinha chance!
– Miyaji-san...
– Sem essa de Miyaji-san! Cale a boca! Eu não quero mais ouvir você falar, seu monstro! E o pior de tudo nem é a aposta, é você ter me feito PASSAR VERGONHA NA FRENTE DE TODAS AQUELAS PESSOAS, QUANDO EU NUNCA TIVE CHANCE CONTRA VOCÊ!
Hayama havia se afastado, e lágrimas caiam de seus olhos. Miyaji sabia que estava exagerando, mas não conseguia parar. Estava com muita raiva.
– Você veio aqui, querendo ser meu amiguinho, mas nunca me disse a verdade sobre o que você é! UMA MERDA DE UM DUNKELHEIT! VOCÊ TEM VANTAGEM SOBRE MIM EM QUALQUER COISA! – ele parou para respirar, observando Hayama se encolher diante de seus gritos. – SAIA DAQUI, SEU MONSTRO! E NUNCA MAIS VOLTE! SAIA!
E ele saiu. Correu para fora da loja, soluçando e chorando. Quando a porta se fechou, Miyaji caiu no chão, puxando os joelhos para o tórax, e chorando também. Droga, ele não queria ter dito aquelas coisas. Não achava que Hayama era um monstro. Mas estava chateado por ter sido enganado. É claro que Hayama venceria: os Crowns eram os Dunkelheit mais poderosos, junto com os Miracles. Estavam no mesmo nível, mas enquanto os Miracles conseguiam controlar melhor sua personalidade, os Crowns eram completamente possuídos pela Sombra. Isso explica por que ele fica tão diferente quando está lutando. Miyaji respirou fundo, secando as lágrimas com a manga da camisa. Pelo menos, pensou, não teria mais que aturá-lo.
Ele se levantou, segurando o choro e tentando agir normalmente. Se chegasse algum cliente, ele não poderia estar naquela situação. Suspirou, pegando seu mangá para se distrair. Mas os enormes olhos das personagens só o lembravam dos olhos de Hayama.
É, ele teria uma longa tarde pela frente.
Hayama não apareceu no dia seguinte. Nem no seguinte. E nem no seguinte. Três dias haviam se passado, e Miyaji continuava encarando sozinho as flores nas prateleiras. Clientes entraram, compraram flores para as namoradas, para as esposas, para a família, e Miyaji continuou sozinho. Nem percebera como gostava da companhia do mais novo.
E seus irmãos não ajudavam. Izuki saía com Moriyama para passear, e os dois trocavam presentinhos. Se alguém perguntasse, eles corariam e diriam que eram só amigos. Miyaji achava isso irritante: o mundo inteiro sabia dos sentimentos deles, menos eles. Takao também saia de vez enquanto, levando uma flor, mas se recusava a contar quem encontrava. Um dia, Miyaji encontrou os dois irmãos criando flores juntos, e pode somente revirar os olhos.
Um dia, em que a loja estava fechada por causa de um dos raros feriados que tinham, Miyaji se pegou perguntando-se como poderia fazer uma flor. Seus irmãos disseram que o principal era querer fazê-la para alguém. Se pensasse na pessoa enquanto criava flores, a chance de sucesso era quase 100%. Miyaji suspirou. Para quem faria uma flor? Deixou a ideia de lado, quando olhos brilhantes lhe vieram à mente.
– Pai – depois de não aguentar mais, ele decidiu falar com o homem da casa. – O que você faz quando comete um erro?
Seu pai olhou-o atentamente, fechando o jornal que lia.
– Eu tento consertá-lo – ele respondeu.
– Mas e se você não souber como fazer isso? – Miyaji sentou-se no sofá, de frente para a poltrona do pai.
– O que aconteceu, Miyaji? – seu pai era perspicaz. – Você está estranho desde a competição. Está chateado por que perdeu?
– Não é bem isso – Miyaji corou. Nunca admitiria que era por causa da pessoa que o derrotou. – É que eu magoei uma pessoa. Muito. Disse umas coisas horríveis, mas eu não queria dizer aquilo – ele suspirou. – Não sei o que fazer. Estou tão arrependido...
Seu pai sorriu, apoiando-se nos joelhos.
– Vá até essa pessoa. Peça desculpas, do fundo do seu coração. Diga como está se sentindo – ele parou para pensar. – Dê uma flor a ela. Ou melhor, faça uma.
– Certo – Miyaji não sabia como encontrar Hayama, mas tinha seus meios. – Obrigado, pai – ele se levantou. – Se me der licença, preciso descobrir onde fica a casa de uma pessoa.
– Boa sorte – o pai sorriu, pegando o jornal novamente.
Miyaji saiu de casa, indo em direção ao 7Sins. Sabia que havia prometido não voltar mais lá, mas não sabia como descobriria o endereço de Hayama. E o bar era o maior poço de informações que conhecia. Chegando lá, inquiriu todos os funcionários, mas nenhum deles sabia dizer. Falou então com Kento, que também não fazia ideia, mas conhecia um cara que sabia de muita gente.
Miyaji foi até a casa do homem, que primeiro ficou desconfiado com as perguntar de Miyaji, mas depois que ele disse que conhecia Kento o homem pareceu relaxar um pouco. Miyaji perguntou sobre Hayama, e o homem disse que não conhecia o garoto, mas conhecia uma família Hayama. Miyaji pegou o endereço, agradeceu mil vezes ao homem, e se encaminhou para lá.
A casa era do outro lado da cidade, e foi uma longa caminhada. Ficava na periferia, mas era uma área bem vazia, por ser um pântano e se encontrar bem perto do rio. Havia várias casinhas de madeira ali, e pareciam bem pobres, mas perguntando para um barqueiro que encontrou, o homem confirmou a localização da casa dos Hayama. Miyaji agradeceu, e voltou para casa se sentindo um pouco melhor.
Obrigou-se a sentar com os irmãos, pedindo ajuda para criar uma flor. Takao riu dele.
– Nunca imaginei que você iria querer fazer uma flor para alguém, Kiyoshi – ele disse.
– Cale a boca – ele grunhiu. – Aposto que a minha flor não vai sair toda verde. Francamente, o cara com quem você sai é um monstro do pântano?
– Ei! – Takao corou. – Quem disse que é um cara?
– Concentre-se, Kiyoshi – Izuki chamou sua atenção. – Junte as mãos em concha, e concentre a energia sombria. Você sabe como fazer, o papai nos ensinou.
– É, mas faz muito tempo que eu não faço – ele seguiu as instruções do irmão. – E agora?
– Pense na pessoa para quem você quer dar a flor – ele disse. – Pense na personalidade dela, e na relação de vocês.
Miyaji pensou em Hayama. O que iria fazer? Uma flor brilhante? Arregalou os olhos. Era uma boa ideia. Uma flor fosforescente, talvez?
– Pensou? – Miyaji assentiu. – Agora faça a sombra moldar o que você quer. O resto eu não sei explicar, é meio natural para mim.
– O Shun é muito bom – Takao franziu o nariz. – Tenho que admitir que só sei fazer a flor verde.
– Silêncio – Miyaji pediu, pensando em Hayama e sua personalidade. Ele era ativo, animado, fofo... Quer dizer, forte... Muito forte. Cheio de energia, alegre, falador. Miyaji sorriu. Era como um fogo em sua vida. Pensou então que, desde que conhecera Hayama, sua própria personalidade havia mudado.
Ele soube exatamente o que fazer. Com um sorriso no rosto, ele separou as mãos, concentrando a energia sombria para que fizesse o que ele queria. Criou o caule, então as sépalas, as pétalas, e o miolo. Quando terminou, a flor ficou flutuando acima da palma de sua mão esquerda, e os irmãos a encararam boquiabertos.
– Que demais! – exclamou Takao. – Você devia fazer isso mais vezes!
Miyaji sorriu, observando a própria obra. Era uma flor de três pétalas grandes, e de sépalas iguais às pétalas, parecendo que tinha seis pétalas. Elas eram compridas e triangulares, e as três superiores se inclinavam mais para o alto. Do miolo saiam três estames, circundando um carpelo fino. Esses últimos eram brancos e brilhantes, e de suas pontas saíam...
– O que é isso? – Takao apontou para o que saía.
– Sei lá – Miyaji deu ombros.
– São partículas luminosas – Izuki estava encantado. – Não sei para quem você vai dar isso, mas essa pessoa vai ficar muito feliz.
– Assim espero – Miyaji se levantou. – Que flor significa um pedido de desculpas?
– Ciclames – respondeu Izuki, prontamente.
– Vermelhos ou brancos?
– Vermelhos – respondeu Takao, antes que Izuki pudesse falar. Ele lhe lançou um olhar raivoso, mas Takao o ignorou. – Vai até combinar com a sua flor.
– Tudo bem – Miyaji deu ombros.
– Eu acho melhor você pegar outra flor – Izuki parecia envergonhado.
– Melhor nada! Venha, Kiyoshi, vamos fazer um arranjo maravilhoso, todo vermelho – ele encarou Izuki, e Miyaji se perguntou o que estava acontecendo.
Fizeram o arranjo, colocando a flor de Miyaji no meio. Estava realmente bonito, e Miyaji embrulhou cuidadosamente.
– Perfeito – ele disse. – Obrigado pela ajuda.
– Não tem de quê – Takao parecia estranhamente feliz. Miyaji decidiu ignorá-lo, saindo de casa e caminhando na direção da casa de Hayama. Era uma longa caminhada, e lhe daria tempo o suficiente para planejar o que diria.
Afinal, havia uma longa tarde pela frente.
Parou na frente da porta da casa. Ainda não tinha coragem de bater. Ouvia vozes do lado de dentro, indicando que pelo menos haveria alguém em casa. Respirou fundo, escondendo o buquê atrás das costas, pensando no quanto ele parecia um estudante tentando convidar a menina de quem gostava para sair, e tocou a campainha.
Esperou alguns segundos, até que uma mulher atendeu a porta. Julgando pelos cabelos loiros e os grandes olhos, era a mãe de Hayama.
– Boa-tarde – ele se forçou a dizer, tentando sorrir. – O Hayama, digo, o Kotarou está?
– Hum, sim – ela o analisava. – Quem é você?
– Sou... Amigo dele. Miyaji Kiyoshi. Poderia chamá-lo, por favor?
– Só um minuto – ela se virou para dentro. – Filho, tem um tal de Miyaji Kiyoshi querendo falar com você.
Miyaji aguardou, e um tempo depois Hayama apareceu, olhando desconfiado para o lado de fora. Seus olhos se arregalaram quando viu Miyaji, e ele se aproximou cautelosamente.
– Você o conhece? – perguntou a mãe.
– S-Sim – ele gaguejou. Então olhou para a mãe. – Está tudo bem. Posso conversar com ele?
– Claro – a mãe deu ombros, lançando um último olhar para Miyaji, antes de desaparecer dentro da casa. Hayama saiu, fechando a porta atrás de si, sem olhar para o rosto de Miyaji.
– Miyaji-san... – ele tentou começar.
– Não – Miyaji o interrompeu, e viu que ele se encolheu. Tentou usar palavras mais cuidadosas, e suspirou. – Desculpe. É que eu tentei fazer um discurso, sei lá, ensaiar o que diria a você no caminho até aqui, mas seu sou péssimo nisso – ele engoliu em seco. – Eu só queria dizer... Me desculpe.
Hayama olhou para ele, com os olhos arregalados, como se não pudesse acreditar no que ouvia.
– Miyaji-san?
– Eu realmente não queria ter dito aquelas coisas pra você – Miyaji se mexeu, desconfortável. – Depois que você saiu, eu fiquei com vontade de me bater, sério. Esses três dias sem você na floricultura foram um saco.
– Pensei que você me achasse irritante – Hayama disse, apesar de ter um sorrisinho do rosto.
– Eu acho, tá? Mas... Droga, eu senti sua falta, pirralho – ele não conseguiria usar palavras fofas, sem chance. – E eu não te acho um monstro. Estou pouco ligando se você é um Dunkelheit ou da realeza. Ai, merda, como eu digo isso – ele olhou ao redor, sem ter coragem de encará-lo nos olhos. – Acho que gosto de você.
Sentiu o rosto queimar, e viu que Hayama corava, apesar de ter um enorme sorriso no rosto e os olhos brilharem. Miyaji se sentiu mais leve ao ver aquela expressão. Sentira falta daquilo.
– Miyaji-san! – Hayama quase dava pulinhos de alegria. – Eu também gosto de você! Muito!
– Hum – Miyaji desviou o olhar. – Eu trouxe uma coisa pra você. Lembrei que não te dei um presente de aniversário.
Ele estendeu o buquê, e Hayama o pegou, radiante.
– Que flor é essa no meio? – perguntou. – Que legal!
– Eu que fiz – Miyaji corou novamente. – Fiz para você. É a sua flor.
Hayama parecia prestes a explodir a qualquer momento, e Miyaji se sentiu um pouco melhor. Então Hayama ficou vermelho ao olhar para as outras flores.
– Ah, Ciclames querem dizer... – Miyaji começou, mas foi interrompido.
– Eu sei o que querem dizer – disse Hayama, olhando para ele. – Minha mãe adora essas coisas. Você sabe?
– Bem... Sei... Quer dizer, meus irmãos que me disseram para pegar, na verdade – admitiu.
Então Hayama começou a gargalhar, deixando Miyaji confuso.
– O que foi? Eu não sou especialista nessas coisas!
– Não é isso – ele sorriu. – Depois pesquise o significado dos ciclames vermelhos.
– Certo – um detalhe lhe veio à mente. – Também não cumpri a nossa aposta!
– Ah, não precisa – Hayama parecia envergonhado. – Ela não foi justa.
– Claro que foi. E daí que você iria vencer de qualquer forma? Eu apostei, eu perdi. Além do mais, quero te recompensar por tudo o que eu disse – ele mordeu o lábio, sabendo que se arrependeria depois. – Amanhã eu tenho folga. Pode ser amanhã?
– Pode! – Hayama estava saltitante. – Vou estar na porta da floricultura às dez da manhã. Você tem que me obedecer até as seis da tarde.
– Feito – Miyaji assentiu. – Então... Até amanhã.
– Até amanhã, Miyaji-kun – ele sorriu, fechando os olhos.
Miyaji corou diante da mudança de honorífico, mas acenou para Hayama enquanto se afastava. Seu coração estava mais leve ao saber que agora as coisas haviam se ajeitado entre eles. Mas então se perguntou se suportaria o dia de amanhã.
Hayama estava esperando na porta da floricultura, como prometido. Miyaji se aproximou, sentindo um calafrio, e o cumprimentou.
– Bom-dia, Hayama – ele disse.
– Não, não – Hayama balançou a cabeça. – Hoje você vai me chamar de Kotarou! E eu vou te chamar de Kiyoshi.
– E-Ei! – ele pensou em reclamar, mas quando viu a expressão brava de Hayama (vamos deixar claro, ela consistia em inflar as bochechas e fazer um biquinho), ele suspirou. – É o seu dia, tudo bem.
Hayama sorriu, pegando a mão de Miyaji e o arrastando consigo.
– Primeiro eu quero ir ao parque de diversões! – ele disse.
– Parque de diversões? Não é muito caro?
– Eu pesquisei, eles estão dando descontos essa semana! – ele estava radiante. – Nunca fui a um parque de diversões!
– Nem eu – olhou para suas mãos. – Temos mesmo que andar de mãos dadas?
Hayama lhe lançou a mesma expressão brava, e Miyaji desistiu.
Teria um longo dia pela frente.
No fim do dia, eles haviam decidido jogar uma partida de basquete, em uma quadra atrás do lago, que quase nunca era usada. Miyaji ganhara por uma diferença de dez pontos, e ajudava Hayama a se levantar de uma queda por causa da última cesta.
– Parece que você não é melhor do que eu em tudo! – disse Miyaji, sorrindo, orgulhoso.
– Eu disse – Hayama estava ofegante. – Sou mais rápido, mas a sua técnica no basquete é melhor do que a minha.
Eles sorriram um para o outro. Miyaji tinha que admitir, tinha se divertido naquele dia. Foram ao parque de diversões, em quase todos os brinquedos. Depois tomaram sorvete em uma sorveteria próxima. Então passearam no parque, brincando de caçar as borboletas fosforescentes que voavam por ali. Miyaji se sentia uma criança, mas era bom relaxar um pouco.
– Obrigada por sair comigo, Kiyoshi-kun – Hayama sorriu. – Eu me diverti muito!
– Então estou perdoado?
– É claro que está! – ele riu.
Eles ficaram em silêncio por um momento, se encarando. Então Hayama pegou o celular e viu as horas.
– Ah – ele disse, triste. – 5:55. Parece que meu tempo acabou.
– Hum, você ainda pode fazer um último pedido – sugeriu Miyaji. – Desde que ele seja fácil. Pense bem!
Hayama adquiriu uma expressão pensativa, então olhou para Miyaji, e mordeu o lábio inferior.
– Eu tenho um último pedido – ele disse, tímido.
– Diga – disse Miyaji, distraído. – Vamos, seu tempo está acabando!
– Eu... – Hayama hesitou. – Eu quero um beijo!
Miyaji olhou para ele, chocado. Hayama estava vermelho, assim como ele sabia que também estava.
– Um... Beijo? – Hayama assentiu. – Tipo, um beijo mesmo? – Hayama assentiu. – Na... Na boca?
Hayama assentiu uma última vez, e desviou o olhar. Miyaji o encarou por mais algum tempo. Será que toda aquela história sobre querer que ele gostasse de Hayama... Ele suspirou.
– Eu sabia que você iria pedir alguma coisa difícil hoje – ele disse.
– Kiyoshi-kun, não precisa fazer isso se não quiser...
Mas ele foi cortado quando Miyaji agarrou a gola de sua camiseta e o puxou para si, encostando seus lábios nos dele. Se lhe perguntassem por que fez aquilo, ele não saberia responder. Só sabia que havia feito. E havia gostado. Hayama estava tenso no começo, mas então relaxou, colocando uma mão na nuca de Miyaji e acariciando seus cabelos. Então ele abriu um pouco a boca, e Miyaji entendeu o que ele queria dizer. Abriu a própria boca, adentrando a de Hayama, entrelaçando suas línguas. Sentiu um arrepio percorrer seu corpo quando tocou os dentes afiados. Por algum motivo, achava-os estranhamente sensuais.
O beijo começou a ficar mais intenso, e Miyaji nem ligava se o tempo da aposta já havia passado. Agarrou a camiseta de Hayama, apoiando a outra mão em suas costas, puxando-o para mais perto, enquanto o outro agarrava seus cabelos com força. Estava quente, muito quente, mas eles já estavam mesmo suados por causa do basquete. Miyaji só se separou quando percebeu que precisavam respirar, soltando Hayama, mas ainda com uma mão em suas costas.
Eles estavam vermelhos e ofegantes, e desta vez não era por causa do basquete. Hayama afagava os cabelos de sua nuca, e o encarava com os enormes olhos brilhantes, que pareciam maiores do que nunca.
– Miyaji-san... – ele sussurrou.
– Não diga mais nada – Miyaji o puxou em um abraço. – Droga. Eu acho que estou gostando de você.
– Você já disse isso – Hayama riu, e Miyaji sentiu seu peito vibrar contra o dele.
– Eu sei, mas estou dizendo de novo.
– Falando nisso – Hayama disse, quando se afastaram. – Você procurou o significado das ciclames?
– Sim – Miyaji deu uma risadinha, lembrando-se de como perseguira Takao pela casa por causa daquilo. – Ciclames brancas significam um pedido de desculpas. Ciclames vermelhas são um pedido de desculpas entre namorados.
Hayama riu novamente, e dessa vez Miyaji se juntou a ele. Ficaram mais um tempo se olhando, até que Miyaji quebrou o silêncio.
– Apareça quando quiser lá na floricultura.
– Mesmo? – Hayama estava animado de novo. – Posso ir lá todo dia?
– De preferência. Aquele lugar é muito chato sem você.
Hayama sorriu, corando um pouco, e enterrou o rosto no peito de Miyaji. Se afastou em seguida, e Miyaji finalmente o soltou.
– Obrigada, Miyaji-san – ele disse. – Esse foi o melhor presente de aniversário que eu já ganhei.
Miyaji riu, coçando a nuca.
– De nada. Então... Até amanhã?
– Até amanhã – ele disse.
Miyaji teria um longo dia pela frente.
E ele não dava a mínima.
Miyaji podia dizer com certeza de que sua vida nunca fora tão boa.
Hayama passava todos os dias com ele. Apresentara-o à família, que foi bem receptiva. Ele tinha, além da mãe, que era bem tímida, uma avó muito simpática e engraçada. Seu pai havia morrido jovem, e Hayama não o conhecia. Sua mãe trabalhava no palácio, mas eles viviam uma situação um pouco apertada. Miyaji sentiu-se arrependido de ter vadiado tanto quando sabia que seus pais e outras pessoas davam duro para sobreviver. Isso o fez se dedicar ainda mais à floricultura, e com a ajuda da energia de Hayama, e seus olhos brilhantes, o movimento na floricultura aumentou bastante.
Além disso, ele havia feito um acordo com Hayama. Em troca de passar as tardes com ele na floricultura, Hayama concordou em lhe ensinar a usar magia sombria para aprender o estilo das mãos nuas.
– Mas saiba que isso é perigoso, Miyaji-san – ele disse, alarmado. – Eu tenho que estar possuído pela sombra para te ensinar. Não vou te matar, por que consigo me controlar, mas eu posso acabar te machucando sem querer.
– Tudo bem – Miyaji saltou, se aquecendo. – Eu quero aprender.
– Certo – Hayama ainda não parecia muito convencido, mas concordou.
Afastou-se alguns metros de Miyaji, fechando os olhos e respirando fundo. Miyaji observou, hipnotizado, enquanto ele apenas inspirava e expirava, como se estivesse se acalmando. Depois de alguns minutos fazendo isso, ele finalmente abriu os olhos, e Miyaji soube que era o outro Hayama. Seus olhos não brilhavam, e as íris pareciam ter diminuído e mudado de cor. Não eram mais castanhas, e sim laranjas. Seu olhar era penetrante e sério, feroz, animalesco, e fez um calafrio percorrer a espinha de Miyaji.
– Muito bem – ele disse com aquela voz grave, que parecia um rosnado. – Eu vejo você. Vou fazer como quando competimos, ou seja, não tem perigo algum. A Sombra está sob o meu controle.
– Hum – Miyaji assentiu, meio nervoso. Conhecia o poder de Hayama naquele modo. – O que eu faço primeiro?
– Esse é o problema – Hayama se aproximou. – Você tem que usar energia sombria. Chamamos ela de schatten. Você tem que concentrar seu schatten nas mãos e pés. É assim que eu consigo me movimentar rapidamente e dar golpes fortes com as mãos. Vamos ver se você consegue concentrar schatten nas mãos primeiro.
Miyaji assentiu, e fez o mesmo que aprendera com seu pai, quando queria fundir flores ou criar uma nova. Depois de concentrar schatten que considerou suficiente, ele olhou para Hayama, que se aproximou.
– Muito bom – ele deu um pequeno sorriso, e Miyaji viu um pouco do Hayama que conhecia. – Eu sabia que você conseguiria.
Depois disso continuaram treinando. Miyaji aprendeu a se locomover rapidamente, o que foi fácil, graças às habilidades adquiridas no Barehands. Também percebeu que se identificava muito mais com aquele estilo do que com armas de longo alcance. Percebeu que o estilo das mãos nuas era bem mais preciso, e era mais fácil aproveitar sua velocidade com ele.
Lutou bastante contra Hayama, e perdeu bastante também, mas ele não ligava. Estava feliz, pela primeira vez em muito tempo. Mas, ao mesmo tempo, sentia a Sombra no fundo de sua mente aumentar. Ela pulsava, e cada vez que ele se olhava no espelho ele se via mudado. Quando comentou sobre isso com Hayama, ele pareceu preocupado.
– Isso é outra coisa que eu temia – ele disse, em seu modo bonzinho. – Quando você usa muito schatten, você acorda a Sombra. Você provavelmente vai se tornar um Dunkelheit em pouco tempo, Miyaji-san.
– E... Isso não é um problemão? – ele indagou.
– Bem, nem tanto. Você vai ter que conviver com a Sombra o tempo todo, mas usando-a do jeito que estamos fazendo, você vai se tornar um Sünder. A Sombra não os afeta tanto, e é facilmente controlável.
– Erm, desculpe a ignorância, mas o que é um Sünder?
– Oh – Hayama arregalou os olhos. – Me esqueci que as pessoas normais não usam os termos originais. Como você sabe, os Dunkelheit nasceram na colônia alemã. O próprio nome Dunkelheit significa sombrio.
– Então na colônia alemã não havia sombrios comuns?
– Não. Todos eles eram especiais. Mas não sabemos mais sobre eles, só que a Sombra despertou em toda a colônia alemã, e é assim até hoje. Eles são os melhores em controlá-la. Bem, voltando ao assunto, Sünder é Sinner em alemão. Crown é Krone, e Miracle é Wunder. Schatter significa Sombra, mas é o termo que nós usamos para nos referir à energia sombria, que não deixa de ser a Sombra.
– Entendi – Miyaji assentiu. – Nossa, como você sabe disso?
– Minha avó veio da colônia alemã – ele corou. – Ela ficou feliz quando descobrimos que eu era um Krone, e me explicou tudinho.
– Mas então você nasceu Krone?
– Sim. Os alemães nascem como sua respectiva raça. Eu já nasci assim, por isso controlo tão bem a Sombra. Minha avó me ensinou tudo que podia, mas se eu tivesse tido aulas na colônia alemã eu nem seria afetado por ela.
– Nossa. Que legal – Miyaji sorriu. – Então eu vou virar um Sünder... E não vou enlouquecer?
– Não, se continuarmos treinando assim. Estamos treinando sua Sombra para te obedecer. Você só vai perder o controle se deixar.
Miyaji continuou treinando com Hayama por mais cinco dias. Tudo parecia estar bem, e Miyaji nunca se sentiu tão feliz.
Até Izuki ser sequestrado, e Takao desaparecer logo depois.
Período atual: algumas horas após o desaparecimento de Takao.
Miyaji queria muito socar alguma coisa. De preferência, alguém. Estava sentado no sofá da casa de Hayama, agarrado a uma almofada com toda a sua força. Hayama estava sentado ao seu lado, preocupado.
– Lembre-se do que eu disse – ele acariciou os cabelos de Miyaji. – Não deixe a Sombra dominar. Você ainda não é um Sünder, então pode acabar ficando pior.
– Eu sei – ele respirava fundo, mas a Sombra era bem insistente. – É que eu sinto tanto ódio. Eu não consigo suportar mais isso. Primeiro o Shun, depois o Kazunari. O que mais falta acontecer?
Hayama não disse nada, o que surpreendeu Miyaji. Ele saiu de seu torpor de raiva, olhando para o garoto ao seu lado, que estava cabisbaixo. Miyaji entrou em choque quando viu que ele chorava.
– Ei, Hayama... – ele não sabia o que fazer em uma situação daquelas. – Não chore...
– Eu não quero que aconteça alguma coisa com você – ele enterrou o rosto nas mãos. – Eu sou um Krone, e a rainha quer pegar os Krones mais do que os Wunders. E se eles te machucarem para me afetar?
– Ninguém vai me machucar. Até parece que você não me conhece. Acha que os guardas da Rainha têm alguma chance contra mim?
– Não brinque com isso! – Hayama se ergueu. Parecia realmente apavorado. – Eu vi o que eles podem fazer. Eu tinha um amigo que era igual a você, e os guardas o mataram. Eu não quero que você morra também!
– Ei – Miyaji, em um impulso, o puxou pelo pulso, fazendo-o sentar-se em seu colo. Hayama corou. – Eu não vou morrer. Não precisa se apavorar desse jeito.
– Mas se eles vierem atrás de você... – Hayama apoiou as mãos em seus ombros. – Eles pegaram seus irmãos por algum motivo.
– Pegaram o Shun pra atrair o amigo dele – Miyaji ainda estava confuso a respeito daquilo, mas era a única explicação possível. – E Kazunari tinha contato com pessoas perigosas.
– E eu não sou perigoso?
– Não mesmo – Miyaji encostou sua testa na dele, afagando suas costas. – Você não mata nem um cachorrinho.
– Que horror, Miyaji-san! Não posso matar cachorrinhos!
– Viu? – Miyaji riu. – Acho que já está na hora de eu ir embora. É melhor eu estar por perto dos meus pais, antes que eles pensem que eu sumi também.
– Tá bom – Hayama saiu do colo dele, parecendo relutante em fazer isso. – Vamos pegar suas coisas, acho que estão no meu quarto.
Miyaji assentiu, e foram para o quarto de Hayama. Era bem pequenininho, tinha apenas um armário, uma cômoda e uma cama. Miyaji pegou sua mochila, verificando se não havia esquecido nada.
– Hum, Hayama, acho que meu celular ficou na sala. Pode ir lá pegar?
– Certo – ele ouviu Hayama sair do quarto atrás de si. Então ouviu alguém tocar a campainha. – Já vai – Hayama gritou.
Curioso, Miyaji olhou pela janela do quarto, de onde podia ver a porta de entrada. Aproximou-se, e gelou quando viu quem era.
– Hayama, não abra! – ele disse, o mais alto que pode sem alertar as pessoas do lado de fora, correndo até a sala no momento em que o garoto se aproximava da porta.
Agarrou o pulso de Hayama, arrastando-o para o quarto e fechando a porta. O rapaz estava assustado.
– Miyaji-san, o que foi? – ele perguntou.
– São os guardas da Rainha – ele disse, olhando pela janela discretamente. Viu um dos guardas tocar a campainha novamente, impaciente.
Hayama tinha os olhos arregalados de pavor.
– Não – ele sussurrou. – Miyaji-san, por favor, fuja. Não, se esconda embaixo da minha cama. Eles vieram atrás de mim, se eu me entregar você...
– Pode esquecer – ele puxou Hayama para perto de si. – Não vou sair do seu lado.
– Não faça isso...
Então ouviram a porta da casa ser arrombada, e ambos estremeceram. Miyaji pensava o mais rápido que podia. Tinham que dar um jeito de sair daquilo. Mas como, se os guardas estavam na sala, e também cercando a casa?
– Hayama, vamos lutar – ele disse, finalmente. O menor o olhou como se ele fosse louco. – Não temos escolha. Eu não vou conseguir fugir, e não vou deixar você se entregar – ele sentiu os olhos queimarem, e ficou irritado. Não era hora para chorar. – Eu já perdi duas pessoas que eu amo. Esses cretinos levaram meus irmãos. Acha que vou deixar que te levem também? Acha que eu quero ficar sozinho?
Hayama abaixou a cabeça. Miyaji pensou que ele fosse contestar, mas quando ele ergueu os olhos, Miyaji percebeu que ele estava no modo sombrio.
– O que está esperando? – ele disse. – Tenho que te ensinar a se tornar um Sünder.
Eles só tinham que aguardar. Cada um estava escondido de um lado da porta. Miyaji se sentia estranho, por ser a primeira vez que usava schatten daquela maneira. Sentia a energia em todo o seu corpo, e isso era muito estranho. A Sombra o envolvia, mas ele não era controlado por ela. Era... Maravilhoso. Via Hayama com outros olhos. Antes, quando o outro entrava no modo sombrio, Miyaji o enxergava como se estivesse possuído por uma força negra. Agora podia ver de verdade: ele brilhava. Estava cheio de poder, e estava lindo. Miyaji também sentia seus pensamentos muito mais claros, como se quando a Sombra dormisse, ele também estivesse dormindo.
Ouviram os guardas se aproximarem cautelosamente da porta do quarto, e se prepararam. Assim que a porta foi arremessada para o outro lado do quarto, os guardas entraram atirando. Miyaji sorriu, sentindo seu instinto animalesco pulsar. Saltou sobre o primeiro guarda que viu, que estava distraído com o vazio aparente do quarto. Usando o estilo das mãos nuas, ele deu um golpe na cabeça do guarda, fazendo seus olhos girarem nas órbitas, e ele caiu no chão. Geralmente uma pessoa só ficaria desmaiada, mas Miyaji estava com tanta força que provavelmente matou o homem. Não que se importasse.
Ouviu grunhidos de luta do lado de Hayama, e soube que ele também tinha atacado alguns guardas. Entrou no meio da luta, acertando todos que podia. Seu corpo estava leve, e ele nunca esteve tão rápido. Ainda não chegava à velocidade de Hayama, mas já estava mais rápido que um humano normal, de longe. Os guardas não sabiam como reagir, e nem tinham tempo para tal. A luta mal havia começado, e Miyaji já estava cercado de corpos. Olhou para Hayama, que tinha um sorriso feroz no rosto, e sorriu também.
Ouviram os guardas que estavam do lado de fora entrarem, como apoio. Eles mal pisaram na casa, e Hayama e Miyaji já estavam na sala, acertando-os em seus pontos vitais. Mais e mais guardas caíram no chão, sem tempo de reagir. Suas armas, com soníferos, eram inúteis perto da velocidade dos dois amigos. Miyaji então entendeu como Hayama conseguia desviar de suas balas: quando se movia rápido, as coisas pareciam passar mais lentamente por ele, e podia ver claramente os disparos vindo em sua direção, conseguindo desviar.
Alguns minutos depois, tudo estava em silêncio. Havia corpos em toda parte, com os olhos vidrados, e Miyaji se sentia cansado. Estava com um pouco de dor de cabeça.
– Não tire a Sombra – disse Hayama, olhando ao redor. – Temos que fugir daqui, antes que mais deles cheguem. Preciso ligar para minha mãe e minha avó, para que elas não venham para cá. Temos um abrigo, onde já planejávamos ir caso a Rainha viesse atrás de mim.
– Nós podemos ir para lá? – perguntou Miyaji.
– Não é uma boa ideia. É longe, e seríamos vistos. Temos que ir para um lugar onde a Rainha não possa vir atrás de nós – ele olhou para Miyaji. – Entendeu? Não precisamos de um lugar que ela desconheça. Simplesmente onde ela não possa ir.
Miyaji assentiu, compreendendo.
– Acho que nós dois temos ligações para fazer – ele sorriu, e Hayama sorriu em resposta.
Miyaji se virou para procurar seu celular, e sentiu Hayama abraçá-lo por trás.
– Você está tão sombrio, Miyaji-san – ele sussurrou em seu ouvido. – Está muito gostoso assim.
Ele sentiu um arrepio percorrer seu corpo, e deu uma risadinha.
– Você fica muito pervertido quando está nesse modo. Acho melhor se controlar.
Hayama riu, mas se afastou, pegando o celular para ligar para a família. Miyaji encontrou seu celular em cima do sofá, e o pegou. Ligou para Kento, e esperou três toques até que ele atendesse.
Ele e Hayama saíram da casa, encobertos por uma magia que Hayama aprendera com a avó. Ele podia cobri-los com sombras, tornando-os momentaneamente invisíveis a quem não estivesse prestando atenção, mas não conseguia fazer aquilo por muito tempo.
– Existem alguns Dunkelheit que são especializados nesse tipo de magia – explicou Hayama, enquanto caminhavam rapidamente. – Eles podem ficar assim por horas, apesar de a magia começar a perder efeito. E eles também não podem ser vistos de jeito nenhum. Minha magia é fraca perto deles, já que se alguém souber que a estamos usando, ela não faz efeito.
– Ela é suficiente por hora. Aliás, mais do que o suficiente.
Em alguns minutos estavam na frente da casa de Miyaji. Haviam conseguido chegar rápido graças à velocidade de Miyaji, mas ele teve que carregar Hayama, já que ele não conseguiria deixá-los invisíveis e correr ao mesmo tempo. Bateu na porta de casa, e esperou que alguém atendesse. Sua mãe que atendeu, e olhou ao redor, procurando.
– Sou eu, mãe – Miyaji chamou, colocando Hayama no chão, que desfez a magia.
– Miyaji! – sua mãe disse, assustada. – O que aconteceu com você? Você... Está...
– Sou um Sinner, mãe – ele entrou apressadamente em casa, puxando Hayama atrás de si. – Hayama, como eu tiro isso?
– Tem que se acalmar – o menor explicou, sentando-se no chão e massageando as têmporas. – Pense em algo que o acalme, que o deixe feliz. Geralmente pensar em seu Elo ajuda.
Miyaji assentiu, respirando fundo. Sentou-se ao lado de Hayama e o abraçou, sentindo seu calor. Nem viu quando sua mãe fechou a porta e ficou encarando-os, boquiaberta. Ele só pensava em Hayama, em seus sorrisos, seus olhos brilhantes. Sentiu-o se acalmar em seus braços, e soube que ele havia voltado ao normal. Então sentiu a própria Sombra recolher-se, ficando no fundo de sua mente. Era como quando ainda não era um Dunkelheit, mas dessa vez a Sombra não estava adormecida. Bastava um pensamento para conseguir usá-la, manipulá-la. Era maravilhoso, ter aquele poder à sua disposição.
Abriu os olhos, vendo os olhos de Hayama olhando para ele, grandes e brilhantes. Quando viu que Miyaji havia voltado ao normal, ele abriu um largo sorriso.
– Você foi ótimo para uma primeira vez – ele disse.
– Obrigado – Miyaji sorriu também.
– Meninos? – eles olharam para cima, e viram a mãe de Miyaji encará-los. – Será que podem me explicar o que está acontecendo? E quem é você?
Miyaji se levantou, lembrando-se que sua família não conhecia Hayama. Explicou tudo, desde o dia em que o conhecera. Claro, deixou a briga e os momentos... Íntimos dos dois, de lado. Então chamou seu pai e as outras duas mulheres, e lhes explicou tudo novamente. Seu pai estava preocupado.
– Então você vai fugir? – ele perguntou a Miyaji.
– Por enquanto – ele assentiu. – Mas eu pretendo me inscrever no Torneio.
Todos prendera a respiração, e Nara balançou a cabeça.
– Não pode fazer isso, filho.
– Eu quero saber o que está acontecendo. Levaram o Shun e o Kazunari, e tentaram levar o Hayama. Até o Moriyama foi envolvido. Mas não se preocupem, eu pretendo ganhar.
– Não é assim que funciona...
– Mãe – ele pegou as mãos de Nara. – Vai dar tudo certo.
Então ele ouviu um barulho de buzina do lado de fora. Animado, correu e abriu a porta.
Todo o pessoal da 7Sins o esperava, em cima de motos. Ele sorriu ao ver Kento liderando o grupo.
– Miyaji – ele desceu da moto, e lhe deu um grande abraço. – Você está mesmo ferrado, hein? Um Sünder agora?
– Como todos vocês – ele sorriu.
– Bem vindo ao clube – ele se virou para trás. – Trouxemos sua moto também.
Um rapaz se aproximou, trazendo uma moto preta reluzente, com pinturas de caveiras e ossos. Hayama se aproximou, de olhos arregalados.
– Eu não sabia que você tinha uma moto, Miyaji-san! Que legal!
– Eu também não – ele ouviu a voz de seu pai, e olhou para a casa. Sua família o olhava com preocupação evidente no olhar. – Vai mesmo fazer isso?
– Vou, pai – ele assentiu. – Vocês não vão mais correr perigo. Fujam, se escondam. Eu sei que você tem amigos que tem barcos, pai. Procure ajuda, não posso ajudar com isso. Tudo que posso fazer é me distanciar – ele subiu na moto.
Seu pai suspirou, abaixando a cabeça.
– Acho que nada do que eu disser irá convencê-lo – ele o olhou com pesar. – Por favor, eu não quero receber nenhum filho morto. Mesmo sabendo que nunca o verei de novo.
Miyaji deu um sorriso triste. Mesmo que ganhasse ou sobrevivesse ao Torneio, sabia que ninguém voltava para casa. Aquela era a última vez que veria seus pais. Desceu da moto, e deu um abraço e um beijo em cada um de sua família. Todos choravam
– Quero que torçam por mim, hein? – ele sorriu.
– Nós vamos – disse Hinata, tentando sorrir. – Mande um beijo ao Shun e ao Kazu! Diga a eles que nós o amamos, e estamos torcendo por eles.
Miyaji assentiu, se afastando em direção à gangue que o aguardava. Não fazia ideia de que eles seriam tão amigos seus, ao ponto de ajudá-lo daquela maneira. Mas sabia que eles fariam isso por ele ser um Sünder. Sempre unidos, ou morreriam.
Subiu em sua moto, e gesticulou para que Hayama se sentasse na garupa. O menor o abraçou pela cintura, animado.
– Eu nunca andei de moto – ele disse, sorrindo. – Mal posso esperar.
– Segure-se, pirralho – ele deu partida na moto. – Isso vai ser legal.
Acelerou junto aos outros, e partiram no meio das casas iluminadas por flores. Miyaji pensou, triste, que nunca mais veria aquele lugar. Mas então olhou para seus amigos, e sentiu o calor do corpo de Hayama junto ao seu, e pensou nos irmãos. Tudo daria certo.
Ele sorriu, sabendo que teria longos dias pela frente.
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