[POV Alaric]

Acordei sentindo um estranho gosto metálico. Estalei a língua em uma vaga tentativa de me livrar do gosto. Eu ainda estava um tanto zonzo, talvez tivesse desmaiado.

– Ah, finalmente – disse uma voz conhecida – A Bela Adormecida está acordando.

Meu corpo estava rígido e dolorido, como se eu tivesse passado um longo tempo numa única posição. Tentei mexer meus braços e descobri que minhas mãos estavam acorrentadas aos braços da cadeira onde eu estava sentado. Um chute involuntário revelou que minhas pernas também estavam firmemente presas.

Mas o quê...?

– Consegue me ouvir? – perguntou a voz.

Era grave e baixa. Familiar.

Stefan?

– Sou eu. Desculpa cara. Como está se sentindo? Muita sede?

Agora que ele tinha mencionado... senti meus dentes se alongarem em minha boca, principalmente os caninos. Uma dor fina e incômoda se alastrava por eles, atingindo minha gengiva e se estendendo por todo o maxilar. Era uma dor diferente de qualquer outra que já tivesse sentido. Não como se eu tivesse levado um soco ou algo parecido, mas como se... como se houvesse veneno em minha boca. Minha garganta queimava, seca, implorado por líquido.

– Água – eu murmurei confuso.

Não era água que eu queria. Ao mesmo tempo em que uma parte do meu cérebro se fixava em conseguir o líquido que fazia meu corpo queimar de necessidade, outra notou pela espessura que a cadeira onde eu estava sentado era de carvalho. Bastante pesada, assim como as correntes que prendiam meus braços e pernas. Uma terceira começou a fazer cálculos. Com o impulso apropriado talvez eu pudesse forçar o bastante para fazer as estúpidas correntes cederem. Uma goteira ao longe começou a me irritar, atrapalhando com seu ruído rítmico meu raciocínio.

– Dá para fechar essa torneira irritante? Estou ficando louco!

Stefan abriu um meio sorriso melancólico.

– Concordo. Mas como é a torneira do vizinho, não tem muito que eu possa fazer. Nunca fui convidado a entrar lá.

Quê? Você está brincando comigo? Por que estou acorrentado?

– Para você não fugir.

A resposta inesperada me fez estreitar os olhos.

Eu entendi direito?

Stefan está me mantendo prisioneiro?

– Não é água que você quer beber, é? – sua pergunta soou amarga e triste.

Abri a boca, mas não saiu nenhum som. Eu estava confuso. Tentei outra vez:

– Não tente mudar de assunto. Por que estou acorrentado? Por que eu fugiria? O que está acontecendo?

– Miriam e Elo não alteraram sua memória – ele se sentou em um canto empoeirado – Tente se lembrar como veio parar aqui.

Minha testa se franziu e eu crispei os lábios por reflexo. Sempre odiei ouvir as pessoas falarem por enigmas. Engolindo uma resposta malcriada, tentei entender como tinha ido parar ali. Eu me lembrava de ter ido para a floresta com os outros em busca de Caroline. As meninas a tinham consolado e ela contou como tinha sido atacada, depois...

Eu me retesei na cadeira e a expressão de Stefan tornou-se sombria.

Tentei manter meu rosto neutro enquanto repassava mentalmente alguns momentos perturbadores. As vozes entre as árvores. Elena sendo atingida por um pedaço de pedra. As vampiras originais nos atacando. Stefan dividido entre protestar e ajudá-las. Damon sendo enforcado, Carol arremessada contra uma árvore, a vampira ruiva enfiando em meu ombro minha própria estaca. A ordem ríspida e fria dela para que Stefan me matasse.

Primeiro ele me forçou a beber seu sangue.

Depois por fim me matou.

Chocado e perplexo, eu procurei em sua expressão algum sinal de que nada daquilo tinha acontecido. Eu devia estar maluco, Stefan nunca faria aquelas coisas. Ele nunca ajudaria outros vampiros a nos atacar, e muito menos me mataria. Sabendo como eu odiava todo vampiro que não fosse os do nosso grupo, também tinha certeza que ele nunca me transformaria em um. Eu dediquei longos anos da minha vida a matar os sanguessugas! Já tinha até tentado matar ele e o irmão!

Eu não sabia o que estava esperando, talvez que ele gritasse “primeiro de abril!” ou me chamasse de ridículo por cogitar a ideia de ele ter mesmo feito aqueles absurdos. Mas com toda a certeza não esperava que ele fosse reagir como o fez de fato.

Stefan tentou ocultar seu rosto nas sombras, o que não me impediu de discernir a mistura de culpa, teimosia e resignação em seus olhos. “É, eu fiz mesmo isso” ele parecia dizer em silêncio “E faria de novo se precisasse”.

Fiquei tão furioso que sequer conseguia falar. Um rosnado de puro ódio subiu por meu peito e reverberou pelo aposento. Estávamos em um sótão abandonado, amplo, coberto de poeira, teias de aranha e móveis gastos e antiquados. Estava escuro, não havia janelas no cômodo decadente e esquecido, porém eu enxergava com clareza cada minúsculo detalhe ao meu redor. Minha visão estava mais aguçada do que nunca.

– Eu sei – ele murmurou.

Estava jogado contra uma parede a alguns metros de mim. Seu murmúrio foi tão baixo que eu não devia ter sido capaz de entendê-lo daquela distância. Um humano normal não teria entendido. Olhei para meu ombro, onde havia um grande buraco empapado de sangue no blusão que expunha em seu pequeno núcleo um vislumbre de pele suja e fria, porém inteira. A pele de um humano não teria sarado tão rápido após ser perfurada. Um humano não estaria sentiria os dentes em sua boca afiando-se como pequenas navalhas, ou o cheiro de sangue fazendo sua garganta queimar. Havia sangue fresco no sótão, provavelmente escondido com Stefan. Um humano não ficaria frenético e desesperado para avançar nele e tomar até a última gota do sangue. Eu já não era mais humano.

Agora eu não passava de um monstro, um predador demoníaco e desprezível.

Como ele.

Comecei a xingá-lo de todos os palavrões que me passavam pela cabeça enquanto tentava quebrar as malditas correntes e estraçalhar seu maldito pescoço. A fúria era mais devastadora do que qualquer outra emoção que eu tivesse sentido em toda a minha vida. Meu antigo coração humano não aguentaria um sentimento tão corrosivo. Fora de controle, eu lutava com toda a minha recém-adquirida força bruta pelo privilégio de arrancar a dentadas sua enorme e traidora cabeça.

A única reação de Stefan foi jogar algo que aterrissou desastrosamente em meu colo. Fiquei rígido no segundo em que o aroma delicioso e provocante penetrou minhas narinas.

Sangue!

Ele se endireitou em seu canto e eu pude ver outras três embalagens cheias do líquido proibido em suas mãos.

– Beba – ele pediu, sua voz humilde e cheia de culpa – Precisa se manter forte para completar a transformação.

Eu mal o ouvi. Sequer entendi suas palavras de tão concentrado que estava em travar todos os músculos do meu corpo. O rebelde e primitivo predador em mim ameaçava assumir o controle e me aniquilar em sua busca pelo líquido em meu colo.

Não. Não!

Não posso fazer isso. Não posso me tornar um monstro sugador de sangue.

Contra a minha vontade, minhas mãos se moveram e pegaram a bolsa de sangue em meu colo. O predador rugia em minhas entranhas, lutando para enfiar meus dentes no plástico.

Não. Posso. Ceder.

Pensei em Isobel.

Em como ela havia mudado após ter sido transformada em vampira, em como eu sofrera quando achava que ela estava morta. No choque terrível que foi ver a mulher que um dia fora

doce, gentil e espontânea, o centro do meu universo, se tornara um monstro frio, manipulador e cruel.

Insensível.

Cutucar velhas feridas fazia com que a dor, ainda mais ampliada do que eu estava acostumado, se fundisse à desesperada necessidade de sangue. Mas também servia como uma espécie de freio. Eu enfrentava um dilema interno, selvagem e violento. Meu lado humano, horrorizado, resistindo ao monstro. Meu lado monstro, determinado, lutando pela sobrevivência.

– Não tente resistir – aconselhou Stefan usando a mesma voz mansa e humilde – A sede é forte demais. Vai vencer de um modo ou de outro. Acredite, eu também tentava resistir no começo.

Minhas entranhas reviravam. Eu estava salivando, louco para ceder. Minha garganta ardia e clamava pelo líquido. O predador em mim rosnava e eu sentia minha consciência oscilar. Uma estranha adrenalina se espalhou por mim e eu não conseguia ver nada que não fosse a bolsa de líquido vermelho em minhas mãos. Tão saborosa. Tão proibida. Tão...

Selvagem e fora de controle, me inclinei bruscamente e mordi a embalagem de plástico. O líquido delicioso descia pela minha garganta como um sopro de vida no corpo decrépito que eu me tornara. A primeira bolsa secou e eu urrei ainda faminto. Stefan me deu a segunda, a terceira e a quarta, e eu bebi tudo com sofreguidão. Podia sentir o quanto ficava mais forte, o quanto meus sentidos se aguçavam enquanto sorvia o líquido que agora era vital para mim.

Quando terminei fui invadido pela repulsa.

Eu havia oficialmente me tornado tudo que mais odiava.

Stefan leu a derrota e o autodesprezo em meu rosto e trincou os dentes.

– Não tenha ódio de si mesmo – ele grunhiu – Odeie a mim. É tudo minha culpa.

Torci as embalagens vazias e as arremessei longe.

– EU ODEIO A NÓS DOIS! – berrei.

– Era a única maneira – ele balbuciou – Eu não queria te matar.

– MAS MATOU! – eu explodi furioso — VOCÊ ME MATOU E MACHUCOU A TODOS QUE DISSE AMAR, STEFAN! E SE AQUELAS VAMPIRAS TIVESSEM MATADO A TODOS NÓS? VOCÊ SE IMPORTARIA? QUAL É O SEU PROBLEMA? COMO EU PUDE SER IDIOTA A PONTO DE CONFIAR EM VOCÊ? EU SOU UM IMBECIL! É CLARO QUE VOCÊ IRIA NOS TRAIR, NÃO PASSA DE UM MALDITO DEMÔNIO DISFARÇADO NA PORRA DA PELE DE UM CARNEIRINHO ARREPENDIDO! NENHUMA MERDA DE VAMPIRO É CONFIÁVEL!

– Você é um vampiro – ele disse sem levantar a voz.

– NÃO PRECISA FICAR ME LEMBRANDO DISSO, EU JÁ PERCEBI CARALHO.

– Se acalme. – ele pediu – Pelo menos me deixe explicar.

– ME ACALMAR? ME ACALMAR? DEPOIS DE TUDO O QUE VOCÊ FEZ? TEM ALGUMA IDEIA DE COMO ELENA VAI FICAR ARRASADA QUANDO DESCOBRIR? PELO MENOS COM ELA VOCÊ SE IMPORTA?

– É CLARO QUE EU ME IMPORTO COM ELA! – ele gritou consternado.

Depois pareceu se dar conta do que tinha feito e respirou fundo, tentando se acalmar. Suas mãos tremiam. Ele se levantou de um salto e se aproximou de mim.

– Eu cometi o erro de achar que tinha domado o monstro, Alaric – sua voz estava trêmula e mal contida – Passei mais de cem anos sem tomar um pingo de sangue humano. Cacei animais. Me apeguei a cada vestígio do humano que fui um dia. Eu posso ser um monstro, mas ainda me importo.

– Você não passa de um monstro hipócrita – eu cuspi as palavras rispidamente.

– Talvez você tenha razão – ele concordou – Eu me obriguei a enjaular o predador por tempo demais. Logo você vai entender o que eu estou dizendo. Esse monstro dentro de nós que sussurra coisas repulsivas, que nos faz cometer atos medonhos, nunca se cala. Essa força que o obrigou a tomar o sangue...

Ele indicou com a cabeça as embalagens vazias. Um calafrio desceu pela minha coluna.

– Só vai piorar. Vai tentar destruir tudo que tenha restado de bom em você – ele continuou – e quanto mais você resistir, mais forte ela fica. Eu a suprimi pelo máximo de tempo que pude, e veja o que aconteceu comigo — ele soltou uma risada amargurada – Sou praticamente bipolar. Quando estou com Elena e com vocês, eu consigo ser eu mesmo. Ou pelo menos o que costumava ser. Mas quando estou com Elo e Miriam... o monstro toma completamente o controle. Eu perco o contato com o que me resta de humanidade.

As palavras dele faziam meu estômago se embrulhar. Eu não sabia se era normal vampiros terem ânsia de vômito, mas eu definitivamente estava tendo uma.

– Você é tão inexperiente ainda – de repente Stefan parecia dois séculos mais velho. Eu nunca tinha visto tanto cansaço em alguém antes, e pelo profundo sofrimento em seus olhos, comecei a me sentir como uma criança inexperiente ao invés do homem de quase quarenta anos que era – Ainda vai aprender muita coisa. Encontre o meio-termo, Alaric. Encontre o equilíbrio que eu nunca consegui encontrar. Não tem ideia de como é fácil se afundar na lama quando se é um vampiro, muito menos o quão difícil é sair dela. Não sei se ainda existe salvação para mim. Talvez deva ir embora da cidade.

– Vá. – eu disse – Se o que está dizendo é verdade e você ainda se importa com a Elena e os outros, vá para o mais longe que puder. Foi... foi você que atacou aquelas crianças?

Seu rosto se contorceu de dor e remorso.

– Eu... eu não sei – as palavras pareciam estar sendo arrancadas dele com muita dificuldade – Eu não faço ideia. Perco o controle quando tomo sangue humano. Eu matei gente, Alaric. E nem me lembro de como eram. O que aconteceu comigo? Quando elas começaram com esse joguinho sujo eu ficava furioso. Não conseguia suportar ver como matavam suas presas lentamente. E agora... nem me importo mais. Não me importo mais com os humanos que não conheço. Só quem me importa são vocês. Eu fiz um acordo com elas há semanas atrás, quando me atacaram na floresta. Iria ajudá-las a se manter na cidade sem que o conselho lhes causasse problemas, se elas ficassem longe de vocês.

– É, eu vi como se importa conosco – olhei sugestivamente para a cadeira onde estava acorrentado, incrédulo.

– Isso foi diferente – ele protestou – Não tive outra saída. Era isso ou matar você. Se eu não me importasse poderia ter matado todos vocês hoje, Alaric.

– Onde estão os outros? Viraram vampiros também?

– Não. Estão na minha casa.

– E depois do que me fez, como posso confiar em você?

Ele tirou um celular do bolso traseiro dos seus jeans, discou e apertou o botão do viva-voz. Após três toques, a voz ansiosa de Bonnie atendeu:

– Alô, Stefan?

– Bonnie? Onde está a Elena? – ele perguntou confuso.

– Foi se deitar. Ela ainda tá passando mal – me perguntei se ele também tinha notado o tom agudo na voz dela. Era estranho, como se ela tentasse esconder algo – Ela está muito mal, Stef. A dor de cabeça piorou e Damon me disse que ela vomitou.

– O quê? – a preocupação dele parecia sincera.

– Volte para casa, Stef. Precisamos de você aqui – ela disse – Ela precisa de você.

O rosto de Stefan se contraiu de dor e culpa.

– Eu vou voltar assim que puder Bonnie – ele respondeu.

E desligou.

– Eles não sabem – afirmei.

Stefan sacudiu a cabeça.

– Fiz Elo e Miriam apagarem a mente deles – ele disse – Eles acham que só pegamos Caroline e a levamos para a minha casa pra que se acalmasse.

– E como você vai protegê-los, Stefan? Como vai impedir que aconteça com eles o que aconteceu comigo?

– Eu não sei! – ele quase choramingou – Eu não sei. Mas vou dar um jeito. Nem que precise tirá-las da cidade.

– Talvez Elena tenha algo sério – eu declarei.

– A pedrada – ele concordou perturbado – Talvez seja uma concussão.

Eu já não sabia o que pensar. Pelo menos momentaneamente, minha ira tinha passado. Eu estava curioso, apreensivo, ressentido, enojado. Não me sentia disposto a confiar novamente em Stefan, mas acreditava ao menos em parte do que tinha dito. A conversa com Bonnie me convencera que os outros estavam bem. Não exatamente bem, Elena estava passando mal, mas ao menos estava viva. Todos estavam vivos.

Menos eu.

– Como isso começou, Stefan? Por que resolveu ajudá-las? – perguntei.

E ele me contou a história toda.