Duas Metades De Mim
23 mais um POV Stefan - parte 2
Ela nem me ouviu. Cega de raiva da audácia do caça-vampiros, ela arrancou da coxa a estaca que ele arremessara e a enfiou fundo no ombro dele.
– Miriam! –eu berrei — PÁRA!Ela revirou os olhos e o largou, um sorriso de desprezo brincando em seus lábios. Tão rápido quanto surgira, o sorriso desapareceu e ela foi arremessada longe com que por uma força invisível.– Bonnie, não a irrite! – eu deixei Elena com cuidado atrás da grande pedra onde ela estivera sentada e fui primeiro até Elo, que ainda apertava a garganta de Damon.Ela se divertia em vê-lo se debater, tentando mordê-la.– Parem com isso – eu pedi desesperado.– Eles sabem demais – respondeu Elo indiferente – Não queremos ninguém no nosso caminho.– Então os faça esquecer! – eu exclamei frustrado.Ela inclinou a cabeça na minha direção como se avaliasse a ideia.– A vampirinha ainda se lembra de algumas coisas – argumentou por fim.– Demos nosso sangue a ela! Tire um pouco do dele. Só um pouco, o bastante para deixá-lo fraco, então o faça esquecer.– Stefan! – gritou Miriam irritada.Ela lidava ao mesmo tempo com Caroline, Jeremy e Bonnie. Carol parecia estar dando mais trabalho. Furiosa, ela investia em Miriam cega e brutamente, enquanto Jeremy apenas tentava tirar Bonnie do caminho.– Você vai se machucar – ele murmurava.– Mas a Carol!– Interfira de longe – insistiu ele – esses vampiros são muito perigosos pra nós! Se não der certo eu entro na briga.– Você é só humano!– Claro, claro – eu conhecia aquele tom indiferente.Era o que ele usava com Elena quando ela pedia que ele não fizesse alguma coisa que ele faria de qualquer modo. Me meti na briga e joguei Carol para longe, fazendo uma careta ao ouvi-la bater de encontro a uma árvore. Eu não queria machucá-la.– Só os faça esquecer – eu implorei a Miriam – Eles não Miriam, por favor. Não esqueça o nosso acordo!– Por que você está ajudando elas? – berrou Bonnie indignada.Miriam avançou na direção dela e Jeremy se meteu na frente. Ela tentou puxá-lo para longe da vampira, mas eu não deixei. Corri e a segurei pelos ombros o mais firme que podia sem machucá-la. Miriam forçou Jeremy a olhá-la nos olhos e usou a compulsão para fazê-lo parar de lutar.– Jeremy! Manda ela largar ele! – Bonnie se debatia em meus braços – MANDA ELA LARGAR ELE!Puxei o queixo de Bonnie para que ela me olhasse nos olhos e pude ver a ira e a desilusão neles. Era a morte da confiança. Eu sabia que tinha jurado a ela nunca fazer isso, mas eu já tinha quebrado tantas promessas... Estava afundado até o pescoço em lama. Pelo menos aquela promessa eu poderia quebrar por uma boa causa.Usei o Poder nela.– Pare de se debater.Ela parou. Transformou-se em uma boneca obediente diante dos meus olhos.– Nós viemos procurar a Carol. Ela estava bem. Foi atacada por um vampiro, mas não consegue se lembrar de como ele era. Nós a levamos para a mansão para que ela se acalmasse antes de ir para casa. Você não sabe nada sobre quem atacou a Carol, ainda não tem a menor ideia de quem é o vampiro por trás dos ataques na cidade. Repita.Ela repetiu. Eu a mandei ir esperar no carro do Damon, levei Elena para o meu carro e voltei para ver os outros. Damon estava desacordado no chão, Carol estava sendo compelida por Miriam e Elo se encarregava de Jeremy. Tem alguém faltando, pensei de repente.Virei-me a tempo de ver Alaric se arrastando no chão e quase conseguindo pegar Elo de surpresa. Ela girou nos calcanhares no último segundo possível, chutou com violência a estaca na mão dele e afundou ainda mais a que estava cravada em seu ombro.– Stefan – ela disse friamente enquanto Ric gritava de dor – se encarregue dele. Se não matar esse desgraçado eu mato, e acredite, vai ser do jeito mais doloroso.Senti meu peito apertar. Vi os olhos cheios de dor e repulsa de Alaric e percebi que não podia simplesmente matá-lo. Muito menos permitir que Elo fizesse o serviço sujo. E então um plano maluco começou a se desenrolar em meu cérebro.Eu respirei fundo, pesaroso.– Eu faço isso. Me agachei no chão ao lado dele e curvei meu corpo de modo a escondê-lo parcialmente dos olhos de Elo. Mordi seu pescoço e ele rosnou com dor. Satisfeita, Elo se afastou e foi ver o que Miriam fazia. Ela ia voltar, eu tinha certeza. Ia querer ver o cadáver dele jazendo ali.– Desculpe – eu movi os lábios sem som, esperando que ele pudesse me entender.Alaric virou a cara, seu rosto cheio de confusão e tristeza. Mordi meu pulso e virei o rosto dele de modo a forçá-lo a beber meu sangue. Ele arregalou os olhos e tentou resistir, mas eu não deixei. Não importa se ele odeia vampiros. Não importa se vai me odiar depois disso.Não. Vou. Deixá-lo. Morrer.Quando vi que tinha bebido o suficiente, tirei o braço de sua boca e quebrei seu pescoço. Ele caiu na terra imóvel como um boneco de cera. Limpei o sangue do canto da sua boca e finalmente fiquei de pé. – Então você matou mesmo o caça-vampiros – Miriam constatou em um tom apreciativo.
Levantei ainda de costas para que ela não visse a repulsa em meu rosto.– Só porque não tive escolha – eu murmurei.– Talvez devêssemos te deixar sem escolha mais vezes – ela comentou casualmente.Eu a encarei furioso.– Não se atreva – rosnei.Miriam riu.– Gosto quando você se impõe assim. Vai voltar com seus amiguinhos ou ficar conosco?– Preciso voltar com eles – eu disse em um tom inexpressivo – Manter o disfarce.– Que pena... talvez a gente pudesse ter uma noite só nós dois hoje.Odiei meu corpo por reagir às palavras dela, à lembrança da sensação de seu corpo contra o meu e seu toque. Uma parte de mim queria ficar e passar a noite só com ela. Mas a maior parte precisava ir até Elena, garantir que ela e os outros estavam bem. Pelo menos uma vez o lado protetor ganhava do monstro.– Preciso mesmo ir. Ela suspirou.– Tudo bem, já estão todos acomodados nos carros – depois acrescentou azedamente — Incluindo a sua preciosa Eleninha.Minha preciosa Eleninha?Examinei a expressão contrariada de Miriam. Ela estava com... ciúme?– Você jogou a pedra na Elena – eu disse incrédulo.Eu já tinha passado a noite com ela e diversas outras mulheres. Ela sabia daquilo, estava sempre junto. Incentivava. Algumas vezes era só nós dois, outras Elo participava, outras até mais garotas além da Elo. Como ela podia ter ciúme da Elena e não ter de nenhuma das outras?– Você a desviou – ela deu de ombros.– Mas podia ter matado ela! E mesmo eu tendo desviado, ainda a machucou.– Ela está viva não é? E mesmo se morresse, não seria uma perda tão grande assim.– Qual é o seu problema com a Elena? – minha voz soou ácida.– Nenhum. Eu não me importo com ela, como não me importo com nenhum outro humano.Eu ainda não estava convencido. Mas resolvi não insistir no assunto.– E quanto ao Ric? Ele está morto. E não pensamos em um jeito de dizer como aconteceu.– Deixe-o na floresta – ela fez um gesto de pouco caso – Logo ele vai ser encontrado e vão pensar que eu o ataquei. Tanto faz. Melhor você ir logo, a compulsão sobre os vampirinhos não vai durar muito. Logo que vocês chegarem na sua casa eles estarão normais.– Vão se lembrar do que aconteceu de verdade ou da nossa versão? – troquei o peso do corpo de um pé para o outro, desconfortável.– Da nossa versão. Vaza Stefan. Ou eu posso decidir não te deixar ir embora – ela completou maliciosa.Sua voz sensual me fez estremecer.– Interessante – ela foi se aproximando lentamente – Então você não quer mais ir embora?Meus músculos tinham travado contra a minha vontade. Uma onda de desejo me percorreu enquanto ela se aproximava e o calor foi se intensificando quando ela me alcançou e passou os dedos pelo meu peito.Ah, não. Não, não, não, eu preciso resistir!– Ei, gênio – Elo apareceu e cortou o clima – Como você planeja dirigir dois carros sozinho?Tive vontade de me jogar aos pés dela e beijá-los por me arrancar daquela espécie de transe. Ou de me chutar por querer tanto Miriam a ponto de mal conseguir me controlar.– Hã.... não sei. – foi minha resposta brilhante.Silêncio. Eu olhei para Miriam, desamparado, em um pedido de ajuda suplicante e silencioso. – Tá legal! Eu levo a porcaria do carro! – explodiu Miriam – Vá pra casa Elo, já te encontro lá.Elo ergueu uma sobrancelha perfeita como se estranhasse o comportamento de Miriam.– Vai. – ela resmungou.– Beleza, te vejo daqui a pouco escravinha do Stef – Elo mostrou a língua para Miriam e saiu correndo.Mi rosnou e parecia querer correr atrás dela.– Vamos? – eu perguntei, puxando ela em direção ao carro do Damon.– Escravinha do Stefan... – ela resmungou indignada.– Não dê ouvidos a ela. Obrigado pela ajuda, Mi.Ela deixou que eu envolvesse sua cintura com um braço e roçasse meus lábios em seu pescoço. Era tão bom tocar aquela pele macia... Eu me afastei antes que acabasse perdendo o foco.– Me siga, ok? – eu pedi – Prometo compensar você amanhã por toda essa confusão.– E como planeja fazer isso? – ela perguntou em tom de quem se diverte.Mordi o lóbulo da sua orelha e sussurrei com a voz grave e rouca:– Com uma noite só nós dois. Podemos mandar a Elo sair por aí e fazer a chacina sozinha.Ela riu meio sem fôlego.– Você nunca a deixaria sair pela cidade matando todo mundo.– Bom, ela pode matar uma pessoa, eu acho. Vai fazer isso com ou sem nós. E eu vou estar muito ocupado com você para me importar com o que ela faz – deixei meus lábios descerem por seu pescoço esguio.Era mais difícil do que deveria erguer a cabeça e me afastar.Então pensei em Elena desprotegida, sentada no banco do carona do meu carro desacordada e esperando por mim.O efeito foi imediato.– Vamos? – eu me afastei dela ainda ofegante e me adiantei na direção do meu carro.Ela murmurou alguma coisa e se afastou na direção oposta. Pensei ter ouvido as palavras “um dia você vai preferir a mim, Stefan” e virei a cabeça atônito. Ela já tinha entrado no carro do Damon se acomodava no banco do motorista tranquilamente.Sacudi a cabeça. É claro que eu tinha ouvido errado. Miriam nunca diria uma coisa dessas.Olhei para Elena que estava com a cabeça apoiada docemente no vidro da janela, os cabelos cor de chocolate emoldurando seu rosto de anjo adormecido. Senti meu peito se aquecer e um alívio forte tomar conta de mim por estar junto dela.Apertei o volante com força. O que há de errado comigo?Como posso querer tanto estar com as duas?Como se meus problemas com a minha vida dupla e as duas mulheres que mexem tanto comigo já não fossem o suficiente ainda preciso voltar para a floresta e encontrar Alaric antes que ele desperte como um vampiro. Ah, e, é claro, escondê-lo de Elo e Miriam, que acham que ele está morto, e também de todos os outros, que em breve também vão achar que ele está morto. E impedir que ele vá correndo contar o que eu ando aprontando. E impedir que ele tente se matar quando descobrir que ele virou uma das criaturas que mais odeia. E não deixá-lo me matar quando descobrir que fui eu quem o transformou.Não sei como tem gente que consegue achar a minha vida monótona.
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