Pontadas de dor irradiavam do lado direito da minha cabeça.

Eram pontadas agudas, latejantes, que se infiltravam pelo cérebro e faziam meus olhos arderem. A pior enxaqueca que eu me lembrava de ter tido em toda a minha vida. Percebi estava no colo de alguém, eu sentia um braço musculoso sustentando a parte de trás dos meus joelhos e uma mão espalmada me aninhando contra um peito largo, firme e confortável.

Damon, foi o primeiro nome que flutuou em meus pensamentos desconexos.

Logo notei que não era. O cheiro do homem que me carregava era almiscarado, muito familiar, embora eu não conseguisse identificá-lo. Você já teve aquela sensação desagradável de se lembrar de algo de modo esquivo, nas margens, como ter um nome na ponta da língua mesmo sem conseguir se lembrar de qual era? Você se lembra da coisa em si, mas não do nome. E fica com aquela leve agonia de ter algo tentando romper seu consciente sem sucesso. Pois é, acho que todos nós já passamos por isso. Mas se tiver escolha, não tente forçar o seu cérebro quando estiver com dor de cabeça. Mesmo que para identificar um cheiro. Pode ser bem doloroso.

Um gemido de dor escapou dos meus lábios.

- Ela está acordando! – a voz de Jeremy exclamou de algum lugar por perto.

Uma pontada particularmente forte deu a impressão de arranhar meu cérebro em protesto. Minha cabeça estava prestes a explodir. Buscando alguma forma de alívio, enterrei meu nariz na clavícula de quem me carregava. Tentei abrir a boca e forçar minha voz, mas só o que saíram foram ruídos sem sentido.

- Vai ficar tudo bem amor, estou aqui com você – disse Stefan em meu ouvido, roçando os lábios na minha bochecha tranquilizadoramente.

Aquilo fez com que eu me sentisse ainda pior. Não era Stefan quem eu queria cuidando de mim. Eu estava carente, frágil e confusa. Precisava de amparo. Do amparo de uma pessoa específica.

- Damon? – choraminguei.

Foi algo tão natural, tão instintivo, que não me dei conta de ter pronunciado o nome errado até que o corpo de Stefan enrijeceu e nós paramos abruptamente.

- Aqui princesa – a voz grave e profunda que eu tanto ansiava ouvir respondeu – Como está se sentindo?

Olhando para trás, eu me arrependo bastante do que fiz a seguir.

Só o que tenho a dizer em minha defesa é que eu não estava raciocinando na hora, parecia que facas afiadas atravessavam meu crânio e remexiam meu cérebro. Sentia muita dor e estava assustada. Eu não sabia bem ao certo o porquê de estar assustada, tinha a impressão que estava bloqueando algo. Tentei abrir os olhos, mas a claridade fazia com que a enxaqueca piorasse. Então me limitei a esticar os braços pelo lado de Stefan, na direção da voz de Damon, como que pedindo colo.

- Damon? – eu choraminguei outra vez.

Reconheço que agi como uma criança mimada, sem ligar para quem podia ser magoado pelas minhas atitudes. Mas ei, quem consegue ser racional quando está em frangalhos?

Os braços de Stefan se crisparam ao meu redor, restritivos. Senti a mão de Damon tocar a minha.

- Você a ouviu irmãozinho. Passe-a para mim.

- Vai se catar Damon! Ela é minha!

- Não gritem – eu gemi, levando as mãos às têmporas.

Stefan me ignorou.

- Ela não é a Katherine, bote isso na cabeça. Fique longe da minha namorada.

- Ela quer ficar comigo! Sou eu que estou no seu colo me contorcendo todo por acaso?

Silêncio.

Desisti e relaxei no colo de Stefan como uma boneca de pano obediente.

- O que aconteceu? – perguntei baixinho.

Eu não me importava com quem iria responder. Podia ser qualquer um. Sabia que Damon estava perto de mim, o que já me deixava mais calma. Agora precisava focar em descobrir o que tinha acontecido para me deixar naquele estado.

- Parece que eu bati a cabeça com muita força – eu reclamei, enterrando meus dedos na camisa de Stefan – Está doendo tanto...

- Você dormiu – disse Stefan mecanicamente – Na volta para casa você dormiu o caminho todo. Só isso.

Ele ainda estava muito rígido.

- Damon? Stefan? – ouvi a voz de Caroline soar hesitante – Não é melhor um de vocês abrir a porta?

A voz dela fez com que parte dos acontecimentos voltassem. Carol ligando para nós, a conversa na floresta, sua expressão apavorada e cheia de tristeza.

- Eu abro. – ofereceu-se Stefan – A Elena obviamente prefere que Damon a carregue, assim a gente mata dois coelhos com uma única tacada.

A voz dele estava cheia de desgosto. Abri os olhos e vi Jeremy, Carol e Bonnie se mexendo desconfortáveis. Damon olhava para mim e eu podia ver claramente a mistura de euforia e preocupação naquele azul profundo. Ergui o queixo para Stefan e ele não parecia ser capaz de me olhar nos olhos. Seus ombros caíram como se ele reconhecesse uma derrota e eu me senti deslizar em seu colo. Sabia que devia protestar, mas a reação calorosa de Damon me impedia.

Mais uma vez eu me vi presa em um dilema onde teria que escolher qual dos dois irmãos iria magoar.

Foi então que eu percebi meu erro estúpido. Era eu quem estava tão preocupada em não deixar que Stefan desconfiasse e puxasse briga com o irmão, e agora eu estava estragando tudo.

Stefan era tão bom para mim...

Sempre cuidava de mim, me acalmava, mesmo com o clima estranho que pesava entre nós nos últimos dias. Já tínhamos passado por diversas crises juntos. Se eu podia ter certeza de uma coisa, é que ele estaria sempre lá por mim quando eu precisasse. O que me faz achar que Stefan e eu somos tão certos um para o outro é justamente essa nossa capacidade de nos apoiar, de pegar os momentos mais simples e transformá-los em momentos memoráveis.

Eu costumava ver nele um companheiro para toda a vida.

Então por que o estava ferindo sem nenhum motivo? Por que eu tinha que ser tão... tão vaca? Ele merece coisa muito melhor.

Tentei voltar atrás.

- Stefan, eu...

- Não. – ele me interrompeu – Damon, venha aqui.

Hesitante, Damon deu um passo em nossa direção.

Stefan me estendeu para ele e senti os braços fortes de Damon me envolverem. Fui puxada para ele.

- Stefan – eu tentei outra vez, mas não sabia direito o que dizer.

Carol era a vítima ali. Era ela quem tinha sido atacada, quem precisava de cuidados, e eu estava sendo egoísta e magoando meu namorado por causa de uma dor de cabeça idiota. Olhei para Damon em busca de ajuda. Seu lindo rosto estava inexpressivo, mas eu podia ver muito bem o calor nos olhos azuis. Ele estava feliz com aquela pequena vitória, por eu tê-lo escolhido ao menos uma vez. Parecia também confuso e preocupado, eu devia estar com uma cara bem ruim. Comecei a desejar que ele me pusesse no chão. Podia sentir a nuvem de agitação e desconforto que vinha dos outros, como se eu estivesse dando um pequeno showzinho de estrela para conseguir todas as atenções. Era Caroline que devia estar nos preocupando, não eu.

Dei um impulso fraco com as pernas e Damon entendeu o recado. Ele me pôs no chão. Deixei o braço que envolvia seu pescoço deslizar por suas costas em uma leve carícia. Sua pele se arrepiou ao meu toque.

- Obrigada. – eu murmurei para ele.

Sem olhar para ninguém Stefan destrancou a porta, deu um passo para o lado para que pudéssemos passar e disse:

- Preciso dar uma volta. Venho para casa mais tarde.

- Stefan, não – eu disse – Me desculpa, eu...

- Não precisa dizer nada. – ele fuzilou Damon com os olhos – Só vou... clarear a cabeça um pouco. Quando eu voltar conversamos.

- Stefan – Carol e eu dissemos ao mesmo tempo.

Nos entreolhamos. Eu vi o desconforto em seu rosto se suavizar e tornar-se preocupação.

- Você está pálida – ela disse para mim – e suando.

- Dor de cabeça – fiz uma careta – vou ficar bem, Carol. Desculpe por... você sabe.

Fiz um gesto como que indicando meu pequeno ataque de minutos atrás.

- Tudo bem – ela deu de ombros – Me liga mais tarde para dizer se está melhor ok? Stefan, você pode me deixar em casa?

- Não – Bonnie e eu protestamos em uníssono.

- Pode ficar aqui enquanto não se sentir preparada para encarar a sua mãe, Carol – eu disse, tentando soar reconfortante.

- Isso – apoiou Bonnie – Não precisa se forçar a fazer nada que não esteja pronta para fazer ainda.

- Não, tudo bem. Sério – Caroline abriu um sorriso corajoso – Obrigada meninas, o apoio de vocês me ajudou muito. De todos vocês, Jer, Stef, Damon. Mas a minha mãe já deve estar preocupada comigo, é melhor ir para casa logo.

- Ligue para nós mais tarde – pediu Bonnie.

- Pode deixar. Stefan?

- Claro. Vamos. – ele se afastou na direção do próprio carro e Carol o seguiu.

Seu corpo ainda estava rijo enquanto ele andava. Eu reconhecia as linhas de fúria mal contida. Dei um passo, me preparando para correr atrás deles e acabei cambaleando. A luz piorava minha enxaqueca e pontos pretos atrapalhavam minha visão. Pisquei, tentando me livrar deles, mas não estava dando certo. Damon me amparou.

- Deixa, Elena – ele disse – Vai se deitar um pouco. Vocês conversam quando ele voltar.

Não consegui olhar para ele. Eu me sentia péssima por estar ferindo Stefan, por ter incitado uma briga entre os dois irmãos. Stefan era bom o suficiente a ponto de se afastar, mesmo furioso, para não brigar com Damon na minha frente. Ele sabia que aquilo me machucaria, e lá estava eu, me jogando para Damon quando precisava de amparo, sem dar a mínima para os esforços dele. E eu só podia culpar a mim mesma por ele ter ido embora! Como Damon tinha dito a Stefan, não era ele que estava em seu colo se contorcendo como uma criança egoísta. Era eu.

Estraguei tudo. De novo.

- Vou fazer um chá para você – disse Bonnie após um silêncio incômodo.

Assenti e entrei em casa, arrastando os pés enquanto subia as escadas e caminhando até chegar à porta do quarto de Stefan.

Imaginei o que eu ouviria se as paredes daquele quarto falassem.

Saia daqui, traidora, elas diriam.

E estariam cobertas de razão.

Fechei todas as cortinas e me joguei na cama, deixando que as lágrimas escorressem por meu rosto o mais silenciosamente possível. Depois de um longo tempo, ouvi alguém bater na porta.

- Vá embora! – gritei.

A pessoa abriu a porta e entrou. Era Damon. Mantendo uma expressão indecifrável ele foi até a cadeira abandonada ao lado da cama e sentou-se.

- Saia daqui – eu sibilei – Preciso ficar sozinha.

- Ainda não – ele disse.

Nos encaramos no quarto escuro.