Duas Metades De Mim
31 e o pesadelo continua...
Notas iniciais
mais tarde venho postar mais, boa leitura!
[POV Alaric]
Acordei lentamente, mantendo os olhos fechados por alguns segundos além do necessário. Gostava da sensação onírica e reconfortante que obtinha no momento intermediário entre o sono e o despertar. Dava-me a fugaz ilusão que o pesadelo iria embora quando estivesse restabelecido e totalmente desperto. Mais uma vez peguei-me desejando abrir os olhos e encontrar as paredes familiares do meu quarto, ou ao menos sentir os calombos do sofá-cama desconfortável embaixo de mim.
Perda de tempo.
Eu permanecia sentado na cadeira de carvalho, meus braços e pernas formigando contra as correntes grossas. Talvez o ferro parecesse frio contra minha pele, se eu ainda fosse quente como um humano.
Mas não sou.
Com um suspiro resignado, abri os olhos e deparei-me com o cenário do pesadelo.
Móveis de madeira caindo aos pedaços, enpodrecidos. Duas cadeiras de balanço quebradas. Inúmeras teias prateadas, algumas ainda com aranhas negras. Uma camada grossa de poeira. Cheiro penetrante de mofo. Ratos ou camundongos disparando por pilhas de objetos velhos, guinchando. Lixo acumulado pelos cantos. Não havia janelas, e a única porta no aposento amplo, de ferro batido já quase completamente alaranjado, estava fechada. Não havia luz. Apenas uma pequena fresta infiltrava-se por baixo da porta, não que a falta de luz me impedisse de enxergar algum detalhe.
Meus sentidos estavam mais aguçados e sensíveis do que nunca. Eu podia ouvir cada ruído dos humanos que moravam próximos ao meu sótão esquecido, e, pela intensidade com que os ouvia, calculava que a distância a separar-nos era de pelo menos dois ou três quilômetros. Um pouco além, os barulhos típicos das ruas movimentadas. Todos aqueles humanos tão próximos uns dos outros, o som de seus corações úmidos batendo ao mesmo tempo, era como uma sinfonia harmoniosa e hipnótica. Eu mal podia controlar o impulso de lançar-me contra as correntes, desesperado para sentir mais de perto os aromas intricadamente unidos, fragrâncias de produtos industrializados impregnados na pele e nos cabelos, suor, o cheiro atrativo do sangue. Podia discernir cada pequeno processo químico ocorrendo em seus corpos, os inúmeros processos que para eles eram vitais. O sopro do oxigênio passando pelas gargantas, os pulmões em expansão, o pulsar das deliciosas veias e artérias. O sangue realizando todo o percurso entre o cérebro, coração e resto do corpo. Cada músculo contraindo e relaxando, nervos pulsando, células em movimento.
Cada minúscula engrenagem.
Passava cada minuto daquelas horas sem fim obcecado pelos humanos ao alcance de minha audição, imaginando inúmeros meios de atraí-los e afundar minhas presas em seus pescoços quentes e macios, deixar que o líquido denso e apetitoso explodisse em minha boca, escorresse pela garganta...
A sede dolorosa nublava todos os outros pensamentos e eu sentia o veneno fluir em minha boca. Só havia uma coisa capaz de penetrar minha concentração, o instinto primitivo de atenuar a sede – a autopreservação.
O instinto de me proteger do perigo.
De repente fiquei alerta para os passos que não seguiam o mesmo ritmo dos outros, nem se moviam pelo espaço de uma casa ou rua distante. Passos determinados que se aproximavam do meu recinto, da minha área. Uma presença forte e quase opressiva. Um vampiro, trazendo consigo o irresistível aroma de sangue fresco.
Stefan.
No intervalo de algumas batidas de coração, a porta de ferro batido protestava agudamente ao ser aberta. O som longo e estridente lembrava unhas arranhando vidro, perfurava meus tímpanos. Irritado, travei o maxilar e fechei os olhos ao pressentir o lampejo de luz ofuscante e fugaz que viria a seguir. Ainda era dia. E, adaptados a escuridão constante, meus olhos estavm especialmente sensíveis.
– O que você quer, Stefan? – rosnei – Não posso ao menos ter meus pensamentos homicidas em paz?
– Como sabia que era eu? – retrucou sua voz odiosamente baixa e mansa.
Bateu a porta com força suficiente para fazê-la tremer nas dobradiças.
– E quem mais seria? O ser mais estraga prazeres que tive o azar de conhecer, claro – debochei – Você.
Ele expôs as presas pontiagudas.
– Não estou a fim de aturar deboches hoje – a emeaça em sua voz me fez erguer as sobrancelhas.
Era a primeira vez desde que fui acorrentado à maldita cadeira que via Stefan sendo agressivo.
– E eu não estava a fim de ser transformado em um monstro, mas isso não impediu você, impediu? Não podemos ter sempre o que queremos, colega.
Ele não reagiu. Sequer parecia ter me ouvido. Estava perdido em pensamentos, os olhos verdes passando por mim como se eu fosse parte da mobília em decomposição. Trazia consigo bolsas de sangue, segurando-as tão apertado que parecia prestes a estourá-las. Pensar no sangue desperdiçado me encheu de aflição.
Eu estava cansando de lutar contra o monstro, ao menos temporariamente.
– Acabe logo com isso – meu tom autoritário pareceu fazê-lo voltar a si.
Ele ergueu as bolsas e hesitou.
– Será que devo...? – parecia um tanto sem jeito.
– Deve o quê? Esqueceu de pagar alguma conta?
O sarcasmo ácido parecia irritá-lo.
– Muito engraçado. Está com fome ou não? – ele fechou a cara e recuou um passo.
– O que você acha?
– Que preciso ouvir de você, já que não me deixa ler seus pensamentos.
Leia isso: você é um babaca.
– Vou levar isso como um não. Tchau – o verde brilhou de raiva antes que ele girasse sobre os calcanhares e começasse a se afastar.
A sede queimou minha garganta, exigindo o sangue que era levado para longe. Stefan desviava com facilidade dos inúmeros objetos inúteis e empoeirados em seu caminho. A sede ficou pior, tão dolorosa que confundia todos os outros pensamentos. Ele alcançou a maçaneta enferrujada da porta. Soltei um ganido involuntário.
– Stefan!
Ele parou, esperando que eu continuasse. Mordi minha língua. Ao menos uma vez, eu não iria ceder. Podia agüentar mais tempo sem sangue. Sou mais forte que isso. Ele virou a cabeça e encarou o conflito interno que se estampava em meu rosto. Homem versus monstro, aversão versus necessidade. Ambos já sabíamos como seria o fim do conflito.
– Tá legal. Toma – ele jogou as bolsas de sangue para mim.
Bebi tudo avidamente. Ele trouxera cinco ao todo, que acabaram em menos de um minuto. Encarei as bolsas de plástico vazias com melancolia. Ainda estava com sede.
– Quer mais?
A pergunta simples me inflamou. Provocou o monstro, porém eu não tencionava deixá-lo assumir de novo tão facilmente. A repugnância deixou um gosto amargo em minha boca. O que eu consumira era o bastante por enquanto. Tinha que ser.
– Eu não devia querer nada, droga! – explodi – Por que você não me deixou morrer?
– Devia beijar meus pés por não estar a sete palmos da terra – ele ergueu uma última embalagem plástica cheia do líquido proibido – Anda, você sabe que ainda está com fome.
Por quase dois minutos consegui resistir, depois me vi com o plástico já vazio nas mãos, meio atordoado.
– Bom menino.
Fuzilei-o com os olhos.
– Como eu disse, devia me agradecer por não estar sendo comido pelos vermes agora – ele repetiu.
Sua linguagem corporal deixava claro que ele ainda se sentia culpado, mas se obrigava a lidar com aquilo.
– Claro, viver acorrentado a uma cadeira sempre foi o maior sonho da minha vida – ironizei – Muitíssimo obrigado!
Seu rosto enrijeceu com uma fria determinação.
– Ainda não, Alaric. Se quiser se matar daqui a algumas semanas, não vou impedi-lo. Mas ao menos tente se acostumar antes. Não estou dizendo que vai ser fácil ou que não vai se odiar ao longo do caminho. Só que talvez você consiga conviver consigo mesmo e não se tornar escravo do monstro.
– Como você? – alfinetei.
– Como Caroline.
Hesitei.
– Eu não valho nada – ele sorriu amargurado – Não pense que eu não sei disso. Sou um babaca, como você mesmo disse. Mas ela não é.
– Ela ainda é uma recém-criada – contestei – Tem pouco mais de um ano.
– Você também é. E ela se controla muito melhor que eu ou Damon no início – ele argumentou – Com a vantagem de ter outros para ajudá-la a se controlar e entes queridos para lhe dar apoio, ela vai desenvolver resistência muito mais rápido.
– Eu não tenho outros para me ajudar – observei secamente.
– Você tem a mim.
– Grande coisa, levando em conta que foi você quem me matou.
– Pode ser, mas também sou o único com quem pode contar agora. Já teria morrido se eu não estivesse te trazendo sangue.
– Mas a morte seria misericórdia demais – lutei para conter a fúria em minha voz e disfarçá-la em sarcasmo. Ele não merecia ter o gostinho de me ver descontrolado outra vez – Sério, que fixação é essa com a cadeira da tortura? Você e Damon vivem acorrentando todo mundo. Essa técnica é mais velha que a sua avó.
– Eu não estou prendendo você aqui para torturá-lo, se é o que está sugerindo – ele se defendeu, tenso.
– Já está torturando, colega. Pelo menos renove os métodos.
– Vou soltá-lo. Só não agora.
– Por que não? – ergui uma sobrancelha — Prefere me manter alimentado como bichinho de estimação até se cansar de mim e finalmente deixar que eu frite com a luz do sol? Ou talvez arrancar minhas presas e vendê-las no Ebay? Quer brincar de Jogos Mortais e usar a cadeira da tortura para explodir a minha cabeça caso eu não encontre a tempo a chave escondida no meu estômago? Seja o que for, só faça logo.
Ele virou o rosto e passou um longo tempo em silêncio. Quanto tempo levaria até que eu conseguisse irritá-lo a ponto de me matar? Ele não parecia estar muito controlado. Talvez eu tivesse sorte e ele perdesse a cabeça logo. Estava prestes a fazer mais um comentário azedo quando ele respirou fundo e me encarou nos olhos, dizendo a última coisa que eu esperava ouvir:
– Elena me pediu um tempo.
A mudança abrupta de assunto me deixou confuso.
– Que bom para ela. Por que está me contando isso?
– Por quê? Por que ela fez isso? – ele ignorou minha pergunta.
– Talvez porque você está traindo ela com qualquer coisa que use saia – dei de ombros – Só uma sugestão.
– Não tem como ela saber disso! – ele exclamou perturbado.
Depois pareceu assimilar o que eu disse.
– Eu não estou traindo ela com qualquer coisa que use saia. – ele protestou debilmente.
– Você pegou a Caroline! Uma das MELHORES AMIGAS dela. Cara, espero que ela enfie uma estaca em você quando descobrir.
– Ela não vai descobrir.
– Não? – a esperança vazou para a minha voz – Resolveu seguir meu conselho e sair da cidade?
–Ainda não. Mas não desisti totalmente da ideia – ele parecia estar falando mais consigo mesmo que comigo – Preciso dar um jeito de limpar os rastros e tirar Miriam e Elo da cidade antes que ela possa descobrir.
– Você está ouvindo a si mesmo? – eu quase gritei, entre indignado e incrédulo – Já matou sei lá quantos inocentes. Está traindo a Elena com duas vampiras, D-U-A-S, que são as fixas, isso sem falar nas outras mulheres que pega por aí, incluindo a CAROLINE. AMIGA DELA. Quer sair da cidade antes que ela descubra o filho da puta que você é. E ainda se pergunta por que ela te pediu um tempo? SE MATA, CARA.
– Ela não sabe de nada disso! – ele protestou desesperado – Eu só me uni a Elo e Miriam para protegê-la. Proteger vocês todos. Tem alguma ideia de como é difícil matar um original?
Seus olhos verdes estavam em brasa, cheios de fúria e frustação.
– Não.
– Precisamos de um punhal com cinzas de uma madeira específica. Muito, muito rara – ele quase cuspiu as palavras – É a única maneira. E se não temos um, imagine dois?
Pensei em tudo que ele tinha me contado sobre o ataque que sofrera e o acordo que tinha feito com as vampiras. Olhando por esse ângulo, talvez ele não tenha tido escolha mesmo.
– Eu... bom... mesmo assim. O que você fez foi imperdoável.
– Talvez. Mas sendo necessário para proteger vocês, eu faria tudo de novo – ele insistiu.
– Talvez tenha sido essa a sua intenção no começo, Stefan – retruquei, hostil – Nos proteger. Mas não pode dizer o mesmo agora. Não depois de ter nos atacado. E me matado.
– Eu não ataquei vocês! – ele pareceu horrorizado por aquele pensamento ter sequer me ocorrido. Tive vontade de abrir a socos sua enorme cabeça hipócrita – Eu contive o ataque delas, Alaric. Não quis machucar ninguém. Só lembrei a elas do acordo e mandei que deixassem vocês em paz. Eu só te transformei porque se não o tivesse feito Miriam teria matado você. E não fui eu quem te machucou, foi ela.
– Mas... mas... – teimosamente, eu procurava algo para protestar.
Só que ele tinha razão, percebi ao repassar mentalmente aquela noite. Ele não tinha nos atacado. Apenas tentou amenizar os efeitos dos ataques delas. Tirando a parte de ter me matado.
– Você não faz ideia do quanto teria sido pior morrer pela mão dela – sua expressão tornou-se sombria – Miriam gosta de brincar com a comida antes de comê-la.
A lembrança da dor excruciante que senti ao ter minha própria estaca enfiada em meu ombro retornou com força total.
Estremeci.
Ele tem razão. Ser morto pela versão vampira da Belatriz Lestrange teria sido muito pior.
– Você podia só ter me matado. Sem me transformar – murmurei.
– Não podia, não. Foi minha culpa ela ter te ferido. Ninguém entra no caminho da Mi como você fez e sai respirando. Ela sabe ser bem assustadora às vezes.
– Às vezes?
– É. Pode não parecer, mas ela também tem um lado doce – Stefan não pareceu notar que falava em voz alta. Dava para ver a emoção em seu rosto – Não me admira que tenha se tornado tão agressiva depois de... – ele se interrompeu subitamente, como que se dando conta que estava falando demais.
Apertei os olhos. Aquele olhar... eu já tinha visto aquele olhar antes. O modo como ele falava dela. A emoção em seu rosto.
– Você se apaixonou por ela – eu declarei, perplexo.
Ele não negou. Uma sombra passou por seu rosto, porém rápido demais para que eu pudesse identificar o que era. Stefan não olhava para mim ao dizer, finalmente:
– Eu... não tenho certeza.
– Não acredito! Tá na cara, Stefan – senti meu estômago embrulhar – Você está apaixonado pela mulher que enfiou uma estaca em mim, matou sei lá quantas pessoas, atacou você...
– Não é culpa dela. – ele fechou a cara – Bom, não totalmente. Você não devia julgar sem conhecê-la.
– Tá de sacanagem.
Ele gostava mesmo dela. Era evidente. Enlouqueceu de vez, só pode.
– Se você ama a Vampira Psicótica por que ficou tão abalado com a Elena pedindo um tempo?
– Eu amo a Elena. É a única certeza que ainda tenho – ele parecia ao mesmo tempo sincero e angustiado, falando quase rápido demais até para mim – Com tudo que tem acontecido minha cabeça anda uma confusão enorme. Deixei de lado meus princípios e não tenho exatamente certeza do que sinto pela Miriam. Não me sinto mais culpado ao matar, mas ainda me preocupo muito com vocês. É como se o Stefan humano estivesse travando uma batalha com o monstro em mim, como o que você sente quando vai se alimentar, só que muito pior. Eu me sinto assim cada vez que um humano cruza o meu caminho agora. Não sei mais o que eu sou, nem o que eu quero. Só sei que eu amo a Elena. Eu preciso dela, Alaric. Como sempre precisei. Isso nunca mudou.
– Tem certeza que você precisa dela, Stefan? Ou apenas acha que precisa? – ele não pareceu ter entendido minha pergunta confusa – Você mudou. Tudo mudou. Isso afetou o seu relacionamento, é claro, e olha que ela nem sabe as coisas que você anda fazendo. Ela pode não saber, mas deve desconfiar que alguma coisa está diferente. Não a culpo nem um pouco por estar confusa. Aliás, ela terminaria com você se descobrisse a história toda. Talvez esse tempo seja bom para vocês dois.
– Eu não vou mudar de ideia – disse ele, obstinado – Nunca vou deixar de querê-la. Nunca.
Por um momento pareceu mais uma ameaça do que uma promessa.
O que eu poderia responder? Para mim ele estava completamente louco, então preferi ficar quieto.
– Acho que essa súbita confusão dela tem a ver com o Damon – continuou ele, revoltado – Eles andam muito grudados ultimamente.
– Ah, por favor, né Stefan, você não tem moral nenhuma para falar dela – não consegui me conter – Isso se ela estiver mesmo envolvida com o Damon, o que eu acho muito difícil. Elena não é o tipo de garota que trai.
– Eu também não era, e olhe para mim agora — os lábios dele se crisparam e uma expressão estranha tomou seu rosto – Só tenho uma certeza: ela não vai me trocar pelo meu irmão.
E o que você vai fazer se ela quiser mesmo te trocar por ele?, antes que eu pudesse verbalizar a pergunta Stefan já estava indo embora, ainda com a expressão esquisita. Eu não fazia ideia se Damon tinha ou não sido o motivo pelo qual Elena pediu um tempo, mas torcia sinceramente para que ele cuidasse dela, independente de estarem juntos ou não. Porque Stefan seria capaz de qualquer coisa agora, talvez até de machucá-la em sua loucura.
Eu precisava arrumar um modo de fugir daquela prisão. Com as vampiras originais aliadas a um Stefan cada vez mais perigoso e sombrio, a cidade corria mais perigo do que nunca.
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