Dragão Escarlate
3 Capítulo 2 - Não brinque com fogo
Ficamos nos encarando por alguns segundos, eu sem saber o que fazer e ele esperando uma resposta. Não era a primeira vez que pessoas tentavam me atacar de surpresa, então eu não ia me deixar cair na armadilha dele tão facilmente.
—Alô alô? Você consegue escutar? Fala minha língua? – O tom dele era mais de brincadeira do que dúvida real.
—Consigo escutar muito bem — Eu respondi, preparando-me para investir em sua direção e atacar com tudo.
Mas assim que eu dei o primeiro passo, eu congelei, todo o quarto havia desaparecido. Nós dois nos encontrávamos agora em uma planície gigantesca, com grama alta e árvores ao longe. O céu parecia diferente, em um total entre roxo e rosa – eu gostei. Será que ele tinha poderes de teleporte? Tinha nos teleportado para um local diferente? Ele continuava lá, na mesma distância, mas agora sentado no chão com as pernas cruzadas.
—Calma, não precisa desesperar, eu não vim aqui para brigar nem nada do tipo, só quero conversar mesmo.
Eu ainda não estava muito convencida, mas reconheço que ele poderia ter me atacado enquanto eu observava o lugar, maravilhada:
—Tudo certinho sim, respondendo sua pergunta anterior — Eu disse sem olhar para ele, encarando a grama aos meus pés, que estranhamente não estava crescendo com o meu poder — Que lugar é esse?
—Eu não nos teleportei, se é isso o que está pensando, não exatamente, pelo menos – Olhei para ele e seus olhos estavam brilhando um pouco – Como se chama?
—Meu nome é Alicia — Ele me encarou com uma sobrancelha levantada, esperando eu falar o meu nome todo – Sem sobrenome, só Alicia.
Ele me encarou por alguns instantes, seus olhos ainda brilhando. Demorei para perceber, mas ele não estava mais usando a camisa e a calça do pijama do orfanato, mas uma calça jeans preta e uma camisa preta também. Ele deu de ombros e continuou:
—Pode me chamar de G, igual a letra do alfabeto mesmo — Ele reparou que eu estava olhando para os lados – Você deve estar se perguntando o que faz aqui certo? Ou como chegou aqui?
—Só G? Depois eu que sou a estranha — Sussurrei essa última parte para mim mesma – Estou mesmo, como você me trouxe para cá e por que estava esperando no canto do meu quarto como um psicopata?
Ele pareceu considerar a situação. Um cara desconhecido e estranho de repente resolve entrar no quarto de uma garotinha de noite e esperar para levar ela para um mundo esquisito e diferente. Acho que ele entendeu o meu estranhamento:
—Bom, esse lugar é só uma ilusão minha, não estamos aqui de verdade. E eu estava esperando no seu quarto porque queria avaliar você de perto. Não sei se você percebeu, mas algumas pessoas ficariam desconfortáveis se notassem toda essa energia que você está liberando naturalmente.
Olhei para as minhas mãos, tentei checar as minhas roupas ou algo assim, mas acabei não sentindo nada. Eu tinha noção de que podia fazer plantas crescerem mais rápido estando perto, mas nunca atribuí isso a energia saindo de mim, achei que esse era simplesmente o meu poder e pronto, nada complexo.
—Acho bem legal você ter um poder de criar ilusões, mas eu não faço nada desse tipo. Quando eu passo perto de plantas, elas crescem mais rápido, meu poder é basicamente isso.
—Eu imagino que cresçam mais rápido mesmo, você está exalando energia — Ele me encarou bem, apertando os olhos – Mas... esse não é o seu poder, é só uma consequência dele. Sinceramente, sua energia me parece familiar, mas não consigo identificar o motivo...
O quarto de repente voltou ao normal, e ele foi andando em direção à porta:
—Sinceramente, manter a ilusão por tanto tempo me deixou cansado, e você também deve estar exausta. Amanhã nos encontramos, vá dormir — Ele abriu a porta que antes estava destrancada e saiu por ela, fechando-a atrás dele.
Quando me aproximei para testar a maçaneta, ela estava realmente trancada. Que dia louco fora esse... fui para a cama, ainda pensando nesse estranho G e me deitei, indo dormir pouco em seguida. Eu realmente estava exausta.
Na manhã seguinte, acordei com o anúncio do café da manhã. Eu podia estar louca para ir embora dali, mas nunca perderia uma refeição boa tão facilmente, então corri para o banheiro e arrumei o meu cabelo, trocando de roupa e saindo do quarto logo em seguida. O caminho não era tão difícil, eu me lembrava do dia anterior, era só seguir por alguns corredores. Assim que entrei no corredor principal, topei com o G, que parecia estar me esperando:
—Calma, para que essa pressa toda? A comida não vai sair correndo, sabe? — Seus braços estavam cruzados, mas ele começou a andar do meu lado.
—Como assim, você não está com fome? Já pensou que pode ter PUDIM!? — Minha boca salivou e eu sussurrei para mim mesma – Eu amo pudim.
—Eu hein... menina estranha.
Fomos andando até o refeitório e entramos na fila, que estava meio grande. Do lugar que estávamos, pude ver o menino de cabelo descolorido se servindo e virei para o G:
—G, você parece estar aqui a mais tempo, você sabe quem é aquele babaca ali? – Apontei para o menino que havia derrubado a minha comida no dia anterior.
—Ah, é, eu conheço ele. Chama Spike ou algo assim... não sei se você já percebeu, mas todo mundo aqui tem poderes, eu não mexeria com ele se fosse você, ele é esquentadinho – Ele disse com sarcasmo, depois de perceber que eu estava irritada.
—Ele é quem não deve mexer comigo, se ficar enchendo o saco eu acabo com ele, pode acreditar
Fomos nos aproximando da pessoa que estava servindo a comida, e meu coração palpitou quando eu vi que realmente tinha pudim. Isso só podia ser um sonho, quase nenhum orfanato serve pudim, esse lugar quase ganhou minha simpatia. Servimos a nossa comida e eu coloquei o doce no canto da bandeja, para comer após o café da manhã. Mas, obviamente, como sempre, Alicia não pode ser uma criança feliz, né?
Virei para me dirigir à mesa e não percebi que alguém havia se aproximado, só percebi quando a pessoa tirou o pudim da minha bandeja. Já tinha previsto quem era, mais quando olhei para confirmar, vi que o Spike já estava comendo a minha sobremesa, com um sorriso idiota no rosto. Era isso, essa foi a gota d’água, não iria mais ignorar ele.
Quando percebi que não poderia mais recuperar o pudim – ele já estava acabando de comer – eu joguei o meu café da manhã inteiro nele, com bandeja e tudo. Infelizmente para ele, eu gostava bastante de coisas doces, então o meu pão estava transbordando geleia de morango, sem contar o achocolatado que estava junto. Suas roupas ficaram completamente imundas e todos viraram para olhar, alguns até apontando, comentando ou rindo.
—É isso pirralha, você vai aprender a respeitar os mais velhos – Ele ergueu uma das mãos, como se estivesse segurando uma esfera, e produziu uma bola de fogo
Era óbvio que ele estava tentando me assustar. Eu virei para trás e olhei para o G, que só levantou uma sobrancelha e mostrou a bandeja dele, indicando que estava me esperando. Voltei a encarar o Spike:
—Só isso, bobão? Não vai fazer mais nada? Esse é seu poder, vela humana? – Eu não estava nem um pouco assustada com ele, só irritada pelo pudim.
Ele pareceu não gostar disso, porque gritou e atirou a bola de fogo. Olha, eu nunca tinha sido atacada por algo do tipo antes – não que eu me lembrasse, pelo menos – mas achei que seria algo bem mais forte. A esfera de fogo se aproximou rapidamente, mas como estava irritada, meus reflexos estavam excelentes. Não me importei que ela estivesse vindo em direção ao meu rosto, apenas dei um tapa nela e ela sumiu completamente.
O refeitório estava um silêncio total, acho que ninguém esperava que uma criança fosse simplesmente dar um tapa em uma bola de fogo, ouvi inclusive um assovio vindo de algum lugar. Spike obviamente estava perplexo, mas seu orgulho era bem maior que sua inteligência. Ele começou a preparar uma esfera de fogo maior, com ambas as mãos, que dessa vez estava em um tom laranja mais escuro.
De repente, comecei a sentir uma energia familiar e olhei para trás, apenas para ver que os olhos do G estavam brilhando de novo. Olhando para o Spike de novo, vi ele se curvando de repente e caindo de joelhos no chão, segurando o estômago.
—Vamos Alicia, tem uma mesa disponível ali – O G estava indicando uma mesa mais ao fundo com a cabeça. Percebi que a barra da sua manga estava um pouco chamuscada.
Peguei um Misto Quente que estava mais perto (sim, eu furei fila, que grande criminosa) e fui junto com ele. O G me deu o pudim dele depois que acabei de comer, o que me deixou bem mais animada.
—Sua mão não está machucada? – Ele disse, encarando a minha mão direita, que usei para estapear a bola de fogo.
—Nem um pouco, acho que qualquer um conseguiria desfazer aquele foguinho besta – Falei feliz, terminando de comer o pudim – Eu sei que você acabou com ele, acho seu poder bem legal.
Ele me encarou por mais alguns instantes e parece que algo estalou em sua cabeça. Seu rosto demostrou um pouco de surpresa:
—Acho que me lembro onde senti uma energia parecida com a sua – Ele terminou de beber o suco de uva que pegou e continuou – Quando foram me testar em uma daquelas máquinas de partículas energéticas, passei perto de um pequeno dragão que dava uma sensação parecida com a sua.
—Máquinas de partículas energéticas? Nunca nem ouvi falar disso, que loucura... e eu nunca topei com um dragão, nem com nenhum outro monstro que surgiu.
Na época que começaram a aparecer pessoas com poderes, também surgiram diversos tipos de monstros mitológicos ou completamente estranhos, então a existência de um dragão não era nem um pouco surpreendente.
—Você não sabe o que são Máquinas de partículas energéticas? Aquelas máquinas esquisitas que a gente precisa subir na plataforma, as coisas começam a brilhar e a gente descobre quanto poder mágico temos?
—Ah, aquelas máquinas... elas nunca funcionaram para mim, sempre davam algum tipo de problema idiota, nem um pouco confiáveis – Eu queria me levantar da mesa e sair do refeitório, mas não sabia exatamente onde deveríamos ir – Sabe onde temos que ir agora?
Ele me encarou por alguns instantes, avaliando o meu comentário sobre as máquinas não funcionarem direito, mas depois levantou-se
—Acho que temos que ir para sala de aula, sinceramente, é um saco.
—Nós temos aulas aqui? Eu não fazia ideia – Me levantei, seguindo-o – Você poderia me levar na minha sala?
—Ah, não são aulas normais – Ele comentou, como se já estivesse acostumado – Nós estamos na mesma sala, se não me engano... elas não são divididas por idade, mas por setor do orfanato.
Então caminhamos pelo corredor que nos levara até ali, mas dessa vez viramos para o outro lado, ao invés do corredor com os dormitórios. É, ficaria perdida ali rapidinho, por sorte ele estava me guiando. Eu sei que ele disse que não eram aulas normais, mas estava um pouco ansiosa por finalmente poder ter aula com outras crianças, mesmo que elas não fossem tão crianças assim e nem um pouco normais.
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