Dragão Escarlate
4 Capitulo 3 - Fierce
A caminho da sala, percebi que as paredes simples e sem graça, em cor azul pastel, mudaram para tijolos vermelhos e lisos, mostrando uma mudança de setor no orfanato. Aparentemente, o setor de aprendizado, ou seja lá para onde estávamos indo, era modelado como escolas antigas, com tijolos vermelhos na parede e rodapés de madeira. As portas agora não eram de madeira simples, mas de ferro, com janelas quadradas para permitir ver o que estava acontecendo dentro da sala (Não que fizesse diferença, eu não conseguia alcança-las).
Chegamos lá e logo fomos nos sentar em algumas cadeiras disponíveis no meio da sala. A sala não era muito grande, mas ocuparia 40 alunos com tranquilidade e espaço sobrando. As paredes do lado de dentro eram cimentadas, pintadas na cor creme. Haviam mapas-múndi, fotos do atual presidente, tabelas periódicas e diversas outras coisinhas pregadas nas paredes. No fundo da sala, tinha um móvel com diversos espaços para colocar os materiais e mochilas, numerados como as cadeiras do local, na frente da sala uma lousa de giz.
Nós estávamos bem na hora, porque assim que nos sentamos, o professor entrou na sala e fechou a porta. Ele era alto e musculoso, tinha a barba bem feita e o cabelo preto preso em um rabo de cavalo atrás, usava calças camufladas e uma jaqueta fechada que parecia pertencer à aeronáutica.
—Boa tarde, alunos. O meu nome é Todd Fierce, podem me chamar de senhor Fierce ou só senhor, qualquer um dos dois está ótimo – Ele falou com um ar descontraído, mas definitivamente não brincando – A partir de...
Seu discurso foi interrompido pela porta se abrindo abruptamente. Uma menina alta (para os meus padrões), de cabelos cacheados batendo nos ombros, algumas cicatrizes atravessadas no seu nariz e pijama azul marinho entrou na sala arfando. O professor não disse nada, apenas fez cara feia para ela e apontou para o único lugar disponível: do meu lado.
—Bom, continuando, a partir de hoje, serei o novo professor de vocês. Anteriormente, suas aulas eram superficiais e relativamente normais, já que o governo ainda estava decidindo o que deveria ser feito com vocês, mas já foram implementadas novas ordens – ele fez uma pausa, como se esperasse alguém dizer algo e continuou – Como sabem, todos vocês têm alguma forma de poder ou habilidade parecida. Já devem saber também que há diversos monstros soltos por aí, aterrorizando o planeta. Para resumir, vocês, rejeitados por suas famílias ou desprovidos delas, serão treinados para mata-los e defender a nossa pátria.
Todos estavam encarando-o calados, até que finalmente compreenderam o que ele quis dizer. A sala se encheu do barulho de reclamações e descrença, ninguém realmente queria acreditar no que ele estava dizendo.
—Como assim? Vocês não podem nos forçar a lutar com aqueles monstros! – Alguém gritou do fundo
—Mas que absurdo, ninguém vai me obrigar a fazer esse trabalho sujo, não mesmo – Dessa vez era a menina que chegou atrasada, mas ela estava falando com ela mesma.
—Calem-se! Não importa o que querem ou não – O professor elevou seu tom de voz, deixando transparecer irritação e calando a sala por inteiro – Era isso ou a execução de vocês, além de que se não conseguirem derrota-los, tem a possibilidade de que morram do mesmo jeito. Vocês não estarão indo para a batalha despreparados, receberão muito treino aqui antes.
Todos na sala estavam demostrando alguma forma de medo ou ansiedade neste ponto. Eu levantei a minha mão:
—Tudo bem, mesmo se a gente lutar contra os bichos, a gente ganha algo em troca?
O professor me encarou, me avaliando por alguns instantes. Ele provavelmente estava surpreso pela minha idade, mas não deixou demostrar isso:
—Sim, vocês não me deixaram chegar nessa parte. Quanto mais criaturas vocês matarem, e mais difíceis forem, seus níveis aqui dentro irão aumentar. Irão ganhar benefícios como quartos melhores, presentes, armas, mais sobremesa...
—Mais pudim!? – Eu estava encarando seus olhos verdes, com intensidade.
—Sim... mais pudim. Será definido um nível para cada e todos terão oportunidades iguais de ascender.
—Por mim está ótimo – Eu disse ao mesmo tempo que a menina ao meu lado. Aparentemente, ela também amava pudim.
—Acho que por hoje já está bom de aula teórica, sigam-me, vamos para a aula prática – O senhor Fierce se dirigiu a porta, olhou para nós, e saiu, seguindo para a direita.
Os alunos começaram a se levantar e a segui-lo. Me espreguicei e comecei a acompanha-los, andando próxima ao G e à menina estranha que chegou atrasada.
—Então sua cor favorita é azul-marinho? – O G perguntou à menina.
—Sim, eu até que gosto bastante. Você eu já percebo que gosta de cores escuras, combina contigo para ser sincera – Ela respondeu, encarando ele e depois virando-se para mim – Olha, você gosta de azul também.
—Não gosto não, eu gosto é de rosa e roxo, são as melhores cores – Eu respondi com inveja, eles deram muita sorte de pegar pijamas nas cores que gostavam.
—Ué, então por que não escolheu uma dessas cores? – O G me perguntou, olhando meu pijama azul-claro.
Eu parei de andar e encarei os dois, que também pararam de andar. Observei como várias pessoas tinham cores de pijamas diferentes e perguntei:
—Tinha como escolher a cor do pijama?
—Claro que tinha, na recepção quando você foi fazer a inscrição. A moça sempre pergunta para pessoa que está preenchendo os papéis qual é a cor do pijama. – A menina me respondeu
Meus olhos e meus cabelos brilharam um pouco em escarlate enquanto eu lembrava do babaca que tinha me trazido para esse lugar. Ele preencheu tudo e não me fez questão de perguntar qual cor eu queria... não, eu tenho certeza que ele pegou uma cor que achou que eu ia odiar, que ódio dele.
—Alicia, vamos andando, depois você resolve esse... problema de cor aí na recepção – Era o G me apressando, não queria chegar atrasado lá e ser punido.
—Alicia né? Meu nome é Dandara, muito prazer menininha e... meninão – Ela deu uma risada quando acrescentou esse comentário final, olhando pro G.
—Prazer, G. – Ele disse, e continuou andando.
—Só G? Não tem resto? Gabriel? Gustavo? – Ela perguntou, acompanhando ele.
—Não, só G mesmo, igual a letra do alfabeto.
Eu estava muito irritada para notar que ela me chamou de menininha. Não me importava de ser chamada de menina, mas palavras no diminutivo eram meu ponto fraco, eu sabia que era pequena, mas só eu tinha o direito de falar sobre isso. Segui os dois até a sala em que o professor provavelmente tinha entrado. Dessa vez, não tinha uma porta, só um portal que dava para uma sala gigante, quase uma arena. O chão era feito de grandes chapas quadriculadas, a parede do lugar era de concreto e dava a volta fazendo um círculo em torno da ‘arena’ central, com arquibancadas no entorno. O teto também parecia ser de cimento, e tinha muitas lâmpadas. Era um lugar muito bem iluminado.
—Ótimo, agora que parece que estão todos aqui, vamos começar. Para definir o rank inicial de vocês, vocês devem lutar entre si, em rodadas que eu definirei os oponentes. O melhor rank é o SS, seguido por S, A, B e assim por diante até o H. – O professor anunciou, chamando a atenção de todos – Não é permitido matar seus oponentes nem os aleijar permanentemente, a vitória será concedida se você nocautear seu adversário, tirá-lo da arena ou se ele desistir.
A maior parte dos alunos parecia um pouco nervosa. Apesar de estarem com um pouco de medo, eram todos jovens, obviamente que queriam lutar e testar seus poderes em alguém, e essa era a oportunidade perfeita. O professor continuou:
—Seus ranks não serão definidos de imediato, levarei em conta não só a vitória, mas todos os aspectos da luta. Vamos começar com... – Ele pegou a lista de chamada e anunciou – Dandara e Spike.
—Eita, parece punição por chegar atrasada né? – Ela deu um sorriso torto e foi para a arena.
Spike fez o mesmo, mas ele parecia irritado. É bem provável que ele tenha visto a gente conversando e pensado que somos amigas, então ele ia descontar nela o que aconteceu no almoço, ops.
—Preparem-se. Três, dois, um, COMECEM! – Os alunos se dirigiram para as arquibancadas, mas o professor continuou relativamente perto, para mediar a luta.
Spike rapidamente fez um movimento de arremesso de bola, lançando uma esfera de fogo muito rápida na direção de Dandara. É possível que ela estivesse distraída, porque seu movimento inicial de esquiva foi muito lento. Ela pulou para o lado no último momento, fazendo com que a bola de fogo apenas pegasse de raspão em seu braço, deixando uma queimadura considerável.
—Ah, sua besta, não tem medo de morrer não? – Ela falou irritada, olhando para o lugar da queimadura.
Spike não respondeu, apenas concentrou-se em lutar. Ele aproximou-se rapidamente e começou a desferir socos flamejantes contra ela, que tentava defender o máximo possível. Seus braços estavam vermelhos e pareciam apresentar queimaduras, alguns dos socos inclusive conseguiam passar de sua defesa e acertar sua barriga.
Mas de alguma forma, a Dandara parecia estar ficando mais rápida. Achei meio difícil de acreditar, mas apesar de estar arfando, ela estava começando a bloquear mais ataques deles, e seus braços não pareciam se machucar tanto com os ataques. Desviando de um gancho de direito dele, ela deu um chute em sua barriga, empurrando-o para trás pelo menos uns três metros. Ou ela estava escondendo seu poder, ou estava ficando mais forte ali mesmo. Sua pele estava vermelha, mas não era de queimaduras, era da própria queratina, que parecia estar se adaptando ao calor.
Spike percebeu isso também, e ficou ainda mais irritado. Ele começou a carregar uma bola de fogo como a que tínhamos visto no refeitório, mas dessa vez bem maior. Se aquilo pegasse nela, tenho certeza que faria bem mais que algumas queimadurazinhas. Ele arremessou o que parecia ser um mini Sol, que foi na direção dela.
Mas, para a surpresa de todo mundo na arena (menos do senhor Fierce, ele nunca ficava surpreso, aparentemente), Dandara correu na direção da esfera de calor e deslizou por baixo dela, em uma velocidade incrível. Spike ficou completamente sem reação, pego de surpresa.
—Mas que perigo, imagina se você queima alguma coisa? – Ela disse brincando, enquanto dava um soco na barriga dele, empurrando-o para fora da arena.
Todo mundo ficou em silêncio... todo mundo menos eu:
—É isso aí Dandara, regaça com ele, ele adora roubar pudins de outros alunos – Eu gritei, aprovando a vitória dela.
Ela mandou um sinal de positivo para mim e foi se sentar na arquibancada perto de nós, arfando bastante. Aparentemente, seu poder a cansava bastante, mas parecia incrivelmente interessante.
—Bom, foi incrivelmente evidente quem ganhou essa partida – O professor olhou para o Spike, que estava se levantando e indo se sentar na outra ponta da arquibancada, perto de algumas mulheres vestidas de branco – Enfermeiras, podem cuidar dele por favor?
Eu não tinha percebido ainda, mas realmente tinham enfermeiras no local, com kits de primeiros socorros e vários outros utensílios úteis em batalhas de pessoas com superpoderes, como se isso fosse completamente normal.
—Se possível, uma de vocês – Ele apontou para as enfermeiras – também pode auxiliar a Dandara? Tenho certeza de que ela tem pelo menos uma ou outra queimadura, não queremos infecções.
Dandara mostrou a língua para ele, mas aceitou a ajuda da enfermeira. Ela realmente tinha uma queimadura onde a primeira bola de fogo a pegou de raspão, mas os outros locais apresentavam apenas pequenos hematomas do impacto dos socos, não do fogo em si.
—Ótimo, a próxima luta será entre... Alicia e Steve. Podem descer à arena por favor – O professor anunciou, olhando para a lista em suas mãos e em seguida para nós.
É acho, que eu teria que ir uma hora ou outra, mas ser a segunda a lutar me parecia vergonhoso, eu queria ver outras pessoas lutando antes. Essa luta eu tinha que ganhar... pelo pudim, eu não poderia perder isso daqui de forma alguma.
Fale com o autor