Doze Verões
3 2002
Notas iniciais
Mais uma vez tudo se repetia, minha mãe me apertava e enchia de beijos, John nos olhava entediado e meu coração saltitava só de pensar em entrar no avião e rever as melhores pessoas do mundo. Ela então, deu um ultimo beijo na minha bochecha e andou a meu lado até o portão de embarque, soprando-me um beijo antes que eu pudesse desaparecer.
Ao entrar no avião virei o rosto, me cobri com a coberta ao sentir o avião subir e me concentrei em não ficar apavorada e pensar coisas ruins.
Horas mais tarde o avião pousava na ensolarada Chicago me deixando novamente animada e feliz.
Se pudesse eu teria saído correndo do avião, mas outras pessoas caminhavam a minha frente com uma lerdeza mostruosa, o que devo dizer que me deixou profundamente irritada. Assim que pude comecei a correr para Alaric que estava parado bem no meio do saguão com os braços abertos, um sorriso enorme e um casaco na mão.
— Pai!!! -Gritei vendo ele vir minha direção – Senti tanto a sua falta!!!
— Eu também – Respondeu ele me beijando e acariciando meus cabelos.
Ele me olhou feliz, satisfeito até, com os olhos avaliadores de sempre como se algo o encantasse, logo então pegou minha mala e se sentou em uma das cadeiras do saguão e gesticulou para que eu sentasse também.
— Não vamos para casa? – Indaguei sem entender.
— Ainda não – Respondeu – Temos que esperar Damon, a mãe dele me pediu esse favor.
E então, como se ele tivesse dito que me daria dinheiro, meu dia se alegrou, abri um enorme sorriso e sentei a seu lado encarando ansiosamente o portão de desembarque.
— Agora você gostou – Zombou Alaric.
— Nada a ver – Disse argumentativa –Em que portão ele vai desembarcar?
Ele riu por um breve segundo como uma criança e então respondeu me encarando risonho:
— Sete.
Assenti para ele,voltando meu olhar para o portão sete e imaginando Damon saindo do mesmo dali alguns segundos.
Mas isso não aconteceu, passaram-se segundos e minutos e nada de Damon. Voos eram anunciados e os desembarques eram constantes, mas em nenhum deles pude ver Damon.
Alaric havia pegado no sono e no momento que Damon passou pelo enorme portão ele acordou assustado pelo meu estridente grito, que preencheu todo o salão e atraindo a atenção de Damon e todos ao redor.
Ele sorriu feliz e deixou que suas malas caíssem de seus braços e os abrindo pra mim enquanto gesticulava para que eu corresse mais rápido.
Quando nossos corpos se chocaram, senti o familiar conforto e a agradável felicidade me preencher, tive vontade de gargalhar ao perceber que Damon estava ali novamente, me abraçando, como se um ano inteiro de distância não fosse nada.
— Que bom que veio – Disse ele alegre – Achei que dessa vez esperaria você, iria até comprar flores.
Sorri boba para ele e esperei que ele pegasse novamente suas malas para depois o arrastar até Alaric.
— Damon! – Saudou alegre – Como foi seu ano?
— Legal, e o seu? –Perguntou jogando suas malas no carrinho de bagagem.
Alaric fez sinal com a mão e então pegou os dois carrinhos, os empurrando para o estacionamento e ordenando que nós dois entrássemos no carro.
— Então? – Puxei assunto – O que você fez durante o ano? Não conversamos muito como no ano passado...
— Esse ano até que não foi ruim – Respondeu com a voz fina – Meu pai me inscreveu em um programa de aulas extra-curriculares, foi até legal, tirando a parte de que só tinham meninas feias na minha sala, pelo menos assim não precisei ficar vendo meu pai entrando e saído de casa acompanhado de mulheres e nem suportar suas ordens.
Ri baixinho e acariciei seu rosto me deleitando ao ver ele tombar a cabeça para receber mais.
— E o seu? –Ele perguntou.
—John está cada vez mais chato. Não posso fazer nada e ele já está reclamando e está pensando na possibilidade de me colocar em um colégio interno. Vê se pode!– Disse injuriada.
Damon então me olhou espantado, com os olhos preocupados e depois de alguns segundos disse:
— Você não vai não é Lena? Soube que em colégios internos eles não deixam os alunos se comunicarem com ninguém, nem com os próprios pais.
— Não – Disse firme – Só a assinatura da minha mãe não é suficiente e Alaric nunca concordaria com isso.
Ele então suspirou aliviado, colocando o cinto e conferindo se eu havia feito o mesmo e assim que Alaric entrou no carro e deu partida o assunto morreu, sendo trocado por discussões de quem havia levado mais detenções durante o ano.
No dia seguinte acordei cedo para fazer o café de Alaric e o bajular, mas não deu muito certo, pois no momento em que ele entrou na cozinha e viu seu café na mesa ele soube que eu estava tramando.
— Então?– Perguntou – O que você quer?
— O que você acha que estou fazendo? – Repliquei indignada – Não posso fazer o café do meu pai um dia se quer?
Ele então ficou calado, me dando a deixa que eu precisava. Sentei-me a seu lado e o olhei nos olhos com o sorriso mais meigo que pude arranjar as sete da manhã.
— Pai, sabe, nas férias de junho, vai ter um acampamento de férias para os alunos da minha escola, mas John não vai deixar mamãe assinar. Você assina pra mim?
Ele então sorriu e fechou os olhos em descrença, coçando seu queixo com a ponta dos dedos e me encarando divertido.
— Você está com o termo de autorização aí?
Rapidamente assenti, pegando a pequena pasta rosa em cima do balcão e tirando dela o termo, deixando que ele pegasse e depois de ler assinasse.
— Você ficou dias para me convencer disso, entendeu?– Disse apontando o dedo para mim.
—Sim. Combinado, mamãe nem vai desconfiar!
Ele então começou a comer o bolo que havia feito, deixando que eu pulasse e desse pequenos gritinhos a seu lado.
Quando terminamos de tomar café, ele saiu para trabalhar, dizendo que não voltaria para o almoço e que o dinheiro para a comida estava em cima da mesa.
Mas o mesmo não foi necessário, pois as onze em ponto Damon me arrastou para sua casa, chamando felicíssimo sua mãe e anunciando que eu almoçaria com os dois.
— Elena! – Exclamou Lívia – Como você cresceu! Está cada vez mais bonita! Espero que esteja com fome, fiz torta de nozes e sorvete para a sobremesa.
Damon riu a meu lado correndo para a mesa e esperando a mãe terminar de fazer o almoço.
— Anda mãe! Eu estou com fome – Reclamou ele – Sabe o que é fome? Então! Foooomeeeee!
—Larga mão idiota, não viu que ela ainda não terminou?! – Dei um tapa em sua testa.
Ele me olhou indignado e respirou fundo pegando uma folha de alface e esfregando na minha boca.
— Está gostoso né Lena – Riu sacana com as sobrancelhas erguidas.
Respirei fundo e lhe dei um tapa pegando também uma folha de alface e esfregando em seu nariz. Ele então começou a se debater, pegando mais uma folha da mesma e esfregando na minha cara.
— Parem já os dois!–Interrompeu Lívia – Subam e lavem o rosto para almoçar.
Suspirei alto me levantando e subindo as escadas, sendo seguida por um Damon zangado, que resmungava algo sobre me matar se não sobrasse salpicão para ele.
Quando terminava de lavar meu rosto, Damon jogou mais sabonete líquido em mim, mas o que era para ser apenas uma brincadeira deu errado, pois ele havia jogado em meus olhos, causando uma terrível ardência.
Ele então se apavorou, pegou meu rosto entre as mãos e de algum modo jogou bastante água em meu rosto, soprando fortemente o local agora sem sabão.
— Está doendo muito Lena? – Perguntou próximo a meu rosto.
— Já passou –Disse me soltando de suas mãos e indo para a porta.
— Está brava comigo?
— Não –Respondi encostando-me no batente da porta –Lave o rosto logo, estou com fome.
Quando ele terminou de fazer o que eu havia ordenado me virei e comecei a descer a escada de dois em dois degraus não me importando se Damon me seguia ou não.
—Hey – Chamou puxando meu braço – Não fique brava, foi só uma brincadeirinha.
— Não estou brava, estou com fome – Argumentei sorrindo.
Ele então sorriu e passou seu braço em meu ombro, me arrastando para a cozinha e me fazendo sentar do seu lado.
— Ainda tem salpicão né?–Perguntou ameaçador a sua mãe.
— Sim Damon – Respondeu Lívia paciente – Você sabe que não gosto disso, seja bonzinho e divida com Elena.
Ele assentiu e esperou que eu colocasse comida no meu prato para me dar metade do salpicão da pequena bandeja.
Assim que terminamos de comer, Lívia colocou enormes formas de vidro sobre a mesa e ao tirar o papel alumínio de cima delas eu soube que amava a mãe de Damon, a torta de nozes e o sorvete de chocolate pareciam gostosos só de olhar.
Os olhos de Damon pareciam com os olhos de uma cobra prestes a dar o bote e o foi o que ele fez assim que Lívia nos deu uma colher e um pires a sobremesa.
—Calma Damon!Eu também quero! – Reclamei tentando pegar a espátula de sua mão.
Ele esbravejou e me deu a espátula voltando a se sentar e começando a comer. Peguei um pedaço de torta e uma grande colherada de sorvete e o arrastei para a varanda.
—Lena – Disse ele sofrido – Assim nós vamos ficar longe da torta!
Dei-lhe outro tapa na testa, sabendo que ele não revidaria dessa vez – Damon podia ser vingativo, mas não há nada na vida que o faça desistir de algo senão uma torta – e me sentei no chão.
Ele então se sentou na escada e me encarou enquanto mastigava, sorri negando com a cabeça e tomei uma enorme colherada de torta misturada com sorvete.
* * * * * * * * * *
Depois de alguns minutos vendo Damon discutir a sua mãe que ele era o homem da casa, resolvi vir embora, ele me trouxe até a porta e prometeu que mais tarde voltaria.
Sem mais o que fazer peguei um dos livros que há meses enrolava para ler e me sentei no sofá apreciando, por alguns segundos, o silêncio que corria pela casa.
Chegava à página cinqüenta do livro quando Damon entrou sem bater.
—O que você está fazendo? – Pergunta ele curioso.
—Estou lendo. Não é óbvio?
Ele então olhou para a capa do livro e sorriu, me tirando do sofá por alguns instantes e se esticando sobre o mesmo.
—Posso ler com você? – Perguntou abrindo suas pernas para que eu me sentasse entre elas e apoiando suas costas no braço do sofá.
—Tudo bem – Assenti me encaixando nele.
Ele então tocou minha cintura com a mão direita, apoiando o queixo em meu ombro e leu junto a mim a página cinqüenta e um de Marley e Eu.
—Eu já li esse livro – Disse depois de alguns instantes – É triste.
Assenti para ele, virando a página e coçando meu maxilar.
Damon então suspirou e tocou minha cintura novamente, me causando um leve arrepio, ele deve ter percebido, pois tocou novamente minha cintura, mas não teve o efeito desejado. Mas ele não estava satisfeito com uma só reação, ele subiu seus dedos por minhas costas e tocou minha nuca, me fazendo sentir o sorriso satisfeito cobrir seu rosto ao ver meu arrepio.
—Fiquei com dó quando o Marley morreu – Suspirou – Eu sabia que ele ia morrer, mas não sabia que iriam sacrificar ele.
Suspirei irada e joguei o livro na mesinha de centro, me levantando e o encarando raivosa.
—Por que diabos você me contou! – Gritei – Isso é SPOILER! Agora eu não quero mais ler!
—Ah Lena, não seja dramática!–Riu ele – Eu só falei por falar, e outra, você ia chorar, só estou te prevenindo.
Neguei com a cabeça e o enchi de tapas até derrubá-lo no chão e enchê-lo de cosquinhas.
Ao vê-lo se debater implorando para que eu parasse senti um prazer quase sádico e me impulsionei para ele e me deliciando com o sabor da vingança.
Mas isso não durou muito tempo, Damon era mais forte e em um piscar de olhos quem estava por baixo era eu, sendo presa pelas mãos de Damon e por seus olhos, que passaram de azul-claro para azul-mar.
Ri me jogando para ele fazendo com que suas mãos me libertassem, mas com que seu corpo se prendesse ao meu. Ele fortemente segurou minha cintura e apoiou seu queixo em meu ombro.
O meu sorriso sumiu no mesmo instante, tudo que eu podia sentir era o corpo de Damon, a sensação quente voltara, só que dessa vez intensificada, como se fizesse cinqüenta graus lá fora.
— Eu gosto disso – Sussurrei para ele.
— O que?– Perguntou sem se mexer.
— O modo como me sinto feliz quando estou em Chicago –Murmurei – É como se o inferno que tenho que suportar durante o ano valesse a pena.
— E vale?–Perguntou me olhando.
— Vale — Disse assentindo.
Ele então voltou a me abraçar e sussurrou algo desconexo.
Tudo correu bem naquele dia, Damon e eu fizemos maratonas de séries variadas e no fim Alaric acabou se juntando a nós com um imenso balde de pipoca.
Definitivamente aquelas eram as melhores pessoas do mundo. Claro, eu devia acrescentar Lívia a essa lista e assim o fiz enquanto sorria satisfeita ao lado de meu pai e de Damon.
Três semanas depois minha mãe ligou dizendo que eu teria que voltar mais cedo dessa vez, pois John teria que viajar a negócios e ela tinha medo de ficar sozinha.
Infelizmente, Alaric não pode argumentar e eu não tive outra saída a não ser concordar.
Sai de casa transtornada indo até a casa de Damon e tocando furiosamente a campainha, mas, para minha surpresa, quem atendeu foi Lívia.
— Elena! –Sorriu –Entre.
Ela me deu espaço esperando que eu me sentasse no sofá para fechar a porta.
— Onde Damon está? – Perguntei ansiosa.
— Ele saiu – Disse ela se sentando ao meu lado – Acho que vai demorar.
—Ah tudo bem então – Levantei-me – Já vou indo.
Ela segurou meu braço e me forçou a encará-la, me olhando com um olhar protetor de mãe e perguntando:
— O que aconteceu?
—Vou ter que ir embora mais cedo – Suspirei – Meu padrasto vai viajar e minha mãe não quer ficar sozinha.
— Ah minha querida – Ela me puxou para si me abraçando forte e beijando minha cabeça – Eu estava planejando sair com você e Damon semana que vem.
— Vamos ter que deixar isso para o ano que vem.
Ela suspirou e deixou que eu me levantasse e depois de me encher de biscoitos e muffins feitos por ela, disse-me tchau e me acompanhou até a porta.
Já de noite, Damon me mandou uma mensagem pedindo para que eu saísse no quintal.
O encontrei parado na grama segurando um pequeno labrador amarelado com um enorme sorriso no rosto.
— Ai que bonitinho Damon – Disse chegando mais perto e acariciando o cachorro.
— Emprestei um pouco da minha beleza para ele – Se gabou.
Gargalhei alto e peguei o cachorro de seu colo me sentando na grama e o puxando junto comigo, induzindo o cachorrinho a mordê-lo.
— É seu – Ele disse.
O encarei surpresa tentando ver se não era nenhuma brincadeira, ao constatar que não, joguei-me em seus braços, deixando que o cachorrinho mordesse a ponta de meus cabelos e que Damon retribuísse o abraço.
—Sabe – Disse ele assim que o soltei – Me senti culpado quando contei o final do livro para você, eu também gostava do Marley, foi meio que...Como se eu tivesse acabado com você, e isso não é… Agradável para mim… Sei lá… Parecia que eu tinha ferido você, quando fui dormir lembrei que você é muito sensível e achei que devia consertar.
— Então você está me dando um Mini-Marley?
Ele assentiu e acariciou a cabeça do cachorro.
— Obrigado Dam –Disse o abraçando novamente e enchendo seu rosto de beijos.
— Minha mãe me contou que você vai embora amanhã – Suspirou ele triste.
—É, minha mãe as vezes copia a chatice de John.
Ele riu baixinho e me abraçou apertado, não se importando que o pequeno cachorro mordesse sua jaqueta.
No outro dia Alaric e Damon me levaram ao aeroporto e esperaram a meu lado a chamada de embarque, Marley já estava na área para animais do avião, mais imperativo que nunca, disse a aeromoça.
Despedi-me de Alaric e andei até Damon, que andou silencioso comigo até chegarmos em frente ao portão.
— Se cuida – Pediu ele.
— Ok – Assenti – Você também. Vou sentir sua falta.
— Eu também...
Ele então me abraçou, subindo e descendo sua mão por minhas costas. Nesse momento tive vontade de chorar, pois eu queria ficar com ele durante os nove dias de férias que ainda me restavam.
— Você vai vir me buscar ano que vem não vai? – Pedi chorando.
— Claro que vou. Eu prometo.
Ele então se afastou e secou minhas lágrimas, sorrindo e olhando para Alaric que na mesma hora que Damon o encarou, virou o rosto. Damon esperou para ver se ele olharia de volta e então me deu um breve beijo em minha bochecha, sorrindo e encostando sua testa na minha.
Quando foi anunciada a última chamada do vôo, desgrudei minha testa da sua e lhe sussurrei:
— Até Dam...
— Até Lena. –Disse ele soltando lentamente minha mão.
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