Dos Tons Pastel Ao Vermelho
19 Capítulo 19
Notas iniciais
"Rachel, eu não te chamei aqui hoje só pra gente beber e se divertir, e sim porque a gente precisa fazer uma intervenção urgente na Kitty." Harmony informou, logo que o garçom do bar colocou os drinques das três garotas sobre a mesa.
"Eu já te dei todos os meus cartões de crédito e até os talões de cheque!" A loira reclamou, dando um bom gole em seu Dry Martini.
"Mas nós não vamos poder deixar você sem cartões ou cheques a vida toda! Você tem que retomar o controle da situação." Observou a amiga, preocupada.
"Eu concordo com a Harm, Kitty. Se você continua comprando compulsivamente, sempre que pode, tem que achar um jeito..."
"...de mudar isso. Eu sei! Depois que eu entreguei tudo, eu tive uma sessão de terapia e falei sobre isso. A minha analista já identificou a origem do problema." A menina interrompeu Rachel, com o ar cansado de quem já falou sobre o mesmo assunto repetidas vezes.
"Até eu identifiquei a origem do problema, amiga. O seu pai te cobriu de presentes... te deu tudo que o dinheiro podia comprar, pra tentar fazer você se sentir melhor, depois de tudo que você passou, e isso fez você se acostumar a tentar preencher a sua vida com coisas." Harmony diagnosticou, como se fosse uma especialista, e acertou.
"E isso piorou quando eu resolvi não ser mais dominadora. Ela me explicou que escolher um monte de coisas e torná-las minhas, mesmo que eu não use quase nada depois, também faz com que eu me sinta poderosa." Completou a grande gastadora.
"Será que não é melhor você voltar pro clube, então?" Arriscou Rachel, sem entender muito dessas coisas de traumas e suas consequências. Não sabia lidar nem com os dela própria e tinha dificuldade de se submeter a tratamentos, vendo sua vida, dores e medos darem origem a teorias que considerava mirabolantes.
"O que a sua terapeuta disse sobre isso?" Harm questionou.
"Que não. Eu não devo voltar." Suspirou. "Eu consegui passar a ter uma vida sexual normal, sem a necessidade de maltratar ninguém pra gozar, e ela acha que eu não devo fazer um retrocesso nisso. E eu concordo com ela que eu tenho que acabar com a compulsão por compras, sem voltar pro sadomasoquismo, porque eu quero um namorado agora! Eu quero me apaixonar, me casar um dia, ter uma família. Eu já disse isso pra vocês."
"Você tem razão." Rachel sorriu de forma cúmplice. "O que a gente pode fazer pra ajudar, então?"
"Por enquanto, vocês podem ficar com os cartões e os cheques. Ela me pediu pra ir algumas vezes ao shopping sem ter como comprar."
"Será que isso vai dar certo?" Duvidou Harmony.
"Eu acho que eu não vou chegar ao ponto de roubar nem nada, mas só indo pra saber, né?" Fez graça do próprio problema. "E eu não vim aqui só pra levar sermão, por mais bem intencionadas que sejam as minhas amigas. Eu quero saber do seu final de semana, mocinha." Cutucou Rachel, na altura da costela, fazendo cócegas. Ela tinha prometido falar da viagem que fizera com Finn, quando as três se encontrassem durante a semana seguinte.
"Eu me declarei pra ele." Sorriu timidamente. Quando o assunto era dominação, ela podia ser atrevida, mas, quando se tratava de sentimentos verdadeiros, ficava estranhamente encabulada, como se fosse uma menina ingênua.
"Como assim, menina? Conta isso direito!" Kitty riu, percebendo o jeito diferente dela.
"Ele me fez sentir segurança em relação aos sentimentos dele, e eu achei que ele merecia ouvir, finalmente, um 'eu te amo' também." Deu de ombros, como se não fosse grande coisa.
"Mas e a viagem? Como foi?" Harm quis saber.
"Foi maravilhosa! Melhor do que eu poderia imaginar." Afirmou, contando detalhes, primeiramente, sobre o momento mais desagradável do final de semana, quando passara mal, e a contrapartida deste, que foi ter sido socorrida por um atencioso e preocupado Finn. Em seguida, falou sobre os cuidados que ele teve com ela, depois da volta do hospital e, finalmente, sobre os momentos que sucederam o passeio de moto em que ela declarou seu amor.
Depois de mostrar um pouco mais da cidade ao namorado, passando, inclusive, pela universidade em que estudara, e que fora, portanto, a razão para ela ter comprado uma casa no local, Rachel voltara ao imóvel. Finn a levara até o quarto no colo, colocando-a na cama e fazendo amor com ela, sem pressa. Nunca tinha sido tão suave e calma uma transa entre os dois como a daquela tarde, que marcou o fim das resistências de Rachel em se entregar de alma e coração a ele. O corpo apenas acompanhara o ritmo e a intensidade ditadas por estes, que estavam, mais do que tudo, encontrando uma paz que sequer sabiam almejar.
Haviam adormecido um nos braços do outro e ela despertara com o cheiro de comida caseira invadindo suas narinas, e fazendo com que perguntasse a si mesma se poderia ter encontrado homem mais perfeito. À meia luz, proporcionada por apenas um abajur aceso no quarto, pode vê-lo chegar, carregando uma bandeja com os pratos dos dois e duas taças de vinho, que eles saborearam sem que ela precisasse sair de baixo dos lençóis.
Mesmo com preguiça, tinham decidido, mais ou menos uma hora depois, sair um pouco da casa e beber algo em um bar, onde também jogaram sinuca, com um casal simpático com quem fizeram amizade rapidamente. Não havia uma pista de dança no lugar, mas os mais românticos se moviam lentamente, juntos, ao som de canções escolhidas em uma Juke Box, antiga mas em pleno funcionamento, e Rachel não sossegou até convencer Finn a selecionar uma para os dois.
It's amazing how you can speak right to my heart
Without saying a word, you can light up the dark
Try as I may I can never explain
What I hear when you don't say a thing
The smile on your face lets me know that you need me
There's a truth in your eyes saying you'll never leave me
The touch of your hand says you'll catch me wherever I fall
You say it best when you say nothing at all
(É incrível como você consegue falar direto com o meu coração
Sem dizer uma palavra, você pode iluminar a escuridão
Posso tentar quantas vezes quiser, mas não consigo explicar
O que eu ouço quando você não diz nada
O sorriso em seu rosto permite-me saber que você precisa de mim
Tem uma verdade em seus olhos dizendo que nunca me deixará
O toque de sua mão diz que você vai me pegar sempre que eu cair
Você diz o melhor quando você diz nada)
Eles dançaram, escutando a bela voz de Ronan Keating pronunciar cada palavra daquela letra linda, que acompanhava uma gostosa melodia, e, felizmente, só foram tirados de seu universo particular quando When you say nothing at all já chegava ao seu final. Ambos ouviram o nome de Rachel ser chamado e olharam na direção da voz, vendo um rapaz loiro, alto e forte sorrir, simpático.
"Billy Morgan?" Rachel cumprimentara, animada, saindo dos braços de Finn, que não gostou nem um pouco da atitude.
"Rachel Berry!" O rapaz a abraçara, rapidamente.
"Você ficou morando aqui mesmo?"
"Fiquei, sim. Eu gerencio o maior mercado da cidade. Se precisar de alguma coisa, é só nos chamar." Brincara.
"É bom te ver, Billy." Ela falara, com sinceridade, mas sem prolongar a conversa, voltando para o abraço de Finn e começando a dançar a próxima música, que alguém já tinha colocado para tocar. O outro rapaz tinha ido, então, em direção ao bar e pedido uma bebida.
Totalmente alheia ao semblante sério de Finn, Rachel pedira mais duas cervejas ao garçom e colocara uma moeda na máquina, programando All of Me para ser a próxima canção. Ele ficara um pouco tenso e distante, de início, e ela, assim, percebera a mudança de atitude, começando a ficar preocupada. No entanto, ele logo a surpreendera, ao segurá-la com mais força pela cintura, apertando o corpo dela contra o seu, ao mesmo tempo em que beijava seu pescoço.
'Cause all of me
Loves all of you
Love your curves and all your edges
All your perfect imperfections
Give your all to me
I'll give my all to you
You're my end and my beginning
Even when I lose I'm winning
'Cause I give you all of me
And you give me all of you
(Porque tudo de mim
Ama tudo em você
Ama suas curvas e todos os seus limites
Todas as suas perfeitas imperfeições
Dê tudo de você para mim
Eu te darei meu tudo
Você é o meu fim e meu começo
Mesmo quando perco estou ganhando
Porque te dou tudo de mim
E você me dá tudo de você)
Finn havia cantado um trecho da música no ouvido de Rachel, ao mesmo tempo em que uma de suas mãos adentrava a blusa dela, alisando suas costas. Segurara firme em sua nuca e buscara seus lábios, beijando-a sem cerimônia alguma. Com dois passos largos, estava se encostando à lateral da Juke Box, ainda abraçado a ela e com a língua a explorar toda a sua boca. A dança fora esquecida e os dois entraram em um mundo só deles de novo, mas um bem menos romântico e mais sensual.
"O que foi isso, bebê?" Ela perguntara, ao pararem para respirar.
"Eu só amo você, Rachel."
"Você nunca me agarrou tanto assim em público, hum? Fala, amor!"
"Okay. Talvez eu quisesse que vissem que você é minha."
"Vissem?"
"Quem é aquele cara? Billy?" Tinha falado, enfim, depois de hesitar um pouco. "Um ex-namorado?"
"Você sabe que eu nunca tive na-"
"Um ex-submisso?"
"Finn!" Não tinha conseguido não rir do jeito dele. "Ele foi meu colega de faculdade. Só isso! Nós nunca tivemos nada e eu não o vejo há anos." Na época em que vivera naquela cidade, Rachel tinha saído, sim, com alguns caras. Fora naquele lugar que ela perdera a virgindade, depois de muita pressão de amigas, que não entendiam porque ela não queria fazer sexo, por não conhecerem sua história. Jamais havia, porém, sequer cogitado ter algo com Billy, visto que preferia os mais fracos.
"Ele não para de olhar pra você!" Dissera, abraçando-a ainda mais. "E eu não gosto disso."
"É muito irônico que você sinta ciúmes, justo no dia em que eu disse que te amo, Finn. Eu te amo muito e pouco me importa quem está me olhando, mas, se você quer que vejam o quanto eu te amo..." Ela o havia puxado pela gola da camisa, juntando suas bocas outra vez, em um beijo urgente.
Não tinham demorado no bar, depois disso, pois o que queriam realmente fazer um com o outro demandava privacidade, e eles a teriam em casa, no sofá da sala, na cadeira da varanda, na cama macia de casal. O Finn ciumento se mostrou tão intenso quanto a Rachel possessiva, pedindo, todo o tempo, que ela dissesse que o amava e que eram só dele seus beijos, seus toques, seu corpo e seu prazer.
Para contar tais coisas às amigas, Rachel não era nada tímida, e as duas jovens estavam suspirando de vontade de ter um namorado como Finn, quando o mesmo chegou, acompanhado do primo e de um amigo deste, interrompendo a conversa. Era sexta-feira, o casal tinha combinado de se encontrar no bar, quando ele fosse liberado de uma reunião, e eles acabaram decidindo que já era hora de parar de evitar encontros entre Harmony e Rory.
"A nossa avó quer te conhecer, Rachel." O garoto irlandês falou, sem introduções, pouco depois de ter ocupado uma cadeira em frente à dela.
"Rory!" Finn repreendeu, mas ele deu de ombros. "Eu ia falar com você com calma, mais tarde." Dirigiu-se à namorada, enquanto o primo se ocupava em mostrar uma menina ao amigo.
"O que ela disse?" Perguntou, curiosa.
"Ela disse exatamente isso: que quer te conhecer. Mas tudo bem, se você não estiver confortável com isso, Rach. Eu não vou ficar chateado, e posso arrumar uma boa desculpa."
"Eu gostaria de conhecer os Hudson, Finn. A não ser que você ache cedo." Ponderou.
"Não." Sorriu. "Por mim, nós já teríamos ido até lá... você sabe. Posso marcar um almoço, no domingo, então?" Ela assentiu e ele beijou seus lábios delicadamente, mostrando que estava grato pela disponibilidade dela em conhecer sua família.
Rachel ficou nervosa o resto da noite, sem saber que tipo de roupa vestir e o que levar para os avós de Finn, e preocupada com o tipo de conversa que os parentes de um rapaz poderiam ter com uma nova namorada. Soube disfarçar muito bem, mas o encontro não saiu de sua cabeça um só momento, a não ser quando chegaram ao apartamento dela e fizeram sexo sobre a bancada da cozinha.
Finn deixou que Rachel comesse algumas uvas, mas logo começou a abrir os botões do vestido chemise que ela usava e atacou seu colo com os lábios. Segurou um dos seios, ainda cobertos, e apertou o traseiro durinho com a outra mão, enquanto sua língua molhava um pouco a renda do sutiã. Encostou, no abdômen dela, seu membro já ereto, fazendo a garota estremecer e largar o cacho da fruta de vez. Então, livrou-se do vestido e sentou a morena na bancada, arrancando a própria blusa, antes de trocar um beijo lascivo com ela, que começou a abrir seu cinto. Terminou o serviço, vendo-se livre da calça, e tirou os sapatos, usando apenas os próprios pés, enquanto beijava os dela, já descalços.
Ela mesma tirou o sutiã e levantou o quadril, para que ele puxasse sua calcinha. Já a cueca dele desceu apenas até o joelho, graças à pressa com que ela o puxou para perto, pedindo para tê-lo dentro de si, de uma vez. E, como acontecia normalmente na primeira vez em que transavam durante um certo dia, o ponto alto do prazer não tardou a chegar para nenhum dos dois. A diferença foi que, naquela noite, as preocupações na cabeça de Rachel não permitiram que ela aproveitasse direito uma segunda.
"Eu to mesmo bem, Finn?" Questionou, tensa, observando-se no espelho, quando enfim chegou o domingo. Era a quarta vez que ela repetia a pergunta, e ele revirou os olhos. Já eram quinze para o meio dia e, se não saíssem logo, chegariam atrasados.
"Você tá linda, bebê!"
"Eu não quero saber se eu to linda. Quero saber se estou adequada pra conhecer os seus avós!"
"Você tá elegante, discreta. Você tá perfeita, Rach! Vamos, por favor!"
"E o vinho? Seu avô gosta mesmo de vinho tinto?" Ele assentiu, rindo. "E as flores? Eu gosto muito de lírios, mas talvez tivesse sido melhor se..."
"Rach..." Ele segurou as mãos dela, que o encarou, respirando fundo.
"Desculpa. Eu to surtando, né?" Foi a vez dela de rir. "Eu só... nunca passei por isso e não quero te decepcionar."
"E você não vai." Ele assegurou, soltando uma das mãos dela e pegando a garrafa de vinho, que o avô dele garantiu ser perfeito como acompanhamento da carne preparada pela esposa, e abriu naquele mesmo começo de tarde, enquanto a senhora distinta colocava as flores em um vaso de cristal, elogiando-as e comentando que, na China, sonhar com lírios significa previsão de casamento próximo.
Casamento, aliás, que seria umas das palavras-chave para que aquele almoço, mais tarde, não pudesse ser considerado verdadeiramente perfeito!
O problema não foi estar com os avós de Finn, que eram pessoas simpáticas, amáveis, educadas e cultas, com quem foi fácil conversar por quase toda a tarde. Além disso, eles a deixaram muito à vontade, não parecendo se importar, nem um pouco, com o fato de Rachel ser dona da empresa em que o neto deles trabalhava. Então, a jovem não sentiu o tempo passar e, quando agradeceu pelo almoço e prometeu visitá-los outras vezes, o prazer em sua voz não foi fingido.
A questão foi que, como qualquer família, eles desejavam ver Finn se casar e ter filhos e, ao encontrar com a pessoa com quem ele estava mantendo um relacionamento sério, naturalmente deixaram essa vontade transparecer. Enquanto Rachel, por sua vez, tendo vivido nas condições em que vivera nos últimos anos, jamais pensara em formar uma família e, naquele momento, ela ainda não tinha como afirmar se isso seria possível.
A garota tinha absoluta certeza de seu amor por Finn Hudson. O que ela não sabia era se o amor realmente é capaz de solucionar tudo, ou se, na realidade, ele pode acabar trazendo ainda maiores problemas.
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