Donzela Guerreira
15 O primeiro treinamento
Notas iniciais
Capítulo 15

O primeiro treinamento
— Te levante, moça preguiçosa! — gritou James para Lily, despertando-a com um sobressalto — É o amanhecer!
Ainda antes que ela abrisse os olhos, sua mão instintivamente se dirigiu para debaixo do travesseiro procurando uma arma, mas voltou vazia.
— Onde está minha adaga? — murmurou a ruiva enquanto James abria as portinhas, permitindo que a luz do sol nascente entrasse.
— Dormiu com um Cavalheiro da Ordem te custodiando, não necessita uma adaga.
Ela franziu o cenho, mas estava muito dormida para discutir. Sentou-se, seus olhos só ao meio abrir, seu cabelo eram uma massa desordenada, e seus ombros estavam deliciosamente nus. James desceu seu olhar. Tinha tido uma larga noite observando a sua tentadora esposa dormindo enquanto ele jazia a uns poucos centímetros, insone e frustrado, e tinha chegado à conclusão de que só se torturava a si mesmo desejando-a. Aparentemente, pela conduta dela na noite anterior Lily não estava igualmente atormentada. Podia experimentar uma certa medida de desejo feminino, podia sentir luxúria, mas ela conseguia negar-se ao desejo como a um monge castrado.
Muito bem, ele decidiu. Se Lily queria negar seu feminilidade, se queria ser tratada como um homem, se não queria nada dele mais que uma aliança política, então, maldita moça, isso seria o que ele faria. Ignoraria os limites do corpo feminino, esqueceria que ela era sua esposa. Ela não seria diferente que seus outros cavalheiros. Não importava quão difícil fora de fazê-lo.
— Estarei no campo de treinamento, não demore, tenho um dia muito ocupado.
Antes que ele abrisse a porta para ir-se, Lily estava fora da cama e com entusiasmo procurava os protetores da armadura para o peito. James não se atreveu a girar-se para olhar. Sabia que ela estava gloriosamente nua. Se olhasse, nunca chegariam ao campo de treinamento.
Ele estava ainda terminando seu café da manhã de bolachas e cerveja no campo de treinamento, brincando com a lança em sua mão, quando Lily chegou apressadamente até o portão. Como obtinha a moça fazer que a cota de malha parecesse feminina, não sabia, mas luzia tão desejável como uma deusa de Atenas, correndo para ele.
A manhã se foi passando com a prática de exercícios militares. James acreditava que nunca tinha trabalhado com um soldado mais dedicado ou mais ávido de aprender que Lily. Treinaram juntos por mais de uma hora, e ele não teve piedade dela, a fez fazer quão mesmo fazia com seus escudeiros. A fez levantar baldes de água para aumentar a força de seus braços. Ensinou-lhe como lançar seu corpo para diante nos saltos para obter mais força. E lhe ensinou uns truques de defesa com o escudo que ela não conhecia.
Mas James aprendeu dela, também. Lily possuía uma velocidade e uma astúcia que ele nunca tinha visto em um homem. Ela brigava com um instinto sobrenatural, e compartilhou com ele um par de truques que ela tinha aperfeiçoado enfrentando a muitos oponentes.
Por ser um homem acostumado a fazer só uma coisa com uma mulher, James estava surpreso de encontrar que desfrutava da companhia do Lily. Finalmente uma pequena multidão se reuniu por fora da cerca. Cavalheiros com armaduras esperando para entrar em campo, observando o curioso combate. Mas embora os braços de Lily tremessem e suas pernas quisessem paralisar, ela se negou a deter-se.
— Vem! — a ruiva conteve a respiração — Avança para mim outra vez!
James sorriu e sacudiu a cabeça. A donzela guerreira estava tão concentrada quanto um sacerdote em um quarto cheio de prostitutas. Ele duvidava que ela tivesse notado a audiência que os observava.
— Uma vez mais, mas este será o último round.
De acima de seu ombro, James vislumbrou brevemente aos homens de Hogwarts, os homens de Lily, observando a briga com genuíno interesse. Por cortesia, ele não envergonharia à moça derrotando-a diante de seus homens. E entretanto tampouco queria ser visto cair debaixo da espada dela, não queria que os homens perdessem fé nele. De algum jeito devia manter a honra de todos intacta.
Com um pícaro sorriso, tirou-se o elmo, atirou-o a um lado. Naturalmente, por cortesia, ela fez o mesmo. Seu pulso se acelerou quando olhou sua cara, ruborizada com uma fina capa de suor e seus lábios partidos com uma respiração agitada. Sua expressão era uma reminiscência de uma mulher excitada. Era impossível imaginá-la como um soldado. Endurecendo sua determinação, ele fez a saudação inicial e se posicionou para começar.
Combateram avançando e retrocedendo, James foi cuidadoso de não tirar vantagem. Sabia que Lily finalmente recorreria a um de seus truques. Ainda quando sabia o que viria, não podia evitar ser vítima de uma rasteira que ela deslizou detrás de seu calcanhar. Tropeçou-se e caiu pesadamente de costas. Do outro lado da cerca, podia ouvir respostas diversas dos homens, chiados de aprovação dos de Hogwarts, e expressões de desgosto de seus próprios cavalheiros. Jazeu ali, tossindo pelo pó, enquanto Lily apoiava um pé sobre seu corpo em sinal de triunfo.
Então cometeu o engano de baixar seu braço para ajudá-lo a levantar-se.
Com calculado propósito, lhe apanhou a mão e a puxou para cima dele, travou sua cabeça com um braço e lhe plantou um grande e úmido beijo em sua boca.
Todos riram então.
James teria terminado aí. Mas depois de seu choque inicial, Lily, inflamada pela batalha ou pelo desejo ou pela intenção de empatar sua audácia, respondeu com outro beijo com uma paixão tão veloz e feroz como sua capacidade para combater. Apertou a cabeça dele contra o chão e abriu seus lábios para apoiá-los contra os de James, procurando com sua língua a profundidade de sua boca.
Isto não era brincadeira. O sangue de James, quente pelo combate, irrigou a zona no meio de suas pernas de um modo infernal. A multidão desapareceu de sua consciência enquanto a mais pura luxúria o dominou. Lily também pareceu não dar-se conta do resto do mundo rodeando-os. Gemidos nascidos da garganta dela despertaram a besta dentro dele. Uma gota do suor dela rodou para sua cara e enquanto suas bocas unidas falavam uma linguagem comum, a linguagem do desejo. E esse desejo, aí no duro chão do campo de prática, foi tão furioso e violento como um combate entre cavalheiros.
O agudo chiado do portão trouxe James de volta a consciência. Separou sua boca da dela. Por um instante, ele pensou ter vislumbrado uma breve decepção em seus olhos. Jesus! Era possível? Ela estava decepcionada? Verdadeiramente o desejava? Uma doce esperança encheu seu coração. Então ela, quem também ouviu os intrusos, lançou um suave gritinho de assombro. James a soltou, e ela ficou de pé, ruborizando-se furiosamente. Antes que ele pudesse lhe sussurrar um adeus, ela rapidamente juntou suas armas e saiu correndo do campo.
— Bom combate, senhor! — alguém passou.
— Bem feito, meu lorde! — disse outro.
James ficou de pé e lançou um último e longo olhar para sua esposa. Não era mera luxúria o que ele sentiu ao observá-la, deu-se conta disso. Não, era um sentimento mais profundo que isso. Por todos os Santos! Admirava-a.
— Se vós cavalheiros tivessem tanta devoção pelas práticas como minha esposa, nenhum exército se atreveria a aproximar-se de Hogwarts — disse enquanto ela se afastava.
Felizmente Lily tinha desaparecido no momento em que Sir Diggory brincou.
— Se ganhássemos um beijo, meu lorde, talvez gostaríamos mais das horas de prática.
— Cinquenta levantamentos de baldes, todos! — James ordenou e os homens gemeram.
Os dedos de Lily sobrevoaram sua boca enquanto se apressava para a fortaleza. Seus lábios ainda estavam úmidos, ainda estavam quentes. Por Deus! O que tinha acontecido? Em um momento estava combatendo com James com toda sua ferocidade, e ao seguinte, encontrou-se a si mesmo reagindo a seu beijo com o mesmo ardor.
E agora tinha ouvido James elogiando-a ante seus homens. Para sua consternação, um rubor de prazer cresceu em suas bochechas. Era absurdo! Ela nunca tinha necessitado que um homem lhe dissesse que ela era capaz como guerreira. Além disso, ele era um libertino que faria algo para lhe roubar um beijo, que o diabo amaldiçoasse sua habilidade, um beijo que deixava um sabor prazenteiro em seus lábios. Mas enquanto brigava com ele, ela tinha dado conta de algo que não tinha notado no quarto, algo que lhe queria negar ao invasor Normando, algo que ela já não podia ocultar-se: Respeitava James.
Tanto como ele a enfurecia com sua petulância, sua cruel sedução e seus impiedosas humilhações, ela o respeitava. Ele era um homem de força, um guerreiro incomparável, é obvio. Mas ele era também um homem de honra e justiça. Diplomático e dedicado. Um modelo de cavalheirismo. Curiosamente, ela desejava impressioná-lo. Que um homem assim a elogiasse publicamente era uma grande honra sem dúvidas.
Que um homem assim a amasse…
Não! Tinha que pensar que era só um beijo. Um beijo roubado por diversão. Qualquer um que acreditasse que isso era afeto seria um tolo. Além disso, ele era um homem tão dedicado às questões de guerra que não tinha tempo para o amor. Para a luxúria, sim, mas não para o amor. Não importava que ela tivesse vislumbrado brevemente algo suspeitosamente próximo ao afeto em seu olhar. Essas emoções podiam ser fingidas.
Era suficiente com que lhe expressasse certo nível de respeito. Com respeito mútuo, poderiam ter um bom matrimônio. Mas, ela considerou, haviam muitos homens que respeitava. Nenhum deles nunca tinha feito seu coração pulsar tão temerariamente. Era uma coisa perigosa este afeto. Tinha perdido o controle no campo, tudo por causa desse beijo. Se ela se derretia com o mero contato de seus lábios, como ia endurecer-se e proteger-se contra contatos mais íntimos? Devia é obvio, brigar com ele, cada vez, em cada situação. Embora ela tenha cedido o comando do exército a James, não lhe cederia o controle de Hogwarts.
Nunca.
Como testemunho dessa promessa, Lily tinha a intenção de dedicar o resto do dia a ajudar Dorcas resolver assuntos da casa. Com o agregado de tantos normandos a Hogwarts, havia provisões que comprar e novos serventes que dirigir, além dos conflitos usuais que ocorriam entre a gente do castelo e os granjeiros que precisavam ser resolvidos.
Mas para a exasperação de Lily, quando se dispunha a dar ordens, descobriu que James já tinha colocado suas garras nos tarefas de Hogwarts. Quando ela ordenou a um par de serventes escoceses sacudir o pó das tapeçarias, eles lhe disseram que James já lhes tinha dado essa ordem. Quando ela tratou de que três servas normandas ficassem a remendar roupa, elas protestaram dizendo que James lhes tinha ordenado lavar os lençóis. Os ajudantes da cozinha tinham sido mandados ao lago para pescar. Por ordem de James. O homem parecia dar ordem contrária a cada um de seus comandos. Havia designado aos serventes de modo caprichoso.
Trocado os móveis de maneira caprichosa, e para seu horror, já tinha derrubado várias paredes. Tinha visto o pior de sua interferência quando descobriu a cabana do ferreiro demolida. Mas nada a podia preparar para espetáculo que tinha lugar no jardim. Uma pequena multidão circundava o poste de castigo do castelo. Ela franziu o cenho. Esse poste rara vez era usado. Em Hogwarts, a desobediência era castigada atribuindo tarefas disciplinares para os ofensores ou pondo multas muito altas. Tratando de olhar entre a gente, Lily viu dois jovens moços no poste para serem açoitados. Suas camisas penduravam abertas, despindo suas costas, ainda sem marcar. Tremiam de medo enquanto o verdugo agitava o látego através do ar.
Lily não podia ver as caras dos moços, mas seu coração se oprimiu quando imediatamente reconheceu os cabelos vermelhos. Maldição!
James agitou o açoite uma vez mais no ar, preparando-se para levar a cabo o castigo do primeiro jovem. Mas sua mão foi detida por um chiado feminino.
— Não!
James suspirou. Já era uma tarefa suficientemente pesarosa ter que machucar a esses moços cujas costas provavelmente nunca haviam sentido um açoite antes.
— Detenha! — ela gritou.
Ele se deu volta para o som com um desaprovador grunhido, então amaldiçoou entre dentes. Era Lily, abrindo-se caminho através da assombrada multidão com toda a fúria de um Viking. Seus punhos se esticaram no açoite. Por que tinha que aparecer justo agora? Por que tinha que desafiá-lo a cada instante ?
— Te retire! — ele replicou.
— Maldição! O que crê que está fazendo? — ela reclamou.
— Esposa! — ele ordenou — Fora de meu caminho.
A audaz moça ignorou sua advertência. Lançando-se para frente, pôs seus braços ao redor do mais jovem dos moços, protegendo-o com seu corpo.
— Não — ela disse por cima de seu ombro.
Um homem com menos piedade teria deixado que a primeira chicotada recaísse nas costas da rebelde para lhe ensinar uma lição a respeito da insubordinação. Mas o cavalheirismo de James salvou Lily. Em troca, ele agitou o látego no ar uma vez mais, passando muito perto dela. Assombrosamente o moço, quem começou a soluçar dentro do abraço dela.
— Este não é teu problema, minha lady — James lhe advertiu — Já passei minha sentença a respeito destes ladrões. Agora assumirei seus castigos. Se seu estômago for muito fraco para tolerar a cena, então te ponha de lado e fecha seus olhos. Deixe a mim a tarefa.
James observou suas costas ficarem rígida, e a ruiva gritou por sobre seu ombro.
— Nunca!
Por um momento, ninguém no lugar se atreveu a falar ou a mover-se. James, cuja paciência tinha sido estirada até o limite, finalmente rompeu o silêncio. Suas palavras soaram com uma ameaça geada.
— Há lugar para três no poste de castigo, minha lady.
Deu-lhe uma perversa satisfação as respirações contidas na multidão. Mas essa satisfação foi muito curta. Enquanto a gente do castelo acreditou em sua ameaça, Lily, obviamente, não o fez. Ela se deu volta até que encará-lo diretamente, então levantou seu queixo e o desafiou.
— Faz o que te pareça.
As testemunhas contiveram a respiração outra vez, e James estreitou seus olhos. Por um desgraçado momento, enquanto estudava a sua bela esposa, arrependeu-se de não haver se deitado com ela no primeiro momento em que a tinha visto. Certamente a posse por parte de James de seu corpo a teria se localizado no mundo mais rapidamente.
Mas enquanto seu olhar se atrasava em sua face vibrante e determinada, ele se deu conta que Lily não era como qualquer moça que podia ser domada na cama. Ela era sua esposa. E era uma mulher extraordinária. Uma mulher acostumada ao poder e ao controle. Uma mulher que não se assustava em empunhar uma espada. Uma mulher que tinha servido de administradora de Hogwarts por anos. Uma mulher que merecia seu respeito, merecia o direito a ter suas próprias opiniões. Diabos. Agora se supunha que ele devia escutar essas opiniões. Mas não diante de gente com línguas fofoqueiras.
— Nos deixem! — ele ordenou — Todos, vão!
A multidão se dispersou com relutância, murmurando enquanto se afastavam possivelmente perguntando-se se seu novo administrador estava por golpear a esposa rebelde. Quando se tiveram ido, James voltou sua atenção para Lily. Ela se mantinha firme, seu olhar fixo, mas o Potter vislumbrou brevemente uma incerteza em suas mãos apertadas. Ela a aparentemente suspeitava que ele usaria seus punhos.
Incapaz de manter sua irritação à vista do medo dela, ele sacudiu a cabeça.
— Bem minha lady, se seu estômago não for débil — ele disse — Qual é sua objeção?
Os punhos dela se apertaram de alívio.
— Conheço estes moços. São os filhos dos Weasley.
Não era seu estômago então. Era seu coração, James pensou Mas alguém não podia permitir-se ser dissuadido de exercer a justiça de acordo ao coração de um.
— Não importa de quem são filhos. Eles são ladrões.
— Ladrões? — ela enrugou a testa e James assentiu — Qual é seu crime?
— Roubaram posses de Hogwarts.
— Que posses de Hogwarts?
James assinalou para os estábulos, onde havia um par de vacas avermelhadas.
— Isso é tudo? — ela perguntou.
— O que quer dizer com “isso é tudo”?
— Só duas vacas?
— Sim — James franziu o cenho, irritado — Duas vacas que poderia servir de alimento para o castelo no inverno!
— Deixe que os moços se vão — disse finalmente.
— O que?!
— Deixa-os ir. Temos as vacas de volta. Deixa-os ir.
É por isso, ele pensou, que ninguém devia escutar o conselho de uma mulher. James sacudiu a cabeça com severidade.
— Devem enfrentar as consequências de suas ações ou nunca aprenderão.
— Não entende.
— Você não entende. Se não açoitar ao cão que te remói, mordera-te outra vez.
— Já os assustaste o suficiente. Olhe como tremem — ela fez um gesto para os jovens, quem tinha girado seus pescoços para observar o curioso intercâmbio.
— Tremem agora, mas na metade de caminho para sua casa, não recordarão seu medo. Umas poucas chicotadas lhes servirão para recordar.
Lily soltou uma larga expiração. Maldito Normando intrometido! Se mantivesse seu nariz fora dos assuntos do castelo e deixasse os temas de justiça em suas mãos, ela não estaria precariamente apanhada entre os filhos de seu Vizinho de bom caráter e o látego do maldito normando. Não estaria perdendo tempo lhe explicando que estava por castigar aos filhos de Molly, que provavelmente os mimava com dúzias de bolos da cozinha.
Supunha que James era o administrador de Hogwarts, e estava com o açoite na mão, e tinha vacilado por um tempo longo para escutá-la. Mais tarde ou mais cedo, ela teria que lhe ensinar quais eram os modos de dirigir-se com os escoceses. Então por que não começar agora?
— Eles não são ladrões — ela disse — Não exatamente.
— O que quer dizer “não exatamente”? Foram apanhados com as cordas ao redor dos pescoços das vacas, levavam-se aos animais para a colina!
— Não é assim tão simples — disse a ruiva suspirando.
— Então sugiro que explique rápido — James golpeou o cabo do látego impacientemente contra sua coxa — Sua demora só aumenta a tortura dos moços.
Ela se mordeu o lábio. Era difícil lhe explicar isso a um estrangeiro.
— Tomaram as a vacas em retribuição.
— Retribuição?
— Sim.
— Em troca do que?
— Por duas que lhes roubamos o ano passado.
— O que?!
Ela sabia que James não entenderia.
— Deixa-os ir. Explicarei tudo mais tarde.
— Não. Explica-o agora!
— Olhe — ela começou — Se você retiver eles aqui seu pai se preocupará.
E possivelmente demandaria a cabeça de James servida em bandeja, mas não diria isso.
— Os Weasley mandarão a seus homens para buscá-los, se eles descobrirem que os temos dentro das paredes de Hogwarts...
Mas James pareceu fixado a ideia do roubo de gado.
— Roubaram vacas.
— É um costume escocês — Lily suspirou — Eles roubam nosso gado, nós roubamos o deles, é assim por gerações — James pestanejou, como se ela houvesse dito que o mundo era feito de queijo — Roubar gado é uma questão de amistosa rivalidade entre vizinhos.
James a olhou com dureza, sem dúvida perguntando-se se os escoceses estavam completamente loucos.
— Incrível — ele murmurou.
— Insisto em que os deixe ir.
Ele não respondeu. Era claro que desacreditava e desaprovava a explicação dela. Mas possivelmente lhe pesava a ideia de que ela insistisse com algo. Depois de um comprido momento ele pareceu ter chegado a uma decisão. Com um escuro grunhido, ele se endireitou e golpeou o punho do látego contra a palma de sua mão direita. Estreitou seus olhos.
Escutei-te — então deu a ordem — Agora baixe-se.
O coração de Lily se afundou enquanto sua ira crescia. Não tinha intenção de mover-se a um lado. Não só devia proteger aos moços Weasley, mas tampouco desejava enfrentar a ira de seu pai quando descobrisse que seus orgulhosos filhos tinham sido açoitados publicamente.
— Não me apartarei — disse firmemente — Terá que açoitar também a mim.
Então, para seu assombro, um ângulo do lábio dele se curvou em um sorriso sardônico.
— Me interpretaste mal, minha lady. Ganhaste-te a liberdade deles — James atirou o látego ao chão — Agora baixe-se.
Lily pestanejou, confusa.
Aparentemente, uns poucos valentes de Hogwarts tinham permanecido perto apesar das ordens de James, e aplaudiam, aumentando a irritação dele. Impacientemente os fez correr de seu caminho. Lily, atônita por sua vitória, moveu-se a um lado cambaleando-se enquanto James se aproximava do poste de castigo, extraindo sua adaga.
— Me escutem bem, jovens — ele lhes disse enquanto cortava as ataduras — É só pela piedade de Lady Lily que são liberados. Tomem cuidado de que não os apanhe no futuro, porque não serei tão generoso outra vez.
Liberados, os moços estavam parados um ao lado do outro, seus corpos magros e seus cabelos laranjas os faziam parecer duas velas gêmeas com uma chama brilhante em suas cabeças. Seus olhos brilhavam com perplexidade e solenidade enquanto olhavam a James. Fecharam-se as camisas, e estavam prontos para partirem quando Lily os parou.
— Cubram as cabeças a próxima vez — murmurou ela sorrindo de canto — O cabelo vermelho pode ser visto várias milhas de distância.
Então, eles saíram correndo para o portão.
Lily se deu conta de que apesar da visível irritação de James, não era um homem perigoso. Subitamente, ela foi surpreendida por uma curiosa emoção. Ela não podia defini-la, uma sensação que lhe esquentou o coração e lhe iluminou o espírito. A poderosa sensação que sentia a deixava perigosamente desprotegida.
Murmurando um rápido “Obrigada” ela se desculpou, retirando-se ao grande salão.
Ali ajudou Dorcas com as preparações do jantar e tratou de persuadir-se a si mesma de que não era amor o que sentia por seu marido, isso seria tolo. Não, era simplesmente apreço pelo modo justo com que tinha dirigido aos Weasley. E a alegria de seu próprio pequeno triunfo.
Mas quando a janta começava, e James chegou, vestido com a vestimenta normanda, a opinião dela sobre seus sentimentos foi radicalmente desafiada. Estava assombrada de quão escuro estavam os olhos dele essa noite, como um bosque escocês: belo, selvagem e vibrante. Maldição, luzia tão bonito como Lúcifer. Ele estava de bom humor e brincava com seus homens, mas Lily sentia cada sorriso cálido como uma carícia ardente que ameaçava sua compostura. Seu joelho contatou a seu já que estavam sentados perto no banco, e ela se deu conta que James parecia pouco inclinado a corrê-la. Seus dedos roçaram os dela com familiaridade enquanto cortava o veado em um prato compartilhado.
Para o momento em que ela deixou guardanapo e se desculpou a si mesma para retirar-se a sua habitação, aludindo uma dor de cabeça, se sentia violentada. Cada centímetro de sua pele fazia cócegas com uma corrente elétrica.
Talvez, com sorte correndo apressadamente para as escadas, e fechando a porta, poderia estar dormida para o momento em que James viesse à cama, cega e surda a seus encantos.
Mas o libertino deveu havê-la seguido. Apenas ela tinha pendurado suas roupas quando ele golpeou a porta, fazendo-a saltar como uma menina apanhada mordiscando uma torta. Ele olhou o lugar completamente surpreso enquanto seus olhos famintos percorriam lentamente o corpo nu dela. Ela conteve sua respiração, suportando seu luxurioso olhar.
— Vais fechar a porta ou desejas me exibir a todos os serventes? — perguntou ela depois de um interminável silêncio e James sorriu, fechando a porta.
— Subiu a escada rápida para uma donzela com um... o que era? Uma dor de cabeça?
Ela levantou seu queixo para responder, mas não pôde pensar em nada em sua defesa.
Ele sorriu outra vez, então se apoiou contra a porta e começou a tirá-las botas.
— Poderia ter a esperança de que esteja ansiosa por ir à cama esta noite?
Seus seios se esticaram com o ar frio. Ao menos ela esperava que fosse o ar frio.
— Pode esperar que te deseje muito, mas eu não o farei realidade.
Sem afetar-se por seu comentário, James atirou suas botas para o pé da cama, logo lançou sua túnica e sua camisa ao mesmo tempo. Os olhos do Lily foram instantaneamente atraídos ao corte que lhe tinha produzido. Estava cicatrizando bem, o que a aliviou. A cicatriz não diminuía a perfeição de seu corpo. Seu peito era suave, coberto com grossos músculos, e seus ombros eram o suficientemente largos para empurrar um carro. Meu Deus! Ainda a essa distância a vista dele fazia que seus joelhos se debilitassem.
Inspirou com dificuldade. Então, com falsa imperturbabilidade, ela se meteu debaixo da manta, ocupando a metade da cama para que ele fosse possivelmente unir-se a ela ali.
— Sobre o incidente de hoje? — ela começou, ansiosa por falar de algo mais que não fosse a tensão entre eles.
— Incidente? — James desatou sua roupa interior e ela esclareceu sua garganta.
— Com os meninos Weasley.
— Sim?
— Haverá muitas coisas a respeito de Hogwarts que não entenderás.
James sorriu. Deus! Seu sorriso era brilhante, hipnótico.
— Vocês, os Escoceses, são de uma raça diferente — ele acordou.
— Não pode esperar trocar a forma em que a gente é, não pode nos dobrar a sua vontade.
— Ah, minha lady — o sorriso dele se voltou malicioso — Estaria contente de poder dobrar só a uma escocesa a minha vontade — sentou-se no bordo da cama, o peso dele atraindo-a do centro da cama para a borda onde ele estava — Possivelmente com um beijo?
A respiração ficou apanhada. Então era para isso que tinha vindo correndo dela atraia. James ainda pensava em cobrar o beijo. Mas ele devia sabê-lo havia dado o pagamento no campo de treinamento. E graças a Deus que o tinha feito, porque ela duvidava que pudesse lhe dar outro, não com o modo em que seu coração martelava quando ele a olhava.
— Talvez sua memória te falta — ela disse — Já recebeu seu pagamento esta manhã.
James se congelou, suas mãos em sua cintura afrouxando sua roupa interior.
— Aquilo? — ele disse com desdém — Aquilo não foi um beijo.
— Oh sim, foi.
— Não! Só uma bicada, esse tipo de beijo não conta.
— Rápida bicada, meu lorde. Esse beijo valeu.
— Como pode chamar a isso um... ?
— Um beijo?
— Não foi um beijo!
— Oh, parecia um beijo, seus lábios sobre meus... sim, foi um beijo.
— Por Lúcifer e todos seus demônios! — ele enrugou as sobrancelhas — Isso foi um beijo roubado, o beijo que você deve será dado isso quando eu o determine.
— Isso não era parte do trato.
James saltou para ficar de pé, seus olhos se estreitaram perigosamente, e ela viu seu peito subir e baixar profundamente com cada respiração frustrada. Mas ambos sabiam que ela tinha razão. O Potter tirou dos cordões com tanta força que rasgou o objeto, e ela se deu conta da violência da qual ele era capaz. Lily reconheceu a profundidade de sua fúria. E quando ele golpeou a porta, fazendo tremer as armas penduradas na parede, ela entendeu que James tinha chegado ao limite de sua paciência. Um dia, ela temia, ele tomaria o que lhe pertencia, com ou sem juramento.
James chutou a parede do estábulo, assustando a seu cavalo. O animal relinchou uma vez, e logo voltou para seu alimento. Mas o humor do Potter não seria facilmente pacificado. Caminhou de uma ponta à outra, chutando pedacinhos de palha e pó. Estava farto dos truques ardilosos de Lily e com suas provocações vazias. Não cairia vítima de sua astúcia outra vez, provocava-o com seu corpo sensual, só para rechaçá-lo quando seu meio das pernas ardia de necessidade. Não era tolo. Lily podia sentir desejo, mas a este passo de tartaruga, ela o frustraria mais além da loucura. Negava-se a passar outro noite desse modo ao lado de sua esposa, desejando-o que não lhe daria.
Ainda.
Cedo ou tarde ela sucumbiria.
Sabia. Sentiu o ardor em seu corpo quando lhe tinha roubado esse beijo. Não deveria ser muito difícil inflamar essa chama em uma fogueira feroz. Mas enquanto isso, a férrea determinação dela e seu próprio sentido da honra os mantinham em ponto morto no tema do desejo. A sedução se estava convertendo em uma guerra entre eles dois. Era claro que Lily estava determinada a escolher o campo de batalha e estabelecer as regras do combate. Mas seria mortalmente errôneo dar o controle a ela. Não, James devia levar as rédeas desse cavalo desbocado de desejo e guiá-lo para onde estava seu dono.
Sem que ela soubesse.
Mas, como obteria isso?
Deixou de caminhar para fazer uma cama de palha em um rincão vazio do estábulo. Seria uma noite fria. Tinha estado tentado de procurar uma serva a caminho ao estábulo para mantê-lo quente durante a noite. Mas recordava o que havia acontecido a última vez que tinha tratado de deitar-se com uma servente. Então, recorreu a enterrar-se na palha para encontrar certa calidez enquanto considerava a estratégia a seguir.
O primeiro passo do combate era conhecer inimigo.
O que sabia ele de Lily?
Ela parecia responder mais favoravelmente no campo de treinamento quando ele a tratava como a um igual, desafiando-a, treinando com ela. E ironicamente, uma vez que ele começava a tratá-la como a um homem, ela se voltava ainda mais tentadora. Tinham treinado duramente essa manhã, pensando em expor sua debilidade feminina e ela o tinha assombrado trabalhando mais forte que seus próprios homens.
Entretanto debaixo sua armadura, Lily possuía as suaves curvas de uma mulher. E o coração de uma donzela. Tinha vislumbrado brevemente sua ternura quando se tinha sacrificado a si mesmo por sua irmã, quando cuidava de seu pai, quando tinha intervindo a favor dos jovens Weasley.
Lily podia pensar como um homem, mas sentia as coisas como uma mulher. Ela podia ser ofendida, impressionada, ferida ou ser agradada tão facilmente como qualquer outra mulher.
E ali jazia seu dilema. Em um momento ele se encontrava a si mesmo lhe aplaudindo afavelmente as costas, e ao seguinte desejava arrastá-la ao rincão mais próximo, e lhe arrancar a roupa para possuí-la.
Como podia um homem brigar com um oponente que constantemente trocava de alvo, cujas táticas eram tão imprevisíveis como a direção em que soprava o vento. Em um momento ela investida no campo de batalha como uma pessoa enlouquecida, e ao seguinte, ruborizava-se ante a perspectiva de ser beijada. Como podia um derrotar a um inimigo que não podia ser forçado ou com quem não se podia raciocinar com ou a quem não se podia convencer de render-se? Perguntou-se a si mesmo essas questões até tarde na noite.
Finalmente dormiu, deixando as perguntas expostas a seus sonhos.
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