Donzela Guerreira
10 O monge e a missiva
Notas iniciais
Capítulo 10

O monge e a missiva
Ele despertou várias horas depois quando a porta se abriu bruscamente. Era Marlene voltando de fora. Como ela acordara sem ele perceber? Deveria ter ido responder ao chamado da natureza, algo que ele teria que fazer logo. A luz do sol se filtrava pela flora do bosque e pelos buracos do teto dando ao quarto um tom dourado. Emergindo na luz, vestida com seu vestido cor açafrão, a beleza escocesa surgia tão magnífica como Aphrodite. Ela se aproximou, e ele notou que tinha algo em suas mãos.
— Bom dia — ele murmurou, tratando de ajustar seus olhos à luz do dia.
— Encontrei morangos — ela disse — Necessitarás forças para caminhar.
Isso o despertou completamente.
— Chegaram?
— Não, mas o farão. Logo.
— Hm — ele desejou ter o otimismo dela.
— Abre as mãos — ela disse aproximando suas mãos, a atrativa fragrância de fruta amadurecida fez água em sua boca.
Eram deliciosas. Enquanto ela deixava cair cada um dos morangos em sua boca como uma concubina de um príncipe árabe, levou toda força de vontade de Sirius para resistir a lamber o suco de seus dedos.
— Lily deverá chegar no meio da amanhã.
Sirius pensava que não. Quando James seduzisse a mulher, e o Black estava seguro que o tinha feito, ela ficaria em sua cama por horas. Marlene pôs outro morango entre seus lábios, e ele maldosamente mordiscou a ponta de seu dedo, ganhando uma reprovação. Enquanto comia a fruta, de repente notou que sua manta estava de volta. Ela a devia haver devolvido antes de sair para fora. Ele sorriu. Pequena Diabinha, não era tão desumana como pretendia ser.
Quando lhe ofereceu outro morango, ele o rechaçou.
— Come o resto, deve estar morta de fome — ela não perdeu o tempo, e devorou as frutas com vontade o fazendo sorrir — Permita perguntar algo, minha lady? O que ganhas se obtiver a anulação deste matrimônio? Depois de tudo, esta aliança foi ordenada pelo rei de seu povo.
Ela chupou o suco de seu polegar e suas orbes verdes voltaram para ele.
— Não acredito que minha irmã menor tenha que ser uma peça no jogo do Rei.
— Não é um jogo, é uma união verdadeira, os normandos e os escoceses são aliados, sabe.
— Sim, mas não é o lugar de Dorcas ser a sacrificada. Ela é muito jovem e muito...
— Espera — Sirius pestanejou — Dorcas? Disse Dorcas?
— Sim, minha irmã menor — ele sacudiu a cabeça.
— Mas Dorcas não se casou com James — os olhos dela se alargaram.
— O que?
— Não se casou com ele.
— O que quer dizer?
— Ela não se casou com James.
A compreensão finalmente se refletiu nos olhos de Marlene, e ela o deu um empurrão.
— Por que não me disse isso? Me permitiu te sequestrar por nada?
— Permiti-te?
— Então Dorcas está sã e salva e James não é o administrador de Hogwarts.
— Não exatamente.
— O que quer dizer com não exatamente?
— James é o administrador, Lily casou-se com ele.
— O que?
— Lily se disfarçou com a roupa de Dorcas e se casou com James.
Uma curiosa progressão de expressões se viram no rosto dela, primeiro de choque, logo depois de ultraje, e logo de irritação.
— Bastarda! Ela planejou isto desde o começo, embebedou-me de propósito e...
— Não está agradada?
— Não. Não estou agradada!
— Mas Dorcas foi salva do casamento com James.
— Supunha-se que era eu quem ia casar com o bastardo — ela replicou.
— Você? — Sirius estalou em risadas, o que foi um grave erro.
Fogo saiu dos olhos de Marlene, e ela extraiu sua adaga, brandindo-a ante seus olhos.
— Sim, eu. O que te passa?
— Nada — ele disse, fazendo uma vã tentativa de controlar sua risada — Só que...
— Só que? — ela murmurou entre dentes.
Ele poderia havê-la adulado lhe dizendo que ela era muito bela e doce para desperdiçar sua vida com James. Ele deveria fazê-lo, considerando que ela sustentava uma adaga muito perto de seu queixo. Mas Marlene era inteligente. Ela captaria sua mentira em um instante. Ele teria que lhe dizer a verdade, ou ao menos uma versão diplomática da verdade.
— James gosta de mulheres mais... maleáveis. De pouco caráter.
— Hm.
— Nenhum de vocês dois estaria contente nesse matrimônio.
— Não é necessário estar contente. Estou segura que Lily não esta — a loira correu sua arma e guardou novamente — E se James acredita por um momento que ela tem pouco caráter...
Sirius franziu o cenho. A última vez ele tinha visto James e Lily juntos eles estavam discutindo sobre as defesas do castelo. Possivelmente Marlene tinha razão. Possivelmente teriam um matrimônio infeliz. Mas ele não acreditava que fosse assim. Não levaria muito para que essa faísca de rivalidade se convertesse em um fogo passional. De repente ele se deu conta de que com Dorcas a salvo, Marlene já não necessitava um refém.
— Isto significa que podemos voltar?
— Voltar? Não. Ainda quero o matrimônio anulado.
— Mas por que? — Sirius estava vendo porque o Rei Dumbledore tinha enviado os Cavalheiros da Ordem para tomar controle da fortaleza. Ele duvidava que três irmãs rivais pudessem parar de discutir pelo tempo suficiente para decidir o modo em que atacariam.
— Porque eu planejava me casar com ele — disse Marlene triste — Sou a primeira filha, supunha-se que devia ser meu sacrifício.
— Sacrifício — Sirius sacudiu a cabeça — De onde nós viemos, James Potter é considerado um prêmio, um troféu.
— Talvez para a filha tola de um granjeiro.
— Oh, não — disse ele estreitando os olhos e sorrindo de canto — Já vejo o que passa. Você secretamente se apaixonou por James e o queria para você.
Ela mostrou sua mortificação.
— Está louco? Por que ia casar-me... voluntariamente com um... com um...
— Normando?
Marlene estremeceu novamente.
— Me diga, minha lady, por que odeia tanto aos Normandos?
Ela sorriu travessamente.
— Não estaremos aqui tempo suficiente para te dar a lista das razões.
— É cruel, minha lady — disse ele estalando sua língua — Muito bem, só me diga três coisas que odeia nos Normandos.
— Sei que é arrogante e vaidoso e, oh, sim, um sátiro — disse ela erguendo o queixo e recordando de tudo que ele a havia contado. Sirius se estremeceu.
— Realmente não sou um sátiro, mas não lhe tirarei essa fantasia, meu doce — o moreno franziu o cenho — Nesse momento, entretanto, temo que tenho necessidades mais urgentes.
Ela cruzou os braços em desafio. Não estava disposta a cair em suas mutretas novamente.
— Não me diga?
— Uma necessidade mais urgente... — ele disse, levantando suas sobrancelhas. Ela o olhou fixamente, esperando — Maldição, moça! Preciso urinar.
Marlene descruzou seus braços, e sentiu suas bochechas ruborizar-se. Aqui havia outra coisa que ela não tinha considerado quando se converteu em uma sequestradora. Ela esperava tê-lo preso até que Lily chegasse. E não lhe tinha ocorrido que deveria ser responsável por suas necessidades humanas. O que faria agora?
— Pode me trazer um urinol, mas já que ataste minhas mãos, necessitarei de... — O Black a deu uma piscada de olho — Ajuda.
Para a irritação de Marlene, sua face ficou mais vermelha. Não era que ela nunca tinha visto um homem nu. Por Deus! Virtualmente vivia na armeria, onde os homens andavam em diferentes graus de nudez . Mas a ideia desse estranho nu, esse Normando...
— Talvez — ela ameaçou — Deixarei urinar em si mesmo.
— Suponho que pode — ele deu de ombros — Mas tremo ao pensar em que castigo te imporá James se tratas a seu melhor amigo tão cruelmente.
— Não terá essa tarefa, já não será o administrador.
— Se você o diz.
Os lábios de Marlene se retorceram com desgosto. Era outra coisa que não havia antecipado em um refém. Ter que escutar suas opiniões.
— Lily virá e o matrimônio será anulado.
— Preciso urinar.
Ela o fuzilou com o olhar como se ele intencionalmente tivesse planejado essa inconveniência. Mas ela sabia que não era assim. Inspirando, extraiu sua adaga.
— Vê esse buraco no arca?
— Sim — respondeu ele perplexo.
Com um movimento veloz de sua mão, ela lançou a adaga através do ar para cravá-la no centro exato do buraco. Em seguida olhou para avaliar a reação dele. Sirius assobiou.
— Impressionante.
— Posso apanhar assim um coelho a cinco jardas — disse a loira apanhando a adaga de volta — Você não estará assim tão longe, e nunca estará fora de minha vista.
Lene soltou as mãos dele permitindo que Sirius desatasse os próprios tornozelos enquanto ela colocava sua adaga na mão, em seguida o fez caminhar lentamente para fora da cabana. Ficou duas jardas atrás enquanto ele se dava volta para desatar suas calças.
O que a fez ruborizar não foi o ruído da urina golpeando contra o chão. Nem o fato que um Normando urinasse sobre chão escocês. O que fez ruborizar suas bochechas foi a visão de uma pequena porção de seu traseiro firme e musculoso. E o que verdadeiramente a inquietou foi o fato que essa imagem proibida fez com que seu coração se acelerasse.
Nervosa, o fez voltar para cabana a ponta da adaga.
— Estou agradecido, minha lady — disse ele com um sorriso sardônico enquanto passavam pela porta — Estou seguro que James será piedoso com você por sua bondade.
A loira franziu o cenho enquanto fez Sirius se sentar no chão para atar suas mãos em suas costas, e amarrou um tornozelo à base do poste da cama para ele não se afastar muito.
— Possivelmente se encontrar algo mais para que eu coma — sugeriu o Black — James seria ainda mais piedoso.
Não lhe disse que isso era exatamente o que ela tinha planejado. Não gostava da manipulação dele e realmente tampouco lhe agradava a possibilidade de que o Normando pudesse ter razão, que James não pagaria o resgate depois de tudo. Esse homem tinha plantado sementes de dúvidas em sua mente, e agora não podia apagar a suspeita de que poderiam estar sentenciados a estar confinados nessa choça por mais tempo que ela tinha antecipado. Pior ainda, Lily poderia ver-se forçada a contar para James onde estavam, e ele viria em pessoa por ela.
Semelhante pensamento desalentadores a fizeram sair da cabana ao terreno semeado a cinquenta jardas, onde se agachou com adaga na mão, esperando que um coelho aparecesse. No que se referia a James, ela era traidora do rei. E agora havia complicado as coisas retendo como refém um de seus homens. Se as coisas não saíssem como ela planejava, se Lily se negasse a anular o matrimônio, o que era provável, considerando que se sacrificou por Dorcas, então Marlene seria julgada como responsável por suas maldades. E uma dessas maldades era a traição.
Apesar de seus dedos trementes, conseguiu caçar um animal para o café da manhã em uma hora. No relativo a coelhos, ela era a melhor guerreira em Hogwarts. E agora, ao menos um de seus problemas estava resolvido.
Na cabana, enquanto Siriusd a olhava de seu lugar no chão, ela fez um fogo na lareira e esfolava e limpava o coelho. Logo o aroma de carne assada encheu o quarto, e seu estômago começou a grunhir. Enquanto colocava o coelho sobre o fogo, refletiu novamente sobre as opções em relação a Sirius, a James e ao rei. Ainda se o pior acontecesse, se Lily negasse à anulação e James seguisse sendo o administrador da fortaleza, certamente ele não faria algo tão precipitado como executar à irmã de sua esposa .
Por Cristo! Ela tinha estado ébria. Isso era óbvio. E ela tinha feito o que tinha em defesa de sua irmã, não em desafio ao rei. Certamente alguém com um pouco de cérebro...
— Me desculpe.
Marlene olhou brevemente para Sirius. Tinha o cenho franzido.
— O coelho — disse ele — Está muito perto do fogo.
Ele tinha razão. Distraída ela tinha deixado que a rama caísse muito baixo. A levantou novamente ainda olhando fixamente as chamas.
— Na outra noite, a noite que entrei na habitação, sabe, eu estava ébria — murmurou.
— Oh sim, verdadeiramente ébria.
— Tão ébria que não deveria ser considerada responsável por minhas ações. — ante o silêncio dele ela levantou o olhar apenas para ver um lento e calculado sorriso aparecer nele.
— Isso depende — as orbes azuis desviaram para o fogo — Cuidado.
Ela tirou o coelho para fora das brasas. Tinha uma queimadura negra de um lado, nada mais. A gordura gotejou sobre o fogo.
— Você não me executaria.
Sirius observou a impressionante guerreira escocesa, fascinado com a curiosa mistura de força e vulnerabilidade. Ela não tinha feito uma pergunta. Ela tinha feito uma afirmação. Mas claramente estava cheia de incerteza. Ela o fez duvidar. Ele tinha feito algumas ameaça horríveis na noite que a tinha apanhado, ameaça a respeito de açoitá-la e de enforcá-la por traição.
Era tentador aliviar seus medos, confessar que tinha falado no calor do momento, lhe fazer saber que ele era qualquer coisa menos brutal no que se referia às mulheres. Entretanto era melhor a seus propósitos lhe fazer acreditar ele era capaz de algo.
— Deveria ser executada — disse ele — Se te negar a cumprir a vontade do rei.
— Mas você não me enforcaria.
Sirius não respondeu, cativado pela visão do belo perfil dela contra o fogo crepitante.
— Faria? — perguntou a loira voltando-se para ele, os olhos assemelhando a esmeraldas.
Com cada fibra de seu ser, ele desejou gritar NÃO e acalmar sua ansiedade. Mas a incerteza dela era a melhor arma de negociação que possuía.
— Eu teria que avaliar a evidência, considerar as circunstâncias, tomar em conta seu nível de arrependimento, calcular se és uma futura ameaça — ele adicionou — E depende muito da maneira em que me trate aqui.
Ela pareceu confusa com sua resposta. Sirius suspeitava que não lhe importava ser gentil com um Normando, mas agora seu próprio destino dependia disso.
— Não te tratei tão mal — disse ela em sua defesa — Não te machuquei. Te cedi a cama enquanto eu dormi no chão. Deixei-te sair para urinar. E te estou cozinhado o café da manhã.
— Queimando — corrigiu ele enquanto uma fumaça cinza se elevava da lareira.
— O que?
— Queimando o café da manhã — e tão rápido como ele falara se prendeu fogo no coelho.
Ela voltou-se a tempo para ver que o pau que sustentava a presa se quebrava em dois e o coelho caía sobre as brasas, pegando fogo.
— Merda!
Antes que ele pudesse gritar uma advertência, ela tirou o coelho incendiado, em seu apuro de desprender-se da coisa quente, atirou-o ao chão, e apagou a chamas com uma das mantas. O animal estava completamente queimado. Ainda assim, quando se esfriou, Marlene levantou a coisa e arrancou um pedaço de carne incinerada, e ofereceu a ele um bocado.
O Black não estava seguro se devia estar agradecido. Depois de tudo, quase não era algo comestível. Mas ele era um cavalheiro. A cortesia lhe impedia de dizer isso a ela, e mordeu um pedaço com seus dentes, embora queimado exteriormente, o interior era tenro quase cru.
— Mm — mas Sirius temia que sua cara revelasse a verdade, pois enquanto mastigava a carne não pôde suprimir um estremecimento de desgosto. Ela grunhiu e mordeu um pedaço de carne, embora tentasse mostrar que estava deliciosa, também, engasgou-se com a carne.
— Suponho que pode fazê-lo melhor — desdenhou ela com a voz carregada em sarcasmo.
Ele sorriu. De todas as características absurdas com as que ela havia descrito os normandos, ela tinha omitido uma que era verdadeira.
— Não sabe? Os Normandos são os melhores cozinheiros do mundo — Marlene o olhou com tal cepticismo que ele riu muito forte — Vamos, acreditastes que perfumamos aos cães, que dormimos em lençóis de seda, e não acreditas que possamos cozinhar?
— Seria uma característica rara — ela admitiu em um murmúrio.
— Farei um trato com você, como você gosta de caçar, trará a presa, e eu a assarei corretamente.
Ela olhou brevemente a carne queimada em sua mão, considerando sua oferta.
— Não é um truque?
— Estou tão faminto quanto você.
— Muito bem — ela se levantou e limpou as mãos — Quero que saiba isto, estarei escutando. Se alguém chegar, saberei. Não terá tempo de choramingar a alguém dizendo que te estou maltratando.
— Choramingar? Eu não choramingo.
Ela curvou uma sobrancelha mostrando descrença, e andou até a porta para ir.
— Oh — ele disse — Necessitarei um pouco de cebola selvagem para cozinhar — Marlene se deteve abruptamente — E acredito que podes encontrá-la.
— Você gostaria de uma panela de ouro para cozinhar?
— E se de casualidade ver hortelã? — ele ignorou o sarcasmo dela.
— É melhor que o prato valha tudo isto — falou por cima do ombro.
Ele sorriu. Ela se surpreenderia com o que um Normando poderia fazer com poucas ervas. Depois de tudo, cruzando as terras selvagens da Inglaterra e França, brigando uma guerra, e tendo poucos mantimentos, tinha aprendido a ser criativo.
Enquanto Marlene golpeava a porta atrás de si, Sirius, pela primeira vez desde que tinha chegado, realmente teve esperanças de que seu resgate não demoraria muito em acontecer.
Ela esteve fora por uma hora, nesse tempo Sirius se entreteve primeiro estudando toda a cabana até ter memorizado cada buraco e cada vão, e em seguida cantarolando as baladas que um escudeiro de James frequentemente cantava durante os jantares, quando uma curiosa sensação o invadiu e deixou de cantar. Silenciosamente examinando o quarto, pôde ver que nada tinha mudado, entretanto uma espécie de inquietante estado de alerta o dominou, uma sensação de que algo estava diferente.
Estranho como parecia, estava quase convencido que um buraco se moveu ou que uma aranha de repente tinha desaparecido de seu rincão. Por um momento fugaz, perguntou-se se o lugar estava sendo espreitado por um espírito. Enquanto o ar ao redor dele parecia tencionar-se, acreditou ver algo passando por uma abertura da portinha. Mas quando acomodou sua cabeça para olhar melhor, já se tinha ido. Teve o súbito medo que um lobo pudesse estar espreitando lá fora, que Marlene pudesse estar em perigo. Silenciosamente retorceu suas ataduras, mentalmente amaldiçoando à moça por deixá-lo tão indefeso. Mas estudando a estreita abertura de luz, esperando que essa coisa que estava lá fora passasse novamente, nunca detectou a figura que misteriosamente se materializou dentro da cabana. Quando finalmente olhou para a lareira, ofegou atônito e se arrastou para trás, chocando-se com a cama.
— Jesus!
Como o homem tinha chegado a estar dentro da cabana não sabia. Tinha aparecido como por arte de magia. E agora Sirius soube como o ladrão tinha obtido seu nome.
A Sombra.
Era magro e não muito alto vestido de negro dos pés a cabeça, até suas mãos tinham luvas de couro pretas. Sua cabeça estava coberta por uma mascara de tecido que, deixava uma única pequena abertura para respirar e dois pequenos buracos para ver. Não brandia nenhuma arma, mas era possível que levasse algo no forro de sua bolsa. Embora Sirius pudesse estar atônito, ele não tinha medo do intruso. De todos os contos terríveis que Marlene tinha contado sobre o notório bandido, em nenhum deles ninguém tinha resultado mortalmente ferido. E embora A Sombra houvesse se introduzido na cabana com uma destreza sobrenatural, ele era claramente humano. Quando o coração de Sirius se acalmou, ele perguntou.
— O que quer?
A Sombra o ignorou, e estudava o interior da choça, como Sirius fizera na última hora. Por isso o moreno usou esse momento para estudar a seu inimigo. O homem se moveu sem fazer ruído. Suas botas deviam ter sido feitas de um couro muito leve, porque seus passos eram tão fluídos como os de um gato.
Como um bem treinado guerreiro, manteve seus braços levemente para cima e longe de seu corpo, preparado para reagir. A Sombra se voltou para fogo aceso, pôs sua bolsa preta ao lado da lareira. Ele se agachou ao lado do banco de três pés, observando o coelho queimado, em seguida levantou algo do chão, um só cabelo. De Marlene.
Dando volta e erguendo-se em um movimento ágil, sustentou o cabelo mostrando a Sirius.
— Ela se foi, não voltará antes do entardecer — disse Sirius para proteger Marlene.
Satisfeito, A Sombra deixou cair o cabelo. Logo não perdeu mais tempo, aproximou-se para roubar a bolsinha com moedas que Sirius tida atada a seu quadril, as que ele tinha ganho em um jogo de cartas com Lorde. Mas A Sombra aparentemente não tinha visto que uma das pernas de Sirius estava livre. Logo que o ladrão começou a puxar a bolsinha de couro, o Black estirou sua perna para lhe dar uma rasteira.
O que aconteceu depois disso Sirius só podia recordá-lo vagamente. De algum jeito A Sombra saltou sobre sua perna, e em seguida agarrou seu tornozelo, dando a sua perna um violento puxão que o fez cair instantaneamente sobre seu estômago. Enquanto plantava um pé sobre as costas do moreno para segurá-lo ali, Sirius gritou, o joelho de sua perna atada tinha ficado esmagado. Em seguida, para seu assombro, enquanto ele amaldiçoava pela dor, A Sombra se inclinou e lhe indicou que fizesse silêncio levando um dedo aos lábios.
— Muito bem — disse Sirius rendendo-se — Muito bem.
Enquanto Sirius exalou aliviado, A Sombra extraiu uma pequena faca de seu saco e cortou a bolsinha com moedas. Talvez fosse melhor que o moreno não tivesse conseguido superar ao ladrão. Essa faca era extremamente afiada. O Black teria jurado que A Sombra lhe piscou o olho antes de guardar a bolsinha em seu saco e em seguida, com um hábil movimento de sua mão, enviar a pequena faca voando através da cabana. Sirius seguiu o percurso da faca até que este se cravou na madeira da portinha.
Para o momento em que voltou a olhar, o bandido tinha desaparecido novamente. Só uma sutil piscada da luz no quarto o fez dar-se conta que de algum jeito o homem devia ter escapado através de um buraco no teto. Por vários minutos, tudo o que Sirius pôde fazer foi olhar com assombro. Escutando as histórias de Marlene sobre a elusiva Sombra, ele tinha acreditado que eram um exagero, mas agora ele tinha sido testemunha de quão ardiloso o ladrão era. Não era de estranhar que nunca tinha sido apanhado.
Mas ainda não tinha terminado, Marlene estava fora. E se a Sombra a encontrasse? Jesus, não queria nem imaginar o que o vilão faria. Sirius puxou suas ataduras com nova determinação. Mas não importava quanto retorcesse suas mãos, quão único conseguiu foi raspar a pele.
[...]
— Caradoc e Adric, tomem o caminho do leste — ordenou James enquanto o moço dos estábulos selava vários cavalos e os levava ao jardim — Reyner e Warin, ao oeste. Lily, já há…
— Ian! — ela o interrompeu sempre um passo adiante dele — Manda homens de Hogwarts ao norte e ao sul. E você Dorcas, faça todos os servos revisem a fortaleza outra vez, não deixe nem um rincão sem revisar.
— Bem — decidiu James, nunca tinha estado tão zangado com Sirius. O Black temerariamente tinha desaparecido com uma mulher nobre, pondo a honra do Potter em questionamento. O povo de Hogwarts o olhava com uma hostilidade quase não disfarçada. Se James não podia cuidar da filha do Lorde, como poderia defender toda a fortaleza?
Sim, no instante em que Sirius aparecesse um cabelo, voltando de sua escapada romântica, James tinha a intenção de lhe baixar uns quantos dentes. Lily sem dúvida gozaria com este enguiço do moreno. Era merecido. Mas pelo momento, estava muito preocupada com sua irmã, e não o desafiou nem o condenou.
Lily deu a ordem, e os portões de Hogwarts se abriram para permitir o passo dos primeiros cavaleiros. Mas antes que os homens partissem, Sir Caradoc divisou a um monge aproximando-se do castelo, agitando um pergaminho enrolado em uma mão.
— Meu lorde, um mensageiro!
— Esperem — James rapidamente montou seu próprio cavalo.
— Me leve com você — as palavras de Lily eram mais uma ordem do que um pedido, mas sob as circunstâncias, ele a obedeceu, abaixou seu braço e permitiu que elas subisse pelos arreios atrás dele. Logo que esteve acomodada ele esporeou o cavalo e saíram ao galope até o portão para encontrar ao mensageiro.
— O que tem aí? — demandou o Potter.
— Uma missiva, meu lorde.
— De quem?
— Disseram-me para entregar a lady Lily.
Lily se deslizou facilmente dos arreios e recebeu o pergaminho.
— Sou Lily.
James desmontou. Tinha vontade de arrancar a missiva das mãos dela, depois de tudo, certamente ele podia ler muito mas rápido que uma mulher. Mas esperou impacientemente enquanto ela estudava o conteúdo da mensagem.
Quando seus ombros se afundaram, ele temeu o pior.
— O que? O que acontece? — ela não respondeu, só deixou cair sua mão, e ele apanhou o pergaminho antes que se escorregasse de seus dedos — Lily — leu ele em voz alta — Tomei ao normando como refém — isso não podia ser, leu-o outra vez, mais devagar — Tomei ao normando como refém, não o devolverei até que o matrimônio seja anulado. Marlene.
Por um momento, tudo o que ele pôde fazer foi olhar atônito à escritura infantil.
— Merda — murmurou a ruiva, assombrando ao mensageiro, quem, decidindo que era tempo de continuar sua viagem, foi para o caminho.
Então a verdade a respeito de Sirius golpeou a James como um tijolo na cabeça. O encantado e ardiloso cavalheiro tinha encontrado uma mulher que podia equiparar-se a ele. Uma risada borbulhante subiu pelo peito do Potter que sacudiu seus ombros. Lily grunhiu e lhe arrancou o pergaminho da mão dele, enrolou-o e o golpeou no braço.
— Não é um tema para rir.
— Oh, sim, é — disse ele — Ainda não conhece Sirius.
— E você não conhece Marlene.
— É uma moça — disse lhe tirando importância.
— Entretanto de algum jeito ela conseguiu tomá-lo como refém por seus próprios meios — assinalou a ruiva e ele grunhiu.
— Sem dúvida o apanhou com a guarda baixo — James não tinha nenhum apuro de ir ao resgate de seu amigo. Estreitou os olhos para a esposa — Ela é… é... meio louca.
— Ela é impulsiva.
— O que implica “impulsiva”?
— Deveria saber, tratou de te matar.
— Ela estava muito bêbada.
— Sim — admitiu Lily — Mas também estava desesperada para salvar Dorcas.
— Mas isso já o fez você — disse ele amargamente, a ideia das três irmãs brigando para ver quem assumia a desgraça de converter-se em sua esposa ainda lhe doía.
— Mas ela não sabe, supõe que te casou com Dorcas.
— Sirius lhe dirá a verdade.
— Não se o tem amarrado e com uma mordaça.
A imagem de Sirius amarrado divertia o Potter.
— Acredito que sei onde o levou, há uma cabana abandonada perto de...
— Deixa-os.
— O que?
— Deixe-os. Se Sirius deixou que uma mulher o apanhasse, deixa que o tolo encontre o modo de liberar-se.
Ela franziu o cenho surpreendida.
— Não está preocupado por seu homem?
— Por meu amigo — corrigiu James, Sirius nunca seria apenas um de seus homens — Ele pode cuidar-se sozinho — um sorriso apareceu em seus lábios — Eu estaria mais preocupado por sua irmã que está em companhia de um cavalheiro perito em palavras doces.
Um brilho perigoso se viu nos olhos de Lily.
— Confie em mim, Marlene é muito forte em relação à sedução masculina.
— Sim? — ele desenhou um sorriso pícaro — Então estou agradecido que não seja um traço de toda a família.
James se deu volta e partiu para a fortaleza surpreso por Lily se manter calada, talvez processando tudo o que estava acontecendo, ou preparando uma solução para o problema.
— O que diremos? — questionou assinalando às pessoas do castelo reunida nos portões.
Lily pensou por um momento.
— Diremos que ela o levou para roubar gado.
— Roubar gado?
— Ela o faz todo o tempo.
James levantou uma sobrancelha.
— Uma sequestradora, uma assassina e uma ladra de gado?
— Ela só rouba o gado que outros nos roubam.
O Potter sorriu e sacudiu a cabeça. Mãe de Deus! Sirius estava até o pescoço, estes escoceses eram sem dúvida criaturas estranhas.
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