Donzela Guerreira
11 O cozinheiro normando
Notas iniciais
Capítulo 11

O cozinheiro normando
No momento em que Sirius ouviu um ruído na porta, sua testa gotejava suor. A porta se abriu para revelar Marlene, sã, graças a Deus, um coelho pendurava de um ombro e um montão de ervas em uma mão.
— Mãe de Deus, está bem — disse ele, ofegando com alívio — Viu-o? Ainda está lá fora?
— Quem?
— A Sombra.
— A Sombra?
— Sim, recentemente esteve aqui!
— Sim? — a loira sorriu travessamente fechando a porta com o quadril
— Esteve aqui! Me roubou as moedas, se me liberar, talvez possa apanhá-lo.
— Não pode estar falando sério — desdenhou ela balançando a cabeça negativamente.
— Maldição, moça! É verdade! Me solte antes que escape!
A loira lhe deu um sorriso cúmplice e se moveu tranquilamente para a fogueira.
— Não me acredita — disse ele frustrado.
— Correto.
— Então como explica isso? — o moreno assinalou com seu queixo a bolsa que o ladrão havia esquecido. Ela seguiu seu olhar, franzindo o cenho ante a bolsa de tecido preto. Lentamente, pôs as ervas em um pote.
— De onde veio isto?
— Te acabo de dizer — rosnou ele dentre dentes.
— A sombra? Esta seguro que era ele? — questionou ela o olhando brevemente.
— Todo preto? Magro? — Sirius suspirou por um momento — Rápido como o relâmpago?
Finalmente, para o grande alívio do Black, Marlene pareceu lhe acreditar. Ela assentiu, extraindo sua adaga.
— Bem moça, me liberte — torceu as mãos para lhe dar acesso às cordas — Fica na cabana, ele não virá para te buscar aqui. Se eu não voltar... — mas Marlene não parecia estar escutando, nem sequer tinha movido de lugar. Ele grunhiu. O que acontecia a cabeça dessa mulher? Ainda empunhava a adaga em sua mão, mas não parecia apurada por ir cortar suas ataduras — Rogo-lhe isso, moça! Estamos perdendo tempo, a esta altura, ele provavelmente esteja na metade do caminho...
Ela olhou fixamente para a porta, seus olhos se estreitaram. De repente ele soube exatamente o que ela estava pensando. Maldição! Não podia ser...
— Espera! — ele se sentiu um cavalheiro que descobre que seu cavalo está avançando direto para um precipício — Espera!
— Em que direção foi? — ela demandou, apertando seus dedos ao redor do cabo da arma.
— Oh, não. Não vai aí fora sozinha...
— Em que direção?
Sirius fechou sua boca, recusando-se a responder. Maldição! Não a ajudaria a matar-se.
— Bem — disse ela — Buscarei sozinha.
— Não! Espera!
— Não tenho tempo para isto, Normando. O tempo voa.
— Mas eu... — ele disse a primeira coisa que lhe veio à mente — Menti.
— O que?
— Menti — Sirius suspirou e olhou para o chão — Não era A Sombra.
— Mentiu? — as palavras pareceram decepcionar Marlene mais do que ela esperava, olhou brevemente para o chão quando Sirius assentiu — De quem é essa bolsa então?
— Houve um ladrão — corrigiu ele — Mas... se foi faz uma hora, eu esperava que...
O olhar dela lentamente expressou desdém.
— Sim?
Deus, como lhe doeu o orgulho ao ser olhado dessa maneira, como se fosse um descarado. Mas sua dor era um pequeno preço a pagar pela segurança dela.
— Pensei... acreditei...
— Esperava — ela terminou por ele — Que te ia soltar, assim podia escapar — a loira baixou sua adaga, e ele suspirou aliviado — Como disse Normando, não te libertarei.
Ele grunhiu. Não gostava de fazer o papel de covarde. Por Deus! Ele era um Cavalheiro do Reino! E Sir Black era renomado por sua coragem. Tinha liderado o avanço na Batalha de Moray. Ele tinha ganhado incontáveis troféus por sua coragem. Não era um covarde mentiroso.
Marlene suspirou, estranhamente decepcionada. Quase tinha começado a pensar que esse Normando era diferente, que podia possuir alguma coragem. Mas não, havia provado ser tão matreiro como o resto de seus compatriotas. Bom era um covarde. Depois de tudo, os covardes eram melhores presos, mais fáceis de dirigir. Ainda assim, não podia evitar estar desgostosa.
Com uma careta desaprovadora, ela se agachou ao lado da bolsa que o bandido havia esquecido e afrouxou os fios. Ela devia ter-se dado conta que o normando estava mentindo. A Sombra era escrupulosa e precavida. Não seria tão descuidada para esquecer-se de sua bolsa. De fato, a única evidência que alguém tinha dA Sombra era uma faca preta que ele algumas vezes deixava cravada em uma parede depois de ter cometido um de seu crimes.
Marlene abriu a bolsa, dentro havia vários pacotes. Possivelmente o ladrão tinha deixado um pouco de valor. Ela desembrulhou um dos pacotes. Continha dois tipos de queijo. Outro pacote continha uma dúzia de bolachas de aveia. O terceiro pacote continha um pedaço de carne de porco. O ladrão inadvertidamente lhes havia provido um banquete.
— Talvez seu dinheiro esteja bem gasto depois de tudo — disse a loira — Há suficientes provisões aqui para outro dia pelo menos.
— Provisões? O que deixou?
— Comida.
— Pelo preço que paguei, é melhor que sejam ovos de ouro — ironizou o Black — Tinha seis xelins* em minha bolsinha.
— Xelins que ganhou de meu pai, sem dúvida — murmurou erguendo uma sobrancelha.
O Lorde tinha uma debilidade pelo jogo, as pessoas de Hogwarts tinha o hábito de secretamente entregar o dinheiro que ganhavam para suas filhas, para que fosse devolvido ao tesouro do castelo. Com os estranhos a situação era um tema diferente. Eles levavam os lucros, e alguns só para terminarem sendo assaltados pelA Sombra.
— Bem — ela disse, tirando todos os pacotes — Não vamos morrer de fome.
— Ocuparei do coelho se me soltar.
— Te soltar? Depois de tentar escapar? — ela sacudiu a cabeça — Não confio em você.
— Mas se te dou minha palavra?
— Sua palavra? A palavra de um mentiroso?
A mandíbula de Sirius se esticou de vergonha, e ela quase sentiu pena dele, mas tinha sido ele quem tinha criado essa desconfiança.
— Deve me soltar — ele insistiu — Deixou-me indefeso antes, à mercê de um ladrão e se tivesse sido um assassino? E se ele tivesse decidido me matar? — ela tragou em seco, não era algo que tivesse considerado — Escuta, minha lady, é verdade te mentia antes, mas não mais. Juro-o por minha honra como Cavalheiro da Ordem.
Ela vacilou. Os Cavalheiros não consideravam levianamente sua honra, mas, só um tolo confiava em um mentiroso.
— Milady, com ladrões soltos no bosque, devemos ter nossos braços e nossas pernas livres.
— Por que? Para que eu lute com eles enquanto você escapa?
— Não sou o covarde que acredita! — grunhiu — Nunca deixaria uma dama indefesa.
Marlene fez uma careta. Ela tinha visto pouca prova disso até o momento, ainda assim, Sirius tinha razão em algo. Os dois eram adversários, mas contra um inimigo em comum, a melhor defesa era unir suas forças. Entretanto, foi com muitas reservas que ela decidiu libertá-lo.
— Eu ficarei com a adaga — informou, agachando-se para cortar a corda de seu tornozelo.
Quando ela foi cortar as cordas de suas mãos, viu as feridas na pele onde estavam as ataduras, as tinha feito tratando de escapar. Franziu o cenho. Sentia-se culpada. O pobre idiota devia ter temido por sua vida quando se viu a sós com o ladrão. E era em parte sua culpa por não dar-se conta que o tinha deixado tão vulnerável.
Enquanto as cordas caíam, ele flexionou os dedos e revisou os pulsos raspados.
— Pode haver uma pomada de salvia em uma das arcas — ela ofereceu.
— São só raspões — ele deu de ombros — Machuquei-me pior treinando — o moreno se levantou — Agora me dê o coelho, prometo um banquete, minha lady — disse com os olhos brilhantes — Vai te dar água na boca e sua língua cantará elogios às culinárias dos Normandos.
Ela sacudiu a cabeça ante semelhante tolice.
Enquanto Sirius usava as panelas e movia as brasas da fogueira com um ramo, Marlene o observou recostada na cama brincando com a adaga entre suas mãos. Conseguira encontrar romeiro e hortelã, mas não cebola. A ele não pareceu importar. De acordo com o moreno, um Normando podia fazer uma sopa com uma pedra.
— Necessito da faca — disse ele.
Ela parou de brincar com a adaga. A única faca que tinha era a que estava em suas mãos. Seria sábio lhe ceder sua única arma?
— Não se preocupe, devolverei quando terminar, embora se trate de minha própria adaga.
Ela vacilou, seu estômago grunhindo em antecipação ao banquete, seu coração inquieto com a ideia de o dar uma arma. Mas quando seu estômago parecia ganhar a disputa, ele ofereceu.
— Se não confiar em mim, por que não toma a faca do ladrão? — ele assinalou para a janela — Deixou-a cravada na portinha.
O coração de Marlene se oprimiu quando viu a familiar faca preta. Hogwarts possuía três dessa curiosas armas. Todas tinham vindo da mesma fonte, haviam sido confiscadas das vítimas de A Sombra. A loira franziu o cenho, absorvida em seus pensamentos, enquanto passava um dedo sobre o cabo da faca de A Sombra. Se o famoso bandido tinha estado ali, por que Sirius tinha mudado sua história? Por que tinha afirmado que era outro ladrão?
Havia uma única resposta possível. Havia dito a verdade.
E ele tinha trocado seu relato quando Marlene tinha ameaçado sair para perseguir à A Sombra. Tinha mentido para protegê-la. Ela devia sentir-se insultada. Tudo isso significava que ele a considerava incapaz de defender-se. Mas a única emoção que pôde sentir foi admiração. Para protegê-la, Sirius se tinha feito passar por covarde quando claramente não era nada disso. Tinha sacrificado seu orgulho para que ela não se expusesse ao perigo. Era o tipo de coisa que só um galante cavalheiro faria.
Ela olhou brevemente ao inescrutável homem que se ocupava do coelho, dando-o volta sobre a chamas. Verdadeiramente era ele o covarde que ela tinha pensado? Seu discurso florido e sua estranha habilidade para cozinhar não tinham nada que ver com o homem interior? Era possível que ele fosse tão cavalheiro que mentiria para proteger ainda a seu inimigo?
— Lástima que não temos cogumelos — murmurou Sirius, distraindo-a de seus devaneios.
Quando terminou de usar a adaga, devolveu a ela. Fiel a sua palavra, o prato estava lhe fazendo água na boca. Lhe lançou um olhar desconfiado.
— Pode cozinhar tudo isso?
— Oh sim — o sorriso dele expressava autoconfiança — Nós Normandos levamos a cozinha em nosso sangue.
Marlene franziu o cenho, ele não podia, não assim tão bem. Cozinhar requeria muita paciência, muita atenção. A natureza impulsiva dela não lhe permitia estar sentada o tempo suficiente para preparar uma comida.
— Se isto estiver bom, talvez te permita continuar com as tarefas da cozinha.
Sirius suprimiu um sorriso. A moça não enganava a ninguém, estava tão familiarizada com as panelas como um monge com uma espada. Depois de que ela provasse sua comida, estaria lhe rogando que cozinhasse para ela. Já a tinha apanhado duas vezes chupando os lábios.
— Lastima que não tenhamos pão para molhar no suco.
— Temos bolachas de aveia — disse ela apenas para ver ele franzir o cenho aborrecido.
— Essas coisas horríveis que os Escoceses sempre comem? Que grudam no céu da boca?
— Sim — ela se endireitou indignada, seus olhos verdes ardendo ferozmente — Não há nada melhor para quando se está em batalha. Um escocês pode assar uma bolacha de aveia sobre seu escudo, e comê-la como café da manhã.
— Paz, pequena diabinha — o orgulho dela era admirável, mas era sua paixão o que fascinava Sirius — Não estamos em guerra.
— Não me chame assim, Normando.
— Então — ele sorriu — Não me chame de Normando — sua resposta foi o silêncio.
— Já esta preparado? — murmurou ela quando sentiu seu estômago reclamar, outra vez.
— No ponto — disse ele sorrindo.
Apesar de sua própria fome, enquanto estavam sentados juntos ao lado do fogo, tudo o que Sirius pôde fazer foi observar Marlene desfrutar da comida. Ela comeu vorazmente, lambendo os lábios, chupando os dedos, e, embora tentasse esconder, fazia pequenos sons de prazer com sua garganta. Ele se perguntou se ela fazia os mesmos sons quando se deitava com um homem.
— Por que não come? — perguntou ela, as orbes esmeraldinas o fitando.
Não estava comendo porque, observando-a devorar o coelho assado, de repente ele desejou algo ainda mais apetitoso que a comida. Seu membro se inchou com uma fome que ele não tinha satisfeito em semanas. Mas não se atreveu a dizer isso a ela.
— Só estava pensando — disse separando um pedaço de carne do osso — Quanto tempo planeja me manter aqui? — Sirius a viu franzir o cenho em seguida levou o polegar a boca chupando o resto do suco com sensual tranquilidade. Essa imagem o excitou ainda mais.
— O tempo que me leve — respondeu ela.
O tempo que me leve. Ele se perguntou quanto tempo levaria para domar a essa moça selvagem. Quanto tempo passaria antes de tê-la comendo em sua mão?
— Então — ele perguntou — Gostou do coelho?
— Foi... adequado.
— Adequado? — ele assentiu maliciosamente. Sirius supôs que era o maior elogio que ela podia oferecer a um inimigo. Mas ele sabia que o coelho assado estava muito bom. E antes que seu tempo como refém terminasse, estava determinado a conquistar a sua captora — Minhas habilidades são apreciadas entre os Cavalheiros da Ordem — ele se esqueceu de dizer que suas habilidades apreciadas não tinham nada a ver com a cozinha mas sim com o manejo da espada.
— Então por que ninguém veio a seu resgate? — ele abriu a boca para responder, mas a fechou novamente. Como poderia explicar que James provavelmente teria pensado que tudo não passava de uma brincadeira? — Não — ela continuou — Penso que não deve ser tão apreciado.
— Oh não, pequena Diabinha — ele a provocou sorrindo — A esta altura, James já seduziu completamente sua irmã, apostaria que ainda estão na cama. Ele e sua noiva domada.
Se tivesse pestanejado nesse instante, o soco de Marlene o teria volteado para trás, mas por sorte seus reflexos foram rápidos. Pôs seu braço diante de seu rosto a tempo para desviar o golpe. Instintivamente, tentou agarrar as mãos dela. Ela instantaneamente se retorceu contra seu aperto.
— Ninguém doma a uma Donzela Guerreira de Hogwarts! — rosnou ela entre dentes.
Sua declaração orgulhosa soou como um desafio aos ouvidos de Sirius, e a paixão de sua afirmação fez ferver ainda mais seu sangue. Ficou tão atônito com seu repentino ataque e sua veemente sentença que levou um momento para dar-se conta que agora a tinha em seu poder. E outro momento para que ela se desse conta do mesmo começando a lutar intensamente.
Ele poderia havê-la dominado e superado em força facilmente, poderia lhe haver perguntado triunfalmente, "Quem é o captor agora?" Ele poderia a ter arrastado e amarrado à cama toda a noite e ver se ela gostaria disso, era tentador. Mas ele era um nobre Cavalheiro da Ordem. Ele era um homem cavalheiresco e honorável. Basicamente, ele era Sirius Black.
— Deixe-me ir! — ela lutou contra seu aperto e ele a segurou firmemente — Deixe-me ir!
— Com uma condição — ele soube que estava em vantagem e ela sabia também.
— Diga-a — disse ela com os dentes apertados.
— Não me atará a cama pelas noites.
[...]
Quando Lily voltou para a fortaleza, descobriu que seu pai estava tendo um de seus maus dias. Encontrou-o vagando pelas escadas, chorando desconsoladamente, procurando sua segunda esposa, Edwina. Sua angústia era quase intolerável, Lily não teve o coração para lhe dizer que uma de suas filhas também havia ido, e que estava em algum bosque com um Normando.
Nesse dia nem sequer reconhecia Lily.
Ela sabia que tinha que passar o dia com ele na habitação, protegendo-o dos olhares e dos ouvidos dos serventes fofoqueiros, oferecer-lhe companhia e privacidade era o mínimo que ela podia fazer para preservar sua dignidade. Seus dias maus eram incomuns e suas irmãs podiam dirigir o castelo em sua ausência. Mas sem Marlene e Dorcas sobrecarregada de trabalho, não havia ninguém para controlar as tarefas diárias de Hogwarts. Lily amaldiçoou os normandos por sua invasão e Marlene por sua impetuosa escapada.
Estava sentada na habitação perto da fogueira, quando seu pai começou a reclamar a sua terceira esposa. Lily ajoelhou ao seu lado, ele chorava e tomou sua mão entre as dele, lhe falando para acalmá-lo. As ervas que tinha colocado no chá teriam efeito logo. Dormido, ela rogava, ele poderia encontrar alívio para as lembranças que o espreitavam.
Ajustando a manta sobre sua saia, Lily refletiu sobre seu próprio matrimônio e sobre seu marido normando. Possivelmente era melhor que ela não sentisse grande afeto por James. Só precisava olhar a seu pai para convencer-se de que o amor era um cruel amante: demandante, ciumento e lhe debilitava. Seu pai se casara três vezes, era assombroso pensar que todas as suas três esposas morreram após o parto, mas o velho Lorde dizia que Deus havia sido bom para com ele, o dando três filhas guerreiras, ferozes e ardilosas. Mas Lily não compreendia isso, via que o amor tinha tomado a um guerreiro que alguma vez sustentava sua cabeça com orgulho nas batalhas e o tinha reduzido a um velho doente. Não, era bom que não amasse a seu marido.
Ela olhou as chamas por um longo momento, finalmente os soluços do lorde diminuíram, e ele dormiu. Cuidadosamente desprendeu suas mãos das dele e adicionou um lenho a lareira. O céu escurecido lá fora a recordava que o dia terminaria logo, e que a noite implicava voltar sua própria habitação. Perguntou-se quão feroz seria a batalha que James exporia em umas horas.
Suas defesas estavam debilitadas, temia não poder lutar contra ele, mas não ia ceder.
Lily estava bem consciente que uma mulher podia empregar a paixão de um homem para dominá-lo completamente. A Luxúria era uma força potente. Tinha sido o calcanhar de Aquiles dos homens dos tempos de Sansão. Sempre e quando Lily negasse seu corpo a James, poderia exercer controle sobre muitas coisas. Governar a sua própria gente. Um perdão sem castigo para sua irmã. E comandar seu exército. Mas se ele suspeitava quão frágil sua fúria era, quão frágil era seu controle sobre seus própria desejos, essa seria sua perdição.
Alguém golpeou a porta e anunciou o jantar, despertando ao lorde de seu sonho.
— Lily? — o velho lorde pestanejou, então se levantou até sentar-se. Subitamente, ele se estava transformando em um pai orgulhoso, forte, capaz e sábio. Seus olhos estavam claros, seu olhar atento — Lily — ele disse carinhosamente, acariciando seu cabelo — O que está fazendo me olhando enquanto durmo ? Não deveria estar em braços de seu novo marido?
— Vamos jantar, pai? — questionou o dando um sorriso gentil.
— O Jantar. Sim, vamos jantar.
Ficou de pé e se estirou. Uma lagrima indesejada apareceu nos olhos do Lily enquanto ela vislumbrava brevemente ao orgulhoso guerreiro que seu pai alguma vez tinha sido.
— E depois, um bom jogo de dados — disse o grisalho com um piscar de olhos — Tenho que recuperar o dinheiro que ganharam esses normandos.
Lily não teve o coração de desafiá-lo. Sim, seu pai apostava enormes somas. Rara era a noite que passava sem que não jogasse aos jogo de dados e perdesse. Por sorte, Dorcas por volta de tempo tinha persuadido aos homens de Hogwarts a devolver o dinheiro ganho na conta do castelo. Agora o único dinheiro que o lorde perdia eram com estranhos que paravam no castelo durante suas viagens. Mas com a casa cheia de Normandos, novos acertos deviam ser feitos.
No momento, Lily tinha intenção de desfrutar da companhia de seu amado pai essa noite antes que se deslizasse de novo à loucura.
Seus planos para uma comida prazenteira foram arruinados. Aparentemente, enquanto esteve confinada na habitação de seu pai, James tinha feito estragos no castelo.
— Fez o que? — demandou ela quase engasgando-se com um gole de cerveja.
— Derrubei os velhos currais — disse James mordiscando uma truta que os normandos tinham apanhado no lago.
Para a consternação da ruiva, seu pai assentiu sua aprovação.
— Bem, estavam-se derrubando.
Ela grunhiu.
— E o que fez com os falcões?
— Terá que lhe perguntar ao cozinheiro — disse ele com um sorriso de canto.
Sua mandíbula caiu.
— Esta brincando Lily — riu Dorcas ao lado dela.
Lily não achou a brincadeira de James divertida no mais mínimo. Ela tinha estado ausente só meio-dia, e ele tinha reordenado tudo no castelo, e aparentemente com a bênção de seu pai.
— A truta está deliciosa, Ian — James apreciou — É uma pena que não possa mandar a meus homens a pescar todos os dias.
Lily fervia de raiva. Era só outro exemplo da ignorância de James.
— Nem te ocorra, se pescarem todos os dias, esvaziarão o lago, não teremos nada que comer no inverno, e não deixarão nenhuma truta para reproduzir-se.
— Sim — ele concordou — Assim me advertiu Dorcas.
Lily encheu a boca com comida. Não lhe importava o modo em que James se apropriava da casa. Já chamava às pessoas do castelo por seu nome. Já se tinha apropriado dos recursos de Hogwarts. E ganhava a aprovação de seu pai. Isto não era um bom presságio.
— James me disse que trouxe um armeiro muito inteligente com ele — disse o Lorde.
— Diggory — James adicionou terminando sua cerveja e chamando à serva para que lhe trouxesse outra.
— Já temos armas — afirmou Lily.
— Não deste tipo — seu pai disse com seus olhos brilhando.
— Todas de aço — completou James — Leve. Forte. Bem equilibrado.
Apesar do atrativo de ter novas armas, Lily sentiu seu humor a ponto de estalar.
— E tem planos de reconstruir Hogwarts, pedra por pedra, também? — rosnou ela.
— Bem, já que o menciona... — começou James.
— Lily! — disse seu pai secamente — Pare!
Ela se ruborizou. Por volta de meses da última vez que seu pai a tinha desafiado injustamente. Que fizesse isso ante um grupo de estranhos, particularmente depois de que ela tinha passado todo o dia cuidando de sua melancolia e preservando sua dignidade, era completamente humilhante.
Curiosamente, foi James quem interveio para aliviar seu orgulho ferido.
— Desejaria falar com você e com seu pai sobre certas mudanças no castelo, são bem-vindas as sugestões.
Ela estava tentada de perguntar por que fazia isso, já que parecia não necessitar sua permissão para nada. Enquanto isso, Emmeline Vance, uma das servas de Hogwarts, ficou entre eles para encher o jarro de James, claramente exibindo seus enormes peitos. Uma ofensa óbvia para Lily. Procurando distração, ela se deu volta para Dorcas.
— Começou com as contas?
— Comecei e terminei — respondeu a morena com um sorriso — Um homem de Sir James, Diggory, já havia feito o balanço deles. Só tivemos que somar os dois balanços.
Muito simples, Lily mais simples que unir a gente da Normandia e da Escócia.
O Caos abundava, ainda no grande salão. As palhas do chão tinham sido trocadas outra vez, embora Dorcas tivesse ordenado que os serventes trocassem a palha fresca só no mês passado. As bandeiras das paredes tinham sido arrumadas para dar lugar a várias insígnias que os cavalheiros da Ordem haviam trazido com eles. Um par de garotos Normandos tratavam aos cães do lugar, dando-lhes pedaços de carne de veado. E agora os moços da cozinha traziam um prato que não lhe era familiar para completar a comida, um prato Normando.
Maldição com todos! Esta era sua fortaleza, eram sua estas terras, eram seus serventes. A interferência de James era como uma invasão. Tão intrusiva como sua presença na cama. Mas à medida que revisava seus pensamentos e suas sensações, deu-se conta de quão irracional estava sendo. Não importava que mãos colocavam mais pedras nas muralhas do castelo, só importava que a fortaleza fosse mais forte por essa ação. Ela deveria estar agradecida pela ajuda de James.
Mas não o estava. Entre seu novo matrimônio, o sequestro de Marlene, cuidar de seu pai durante todo o dia, chegava a noite para que ela notasse que seu mundo tinha sido posto patas para acima, Lily estava muito irritada para sentir-se agradecida por nada. Desculpou-se do jantar, dando a James um olhar significativo que lhe comunicava tacitamente que não conseguiria o que queria dela essa noite. E se retirou a dormir.
[...]
Infelizmente, Marlene precisou sucumbir a ameaça do Normando e agora não o ataria a cama durante as noites e o pior eram que as previsões de Sirius provaram serem certas. Lily nunca chegou. Enquanto o Black a entretinha com história sobre as proezas de James, e ela relatava várias batalhas de seu pai, compartilhavam do queijo e cerejas e uma taça de água.
— Continua — murmurou quando o silêncio pairou na cabana, empacotou o queijo e o guardou na bolsa novamente — Diga-o!
— O que?
— Ela não veio — disse secamente — Tinha razão. Eu me equivoquei.
Ele poderia haver-se burlado, mas não o fez. Ele só se encolheu de ombros.
— Possivelmente amanhã — bocejou — Enquanto isso vou dormir, se nos levantamos cedo poderemos desfrutar da truta ao meio dia — esfregou as palmas das mãos e lhe piscou o olho — Talvez até possamos compartilhar a truta com sua irmã se ela chegar a tempo.
Marlene adorava truta e se não fosse pelo fato que Sirius era seu refém e que ela estava no meio de uma negociação política na qual o tempo era essencial, poderia desfrutar do desafio de ir pescar. Sirius tomou uma manta e a estirou ao lado da lareira.
— Pode ficar na cama esta noite.
Ela franziu o cenho, não por sua oferta, mas sim por sua audácia. Realmente estava ditando os términos a ela? Não era que ela questionasse seus términos. A cama era preferível ao chão.
— Está seguro que seus frágeis ossos normandos podem tolerar dormir no chão?
—É obvio que prefiro os lençóis de seda e travesseiros perfumados, mas me arrumarei.
Ele fechou seus olhos e sorriu, ela levou as mantas restante à cama. Apesar da bem-vinda comodidade do colchão cheio de palha, ela estava preparada para uma noite sem dormir. Deslizou a magra faca da capa e fechou seus dedos ao redor da manga. Podia ter concordado em não prender Sirius à cama, mas não tinha prometido que estaria acordada toda a noite, observando-o. O que tinha intenção de fazer. De fato, o último pensamento que teve antes que suas pálpebras se fechassem que estaria muito mais alerta se permitisse que seus olhos se fechassem só por um momento.
[...]
James tomou até a última gota de sua taça e olhou à moça que servia cerveja ao Reyner. Ela era uma moça atrativa com bochechas rosadas e seios grandes que apareciam pelo decote como duas fogaças de pães. Seu cabelo era escuro, seus olhos brincalhões, seus lábios, chamativos. Golpeou sua jarra vazia na mesa.
A moça bonita se aproximou e lhe serviu cerveja pela décima oitava vez, virtualmente pressionando a carne cremosa de seu peito contra sua bochecha. Ela riu e perguntou se havia algo mas que ela pudesse fazer por ele.
James tinha intenção de lhe dizer que sim. Tinha vontades de lhe sussurrar suas intenções luxuriosas no ouvido até que um rubor subisse às bochechas dela. Queria lhe dizer que a encontraria na despensa e que lhe daria um pouco vindo de suas próprias provisões.
Mas não tinha que ser. Cada vez que ele considerava a ideia de manusear à moça, a imagem de Lily se cruzava em seus pensamentos. Não era a culpa o que o detinha. A culpa teria sido fácil de deixar de lado. Depois de tudo, não tinha sido ele quem se negava a consumar o matrimônio. Não, e por isso ele tinha direito de deitar-se com quem o escolhesse. Mas não podia escolher. Ou melhor dizendo, se pudesse escolher, ele escolheria a moça ruiva que dormia em sua cama nesse momento. Suave. Cálida. E nua.
Soltou um suspiro e bebeu toda a cerveja de uma vez. A serva riu outra vez e perguntou se queria mais. Ele sacudiu a cabeça.
Olhou os degraus para sua habitação. Ele podia ir acima e fazer uma reclamação de seus direitos maritais nesse momento. Tinha direito. Ninguém o questionaria. Certamente Lily não esperava que ele cumprisse a promessa feita a sua irmã agora. Não quando Marlene tinha quebrado todas as regras e sequestrado a seu homem de mais confiança.
— James, moço! — o lorde o chamou, tirando-o de seus devaneios — Sente-se comigo e compartilha minha sorte!
O Potter tratou de não grunhir ante semelhante interrupção. Depois de tudo, ele raciocinou, suas ameaças eram vazias. Não tinha intenção de forçar Lily, com promessa ou sem ela. Para melhor ou para pior, ele era um cavalheiro honorável. Poderia jogar ao jogo de dados com o pai. O velho lorde parecia estar bastante lúcido essa noite. Além disso, James raciocinou, isso o faria deixar de pensar na tentadora e intocável deusa dormindo no piso de cima.
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