Donzela Guerreira
23 A tormenta e os ingleses
Notas iniciais
Capítulo 23

A tormenta e os ingleses
— Não? — Sirius estalou — O que quer dizer com NÃO?
Marlene quase sentiu pena por ele. Parecia estar em um genuíno choque ajoelhado diante dela.
— Não é que te ache... — ela procurou a palavra correta.
— Desagradável? — ele sugeriu.
Não era a palavra correta. Para nada. De fato, ela achava Sirius Black intoxicante, aditivo, completamente irresistível. E era exatamente por isso que ela tinha que rechaçar sua oferta. Nessa mesma manhã, em apenas olhar seus olhos brilhantes e seu sorriso sedutor fez que seu coração se acelerasse. Ela só queria unir-se a ele outra e outra vez. Mas matrimônio?
Até que James se declarou, nunca tinha considerado casar-se para nada. Só o desespero e a necessidade de salvar a sua irmã da infeliz união com James era o que a tinha movido para oferecer-se para fazer esse sacrifício.
Ela não queria ser uma esposa. Ela queria ser uma guerreira.
Os melhores guerreiros eram afetados por seu matrimônio. Um guerreiro precisava ter um coração frio, um coração livre de preocupações. Teria se casado com James para salvar a sua irmã, pois ela não sentia nada por esse homem. Mas com Sirius?
Ela tragou em seco, extraiu sua mão de entre as dele, e cruzou o quarto até a fogueira. Esse afeto que ela tinha começado a sentir pelo normando beirava perigosamente a obsessão, e ela não se atrevia permitir que ele visse quão vulnerável ela era.
Marlene falou por sobre seu ombro despreocupadamente.
— É um bom homem, e estou segura que seria um bom marido, mas...
— Mas sou um Normando — ele murmurou.
— Não, não é isso.
— É porque achas que sou um sátiro? — ela o ouviu ficar de pé e dar três passos compridos para ela. Sirius a agarrou pelos ombros e a fez girar para enfrentá-lo. Seu rosto era sério e sincero. E, Deus a ajudasse, tão bonito como o diabo — Se nos casássemos — ele prometeu — nunca levaria outra mulher a minha cama. A juro sobre minha espada e ante Deus.
Ela amava e odiava o modo em que a fazia sentir. E era por isso que tinha que negar. Ao lado dele, ela podia sentir-se mudar de uma guerreira feroz a um mascote treinado por Sirius. Marlene se consolava com o fato de que Sirius provavelmente se sentisse da mesma maneira que ela ante a ideia de matrimônio. Ela já o tinha ouvido o suficiente para saber que ele não era um homem para quem uma só mulher era suficiente. Não, Sirius se sentia obrigado a casar-se com ela porque era um cavalheiro, porque era leal a seus juramentos, e porque isso era o requerido quando alguém comprometia a uma mulher da nobreza.
Mas isso não significava nada para Marlene. Ela não se sentia nem arruinada nem comprometida. E Sirius já não era seu refém. Ela não o apanharia em um matrimônio que nenhum deles queria, só por uma questão de honra. Então ela se forçou a pôr um sorriso em seu rosto.
— Temo que eu sou incapaz de fazer essa mesma promessa.
Sirius a olhou, incrédulo.
— Seria me infiel te deitando com outros homens?
Ela se encolheu de ombros, mas não podia manter indiferença enquanto ele a olhava com olhos desesperados, então soltou de seu aperto e deu volta, levantando um pau para remover as brasas da lareira.
— É uma nova diversão para mim, isso, sexo. Poderia ter vontades de fazê-lo com outros homens.
Sua voz era sedutora e ameaçadora ao mesmo tempo.
— Asseguro-lhe isso, minha lady. Eu te daria todo o sexo que necessitasse — ele ficou atrás dela e murmurou contra seu ouvido — Poderia te ter na cama toda a noite, minha bruxinha libidinosa, e te satisfazer de tal modo que não poderia caminhar na manhã seguinte.
Ela fechou seus olhos contra a poderosa onda de desejo. Ela lhe acreditava. Ao menos ele a tinha deixado tão débil e ofegante como um cachorrinho recém-nascido. Mas ela não diria essas palavras pois eles ficariam presos em um matrimônio indesejado. Não importava quão grande fosse a tentação, os dois eram animais selvagens que precisavam correr livres na vida, Sirius para seguir levando mulheres a sua cama e Marlene para triunfar no campo de batalha.
Sirius esclareceu sua garganta.
— Não sou mais um nobre, minha lady. É verdade, esse título já me foi tirado a muito tempo, sou o filho bastardo, não mais o herdeiro das terras de meu pai, mas lhe asseguro que receberei uma considerável compensação econômica por...
Ela se zangou.
— Não necessito o dinheiro de um homem, se alguma vez me casar, não será por interesse.
— Então por que me rechaça?
Isso quase a fez sorrir.
— Nenhum homem pode forçar a me casar — ela replicou.
Ele sacudiu a cabeça.
— Maldição mulher — ele disse entre dentes — Devia ter sabido isso no momento em que vocês três brigavam pela desgraça de casar-se com James Potter?
Seus ouvidos se alertaram.
James Potter, o administrador do castelo, o estrangeiro a qual sua irmã estava obrigadamente casada. Marlene desviou o olhar para o chão, desde nova aprendera a proteger suas irmãs e mesmo que Lily não fosse ao certo uma donzela em perigo, ainda assim era sua irmã mais nova. Os dias com Sirius a fizera esquecer o verdadeiro motivo para estar ali. A anulação do casamento de sua irmã.
Não daria à Lily uma vida infeliz, não quando deveria ser ela a ter essa vida, era ela a irmã mais velha e se não fosse por sua própria irresponsabilidade em embebedar-se e tratar de tentar matar o Normando, estaria casada com ele e Lily e Dorcas livres.
Marlene engoliu em seco, temendo que suas palavras não saíssem.
— Sim, fizemo-lo — ela disse — E ainda o fazemos.
— O que?
— Ainda poderia me casar com James Potter.
— Não pode falar sério, já passou mais de uma semana, sua irmã ao menos já terá...
— James jurou que não a tomaria contra sua vontade, eles ainda podem não ter consumado.
Ele estalou em risada.
— Oh, sim claro.
Ela se mordeu o lábio. Maldição com esse homem, ainda quando ele ria a suas custas, era tão encantado como o demônio.
— Ainda se o consumaram, se Lily for infeliz de algum jeito, planejo tomar seu lugar — realmente tinha intenção de fazer o que dizia, embora duvidava que Lily concordaria com semelhante coisa.
— Sim? E se James não te aceitasse?
Ela sabia o que ele queria dizer. Ela já não era virgem. O que pensaria James disso? Mas ela levantou seu queixo e deu as costas para Sirius.
— Posso fazer que ele me deseje.
Desta vez Sirius não riu. Parecia como se tivesse acreditado. O brilho em seus olhos se apagou, e se converteu em decepção, e em seguida em uma irritação silenciosa, e finalmente em resignação. Sirius foi rengueando à cama para terminar de vestir-se. Ela se sentia interiormente sentida, pois podia ver que seu rechaço o tinha machucado. Ela suspirou. Lily teria estado orgulhosa dela. Por uma vez na vida, Marlene tinha dominado sua impulsividade e tinha pensado antes de atuar.
Houve um longo e incômodo silêncio enquanto Sirius colocava as botas. Marlene se penteava o cabelo com os dedos, espremendo seu cérebro procurando algo que dizer.
Repentinamente, Sirius plantou seus pés no chão e ficou de pé.
— Vamos.
Atônita, ela replicou.
— Para onde?
— De volta a Hogwarts.
— Agora? — ela franziu o cenho — Mas sua perna...
— Estou bastante bem.
— Quase está curada.
Marlene sentiu uma inexplicável opressão em seu coração, próxima ao pânico.
— Não posso correr, mas posso caminhar suficientemente bem.
Sua mente procurava desculpas.
— E se os ingleses nos atacarem novamente? Não pode brigar.
— Posso te defender se for necessário.
— É muito cedo — ela lhe deu as costas e começou a acomodar as panelas, surpreendida por sua própria reticência em deixar a cabana. O que andava mal com ela? Por que não desejaria voltar para sua casa? Não era que essa choça no meio do bosque era tão idílio.
E entretanto de certa maneira, era-o.
Os dois tinha compartilhado muito aí... histórias, jantares, beijos... e uma parte dessa aventura que ela não queria que terminasse. Se voltassem para Hogwarts, ela retornaria a sua vida previsível, uma vida cheia de bolachas de aveia escocesas e de artimanhas para manter seu pai longe dos problemas.
— Já é hora — ele disse bruscamente — De fato, faz tempo que deveríamos ter retornado e quanto mais nos atrasemos, menos possibilidade tem que James esteja de acordo com... seu plano.
Ela se mordeu o lábio, desejando nunca ter mencionado a ideia de casar-se com James. Agora estava presa em suas próprias palavras.
— Amanhã, então, certamente um dia a mais...
Suas palavras se perderam enquanto ele a perfurava com um olhar feroz tão frio como um inverno em Westeros.
— Não vou dormir uma noite mais com a esposa de outro homem.
[...]
Durante a primeira milha percorrida na fria névoa, cada passo foi uma agonia para Sirius. Uma dor como uma navalhada lhe atravessava a coxa como se a espada o ferisse uma e outra vez. E entretanto não era nem a metade da dor que a navalhada em seu coração cada vez que pensava no mesmo. Marlene fazendo o amor com outro homem.
O que tinha sido ele para ela? Uma diversão? Ela não tinha nenhum sentimento por ele?
Ele recordou sua primeira vez. Tinha sido com uma moça da cozinha, uma mulher quatro anos mais velha que ele. Seu coração tinha estado tão cheio de alegria e amor por ela por semanas, ele acreditava que o sol saía e se punha cada dia porque ela existia no mundo.
Da mesma maneira, nunca se tinha deitado com uma virgem sem deixá-la admirada. Agradecida. E apaixonada. De fato, ele mesmo algumas vezes tinha tido que aconselhar às moças que se apaixonavam por ele, porque frequentemente confundiam prazer físico com afetos do coração. Mas nada disso tinha acontecido com Marlene. Aparentemente ela não sentia nada por ele. Nem admiração. Nem gratidão. Nem afeto. Ele franziu o cenho. Talvez ele se equivocasse a respeito do afeto. Depois de tudo, ela tinha seu braço ao redor de seu ombro enquanto o ajudava a caminhar. Talvez, ele se consolasse com isso, era só que estava firme em sua resolução de casar-se com James. Possivelmente seu sentido de dever ultrapassasse todas as outras emoções.
Ele tinha intenção de descobrir se era assim. Era por essa razão que, apesar de sua perna dolorida, estava determinado a voltar imediatamente para Hogwarts. Certamente uma vez que Marlene visse que James e sua nova esposa eram felizes... ela reconsideraria sua oferta de matrimônio.
Ele esperava isso. Tinha passado muito tempo pensando nisso na noite anterior enquanto a donzela dormia aconchegada a seu lado. Sua indiscrição tinha sido só uma pequena parte de sua decisão de lhe pedir em matrimônio. Depois de tudo, havia ao menos uma dúzia de mulheres nobres, normandas e inglesas, que teriam saltado ante a oportunidade de converter-se em sua esposa.
Sirius não se deu conta disso até agora, pois se tinha fartado das donzelas que suspiravam ante seus doces galanteios e que se derretiam em seus braços. Marlene era uma ilha exótica em um mar de moças desejosas de apanhá-lo, uma mulher feroz e feminina ao mesmo tempo, inocente mas segura de si mesma, brutalmente honesta e ao mesmo tempo nobre de espírito. Ela o excitava e o surpreendia a cada segundo, mantendo-o alerta e em guarda.
Só uma mulher tão especial poderia convencê-lo de abandonar seu apreciado celibato, havendo-a ou não comprometido ao tomar sua virgindade, e ele sabia. Então dormiu com um sorriso no rosto. E sonhou com uma vida feliz juntos, com as comidas que cozinharia para ela, os meninos que lhe daria, e as anedotas que eles contariam a uma dúzia de pequenos guerreiros. Mas ela tinha demolido esses sonhos com um palavra essa manhã. NÃO.
Ele se estremeceu enquanto tropeçava em uma raiz no caminho e se viu forçado a apoiar-se nela.
— Descansemos — ela disse, dobrando o peso dele.
— Estou bem.
— Eu não — ela replicou, embora ele sabia que era uma mentira para protegê-lo. A moça tinha a energia de um cavalo de guerra. Nem sequer respirava rapidamente.
— Muito bem, mas só por um momento.
Ela o ajudou a sentar-se em um tronco caído.
— Por que está tão apressado por retornar? — ela perguntou abruptamente.
— E por que você não? — a decepção e o desconforto o punham irritável — Pensei que estaria ansiosa de ganhar o coração de James.
— Não é algo que possa ser apressado.
— O que? A sedução? — ele sorriu sem humor — Não te levou muito tempo a ter aos mercenários babando-se a seus pés.
Ela grunhiu.
— Não planejava me casar com os mercenários.
— Oh sim, só procurava te deitar com eles.
— Não! — ela replicou — Queria distraí-los para salvar seu maldito traseiro.
— Me salvar? — ele sorriu travessamente — Para que? Para cobrar o resgate!
— Isso não é verdade!
A amargura o fazia falar muito livremente.
— Mas antes de me trocar por seu novo esposo, pensaste que seria bom que provasse um bocado do que vais entregar a ele.
A mandíbula dela caiu.
— Supõe que o que passou na noite anterior foi completamente minha culpa?
— Talvez, se me houvesse dito que era virgem...
— Talvez... se você não tivesse assumido que não o era?! — sua voz soou alta no bosque silencioso, assustando até um pássaro que saiu voando.
— Como ia saber? — ele disse com desdém — Pelo modo em que te movia, dançava e te sacudia ante esses ingleses bastardos?
Ela o agarrou pela camisa e o aproximou dela.
— Eu não me sacudo, sátiro.
— De uma vez por todas — ele murmurou entre dentes — Esclareço-te que não sou um sátiro!
O que aconteceu a seguir ocorreu tão rapidamente que Sirius não teve tempo de mover-se. Enquanto ele olhava fixamente para Marlene, o olhar dela se fixou em algo em cima de sua cabeça. Os olhos dela se alargaram e em um movimento ágil, lhe tirou a adaga de seu cinturão. Ele ouviu o choque de uma espada alojando-se em uma madeira e em seguida o grunhido de um homem.
— Maldição!
Quando ele se soltou do aperto de Marlene, ele viu que ela tinha cravado um homem a uma árvore. Por um momento, o homem não podia usar sua espada, mas tratava de remover a adaga, que cravava a manga de sua camisa ao tronco da árvore, e pelo brilho em seus olhos, ele não vacilaria em usar essa arma contra eles.
— Merda! — Sirius murmurou entre dentes. Marlene o acabava de deixar desarmado e ela tinha a outra arma — Me dê sua faca.
— Não.
Amaldiçoando-a entre dentes, tratou de empurrá-la com a intenção ao menos mantê-la atrás dele, fora de perigo, mas ela já estava ali, avançando para o homem.
— Não! — sua ferida pulsando, enquanto tratava de ficar de pé.
— De onde tirou essa espada? — ela demandou ao cativo.
O homem não respondeu, e tratava de tirar a adaga o mais rápido enquanto ela se aproximava.
— Me responda!
— Responde! — Sirius gritou, sabendo que era a única maneira de mantê-la fora de perigo antes que ele pudesse alcançá-los.
Os olhos do homem se moveram para ele, e disse com desdém.
— Um de seus compatriotas, não lhe perguntei o nome, só o matei e lhe tirei a espada.
Mãe de Deus, era outro Inglês. Todo o exército Inglês tinha invadido a Escócia?
Marlene foi para mais perto.
— Essa é a espada do Bones, filho de puta.
O coração de Sirius saltou em sua garganta.
— Marlene, retorna!
— Não até que recupere esta espada escocesa deste inglês bastardo.
Sirius não tinha nem ideia quem era Bones, mas aparentemente era uma questão de honra que tirava toda razão a Marlene. Ela extraiu a faca de A Sombra e a sustentou contra a garganta do homem.
— Solta-a.
O inglês instantaneamente a agarrou pela mão com a mão livre, forçando a faca para longe de sua garganta. Sirius tinha intenção de intervir, de agarrar ela pela cintura, e arrastá-la para trás, a espada lhe importava nem um pouco. Mas antes que pudesse dar um passo, ela levou seu joelho a entreperna do homem, e com um fraco gemido, ele soltou ambas, a espada e sua mão.
— Filho de... — ela murmurou recuperando a espada. Esse Bones devia ter sido um amigo, porque ela estava zangada e triste. Ela se voltou para o Inglês — Quantos de vocês há?! — o homem estava dobrado em dois, com muito dor para responder. Em seguida ela fixou seus olhos nos de Sirius — Apostaria meu ouro que ele é da avançada do exército inglês.
Sirius assentiu. O homem estava muito bem vestido para ser um bandido. Esse era um nobre. Sirius agarrou a faca da Sombra dela e se aproximou do inglês. Com sua mão livre, agarrou ao homem pelo cabelo e forçou sua cabeça para trás, e em seguida colocou a ponta da faca contra a garganta.
— Qual é seu nome?
— Tra. Travers.
— E quem é seu amo, Travers?
O homem só fez uma careta em resposta. Sirius adicionou uma leve pressão à faca, permitindo que uma gota de sangue saísse.
— Seu nome.
— Lorde Black — Sirius ignorou suas lembranças e o nervosismo que se alastrou pelo seu corpo ao ouvir mencionar o sobrenome de sua família, antiga família.
— Quantos mais viajam com você?
O homem se encolheu de ombros.
— Não sei.
A maioria dos soldados não sabiam contar mais de dez.
— Tantos como seus dedos?
Um grunhido escapou do homem.
— Mais? — Sirius perguntou.
— Sim.
— Cinco vezes a quantidade de seus dedos?
O homem fez um sorriso desdenhoso.
— Tantos como as estrelas.
Sirius duvidava disso, mas o fato de que Lorde Black tinha sido enviado na avançada do exército significava que devia ser um contingente de considerável tamanho. E se era um exército, o comandante teria ouvido a respeito dos Cavaleiros da Ordem.
— Me escute bem, Travers — ele murmurou entre dentes — Estas terras estão sob a proteção de Sir James Potter, se seu amo tocar uma só pedra de um castelo nesta região, terá que enfrentar aos cavalheiros da Ordem.
Os olhos do homem se alargaram. Agora Sirius o deixaria ir, contando com o fato que ele passaria a advertência ao Lorde Inglês. Com o que não contava era com o pânico do homem. Enquanto Sirius baixava a faca, Travers finalmente desprendeu a adaga da árvore, e caiu para frente e Sirius cambaleou ao tentar esquivá-lo.
Mas quando retrocedeu, Sirius se torceu o tornozelo e caiu de joelhos. Os pontos da ferida se rasgaram, lhe fazendo doer toda a perna. Enquanto Travers recuperava a adaga, Sirius levantou a faca para bloquear o golpe, mas a faca não podia deter uma arma maior.
A terceiro investida de Travers ia direito ao coração de Sirius.
Quando Marlene viu Sirius cair de joelhos, o tempo pareceu correr mais lento. Um suor frio apareceu em sua testa. Um ofego de medo encheu seus pulmões. Um grito se formou em sua garganta. Milhares de ideias a bombardearam em um instante.
Sirius não podia morrer. Não aí. Não nesse momento.
Não depois que ela tinha cuidado de sua ferida com tanta devoção.
Não depois que ele a tinha tido em seus braços por toda a noite.
Não quando era sua culpa tudo o que tinha acontecido.
Mãe de Deus, ele não podia morrer.
Ela o amava. Deus a ajudasse, ela o amava.
Um repentino e feroz instinto de proteger Sirius a liberou da letargia e fez que cada músculo cobrasse vida. Com seu coração golpeando, com seu rosto sombrio, ela levantou a espada de Bones. No momento em que Travers se lançou para frente, sua espada estava esperando por ele. Antes que a ponta da adaga pudesse tocar o peito de Sirius, o inglês estava meio empalado na arma que Marlene sustentava.
Tão irracional e determinada como uma mãe cuidando de seu bebê, ela não vacilou em terminar a horrorosa tarefa. Ela o atravessou completamente com a espada.
Seus olhos se fecharam enquanto a vida abandonava o corpo, mas lhe pareceu uma horrível eternidade antes que ele finalmente caisse com um golpe seco em um atoleiro de seu próprio sangue.
Sirius lutou para ficar de pé. Sem perder tempo, arrancou a espada do estômago do homem morto, limpando a espada no pasto. Finalmente a enfrentou, sua boca aberta pelo estupor.
— Salvou minha vida.
Mas Marlene não tinha tempo para sua gratidão. Ela se cambaleou, seu corpo tremendo enquanto respirava pesadamente. No momento em que estava o suficientemente composta para voltar para a cena, Sirius tinha colocado a vítima para debaixo de um arbusto e tinha posto terra sobre as manchas de sangue.
— Devemos chegar rapidamente a Hogwarts — ele disse.
Ela assentiu, agradecida de que não mencionasse detalhes do ocorrido. Ela ainda estava tremendo. Matar a um homem não era um ato tão frequente para ela. Sirius guardou a espada de Bones e passou a adaga a ela. Marlene franziu o cenho ao ver que lhe dava uma arma pequena.
— A espada me pertence por direito.
— E será tua, uma vez que estejamos atrás das muralhas do castelo. Até então, levarei-a eu.
— Por que? — parte de seu tremor se dissipou e sua ira crescia — Eu salvei sua vida, você mesmo o disse.
Seu olhar era suave e sincero.
— Não deveria ter brigado por minha vida — Sirius estendeu seu braço e gentilmente apertou o ombro. Mas não importava quão genuína sua preocupação fosse, ela sentiu que esse gesto era condescendente. Ela sacudiu sua mão do ombro, incrédula.
— Duvidas de minhas habilidades como guerreira?
A expressão dele endureceu.
— E você duvida das minhas?
Ela o tinha visto usar a espada. Ela sabia que era um guerreiro capaz. Mas não lhe daria a satisfação de dizer-lhe. Quando ela não respondeu, ele murmurou um insulto, em seguida desenganchou a vagem da espada de seu cinturão e a deixou cair ao chão. Ele rengueou até o tronco caído e se sentou, cruzando seus braços sobre seu peito.
— É tua. Vá. Me deixe — ela pestanejou, insegura de como lhe responder — Se não pode confiar em um Cavalheiro da Ordem para te defender — ele murmurou entre dentes, sentindo-se insultado — Então é melhor que siga sozinha, eu só atrasarei o trajeto.
— Não te deixarei no bosque.
Ele olhou fixamente o bosque.
— Não te estou dando opção, não me moverei deste lugar.
Uma desesperada frustração começou a crescer nela. Não tinha tempo para essas tolices. Ele ia com ela, gostasse ou não. Ela tirou a espada caída de sua vagem e avançou para ele.
— Virá comigo, agora — ela disse, sacudindo a arma no ar.
Ele a enfrentou.
— Não.
— Não seja tolo. Tenho uma espada na mão.
— Então terá que me matar.
Por um longo momento, olharam-se um ao outro. Marlene sabia por seu olhar fixo que ele estava determinado. Maldição, Sirius não lhe estava dando opção.
— Merda! — ela lançou a espada a seus pés rendendo-se e lhe deu as costas, sem vontade de ver o brilho triunfante em seus olhos. Mas enquanto se afastava, algo soou ao lado dela no chão. Ele tinha atirado a adaga para ela. Com um grunhido de irritação, ela a levantou, ajustando-a a seu cinturão. Logo ela ferveu em silêncio enquanto, atrás dela, Sirius colocava a espada em seu cinturão.
Era por isso que nunca desejou casar-se, ela recordou a si mesma. Com o matrimônio vinha o compromisso e algumas vezes a submissão, e ela não tinha vontade nem de comprometer-se, nem de submeter-se. Ela era uma pessoa perfeitamente capaz de tomar suas próprias decisões sem a interferência de um homem que se acreditava mais capaz e mais inteligente simplesmente por ser homem.
Desejou que ele caminhasse cinquenta passos atrás dela, pensou enquanto empreendiam a caminhada. Ele devia lhe ter lido a mente.
— Não precisa me ajudar, minha lady, mas mantém-te a um passa ou dois, por uma questão de segurança.
— Ajudarei-te — ela insistiu, passando seu braço por cima de seus ombros. em seguida, para que ele não interpretasse mal suas motivações, ela murmurou — Se não o fizer, será o entardecer antes que cheguemos à fortaleza.
Quanto mais se aproximavam de Hogwarts, mais forte se fazia o pressentimento de um perigo iminente para Marlene. Ela tentava recordar-se a si mesma que as únicas ameaças a suas terras tinha sido os roubos ocasionais de clãs vizinhos, e A Sombra, cujas vítimas costumavam ser viajantes. Hogwarts tinha sido uma fortaleza impenetrável.
Mas agora que as questões políticas na Inglaterra tinham mudado, existia a possibilidade de que um grupo de Ingleses mercenários estivessem vagado no bosque.
O inglês tinha matado a Lorde Bones. Embora Bones fosse um homem gigante, certamente tinha feito falta mais de um homem para matá-lo, ainda pior, se a filha e a esposa de Edgar Bones estivessem com ele, o Lorde com certeza teria capacidade de enfrentar uma dúzia de Ingleses para salvá-las.
Para piorar as coisas, o castelo de Bones ficava a meio dia de cavalgada de Hogwarts. Se ele tinha sido assassinado em suas próprias terras, então o exército inglês estava perto, perigosamente perto. Marlene fechou os olhos com força, Bones era um amigo de sua família e sua pequena filha não tinha nem ao menos dez anos. A senhora Bones era muito amigo de sua mãe.
Pela tarde, quando Marlene subiu nos ramos mais altos de um carvalho para estudar o panorama, ela descobriu quão perto estavam. A invasão de Cavalheiros ingleses ia desde as colinas até tão longe como seus olhos podiam ver. Com sua cara pálida e seu coração golpeando, desceu da árvore.
— O que acontece? — Sirius perguntou, ela sacudiu a cabeça, sua boca estava muito seca e temia falar — Quantos são?
Ela tragou em seco.
— Cem, talvez mais.
Ele a agarrou pelos ombros e demandou que o olhasse.
— Me ouça bem! James não deixará que Hogwarts caia, a fortaleza está bem defendida, e os Cavalheiros da Ordem são os melhores nestas terras, juro-lhe isso, morrerei antes de permitir que estes bastardos tomem seu castelo.
Suas palavras, ditas com o coração restauraram a força de Marlene. Depois de um momento, ela assentiu.
— Aproxima-se uma tormenta. Devemos nos apurar. Pode correr?
— Farei-o.
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