Dois Lados
4 Nova vida, nova casa
Notas iniciais
Eileen estava na porta de casa. Ela estava juntando toda a coragem que tinha para entrar no pequeno apartamento pra conversar com seu irmão. César é 5 anos mais velho que a garota e eles moravam juntos. Ela não se sentia tão a vontade na casa por causa da namorada de César. Ela era legal e as duas se davam muito bem, mas Eileen se sentia como uma intrusa na vida do casal, ela estava até feliz que iria se mudar mas ainda era difícil. Seu irmão era tudo que ela sempre teve, os dois eram extremamente unidos, um sempre sabia o que o outro estava pensando só de trocar olhares. Apesar disso eles eram meio irmãos, filhos de pais diferentes.
Depois de respirar fundo uma última vez, a garota abriu a porta e viu seu irmão sentado no sofá com olheiras e uma lata de energético na mão dele. Quando ele a viu imediatamente colocou a lata na mesa de centro e correu pra abraçá-la.
“Eu sei que você me avisou pelo celular que estava na casa de um amigo, mas eu fiquei tão preocupado, já fazem três dias que você saiu.” Ele disse tirando todo fôlego de Eileen com o abraço apertado.
“Me desculpe maninho, eu vou te explicar o que realmente está acontecendo mas você precisa sentar primeiro, é bastante coisa pra engolir, é bom chamar a Bruna também, o que eu tenho pra falar é melhor que os dois tenham conhecimento sobre.” Ela disse se soltando gentilmente do braços de César.
Alguns minutos depois, Bruna, que estava dormindo, veio para a sala. Por dentro o apartamento tinha as paredes cor de creme, na entrada tinha uma mesa com quatro cadeiras e um balcão que separava aquela parte do que seria uma pequena cozinha com os eletrodomésticos pretos contrastando com os armários brancos que enchiam o pequeno espaço. Não havia divisão da entrada para a sala só um pequeno espaço onde logo depois se projetava o sofá de canto feito de camurça branca, com a mesinha de centro e a frente uma estante não muito grande com alguns livros, uma televisão, um playstation 3 e vários porta-retratos. No sofá se sentaram os três, César estava com o braço sobre os ombros de Bruna, observando Eileen do outro lado que parecia muito nervosa, como se estivesse se preparando para apresentar um seminário que custaria sua vida.
Alguns poucos segundos depois a garota começou a explicar tudo que aconteceu nos últimos três dias. Explicou sobre seu pai e como o encontrou, explicou sobre seu nome, sobre as criaturas que coexistiam com os humanos e sobre seus amigos. Quando ela terminou a sala estava em silêncio. O casal se entreolhava e logo os dois suspiraram como se tivessem sido derrotados.
“A mamãe me contou sobre as criaturas.” Começou César. Eileen o olhava confusa. “Ela me disse que nossos ancestrais eram homens gatos e que um dia um deles se encantou por uma mulher humana e assim começou a nossa linhagem mista. Somos homens gatos, Jul-Eileen.” Ele se corrigiu rapidamente. “Mesmo que seu pai não fosse quem é, você ainda seria uma descendente. Eu sou.”
Eileen estava pasma. Ela tinha uma mistura muito grande correndo pelas suas veias. Seus ancestrais eram homens gatos e humanos por parte de mãe e seu pai era um dragão. Como era possível aquela mistura ela nunca saberia.
“Eu não entendo. Minha forma de dragão é de um híbrido, não tem nada felino que interfira com os meus instintos ou meu corpo.” Ela disse tentando engolir toda aquela informação nova.
“Acho que é por causa do seu sangue de dragão.” Agora quem falava era Bruna, que esteve em silêncio até aquele momento. “Ele deve ser muito mais forte que o pouco que lhe restava dos seus ancestrais felinos. É como se essa parte não fizesse diferença alguma com todo o poder que emana da sua parte de dragão.”
“Parece lógico. Mas como você sabe dessas coisas, Bruna?” Eileen perguntou com curiosidade.
“Eu também sou uma descendente. Meus ancestrais vieram do japão há muitos anos, somos descendentes das kitsune.” Disse a garota com um sorriso.
Eileen ficou sem falar por algum tempo, tentando processar tudo aquilo. Será que seu pai sabia sobre o lado de sua mãe? E o agente Thompson, era óbvio que ele sabia mas por que ele não disse nada? Sua linha de pensamento foi cortada pelo toque de seu celular. Na tela estava escrito “número desconhecido” algo que a menina estranhou. Ela pediu licença e atendeu o celular do lado de fora do apartamento.
“Alô?” Perguntou a menina com incerteza, bem no fundo ela sabia quem poderia ser do outro lado da linha.
“Olá Eileen, aqui é o agente Thompson, espero que já tenha falado com o seu responsável sobre o que está acontecendo. Vá para a entrada do prédio, nos encontramos lá.” Ele disse rapidamente antes de desligar o telefone. A ligação não a surpreendeu, além de já estar desconfiada de quem era, Eileen já sabia que o encontro com seu irmão seria algo rápido. Ela mal havia dormido durante todos aqueles três dias. Pequenos cochilos e energéticos a mantiveram acordada enquanto recebia e estudava as informações que o agente a passava. O que ela realmente queria era ignorar tudo, ir para o quarto e dormir pela próxima semana. Em vez de fazer isso a menina entrou no apartamento novamente e disse que precisava ir.
Depois das despedidas, Eileen estava no local marcado esperando o agente quando um carro preto parou na sua frente e o homem de óculos escuros agora bem mais familiar fez um gesto para que ela entrasse.
Quinze minutos se passaram, o carro estacionou na frente de um prédio enorme, com pelo menos 15 andares, de uma cor creme como a maioria dos residenciais; o portão era de um cinza escuro e era possível se ver camêras de vigilância e a cerca elétrica por toda a extensão do muro. Ao sair do carro Eileen se viu cara a cara com seus amigos.
“Bem,” Começou o agente Thompson. “Essa vai ser a nova casa de vocês. Venham comigo.” O estranho grupo seguiu o agente enquanto a porta de entrada se abria para eles. Dentro do lugar eles observavam os detalhes simples da entrada. Um tipo de parque com alguns brinquedos e bancos ficava no lado direito do prédio, do lado esquerdo estava a entrada do estacionamento. Era como se o lugar tivesse sido projetado para impressionar por dentro e não por fora. Ao entrarem no saguão alguns sons de surpresa e de excitação foram reproduzidos. O lugar era enorme, com sofás de couro branco e algumas mesinhas, uma recepcionista sentada atrás de um enorme balcão os recebeu com um grande sorriso. Thompson conversou com ela por algum tempo e logo depois eles foram guiados até o elevador. O agente apertou o botão do último andar e todos se encararam com os olhos arregalados. Quando as portas se abriram Eileen prendeu o fôlego, Clara, Ágata e Fernando falaram “caramba” ao mesmo tempo. Gabe e John completaram com um “magnífico!” fazendo com que todos rissem com a piada interna, dissipando um pouco da tensão que todos estavam sentindo.
A sala, a frente do grupo, era enorme e redonda. O piso era completamente coberto com um carpete beje, haviam dois sofás e duas poltronas virados para uma estante que continha uma enorme TV e vários consoles diferentes. Havia uma pequena mesa de centro de mógno entre os sofás que eram de couro preto. Haviam três portas nas paredes carmesim e uma escada que subia para um segundo andar aberto, nele dava pra se ver mais outras portas e o que mais os impressionava era que bem a frente no espaço tinha uma janela gigantesca, como se os arquitetos tivessem projetado toda aquela parte da parede em vidro permitindo uma vista magnífica da cidade pra qualquer um que estivesse no segundo andar e uma mais incrível ainda do céu para quem estivesse na sala.
“Podem escolher os seus quartos. Tem três banheiros na casa e a cozinha fica ali” O agente disse apontando para a segunda porta da direita. “Essa vai ser a nova casa de vocês, podem começar a se aventurar nela pra descobrir tudo que foi colocado aqui para facilitar o seu treinamento e descanso.”
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