Dois Lados
5 Um pouco de história
Notas iniciais
Aquele era o segundo dia que Eileen estava passando na base militar. Ela tinha cochilado um pouco no sofá da área de espera mas além disso ela não havia dormido nada. Thompson a tinha dado dinheiro para que ela comprasse energéticos na máquina que tinha ao lado da sala de reuniões. A garota esperava que aquele energético fosse mais forte, a bebida dificilmente tinha o efeito desejado nela. Seu longo cabelo branco agora caia sobre suas costas e asas, irritada pela falta de sono Eileen estava sem paciência para arrumá-lo e por isso a menina pegou apenas um elástico e o prendeu em um coque. Desde que seu pai a havia transformado ela não tinha mais vontade de voltar pra forma humana e assim ela estava passando os últimos dois dias, como um híbrido preso numa base do governo ouvindo sobre história natural. A garota não reclamava, ela sempre teve uma paixão enorme por história. Logo sua linha de pensamento foi cortada quando ouviu a porta da sala se abrindo e o agente a chamando para que entrasse.
“Bem, hoje eu vou continuar com as explicações.” Disse Thompson que agora não usava mais seus óculos escuro, sem eles Eileen podia ver os olhos vermelhos do agente. Diferente dos olhos humanos os dele não eram como a definição faz parecer, a íris era vermelha, não como um tom de castanho, mas sim vermelho puro. A menina se perguntava a qual tipo de criatura o agente era relacionado, mas ela colocou tudo de lado e começou a ouvi-lo atentamente sem interromper.
“Os dois lados, humanos e criaturas, não se afetavam até que uma briga começou com um humano dizendo que uma criatura tinha matado um de seus filhos, a acusação era gravíssima e a ideia de que criaturas machucariam humanos sem mais nem menos começou a se espalhar por todos os lados. Dali em diante humanos começaram a desprezar algumas criaturas e adorar outras por seus magníficos poderes. As criaturas desprezadas odiavam os humanos e tentavam ferí-los se cruzassem seu caminho, outras faziam jogos e os enganavam por diversão; o ódio e a malícia mudaram muitas criaturas, algumas começaram a nascer diferentes, outras até mesmo começaram a necessitar de sangue e carne humana para sobreviver. As brigas e os problemas eram cada vez piores e para os justos de ambos os lados, que tentavam manter um certo controle, já estava impossível de fazê-lo. Humanos e criaturas entraram em um consenso de que os humanos, que eram maioria, não iriam mais ter conhecimento do outro grupo, elas seriam agora só estórias, como nós conhecemos hoje, mitos.
É claro que isso não durou muito tempo. Logo alguns humanos já tinham conhecimento e outros sabiam por motivos diferentes; esses nós começamos a chamar de 'descendentes'. Antes muitos humanos se relacionavam com criaturas apesar dessa relação ter sido considerada um tabu. Dessas uniões certas vezes nasciam híbridos e conforme esses híbridos se reproduziam eles originavam uma geração com o sangue misto. Algumas famílias tem o sangue tão antigo que seus antepassados já se perderam da memória; outras nunca chegaram a saber sobre eles. Os humanos normais com conhecimento começaram a se utilizar disso para benefício próprio, fazendo acordos com criaturas que os aceitavam pelo mesmo motivo que os humanos o faziam, dinheiro.
Com o tempo os problemas se agravaram e o primeiro lugar a tomar medidas foi a China. Quando a ONU foi criada ela também tinha uma área para os líderes das criaturas, juntas, as duas espécies criaram um time de jovens para manter a China protegida de ambos os lados. Com essa criação também se fez necessário um aviso para toda a população sobre a verdade. Uma lei foi criada para que o conhecimento não pudesse ser espalhado para países que não tivessem times, o que criou um efeito dominó, fazendo com que a Rússia, os EUA, a Inglaterra, a França, o Japão, a Austrália e muitos outros países criassem times também. No começo havia muito caos entre a população que sabia a verdade, anos se passaram para que a maioria pudesse se acostumar.
Agora faremos isso no Brasil e já é bem óbvio o que irá acontecer, por isso no começo o seu time vai ter um trabalho extra que mais pra frente não será mais necessário, vocês terão que ajudar a manter a população calma por pelo menos um ano. Sempre aparecendo em noticiários e dizendo como vocês estão aqui só para ajudar e-“ Antes que o agente pudesse continuar Eileen o cortou.
“Peraí, não vão existir segredos, então vamos ter que contar para nossas famílias?” A menina estava temendo isso, apesar de tudo ela não sabia como seu irmão reagiria. A híbrida estava com medo do que poderia acontecer.
“Sim, vocês precisam avisar seus responsáveis legais, exceto que aqui é como no exército, vocês vêm de um jeito ou de outro.” Thompson disse sem nem mesmo piscar. Pelo olhar dele Eileen percebeu que o homem também não se sentia confortável com a ideia de jogar adolescentes num campo de batalha, mas aquilo havia sido decidido por gente em um posto maior, eram apenas ordens e ordens só servem para serem cumpridas. “Continuando com o que eu dizia, vocês terão o trabalho de manter a população calma, sempre com o apoio do governo. Vai ser difícil mas precisamos fazer isso, vocês precisam de um caminho aberto para que possam trabalhar.”
“Então é bem isso mesmo, um emprego onde arriscamos nossas vidas. Legal.” Eileen respondeu com um tom de ironia. Ela estava com fome e sono, o único jeito de ela ficar mais mal humorada seria se o mal de toda mulher caísse sobre ela naquele momento. Exceto que a híbrida mal sabia se ela iria continuar com as mesmas condições de seu antigo corpo nesse novo.
“Não se preocupe, vamos discutir sobre as condições agora.” Thompson disse se sentando ao lado da menina e abrindo uma pasta que antes estava sobre as gavetas.
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