Doce Loucura
3 Um Beijo com Gosto de Remédio e a Fada Enfaixada
Notas iniciais
POV Zelda
Mesmo depois de ter lhe dado o remédio, Link ainda tremia e continuava inconsciente. Navi parecia estar pronta para desmaiar, porque não parava de gritar.
–Ele não vai morrer, vai? Parece que ele não está nem mais respirando! Princesa, tem certeza de que aquele remédio presta mesmo? Tem, tem tem? AAAI MEU DEUS..
–Navi! Calma... Tem alguma coisa errada. Já era para o remédio ter dado efeito.
Foi só aí que eu vi. O remédio havia escorrido pelo canto da boca de Link.
–Ele já devia estar desmaiado quando demos o remédio, por isso não pôde engolir.
–E agora?
–Bem, só vejo um jeito. — Minhas bochechas ficaram vermelhas. Eu não acreditava que teria de fazer aquilo. Minha respiração falhava só de pensar. Isso está errado — minha consciência gritava. — Ele devia fazer isso com você primeiro, não o contrário.
Mas a parte sábia do meu cérebro simplesmente decretou que era o certo a fazer, e como sempre, eu a segui.
–O que foi, princesa? Está muito vermelha. O que vai fazer?
–O que tem de ser feito, Navi...
Peguei o frasco com o remédio e coloquei um pouco em minha boca, sem engolir. O gosto era um pouco ácido e adocicado, mas nada que não se pudesse aguentar. Não era o maior problema para mim, quando havia tantas outras coisas para me preocupar.
Coloquei a mão sobre aquele cabelo macio, segurando sua cabeça para incliná-la para frente. Percebi que não era só ele quem tremia.
Isso, falta pouco Zelda. Você está fazendo isso para salvá-lo. Não tem que ficar desse jeito. Nem conta como um beijo, é um salvamento. Salvamento, salvamento, salvamento. — Repetia mentalmente para mim mesma.
Fui abaixando meu rosto devagar, atenta a qualquer movimento dele. Era estranho ver seu rosto tão perto do meu, em um ângulo que achei que nunca veria, apesar de ter imaginado tantas vezes. N..Não devia estar pensando em coisas assim. Salvamento - relembrei-me.
Por fim, toquei seus lábios gentilmente com os meus. AH! Isso é tão esquisito. Até surreal, para dizer a verdade. Não consigo acreditar no que estou fazendo. Mas já que é assim, vamos terminar o trabalho.
Moldei meus lábios ao formato dos dele, e fiz sua boca abrir, de modo que o remédio pudesse passar. Sinto um um tipo de eletricidade passear por minha coluna e deslizar por meus braços, arrepiando minha pele e eriçando os pelos. Mas é um arrepio gostoso e doce, daqueles que queremos sentir mais e mais. Imagino como seria se Link correspondesse a este beijo... Eu adorari- NÃO, Zelda! Como você pode pensar isso quando o pobre coitado está desacordado, e entre a vida e a morte? Nem parece uma princesa.
Arrisco deslizar minha língua por entre seus lábios, mas então, sou surpreendida por um tremor mais forte abaixo de mim. Tirei meus lábios dos seus rapidamente, e tento recuperar a compostura, passando a mão pela boca para retirar restos do remédio e saliva. Passei os dedos pelo cabelo e olhei para Navi, que parecia intrigada.
–Hmmmmmmmmmmm. — Ela simplesmente pronuncia, quase ronronando.
A verdade é que Link não tinha acordado, aquele foi apenas um movimento involuntário. Mas podia ver que a melhora havia sido instantânea. Seu rosto estava até mais corado.
–Então era isso que havia de ser feito, princesa? Não sabia que gostava do Link.- Senti uma pontada de ciúmes na fala de Navi, mas podia ser só impressão minha. Por que ela teria ciúmes dele?
–Eu não g-gosto do Link...Era preciso para salvar a vida dele.
Ouvimos um gemido baixo, e então Link sentou-se, esfregando as mãos sobre os olhos, confuso.
–Essa foi por pouco, Link. Quase que você passa de vez pro inferno. — E Navi continuou.- A princesa teve até que te b..-
Peguei as duas mãos e esmaguei Navi entre elas, como se fosse um pernilongo. Rapidamente, emendei:
–Bater! Sim! Tive até que te bater para ver se acordava! O que importa, é claro, é que você está bem.
Ele apenas balançou a cabeça afirmativamente e me lançou um olhar doce que continha um obrigado silencioso. Mesmo sem palavras, não era difícil entender o que Link sentia ou queria dizer.
Ajudei-o a se levantar e levei-os para dentro do castelo. Enrolei Navi em um bando de gaze e não permiti que eles fossem embora. Não de noite, pelo menos.
–Partiremos amanhã cedo. — Decretei, por fim.
Link levantou uma sobrancelha, aturdido. Só era preciso desenhar um ponto de interrogação sobre sua cabeça para ficar mais óbvio o que ele queria dizer.
–Bem... O que aconteceria se você se sentisse mal novamente (o que vai acontecer) e eu não estivesse por perto para te.. Hum... Bater?
Ele ficou sério.
–Você morreria.
Link pareceu entender. Seu rosto estava duro e sombras cobriam seus olhos, de modo bem sinistro. Decidi quebrar o gelo.
–Pode ficar tranquilo! Não vou deixar nada acontecer com você. Estarei por perto até você achar a cura para seu problema.
Ele mordeu o lábio.Isso pareceu deixá-lo ainda mais irritado. Por que?
POV Link
Zelda... Por que ela não entendia o quanto essas palavras me machucavam? ''Não vou deixar nada acontecer com você.'' Era para ser minha fala, não? Ela é a princesinha indefesa, não eu. Posso ter salvado o mundo, mas do que adianta se não posso nem tomar conta de mim mesmo, se uma princesa tem que falar uma coisa assim para mim?
Afundei meu rosto em minhas mãos. Maldito orgulho. Agora eu estava em um quarto do castelo em que Zelda vivia. Era exatamente como imaginei: Bem iluminado, uma cama enorme com travesseiros fofos de pena de ganso, várias e várias cobertas chiques cobrindo a cama, e um cheiro forte de incenso no ar. Por que razão os ricos têm que colocar esse negócio em todo lugar? Não tenho do que reclamar, entretanto. A princesa foi muito gentil por me deixar dormir aqui esta noite, mesmo que seja escondido. Apesar de todo requinte, o lugar era bem agradável e caloroso. Me sentia mais próximo dela estando aqui, já que na verdade, a princesa sempre me pareceu distante, inalcançável, como um sonho. Toda vez que a vejo, sinto o estranho impulso de correr e afundar aquele rosto angelical em meu peito, circundar seu corpo com meus braços, protegê-la de tudo e de todos, fazê-la minha e somente minha, desfrutar de seu cheiro, da doçura daqueles lábios, olhar para aqueles olhos e...
Senti que meu coração batia mais rápido, conforme meu corpo se esquentava. Só então, percebi que durante todo esse tempo em que meus pensamentos corriam soltos, Zelda tinha os olhos sobre mim. Ela nunca havia deixado o quarto. Meu olhar encontrou o dela, que disse:
–Tinha até esquecido que eu estava aqui? Me desculpe, mas é muito engraçado ver as expressões que você faz enquanto pensa. É muito fofo.
Não consegui segurar uma risada leve. Só então ela pareceu perceber o que tinha dito, então corrigiu, gaguejando:
–Q-quero dizer... Interessante! É-é muito interessante!
Dei um sorriso de lado. Não tem como fugir do que falou, Zelda. — Pensei.
–Você é muito engraçadinho não é, Link? Adora tirar sarro de mim. Durma logo, suponho que queira acordar cedo amanhã. Logo que o fizer, passe em meu laboratório secreto.
Ela se virou e deixou o quarto, marchando. Todavia, fechou a porta com delicadeza para não fazer barulho. No fundo no fundo, eu tinha certeza de que ela não estava brava de verdade, apenas gostava de mexer com meus sentimentos. Sorri com esse pensamento.
Como sabia que eu estava tirando sarro dela? Nós nunca passamos muito tempo juntos. Zelda parecia profissional em saber o que se passava por minha cabeça. Me enrolei com aquele cobertor fofinho e afundei minha cabeça no travesseiro de penas. Nunca dormi em uma cama tão luxuosa. Melhor aproveitar o descanso, pois amanhã será um dia longo. E vou levar Zelda comigo... Suspirei alto. Não sabia dizer se era algo bom ou ruim. Navi (que agora mais parecia uma bola de gaze do que uma fada) tentava falar alguma coisa, mas já que estava toda enrolada, parecia estar com a boca cheia de marshmallow e eu só ouvia: Hm hmh hhhhm!
Afaguei-a levemente (talvez eu tenha conseguido tocar nela?) e fechei os olhos. Logo meus olhos seriam banhados pela luz do dia.
Fale com o autor