Doce Arrepio
1 Capítulo 1 - Jobs
Sempre estava chovendo naquela droga de cidade. Miranda suspirou pela décima vez ao olhar pela janela de seu quarto, no segundo andar de sua nova casa. Ela lembra muito bem do amaldiçoado dia em que seu pai, Rodolfo disse que estavam mudando para uma pequena cidade. De início ela fez birra, dizendo que ia fugir ou morar com suas amigas (que não existiam), mas no final acabou aceitando. Seu pai trabalhava para uma empresa que devido a corrupção do gerente, foi à falência, então eles voltaram a cidade de origem de sua mãe, aqui pelo menos seu pai tinha amigos que iriam arrumar algum trabalho pra ele.
Sua mãe, Abigail, tinha desaparecido quando ela tinha 10 anos, e agora com 17, Miranda não era o tipo de menina sensível e ingênua. Sem a supervisão do pai, ela já tinha ouvido falar e visto coisas impressionantes e amedrontadoras. Estava mais para o tipo de menina que ouvia bandas de rock, usava camisas três vezes maiores que ela e não largava o all star. Essa era Miranda, a introvertida e esquisita. Não que isso a incomodasse, na realidade ela gostava de ser assim, evitava que pessoas se aproximassem demais para magoá-la.
Com seus longos cabelos castanhos, que eram lisos ao ponto de dar inveja, mas que viviam bagunçados, tempestuosos olhos verdes, altura mediana e uma atitude decidida, Miranda chamava a atenção das pessoas por onde passava.
Em sua antiga escola não tinha amigas e as pessoas normalmente passavam longe dela, tanto por seu modo de se vestir como por sua atitude. Chamavam-na de rebelde, muitas vezes zombando dela ou caçoando.
Dublin era gelado e sombrio como o coração de Miranda, por isso era difícil ela se acostumar naquela cidade. Conectou os fones no Ipod e a primeira música que soou foi Going Under, e ela sorriu irônica. Evanescence fez parte de uma época ruim de sua vida atrás onde fez tanta besteira que nem queria lembrar. Agora aquela música fazia completamente sentido com que ela sentia agora, ela não ia deixar ninguém magoá-la novamente. Ela tinha chorando por tantos anos, esperando sua mãe voltar e ela nunca o fez, mas agora, ela somente ignorava sua dor. Fingia não se importar com nada relacionado à sua mãe, não dava a mínima.
Cantarolando a música a medida que saía de casa e apertava mais seu casaco ao redor de seu corpo, Miranda lembrou como eram os dias quando ainda tinha uma família completa. Ela era uma pessoa totalmente diferente, alegre, sorridente e carinhosa; agora somente o que restava era rancor, raiva, seus sorrisos eram raros, e quase nunca verdadeiros, sua visão do mundo ao seu redor mudou junto com sua atitude. Não acreditava na bondade das pessoas, sempre estava um pé atrás quando alguém fazia algo bondoso a ela ou simplesmente lhe sorria. Passou a desacreditar do amor há dois anos, quando se viu perdidamente apaixonada por um menino que a usou como alvo de chacota, a partir daí nunca mais permitiu aproximar-se de alguém o suficiente para que pudessem feri-la.
E aqui estava ela, em Dublin, cidade de sua mãe, com seu pai e estavam falidos. E ela estava cansada de depender de seu pai, então naquela manhã tomou a decisão de procurar um emprego; não era o que ela tinha em mente quando se mudou, mas a necessidade falava mais alto. Quando abriu o jornal que seu pai tinha deixado na mesa de manhã, a ideia surgiu simplesmente. E havia dois empregos em que se interessou imediatamente: um de garçonete num café que tinha visto quando estava chegando na nova casa, e um como ajudante de um fotógrafo. Ela sempre gostara de fotografia, e era fascinada pelo modo como capturavam um momento especial ou apenas uma paisagem.
A chuva era somente uma garoa fina quando fechou o portão de casa. Ia andando porque ainda não tirara a carteira de motorista, era péssima dirigindo, então o melhor é que fosse andando. Havia colocado uma calça skinny com uma blusa larga da banda Bad Religion que caberiam duas dela dentro, com seus All Star vermelhos e um sobretudo preto. Já que ia viver numa cidade fria teria que ter roupas que lhe esquentassem ao invés de morrer congelada, e com adição levava um par de luvas de lã vermelhas para combina. Mas nem assim ela estava aquecida o bastante, suas mãos estavam geladas demais e quando respirava saía fumaça branca de sua boca.
Já estava quase chegando ao café perguntar da vaga, só faltava mais uma quadra, e já estava dobrando a esquina quando sentiu um forte impacto contra ela, o que fez com que Miranda fechasse os olhos com força prevendo a dor de cair no chão, o que com certeza aconteceria. Mas não houve nenhuma dor, nenhum baque, o que ela estranhou e abriu os olhos e encontrou-se encarando vívidos olhos azuis. Franzindo a testa, abriu a boca mas a voz não saiu, e observou como o olhar se voltava a sua boca, o que a fez corar, sabia disso porque sentiu suas bochechas esquentando. Bruscamente se afastou, ajeitando sua roupa e levantando o olhar ao estranho a sua frente, concentrando-se em dessa vez fazer sua voz sair, pigarreando antes de falar.
— Preste atenção a onde anda!
— Desculpe, o que disse?, ele parecia divertido com a atitude dela e ainda mais com o que ela disse.
— Eu disse para ter atenção a onde anda, poderia ter me machucado, Miranda falou cruzando os braços e erguendo uma sobrancelha.
Sua atitude voltara depois do susto. E ela estava bem consciente do menino a sua frente, de como bem afeiçoado era. Ele era mais alto que ela, obviamente, alto o suficiente para que ela erguesse o olhar para ter que olhar pra ele. Seu cabelo era meio enrolado, um castanho escuro que mais parecia preto, sua pele era clara demais, mas ela não deu importância visto que estava numa cidade que o sol quase não dava as caras, e os olhos eram o que mais chamavam a atenção. De um azul tão vívido, que ela apostava que poderia identifica-lo a metros de distância, e quando ela estava tão perto dele, pôde ver pequenas sardas por seu nariz, assim como minúsculos pontos pretos dentro de seus olhos.
Balançando a cabeça para parar de pensar na aparência do menino voltou o olhar ao relógio e viu que estava quase atrasada para a entrevista. Não poderia perder, já que realmente precisava do emprego. Voltou seu olhar ao menino e viu que ele ainda estava lá parado, observando-a e com um sorriso esquisito no rosto.
Miranda suspirou rolando os olhos e começou a andar novamente, em direção ao café que agora já estava a vista. Chamava-se Smith’s Coffee. Bem criativo, Miranda pensou. Quando estava passando do lado do menino, se assustou quando ele pegou seu braço e a fez virar para ele. Ainda mantinha o sorriso esquisito, que ela descreveu como cínico. Ele a puxou pra perto, de modo que ela viu novamente os pontinhos pretos de seus olhos.
— Não recebo nem um obrigado por ter salvado sua vida?, ele perguntou. Sua expressão já era séria, sem nenhum pingo de humor.
— Ter salvado minha vida? Você que esbarrou em mim, quase me fez cair e ainda quer um obrigado? Bem, obrigada.
Miranda disse as palavras carregadas de ironia, puxou seu braço para fora do aperto do menino e ficou encarando-o.
— Assim está melhor, mas esqueceu de que eu a impedi de cair no chão?
Ele estava brincando com ela, Miranda sabia disso pelo simples dançar dos olhos dele. Estava se divertindo à custa dela, e isso não a agradava em nada. Já estava ficando de saco cheio de aturar a esse desconhecido, então resolveu logo pôr fim à conversa.
— Pode até ter impedido, mas isso nunca aconteceria se olhasse por onde anda. Estou atrasada então, passar bem!
Ela foi andando apressada, tanto pelo fato de estar atrasada para a entrevista, como pela necessidade de sair de perto daquele menino o quanto antes. Os olhos dele deixavam-na inquieta, parecia como se estivessem vendo dentro de sua cabeça, sabendo cada pensamento, cada segredo que ela tinha. E isso a desconcertou, ninguém podia saber o que ela pensava, ninguém.
Suspirou aliviada ao entrar no pequeno café que, com sorte, seria seu local de trabalho. Dirigiu-se ao balcão que havia ali e um homem, que provavelmente era o dono do local, sorriu a ela.
— O que deseja mocinha?
— Estou aqui para a entrevista de emprego. Eu liguei antes, Miranda Schimidt.
— Ah sim. Venha por aqui querida, vou lhe mostrar o lugar.
Miranda o seguiu para dentro do estabelecimento, e logo ficou encantada com o lugar. Era bem aconchegante e simples, mas dava um ar chique pelos bancos de madeira e um toque vintage pelas cores presentes. Ela simplesmente amou o lugar, e seu sorriso animado chamou a atenção de Gregório, o dono. Ele a tratou bem durante toda a excursão e quando terminou ele a levou ao escritório para concluir a entrevista.
— Creio que é nova na cidade, não é? Não lembro de a ter visto em algum lugar antes.
— Sim senhor. Acabei de me mudar com meu pai, vim de New Orleans.
— Ah não me chame de senhor, Gregório está bom. E por que vieram para cá? Algum motivo especial?
Miranda sorriu minimamente e fez uma careta antes de falar.
— Certo Gregório. A empresa em que meu pai trabalhava faliu e viemos para cá. Meu pai morou aqui quando era jovem, e foi onde conheceu minha mãe. E ele achou melhor, por alguma louca razão, que viéssemos para cá.
Gregório riu com suas palavras e levantou-se. Esticou sua mão a Miranda e sorriu.
— Está contratada senhorita Schimidt. Pode começar amanhã às 8 horas. Disse-me que suas aulas também começam amanhã, certo?
— Por favor, me chame só de Miranda e sim começam amanhã, mas são à tarde então não precisa se preocupar.
Miranda apertou sua mão devolvendo seu sorriso. Estava animada por conseguir seu primeiro emprego, e ainda mais um que pagava tão bem somente por servir café a outros. Fez uma careta ao lembrar-se de uma coisa.
— Senhor... er, Gregório, não tenho nenhuma experiência, nunca trabalhei na vida. Achei justo lhe falar isso.
— Não tem problema, vou pedir para que Matthew lhe ensine como fazemos aqui. – Gregório disse enrugando o nariz ao falar o nome do rapaz e resmungou algo que Miranda prendeu o riso ao ouvir: Vou acordá-lo amanhã cedo a pontapés.
Ela se despediu de Gregório, o agradecendo mais uma vez por aceita-la no emprego. Quando estava novamente na rua ela olhou ao relógio e este marcava já sete e meia da noite. Teria de se apressar se quisesse chegar ao estúdio fotográfico antes que fechasse. Ela fez parada a um táxi, não fazia ideia de como chegar lá andando e estava com pressa. Deu o endereço ao motorista e este lhe lançou um olhar atravessado ao ver o endereço, coisa que Miranda não entendeu muito bem. Não passou dez minutos e chegaram ao local. Miranda ficou deslumbrada ao olhar o estúdio, era grande e muito diferente do que tinha imaginado. Pagou o táxi e o mesmo saiu cantando pneus de tão rápido que fora embora, e Miranda franziu o cenho ao olhar a vizinhança. Parecia abandonada, tudo calmo e quieto. Ela entrou no estúdio vendo que ainda a impressionava como diferente era. As paredes todas cobertas de fotografias, de pessoas, animais, paisagens e alguma delas eram somente fotos brancas. Limpou a garganta preparando-se para chamar alguém quando ouviu um pigarreio.
Virou-se bruscamente para trás e ofegou quando viu um homem bem próximo a ela, deu um passo para trás para se recompor.
— Desculpe senhorita, não pretendia assustá-la.
— Tu-tudo bem, senhor. Estou aqui para a entrevista de emprego.
O caso é, Miranda pensou que com dois empregos estaria ajudando seu pai nas contas e ainda teria um dinheiro para si mesma. E visto que os dois eram em horários diferentes e a escola se encaixava entre ambos, ela decidiu tentar a sorte.
— Senhorita Miranda Schimidt, estou certo?
— Sim senhor, mas me chame somente de Miranda.
— Miranda... Ah desculpe, me chamo Andrew Williams, mas pode me chamar de Drew. É um prazer conhece-la.
Ela apertou a mão que ele estava oferecendo e forçou um sorriso tentando parecer educada. Drew era totalmente diferente do estereótipo de fotógrafo que ela teria pensado. Ele era incrivelmente bonito e elegante, ao contrário de Gregório que já estava mais na casa dos 50 e tinha um estilo desse mesmo ano. Drew parecia ter no máximo 30. Ele levava uma calça social preta com uma camisa cor de vinho, manga longa dobrada até os cotovelos e um colete de veludo preto por cima e claro, estava segurando uma câmera fotográfica.
— Tem alguma noção de fotografia? Conhece as câmeras, os modelos?
Miranda fez uma careta engraçada, posto que ele riu de sua confusão.
— Vou entender isso como um não. Bom, já que é a única pessoa que ligou atrás do emprego, pode considerar-se empregada. Mas vai ter que aprender a conhecer as máquinas, os modelos e tudo relacionado a fotos. Vou lhe dar o meu manual, aí está tudo que precisa saber e um pouco mais. Tudo bem?
Ele a entregou um livro grosso e sorriu ao vê-la abrir a boca com o peso do manual.
— Não se preocupe, não é nenhum bicho de sete cabeças. Talvez de três...
Miranda riu junto com ele e ajeitou o manual entre seus braços, assentindo com a cabeça.
— Vou ler tudo e prometo aprender tudo até amanhã. Serei a melhor assistente que terá.
Ele assentiu satisfeito e ficou olhando-a por uns segundo, o que deixou Miranda desconfortável. Não demorou muito e ele pareceu despertar de seu transe e foi até uma mesa bagunçada procurando por algo e voltou com um cartão e entregou a ela.
— Meu cartão. Qualquer coisa que não entender, relacionado ao manual, pode me ligar, qualquer hora. Minha letra pode não ser lá muito legível.
— Ok, qualquer dúvida, vou ligar.
— Então, lhe vejo amanhã às seis.
Miranda assentiu mais uma vez e virou-se, saindo do estúdio. Quando estava fora, olhou ao redor novamente, estranhando o quão quieto estava. Parecia que não havia ninguém por perto. E ela preocupou em como ia sair daquele bairro, não sabia como voltar pra casa, e não se lembrava do caminho que o táxi fez, sua memória era péssima para lembrar caminhos.
Suspirou conformada e começou a andar pela rua, por sorte tinha um mapa, mas pelo que parecia o bairro que estava não estava identificado lá, então nada feito. Estava andando por uns dez minutos e seus pés começavam a doer quando ouviu uma buzina de um carro e deu um pulo com o susto.
Olhou ao motorista pronta para soltar uns palavrões quando viu que era Drew. Ele abaixou a janela do passageiro, inclinando-se sobre ela e sorriu antes de falar.
— Desculpe por lhe assustar novamente. Está perdida?
Miranda respirou aliviada. Não era de pegar carona com pessoas estranhas mas aquela era uma situação diferente, estava perdida e não tinha ideia de onde ir. Sorriu alegre e chegou mais perto do carro, inclinando-se também para a janela.
— Tudo bem. Estou sim, e não faço ideia de onde estou.
— Sobe aí que eu te levo.
Ele destravou a porta e ela entrou, colocando o cinto de segurança e o carro voltou a andar. Miranda voltou seu olhar a Drew e sorriu agradecida.
— Obrigada, se não fosse por você, eu provavelmente continuaria andando a noite toda.
— Não precisa agradecer. Para onde está indo?
— Conhece o Smith’s Coffee?
Levou algum tempo antes que ele respondesse, e Miranda notou que os nódulos de seus dedos estavam brancos pela força que estava segurando o volante. Ela perguntou-se se tinha dito algo errado, pela reação dele, com certeza tinha feito algo. Provavelmente ele não tinha imaginado que era tão longe.
— Conheço. Mora perto de lá?
— Sim, se puder me deixar lá, eu agradeço. Minha casa não é longe.
— Tudo bem, lhe deixarei na esquina, logo ali.
Ele inclinou a cabeça a frente lhe mostrando que já estavam na rua que cruzava a do café onde iria trabalhar. Quando ele parou o carro na esquina, Miranda virou-se para ele e mais uma vez sorrindo, lhe agradeceu. Para sua surpresa ele estava com o semblante sério e ainda segurava o volante com força excessiva.
— Hum, desculpe por ter feito com que desviasse de seu caminho para me trazer aqui. Mas obrigada, de verdade.
Ele piscou e seu rosto se virou a ela e Drew já estava sorrindo novamente.
— Não se preocupe, foi um prazer trazê-la. Não a deixaria andando por aí a noite, ainda mais sozinha. Há lugares que são perigosos para que lindas meninas andem sozinhas.
De certo modo, o sorriso dele tinha se tornado sinistro quando disse aquela última frase e ela sentiu um arrepio subir pela sua espinha, mas forçou-se a sorrir e sair do carro normalmente. Acenou a Drew mais uma vez, e esperou enquanto ele ia embora, virando na rua antes do café. À noite as ruas eram mais iluminadas, mais alegres do que de manhã.
Miranda se lembrou de que a esquina onde estava agora, era a mesma onde tinha esbarrado com o menino. Ficou lembrando-se de como os olhos dele intrigaram-na, e a deixaram com medo também. Desejou que ele não estivesse aqui novamente, não saberia como reagir a ele depois do que disse. Tinha que ir para casa, e nisso pôs-se a andar para casa, amanhã o dia seria cheio e ainda teria que ler aquele manual! Soltando um suspiro, Miranda foi andando até avistar seu pai entrando em casa, com um olhar cansado. Tinha passado o dia atrás de emprego e ela não podia culpa-lo por estar aqui, seria bom para eles. Ela faria ele se orgulhar.
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