Do you remember me?
28 Pesadelo
Notas iniciais
Era deprimente, mas ao mesmo tempo reconfortante, pensar que se eu morresse, havia apenas uma pessoa para sentir minha falta. Eu não tinha família, tinha apenas Dave como verdadeiro amigo e a pessoa que eu gostava era o mais provável de ser meu assassino.
Saindo do banheiro, sequer esperei Evergreen falar alguma coisa. Questionei pelo meu celular e soltei um suspiro desanimado ao descobrir que ficara no meu quarto com Laxus. Diversas perguntas foram feitas por Evergreen, mas não quis falar no assunto. Minha cabeça doía demais e em certo momento comecei a chorar. Tentei em vão conter minhas lágrimas e senti ela me abraçar, afagando meus cabelos enquanto dizia para mim que tudo ficaria bem.
Fiquei muito tempo abraçado com ela, antes de me sentar na cama. Evergreen se mostrou bastante compreensiva, chegando até mesmo a contar algumas piadas para me fazer sorrir. Ela cuidou de mim durante a noite toda, chegando a dormir segurando minha mão. Dormi muito pouco naquela noite, com vários pensamentos na cabeça. Às vezes cochilava um pouco, mas acabava por ter pesadelos e acordava novamente.
Fiquei nesta labuta até amanhecer. Uma chuva fina caía do lado de fora quando Evergreen acordou, abrindo um largo sorriso antes de me abraçar e me desejar um bom dia. Levei minhas mãos até suas costas, como se respondesse seu cumprimento e não demorou para que ela levantasse, afirmando que iria providenciar nosso café da manhã.
Ao vê-la sair, me deitei de lado, mantendo meus olhos fixos à janela que fornecia uma linda visão do céu nublado, acompanhado de leves gotas de chuva. Abri um fraco sorriso ao ver que o dia parecia melhorar, mas dei um pulo de susto ao sentir a mão pesada de Laxus no meu ombro. Cheguei a engolir em seco ao ver sua expressão séria e por sorte, uma enfermeira entrou no quarto para verificar como eu estava.
– Está mais calmo? — ele questionou, me olhando desconfiado. A enfermeira trocava minha tala, antes de verificar meu prontuário.
– Sim... — respondi, desviando o olhar. Não demorou para que a enfermeira saísse, depois de falar alguma coisa na língua dela.
Olhei confuso para a porta ao vê-la sair e novamente, levei um susto ao sentir a mão de Laxus sobre minha testa. Vi uma de sobrancelhas arquear, antes que ele resolvesse traduzir o que a enfermeira havia dito.
– Você está ficando com febre. Sua imunidade é realmente muito baixa... — ele me tocou dessa vez com as costas da mão, antes de circular pela minha cama e pegar meu prontuário. Começou a ler e quando a enfermeira voltou, fez algumas perguntas. Observei a tudo em silêncio e ele começou a discutir com ela, mostrando o prontuário. No início pensei que estivessem apenas conversando, mas não demorou para que Laxus começasse a aumentar o tom de voz. A enfermeira saiu do quarto soluçando e antes mesmo que eu perguntasse o que aconteceu, um médico que passava pela porta entrou.
Sequer tive a chance de perguntar o que estava acontecendo. Laxus mostrou o prontuário para o médico, que logo veio até mim e colocou um termômetro debaixo do meu braço. Depois de alguns minutos, o termômetro apitou e ele o retirou, balançando a cabeça, antes de dizer algo para Laxus e sair.
– Aconteceu alguma coisa? — questionei quando estávamos sozinhos e Laxus se sentou ao meu lado, esfregando as têmporas.
– Desde que você entrou neste hospital você não recebeu nenhum soro ou analgésico sequer. Está com dor de cabeça, não está?
– S-sim, está doendo um pouco. — respondi, constatando naquele momento que o que ele dizia era verdade.
– São mesmo incompetentes.... — ele voltou a esfregar o rosto, antes de pegar seu celular no bolso e conferir as horas. — O médico vai trazer o medicamento. Como você vai tomar uma bolsa maior na veia, vai demorar um tempo. Depois que acabar, vou levar você para o hotel.
– Fico feliz em ver vocês dois conversando!!! — Evergreen acabou por entrar no quarto sorrindo, com vários pacotes de padaria em mãos.
Senti meu estômago gritar apenas com sua aproximação e logo ela me entregou um copo de achocolatado e vários pãezinhos. Comecei a comer feito um esfomeado, o que rendeu uma gargalhada por parte dela e alguns comentários de que Laxus teria que trabalhar muitos e muitos anos para poder bancar minha fome. Fingi não ter ouvido, continuando a comer.
Não demorou para que o médico voltasse e preparasse a medicação. Tive que interromper minha comilança enquanto ele preparava tudo. Evergreen falava com Laxus, mas ele não tirava os olhos de mim por um minuto sequer. Era claro que ele não confiava nos médicos daquele lugar.
Um gosto amargo subiu a boca quando o medicamento começou a correr pelo meu corpo. Fiquei mais um tempo comendo chegando a sentir as mãos tremerem um pouco. Quando terminei, Evergreen pegou os pacotes e o copo. Laxus jogou um cobertor sobre mim e levou a mão até minha testa.
Alegando que eu precisava descansar, ele chamou Evergreen, saindo ambos do quarto. Apenas acompanhei a tudo com os olhos, sentindo rapidamente as pálpebras pesarem. Eu realmente precisava dormir.
–x-
O frio me fazia arrepiar e a cidade onde eu estava parecia abandonada. Um sonho? Poderia ser, mas não sabia dizer ao certo. A chuva caía devagar, enquanto meus pés descalços se afundavam na água que cobria todas as ruas. Procurando abrigo, vi a porta de uma casa aberta e subindo algumas escadas, consegui entrar. A porta bateu forte atrás de mim, chegando a me assustar, porém, não se comparou ao susto ao ver o local rústico em que eu estava. Era a casa dos meus pais.
Minha pequena cama estava em um cantinho, protegida por uma tela contra mosquitos. Na cama de casal, havia o velho ursinho da mamãe, o qual sempre tive cuidado ao brincar. As paredes sem reboco estavam lá, com alguns desenhos meus pendurados por ela. Em um canto, estava o fogão, a pia, geladeira e em um cômodo ainda menor, havia o banheiro. Olhei a tudo com uma certa nostalgia, me sentando na cama. Peguei o ursinho e apertei seu nariz devagar, assim como fazia quando era mais novo. Um sorriso enfeitou meu rosto, antes que eu sentisse algumas lágrimas de saudade escorrerem dos meus olhos.
– Freed?
Senti meu coração bater forte, assim como meu corpo, arrepiando até o último fio de cabelo. Respirando fundo, virei o rosto lentamente para trás, tentando me preparar para ver novamente minha mãe. Meus olhos percorreram o cômodo, antes que eu ficasse de pé. Onde ela estava? Caminhei até a porta, um tanto quanto apressado. Ainda tinha o ursinho em mãos e o apertava com força, afinal, eu não queria perdê-lo novamente. Levei a mão até a maçaneta da porta, estranhando por ela estar trancada. Tentei forçá-la e na minha primeira tentativa, escutei um grito.
Toda aquela sensação nostálgica desapareceu quando a porta começou a pegar fogo. Tentei me afastar, percebendo ao dar alguns passos para trás de que o restante da casa também estava em chamas. Correndo, me escondi dentro do banheiro, o que me fez lembrar o dia em que minha casa, já abandonada, foi demolida. Pedaços de pedra e madeira caíam sobre mim, barrando a porta, enquanto eu escutava os gritos da minha mãe, que implorava por socorro. Tapando os ouvidos, comecei a gritar, repetindo para mim mesmo que tudo aquilo era apenas um pesadelo. Meu coração socava meu peito e o medo me dominava completamente, me deixando paralisado. Para aumentar meu sofrimento, uma tora pesada de madeira caiu sobre mim, me deixando preso. Um gosto amargo subiu à minha boca e como se não bastasse todo meu desespero, uma mão carbonizada surgiu entre os escombros, puxando a minha.
Um grito me fez acordar, antes que eu sentasse na cama e fosse abraçado por Laxus. Tremendo, levei as mãos até o rosto, percebendo que eu estava chorando. Me abraçando forte, Laxus repetiu diversas vezes que estava tudo bem e que tudo não passara de um pesadelo.
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