Do you remember me?
58 Nas mãos de Hector - parte 2
Notas iniciais
A primeira coisa que veio ao meu campo de visão foi uma porta alta de metal. Deitado em um colchão, um cobertor fino estava jogado sobre meu corpo. Escutava barulhos altos de portas de metal se abrindo e fechando, além de passos do lado de fora.
Com dificuldade, apoiei meu corpo nas mãos, sentindo minhas costas arderem, enquanto meu traseiro latejava pelo estupro que sofrera e minha cabeça latejava de leve. Olhando ao redor, percebi que as paredes eram de cerâmica branca, mas na fresta entre elas havia manchas vermelhas e marrons, que davam aspecto sujo ao local.
– Nada de comida para você! – uma voz debochada soou, me assustando. Vi uma bandeja com um copo de água deslizar pela porta, a qual tinha um compartimento na base, como portas de prisão de filmes. – Bebe logo seu filho da puta ou vou entrar aí e estourar os seus dentes!!!
Com o grito eu mais do que depressa virei o copo de água na boca, só percebendo que eu estava sendo observado ao olhar para cima e ver uma grade na porta. Engoli tudo depressa e coloquei o copo sobre a bandeja, empurrando-a de novo para o compartimento na base da porta.
Um chute na porta me fez levar outro susto, fazendo com que eu me encolhesse ainda mais onde estava. Quieto, olhei assustado para a grade, escutando o barulho dos passos daquela pessoa diminuírem o som. Ele havia ido embora.
Durante muito tempo, a qual não sei precisar, eu fiquei ali, com medo e assustado. O cômodo tinha no máximo quatro metros quadrados. O teto era um pouco mais alto, tendo uma lâmpada branca para iluminação. Não havia janelas ou ventilação. Tudo que entrava e saía ali era pela porta.
Minha cabeça fervilhava em pensamentos e eu tentava ignorar a dor, enquanto me questionava o que estava acontecendo. Chorei por diversas vezes, abraçando meu próprio corpo na tentativa de me consolar e me poupar do terrível frio que me fazia tremer. Eu estava apavorado e em certo ponto só pensava que ou acabaria sendo morto ou viraria um escravo sexual para o resto da vida. Me perguntava muitas coisas e precisamente onde Laxus estava quando novamente escutei passos do lado de fora, me encolhendo ainda mais quando os sons ficaram mais altos e a porta foi aberta. Minha cabeça me mandou fugir, mas meu corpo me manteve imóvel, paralisado pelo medo que chegava a dar um gosto amargo a boca ao ver quem estava parado na minha frente.
– Boa noite.
Lágrimas encheram meus olhos e eu mordi meus lábios inferiores para não gritar. Hector estava de volta. Apertei o tecido da camisa branca e comprida que era a única peça de roupa que eu tinha para me cobrir. Minhas mãos se apertaram em meu peito, enquanto tentei inutilmente arredar o corpo para trás e no fim, apenas serviu para que eu espremesse minhas costas feridas na parede.
– Vou lhe explicar como funciona... cadela. – sua voz tinha uma calma que me deixava ainda mais apavorado. – Eu te faço perguntas e você responde, de forma rápida e clara. Entendeu?
Assenti e ele manteve seu semblante sério, até mesmo para me dar um tapa forte que me fez cair de lado sobre o colchão. Sem me dar tempo sequer de pensar, ele me puxou pelo cabelo com descaso e me empurrou para a parede, fazendo com que eu ficasse sentado novamente. O local que ele batera chegara a arder.
– Quando eu disser algo, quero ou vir uma resposta da sua boca. – ele continuou e sem rodeio nenhum, começou a perguntar o que queria saber. – O que você é para meu sobrinho?
Um calafrio de medo subiu pela minha espinha. Ele era o tio que Bickslow citara? Por que tudo aquilo estava acontecendo? Engolindo em seco, procurei parar de me perder em pensamentos para poder responder a pergunta. Mas o que eu realmente era para Laxus?
– E-ele gosta de mim. – minha voz saiu ainda mais fraca do que eu imaginei que estaria. Lágrimas pinicavam nos meus olhos e eu sentia que iria começar a chorar a qualquer momento.
– Gosta...? – um sorriso demoníaco surgiu em seu rosto e ele levou a mão no meu queixo, tendo seu polegar massageando meus lábios inferiores. – A reação que vejo em meu sobrinho já me mostra isso. Ele está louco atrás de você e nada mais justo do que provar que você está vivo não é verdade?
Terminando de falar, vi ele levar a mão até o bolso, tirando uma tesoura. Se sentando no colchão, ele fez um sinal para que eu ficasse de costas e mesmo com tanto medo do que pudesse acontecer, resolvi obedecer. Senti suas mãos frias tocarem sobre o tecido da blusa, tateando os dedos para cima, até segurar em meu cabelo na nuca.
– É tradição de todo Dreyar ter um filho homem. Esse filho cresce, mantém os negócios e se reproduz, até que tenha um filho homem. Caso nasça uma mulher... – senti a tesoura começar a cortar meus cabelos, apenas apertando os olhos de medo. Eu chegava a suar de pavor enquanto ele falava. – ela é descartada. Morta ainda dentro da barriga da mãe. A linhagem da família exige filhos únicos e homens, houve exceção apenas para o pai de Laxus e para mim, já que éramos gêmeos... – a tesoura continuou a fazer barulho e eu mal me movia. – O pai de Laxus herdou a herança por ter nascido primeiro e com isso Laxus também. Era natural que ele continuasse com a tradição, mas aí você apareceu...
O barulho da tesoura cessou e ele me girou com ignorância, para depois me empurrar para a parede, prensando minhas feridas contra a cerâmica fria. Uma de suas mãos foi para o meu pescoço, apertando-o para me sufocar. Na outra mão ainda estava a tesoura e olhando para baixo pude ver várias mechas do meu cabelo que haviam sido cortadas.
– Um Dreyar com poder para ter todas as mulheres do mundo resolve se tornar homossexual. Isso parece até piada... – com semblante sério ele apertou ainda mais o meu pescoço. Levei minhas mãos até seu braço, puxando-o na tentativa de apartá-lo, o que não adiantou. Ele continuou a apertar e só me soltou quando eu perdera todas as forças e estava quase desmaiando.
Eu tossia sem parar, quando ele voltou a puxar meu cabelo, segurando meu rosto com descaso para que eu olhasse para ele. Eu estava zonzo pela falta de ar, mas ele não teve misericórdia de mim em momento algum.
– Eu devia te matar, mas não se preocupe com isso ... amanhã você voltará a ter seu rabo comido por ele. Laxus vai me entregar a empresa em troca de você e por isso vou dedicar o restante do dia para deixar gravado no seu corpo o que vai acontecer se ele tentar pegar algo de volta. – ele gargalhou, apertando mais a mão em meu rosto, balançando-o para os lados. – Mantenha a cabeça de Laxus longe da ideia de que um dia terá a empresa de volta, pois se ele tentar qualquer coisa, eu, Hector Dreyar, irei acabar com você pessoalmente. Fui claro?
– S-sim... – respondi engolindo em seco, permitindo que lágrimas escorressem pelo meu rosto, mas em momento algum ele demonstrou alguma comoção.
– Espero mesmo que tenha entendido. Já vou avisando que você vai sentir muita dor quando acordar... – ele me soltou, enfiando novamente uma mão no bolso da calça preta que usava. Ele estava de terno, porém, a experiência foi traumática o suficiente para que eu não me prendesse a muitos detalhes naquele momento, principalmente ao ver ele tirar uma seringa do bolso, que tinha um líquido amarelo no êmbolo.
Esticando a mão, ele me fez entender que queria que eu entregasse meu braço a ele. Meu coração chegou a pular algumas batidas no peito e por segundos eu hesitei, antes de finalmente me entregar. Sabia que tudo seria pior se eu resistisse e mesmo com medo de morrer com aquilo, eu não tinha escolha. Lentamente ele começou a ejetar o líquido na minha veia, depois de espetar a agulha sobre minha pele pálida.
– Foi um prazer te conhecer Freed. Espero que sobreviva à viagem de volta.
A visão daquele sorriso demoníaco foi se tornando turva antes dele terminar de aplicar todo o medicamento. O medo, desespero e angústia perderam força, assim como meus músculos começaram a relaxar, até que por fim meus olhos se fechassem e vagamente eu ouvisse suas últimas palavras antes que meu corpo caísse sobre o colchão.
– Um dia voltaremos a nos encontrar.
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