Do you remember me?
46 Fuga
Notas iniciais
Na manhã seguinte Laxus saiu, creio que para trabalhar, me deixando sozinho naquela casa. Ele deixou a porta do quarto destrancada, assim como todas as portas da casa, exceto a de saída.
Vaguei por todos os cômodos, em busca de algo que me ajudasse na minha saída. Encontrei fita adesiva e um martelo em um armário da garagem. Tentei forçar o portão, mas ele parecia ainda mais firme por conta do frio. Andando por outros cômodos, fui coletando coisas que eu poderia precisar, como curativos, garrafas de água e luvas. Mesmo me recriminando por dentro, entrei no quarto de Laxus, mexendo em tudo o que estava ao meu alcance. Como não era a casa original dele, não havia muita coisa, só roupas, sapatos, perfumes e me senti o mais sortudo de todos ao achar dentro da sacola de um sapato novo uma quantia de 100 dólares.
Na cozinha, eu mexia nos armários, sem fome alguma, preparando um sanduíche para poder levar. Eu não teria muito tempo e percebi que não teria o dia todo para me preparar quando escutei o barulho do carro dele sendo estacionado na garagem. Desesperado, escondi o material que havia pegado debaixo de um dos armários, correndo de volta à cadeira e dando uma mordida grande no sanduíche pronto.
Engoli o que tinha na boca ao ver ele entrar. Com uma sacola nas mãos, ele caminhou apressado até onde eu estava e tirou o sanduíche que eu comia das minhas mãos, antes de colocar a sacola na minha frente. Tirando o celular do bolso, ele mandou uma mensagem para alguém, antes de falar qualquer coisa.
– Se ficar comendo só sanduíches vai acabar ficando doente. Eu trouxe comida para você.
Eu tremia. Tremia de susto, de medo dele sequer pensar que eu queria fugir. Laxus dissera que não queria me machucar, mas eu não estava disposto a pagar para ver e muito menos acreditava nele. Com as mãos trêmulas, eu abri a sacola, encontrando uma espécie de marmita dentro dela, cheia de verduras, legumes e carne. Não tinha fome alguma e enquanto olhava o que estava ali dentro, Laxus pegou os talheres e os estendeu para mim.
– Eu tenho que sair, mas vou ficar aqui e me certificar de que você vai comer tudo.
Meus olhos o acompanharam enquanto ele puxou uma cadeira e se sentou de frente para mim. Nervoso, desviei o olhar quando percebi que ele me encarava e peguei o garfo, cravando em algumas folhas de alface antes de levar à boca. Minha mão tremia demais e Laxus não demorou a notar isso.
– Por que está tão nervoso?
Senti meu coração gelar no peito, assim como as mandíbulas fraquejarem para mastigar. Laxus me olhava desconfiado e eu senti o coração acelerar no peito. Engoli a comida quase engasgando, mantendo minha visão voltada para comida, antes de dizer algo que já havia passado pela minha cabeça nas últimas noites que passei em claro.
– Você... você é o único que sabe onde eu estou. O que acontecerá comigo se você morrer?
– Não precisa ficar preocupado com isso Freed. Eu não vou morrer. — ele abriu um sorriso, antes de passar a mão entre os cabelos. — Tenho muita coisa para fazer aqui neste mundo ainda.
Respirei fundo, continuando a comer. Não quis prolongar nenhum assunto e logo Laxus estava com o celular nas mãos de novo, enquanto tratei de comer tudo aquilo o mais rápido que podia. Quando terminei Laxus embrulhou o lixo, jogando-o num cesto embaixo da pia. Meu coração chegou a gelar quando vi ele se abaixar perto do armário.
– Eu voltarei logo. Tenho uma reunião agora à tarde e volto para casa para ficar com você. Deve ser horrível ficar aqui sozinho.
Preferi não olhar para ele, fingindo que ajeitava minha blusa enquanto ele falava. Senti lágrimas pinicarem nos olhos, mas respirei fundo, antes de me levantar e colocar a cadeira no lugar. Laxus se aproximou e jogou minha franja para trás, antes de dar um beijo no topo da minha cabeça. Sem dizer mais uma palavra, ele caminhou até a porta e pude ouvir a tranca fazer um barulho depois que ele saiu. Quieto no mesmo lugar, permaneci quase imóvel até ouvir o barulho do carro saindo da garagem.
Eu sabia que não teria muito tempo e assim que me certifiquei de Laxus saiu, peguei as coisas debaixo do armário e fui para o quarto. Tratei de esticar a fita, colando-a em várias camadas sobre o vidro. Depois de cobrí-lo dei algumas marteladas, aumentando a força até ele se quebrar e eu conseguir retirá-lo com a fita a qual os pedaços ficaram grudados. O vento gelado bateu no meu rosto e eu senti meu coração acelerar. Não foi uma ideia extremamente planejada. Eu sabia que Laxus tinha o poder de me encontrar onde eu fosse, de forma que fugir era inútil, porém tudo que eu queria era fazer uma ligação e não havia telefone naquela casa. Mesmo desejando estar longe, eu sabia que as coisas, no mundo dele, não funcionavam assim.
Depois de quebrar o vidro, vesti roupas mais confortáveis e quentes. Peguei o dinheiro e as luvas, sentando sobre o armário na beira da janela e forçando as grades com os meus pés até que elas cedessem. Não pude deixar de sorrir quando ouvi o barulho dela caindo sobre o telhado e antes de sair pela janela, olhei para a cama.
Eu sabia que logo estaria de volta.
–x-
Documentários na TV já haviam me mostrado o quão frio era os Estados Unidos, mas eu jamais imaginava que seria tanto. Estava de dia, mas o sol não era visível. O céu estava nublado e o vento era tão frio e forte que parecia querer me derrubar.
Com cortes nas mãos e nos braços causados pela tela de proteção em cima do telhado, puxei a manga da blusa para proteger minhas mãos, já que a luva fora toda cortada pela tela. Aquele bairro era estranho, com casas com muros altos e como se estar num lugar desconhecido não bastasse, toda vez que via algum carro passar na rua, sentia meu coração disparar.
Não sei precisar por quanto tempo andei, mas sei dizer que minhas pernas doíam e minha garganta ardia pelo frio quando cheguei à uma loja de conveniência. Demorei muito tempo e cheguei a quase desistir ao tentar explicar para o vendedor que queria fichas para ligar em um telefone público, mas depois de várias confusões consegui comprar 10 fichas e descobrir o DDD daquele país. Aproveitei e comprei uma touca para proteger minhas orelhas que pareciam que iriam se partir com o frio.
Várias e várias discagens. Eu estava aflito, tanto que minhas mãos tremiam e as fichas caíram diversas vezes das minhas mãos. O que Laxus faria se me pegasse na rua? Eu não conseguia completar as ligações e sentia que meu tempo se esgotava. Olhava para os lados.. pensando em tantas coisas que quando acertei a discagem e ouvi um "alô" do outro lado da linha, senti meu coração pular algumas batidas.
– Dave?
Não tive de falar mais nada. Dave começou a gritar, perguntando onde eu estava, o que estava acontecendo, por que eu havia sumido... ele falava muito e eu tentava interrompê-lo sem sucesso algum. Tive que alterar o tom de voz e pedir para ele parar de gritar, gritando ainda mais alto que ele.
– E-eu estou bem Dave fique calmo. Desculpe eu não queria gritar, mas é que eu não posso ficar no telefone muito tempo.
– Freed o que está acontecendo? Por favor me diz, onde você está? — era nítida a preocupação em sua voz. Imagino quanto noites ele havia passado em claro tentando me encontrar.
– Aconteceu um problema sabe... com a indenização pela morte dos meus pais e estou resolvendo isso. Eu preciso resolver isso sozinho e por isso não lhe falei nada, mas calma. — o interrompi ao percebi que ele iria começar a falar novamente. — Eu estou bem. Desculpe não avisar antes, está meio confuso tudo que está acontecendo aqui e o pouco tempo que tenho estou indo dormir.
– Por que largou sua casa aberta? E por que deixou o celular para trás?
– E-eu jurava que tinha trancado e saí tão apressado que- acabei por ser interrompido.
– Freed pare de mentir. Por favor, me diz o que está acontecendo?
Respirei fundo, apertando os olhos. A voz preocupada e trêmula de Dave me deixava mais aflito do que já estava. Eu não sabia mais o que pensar e muito menos fazer. Virei as costas para a rua e apertei mais o telefone na minha mão, tentando criar coragem e ter forças para falar alguma coisa.
– Dave tem... muita coisa acontecendo. Eu não vou lhe contar nenhum detalhe eu só... só quero que saiba que eu estou bem. Eu prometo que assim que puder eu vou voltar para casa, mas não se preocupe ok? Eu prometo Dave ... prometo que vou voltar.
– Freed isso está muito estranho...
– Eu sei Dave, mas por favor, só me espere voltar ok? Eu prometo que voltarei assim que for possível.
– Tem certeza disso? Eu não posso nem saber onde você está? — ele questionou, ainda com a voz preocupada.
– Eu estou bem e só isso importa. — senti meus olhos se encherem de lágrimas e respirei fundo para não chorar. — Eu preciso ir agora. Não sei se vou conseguir te ligar de novo então eu peço que tenha calma. Logo estarei em casa.
– Tudo bem... se cuida e se algo acontecer me ligue. Quando você voltar vamos conversar sobre isso, mas eu vou esperar por você.
– O-ok...
Pude ouvir uma risada sem graça dele, antes que ele me chamasse pelo nome mais uma vez. Antes que eu perguntasse, ele disse "eu te amo" e isso foi o limite para minhas lágrimas. Ele repetiu mais uma vez e eu solucei, antes de dizer que também o amava e desligar. Eu não queria estar naquele lugar.
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