Do you remember me?
5 Dia seguinte
Notas iniciais
Aos poucos o som do meu despertador foi ficando mais alto. Mal tive forças para desliga-lo, sentindo cansaço e dor espalhados por todo meu corpo. Minha visão custou a focalizar as coisas e percebi que o que ocorrera na noite anterior não havia sido um pesadelo ao ver as marcas e feridas em meu corpo.
Com dificuldade, me arrastei para fora da cama, caindo de joelhos no chão ao tentar ficar de pé. Parecia que haviam me rasgado no meio. Comecei a soluçar e respirei fundo. A última coisa que precisava era abrir o berreiro em plena manhã de segunda feira. Me apoiando nos móveis, manquei até chegar no banheiro, me jogando em baixo do jato de água quente depois de arrancar aquele corpete e apetrechos ridiculos. Abracei meu próprio corpo ao sentir a água passar por minhas feridas. Minha bunda doía e tive vontade de gritar ao ver um líquido branco misturado com sangue descer por minhas pernas. Não tive forças para lavar meu cabelo, ainda sentindo fraqueza nas mãos. Praticamente, enfiei o chuveirinho em minha boca, ao meu lembrar do que havia descido por minha garganta, respirando fundo para conter a ânsia de vômito.
Saí do banheiro como um zumbi, mas sentia meu corpo limpo. Não havia mais resquícios de saliva, sêmen ou sangue em meu corpo. Fui até meu armário e escolhi uma camisa de linho de mangas compridas e gola alta. Havia marcas de chupões e mordidas visíveis em meu tronco. Vesti minha peça íntima com dificuldade e uma calça jeans, mas nada se comparou a dificuldade de calçar meu tênis. Prendi meu cabelo em um rabo de cavalo alto e me restringi a passar meu protetor solar no rosto, ignorando as olheiras que começaram a se formar abaixo deles. Puxei os lençóis para arrumar minha cama, mas senti lágrimas escorrerem por meu rosto ao ver uma poça de sangue seco como mancha.
Respirei fundo, tentando me recompor. Eu deveria ser profissional. Deveria seguir o que o contrato estipulava. Não deveria amar. Não deveria vê-lo diferente. Sabia muito bem que não teria condições de pagar a multa por desistência e eu precisava muito do dinheiro que me era ofertado.
– Não devo amá-lo. Não devo ... não posso chorar mais.... – respirei fundo por diversas vezes, antes de jogar os lençóis sujos em um canto e ir escovar os dentes. Deveria me acalmar, pois aquela noite fora a segunda dentre 363 que viriam.
Abri a porta do meu quarto receoso. Se eu tivesse opção, escolheria não vê-lo naquele dia, porém, quem tinha o direito de exigir algo ali era ele. Receoso, andei com dificuldade até a cozinha, deixando os ombros caírem ao ver que apenas Eleonor estava ali.
– Bom dia Freed! – ao menos alguém me chamava pelo nome naquela casa. – O que houve? Seus olhos estão inchados!
O sorriso dela se desfez e se aproximou, enxugando as mãos em um pano de prato. Ela mal me conhecia, mas sentia que se preocupava comigo mais do que Laxus.
– Eu dormi um pouco mal essa noite, mas estou bem agora. – sorri no intuito de não preocupa-la, o que não adiantou muito, logo tentei mudar de assunto. – Laxus já acordou?
– Não não ... – ela foi olhar os pãezinhos que assavam no forno. – Ele se levanta às sete.
Movi meus olhos para o relógio pregado na parede, percebendo que era seis e quarenta e cinco. Sem nem mesmo disfarçar corri para meu quarto, tirando meu notebook da caixa e enfiando na minha bolsa. Coloquei o cartão e celular em minha mochila e voltei correndo de volta a cozinha, deixando-a ainda mais confusa.
– Eu preciso ir. – meu traseiro doía depois da minha correria, mas preferia aguentar a dor do que ter de encará-lo. – Posso levar alguns pães para comer no caminho?
– Claro que pode! – ela disse, mesmo achando estranho meu comportamento. – Pegou alguns pães e colocou em uma vasilha, antes de pegar uma pequena garrafa de suco na geladeira e me entregar.
– Obrigado! – agradeci. – Desculpe não ficar, tenho de ir pra faculdade.
– Tudo bem. Tome cuidado e não coma enquanto estiver andando! – ela sorriu, me dando um abraço como despedida.
Peguei o lanche e guardei na mochila, antes de sair correndo daquele lugar como uma criança foge de um pai que vai lhe bater. Consegui me acalmar apenas quando entrei no ônibus. O ponto de ônibus era em frente ao apartamento e temia que Laxus viesse me buscar e me arrastasse de volta para dentro.
Chegando perto da faculdade, desci um ponto antes e passei na farmácia para comprar alguns curativos, analgésicos e uma pomada para assadura. Era ridículo ter que comprar aquilo, mas tenho certeza de que iria precisar. Cheguei à faculdade faltando alguns minutos para começar a aula e fui ao banheiro passar a pomada e medicar a mordida em minha clavícula. Logo depois, voltei para a sala e encontrei Dave na porta, me esperando.
Dave é o tipo de pessoa divertida, mas bem séria em alguns momentos. Sempre me ajudou em momentos que precisei, além de me ensinar as matérias quando precisava. Diferente de mim, ele aprendia as coisas bem rápido.
– Muito lindo da sua parte deixar as pessoas no vácuo em aplicativos ....
– Desculpa! Eu realmente me esqueci do meu celular durante o domingo!! – disse envergonhado, apenas de lembrar o quão “maravilhoso” havia sido meu dia anterior.
– Aham ... sei! – ele fez bico, antes de apontar que eu estava com o rosto inchado. – Fiz uma piada sem graça e ele percebeu que eu não queria falar no assunto.
Logo sentamos em nossas carteiras e me esforcei ao máximo para esconder minha expressão de dor. Era muito incômodo sentar em uma cadeira de madeira com o traseiro machucado.
As aulas se passaram, uma a uma e logo me lembrei de algo que me deixou em pânico. Havia um trabalho imenso para ser enviado até às oito da noite no e-mail da professora e eu sequer começara. Desesperado, pedi a Dave para me ajudar a instalar o sistema operacional e o pacote do Office para que eu pudesse começar. Pude fazer boa parte do trabalho no meu horário de almoço, a qual não tive tempo sequer para beber água. Ele tentava me acalmar e me ajudava, mas como sempre fui desesperado com trabalhos de última hora, não funcionou muito bem. Logo a aula terminara e eu estava desesperado dentro da sala, terminando de digitar o trabalho. Demonstrando a enorme preocupação que tinha comigo, Dave foi até a lanchonete e comprou um cachorro quente, refrigerante e uma salada de frutas para que eu pudesse comer. Sequer tocara nos pãezinhos que o Leonor me dera, devido ao meu completo desespero.
Quatro da tarde, quatro e meia ... cinco e quinze da tarde consegui finalizar e enviar por e-mail. Não passou dois minutos que meu e-mail foi enviado e a professora respondeu, alertando que havia recebido o trabalho. Apenas naquele momento, pude relaxar.
– Pronto, pronto ... – Dave tentava me acalmar. Cheguei a suar por causa da correria. Aquela faculdade era a coisa mais séria que eu considerava na vida. – Já acabou, está tudo bem. Agora vem, come um pouco. Você não comeu nada no almoço...
Ofegando de desespero, levei a lata de refrigerante à boca e Dave levou o cachorro quente até minha boca, para que eu pudesse comer. Dei uma mordida grande, demonstrando a clara fome que estava. Ele riu e passou um guardanapo na minha boca para limpar o ketchup que havia sujado.
– Está vendo? Você estava com fome. Vamos termine de comer. — ele aproximou o pedaço de cachorro quente que ficara em suas mãos na minha boca e eu o engoli em mais uma mordida grande.
Dave é a pessoa mais gentil do mundo. Sempre preocupou comigo e demonstrou amor, mas mesmo ele sendo tão bonito, não conseguia me sentir atraído por ele. Eu via aqueles olhos verdes e cabelo preto e ficava admirado, mas não conseguia sentir nenhuma atração. A pele dele era bronzeada e ele tinha um porte físico tão forte quanto Laxus. Perto dos dois, eu me sentia ainda mais magricela e fraco do que já era.
– Calma! Não engole meus dedos! – ele riu, passando outro guardanapo na minha boca. Me entregou a salada de frutas e amparou o rosto nas mãos. – Quer carona pra casa? Provavelmente você perdeu o ônibus- não escutei mais nada.
As horas, quantas horas eram? Olhei desesperado para o celular e vi que faltavam quinze minutos para estourar o prazo que Laxus estipulara. Comecei a suar e me levantei em um salto, guardando as minhas coisas de qualquer jeito dentro da bolsa. Dave se assustou e me perguntou o que houve, mas apenas respondi que precisava ir, abraçando-o, antes de sair correndo. Sequer olhei para trás, trincando meus dentes ao sentir meu traseiro latejar. Sabia que aquela seria a menor das minhas preocupações se chegasse atrasado.
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