Do you remember me?
22 Decisão
Notas iniciais
Alguns comprimidos que tomei a noite foram a salvação da minha febre. Na manhã seguinte, Eleonor me acordou e pude ver que minha situação não era muito boa por seu olhar. Respirando fundo, abri um largo sorriso, antes de abraçá-la. Eu iria ficar, mas estava disposto a fazer a situação melhorar.
Engolindo algumas caretas de dor, comecei a tagarelar sobre assuntos aleatórios, antes de arrumar minha cama e entrar no banheiro. Mesmo estando em outro cômodo, ela continuou a conversar comigo e ao que parece, percebeu que eu não queria nenhuma tristeza naquele dia. Usando a pomada e alguns curativos, me arrumei e saí do banheiro. Calçar meus sapatos foi uma tortura, mas fiz meu melhor perante a ela que me ofereceu ajuda todo o tempo.
Minha cara estava inchada de tanto chorar. As olheiras continuavam escuras em meu rosto, o que acabei por fazer uma piada meio fraca ao ver no espelho. Sendo prestativa, ela se ofereceu para trançar meu cabelo, o qual tive o maior prazer de deixar. Terminamos e fui para a cozinha, enquanto Eleonor citava os remédios que seriam bons para acabar com minha gripe. Ainda tinha febre, mas reunia cada gota de força que ainda tinha para fazer aquele dia ser melhor.
O café estava posto à mesa e Laxus ainda não chegara. Comecei a comer feito um louco ao ver tantas coisas gostosas, o que me rendeu o apelido de "esfomeado". Apenas ri da situação, respirando fundo ao lembrar que até mesmo falta de comida estava me sendo servida como castigo dentro daquela casa.
– Pode me ajudar com a gravata?
Laxus apareceu e evitando olhar para seu rosto, continuei a mastigar. Enchi um copo grande de suco e continuei a comer o máximo que podia. Não sabia dizer quando teria alimento ali novamente. Eleonor o cumprimentou e ficou na ponta dos pés para ajudá-lo, o que chegou a me fazer esboçar um sorriso. Realmente, eu estava decidido depois do que ocorrera na noite passada.
Me chamando, Laxus foi pegar as chaves do carro, enquanto abracei Eleonor. Pegando minha mochila, a coloquei nas costas, enquanto verificava as mensagens. Não havia nenhuma resposta de Dave, mas procurei me manter o mais otimista possível. As coisas seriam piores se me torturasse.
Em silêncio, descemos para a garagem e entrei no carro. Logo seguimos para faculdade e antes mesmo que eu abrisse a porta do carro para sair, Laxus apertou meu braço, me fazendo olhar para ele. Tive vontade de chorar ao ver a forma que seus olhos me encaravam, porém respirei fundo. Encará-lo era apenas o início da mudança que precisava.
– O que houve ontem vai parecer brincadeira se me desobedecer novamente. Fui claro?
Assenti, ignorando o fato de sua voz estar tão rancorosa quanto no dia anterior. Senti o aperto de sua mão afrouxar e logo me virei, antes de abrir a porta do carro. Andei o mais rápido que pude até a entrada do campus, me sentindo aliviado por estar em um lugar "seguro".
Mais do que depressa, caminhei até minha sala procurando por Dave, ignorando qualquer sinal de dor em meu corpo. Senti meus músculos travarem ao vê-lo, chegando ao ponto de ter dificuldade para respirar.
Ele abriu um largo sorriso ao me ver, mas não contive minhas lágrimas ao ver sua situação. Com o braço esquerdo enfaixado, ele tinha vários hematomas e arranhões espalhados pelo rosto. Não sei dizer o que houve com o restante de seu corpo, uma vez que ele usava roupas de inverno. Tive vontade de gritar vendo aquilo, entendendo o que Laxus queria dizer com “tarde demais”.
– Ei, ei, calma. Eu to bem! – Dave se aproximou de mim, passando os dedos em meu rosto para limpar minhas lágrimas.
– O que houve? – eu disse entre soluços, destruindo o meu bom humor disfarçado que usara até chegar ali.
Antes mesmo que ele começasse a falar, o professor entrou na sala, já ditando as regras que deviam ser seguidas a cada aplicação de prova. Passando sua mão direita em minha franja, Dave sinalizou que já estava bem, antes que eu me sentasse. Não preciso dizer que mal tive concentração para fazer a prova. Acabei por sair da sala rápido demais e Dave não demorou a me seguir. Enquanto esperávamos no corredor, ele me contou o que ocorrera.
– E você não deu queixa na polícia? – respondi ao ouvir sua história. Segundo Dave, um caminhou de lixo batera contra seu carro, o prensando contra uma mureta, destruindo não só seu carro, mas também seu celular e o deixando ferido. Sabia que Laxus tinha algo a ver com isso.
– Eu acabei desmaiando e quando acordei já estava no hospital. – mesmo com sua situação ele sorria. Não sei dizer se era para me acalmar. – Vamos, não chore. Eu vou ficar bem. Mas me diga, por que está tão pálido e com o lábio cortado?
– E-eu... – suspirei antes de responder, mas fui incapaz de dizer algo ao olhar em seus olhos. Comecei a soluçar, fraquejando da forma que pedira a Deus que não ocorresse.
– Aquele desgraçado bateu em você?
Seu grito ecoou pelo prédio, chamando a atenção das pessoas que passavam entre nós e daqueles que estavam dentro da sala. Senti ainda mais vergonha com seu grito, mas antes mesmo que clamasse por silêncio, ele me puxou pela mão, me levando até a praça da faculdade.
– Freed, pelo amor de Deus. Desista de tudo isso. Você não merece sofrer desse jeito!! O que tem ganhado ao lado dele? NADA! Ele só está machucando você!!!
Dave estava alterado. Vi que ele pouco se importava com seu braço quebrado, balançando-o enquanto repetia que eu devia abandonar Laxus. O observei em silêncio, secando minhas lágrimas. Reuni toda a coragem que tinha e toquei em seu braço ferido, fazendo com que ele me olhasse nos olhos.
– É verdade que você já fez o contrato?
E eis que o silêncio pairou. Dave virou os olhos para o lado, demonstrando a clara vergonha que sentia deste assunto. Ele fechou os olhos, respirando fundo antes de dar uma risada sem graça. Ao que parece o assunto lhe deixou sem graça o suficiente para que ele se acalmasse.
– Ele até demorou a te contar isso ....
Engoli em seco ao constatar que era realmente verdade o que Laxus dissera. Não podia acreditar. Dave era tão esperto e também era rico. Não havia motivos para isso. Respirando fundo, ele se sentou ao meu lado e antes mesmo que eu o questionasse o motivo, ele começou a falar.
– Foi há dois anos atrás. Eu era meio revoltado, não sei nem mesmo dizer o por quê. Bebia muito, ficava com uma pessoa diferente a cada noite e ... foi no meio dessa confusão que me envolvi com Laxus. – sua voz ficara mais calma e baixa, mas ele contava seu passado não deixando de enfatizar o quanto queria esquecer daquilo.
– E aceitou o contrato? – não pude deixar de questionar, secando minhas lágrimas.
– Na verdade, pedi que ele me colocasse nisso. Eu e meus pais não tínhamos uma boa relação e a proposta do dinheiro me soou como uma oportunidade para me livrar deles. Digamos também que eu não era flor que se cheire naquela época. Fazia muitas coisas erradas e transar com alguém que tinha acabado de conhecer era o mínimo da minha capacidade.
Houve silêncio quando ele terminou e eu ponderei se realmente deveria continuar perguntando, mas optei por questionar. Dave sempre me perguntou sobre as coisas abertamente e além do mais, queria realmente entender o seu vínculo com Laxus.
– Ele te castigou e por isso desistiu?
– Na verdade... – ele deu uma risada sem graça, abaixando a cabeça para a falar. — ... eu me envolvi com outro cara e ele descobriu. Ele me torturou e me bateu muito depois disso e com medo de que ele me matasse liguei para os meus pais. O resto você sabe, confusão, meus pais pagaram a dívida, tomei vergonha na cara e resolvi parar de agir feito um adolescente. Um ano depois, conheci você.
Assim como Dave, acabei por abaixar a cabeça. Na minha mente se passava o que Laxus teria feito com ele e a julgar por seus métodos de tortura, boa coisa não havia sido. Senti a testa dele encostar no meu ombro, enquanto sua mão direita enroscava meus cabelos.
– E-ele descobriu o que houve entre nós... – acabei por dizer, segurando lágrimas em meus olhos.
– Ele lhe bateu por isso? – Dave apertou mais seu rosto contra meu ombro, apertando meu braço com uma das mãos.
– Ele ... fez muita coisa comigo. – respondi, segurando soluços.
– Por que não aceita minha ajuda? Eu quero te ajudar. Quero ficar com você. Por que insiste em tudo isso?
Dave voltou a falar, ressaltando o quanto me amava, o quanto queria cuidar de mim. E acabei por começar a questionar o que eu e ele sentíamos. O que era amar? O que era desejo? Qual a diferença entre ambos? Dave me desejava, assim como eu também desejada Laxus. No dia anterior eu estava sendo ferido e tive a nojenta capacidade de gozar por isso. Não queria nada daquilo e olhando Dave alterado daquela forma, me questionei se ele não voltaria a ser o cafajeste que ele disse que um dia foi.
– E-eu vou vencê-lo Dave. – fiquei de pé e segurei em seu braço para que ele parasse de se exaltar. Recebi um olhar desconfiado, mas que teve como resposta a decisão que eu tomara na noite passada. – Eu vou deixar de amá-lo e vou vencer este contrato.
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