Do you remember me?
34 Ao meu lado
Notas iniciais
Dentro do carro, escutava os últimos sucessos de algum cantor que eu desconhecia, mas as músicas eram boas. Dave me fazia perguntas como "está com fome?", "sono?", "quer ir ao banheiro?". Estava claro que ele estava sem saber como agir. Ele sempre foi tão bobo. A parte mais difícil ele já havia feito.
Não demorou nem vinte minutos para chegarmos ao hotel. Com o enorme urso de pelúcia em mãos, caminhei com ele pelo hall de mãos dadas com ele. Me senti uma criança, ainda mais quando ele bagunçava meu cabelo. Dentro do elevador, deixei meus ombros caírem, me sentindo mais seguro e um tanto quanto envergonhado ao ver que ainda estava de mãos dadas com ele. Sem jeito, puxei a minha e provavelmente por meu ver vermelho, ele deu um berro, como quem imita um monstro para uma criança e me agarrou, distribuindo vários beijos pelo meu rosto. Comecei a rir com aquilo e Dave apenas parou quando as portas do elevador se abriram em nosso andar.
Me puxando pela mão, andamos juntos até a porta a qual ele destrancou com um cartão eletrônico. Me deixando entrar primeiro, ele logo tratou de trancar o quarto, enquanto meus olhos percorriam o lugar. Mais um hotel extremamente luxuoso para a lista da minha vida.
– Se quiser tomar um banho, mandei comprar algumas roupas para você. Se quiser comer, posso pedir para trazerem algo. Água tem na geladeira do bar, lençóis tenho aqui e... ah! Ali é o banheiro!
Sem jeito, eu apenas assenti, enquanto ele me mostrava tudo. Achei muito educado da parte dele ter pedido um quarto com duas camas. Mesmo já tendo feito sexo com ele antes, não me sentiria muito bem dormindo ao seu lado naquele momento.
– O-obrigado Dave. E-eu não sei o que fa-faria se...
Senti seus dedos quentes tocarem meus lábios, em um sinal que deveria ficar quieto. Levantei meus olhos, sentindo vontade de chorar ao ver o olhar carinhoso que era direcionado para mim. Deus, por que eu fui tão estúpido e escolhi a pessoa errada?
– Dói para falar não é? Não se preocupe com nada. Quero que você descanse. Quando estiver melhor, nós dois iremos conversar. Tem muita coisa que quero saber, mas até lá... — ele colocou o dedo indicador na ponto do meu nariz, apertando de leve para baixo. — eu vou cuidar e mimar você, entendeu baixinho?
Assenti, deixando sem querer algumas lágrimas escaparem dos meus olhos. Dave abriu um sorriso e as enxugou com as pontas dos dedos, repetindo para mim que tudo seria melhor dali em diante.
Na mesma noite, tomei um banho e Dave ajudou a tratar dos meus ferimentos. Mesmo sendo tão tarde, ele saiu para a rua e comprou os medicamentos que eu precisava, além de um termômetro para medir minha temperatura. Já eram quase duas da manhã quando me deitei na cama, abraçando o urso de pelúcia para dormir. Dave fez uma piada sobre o sotaque local que me rendeu uma risada baixa, antes de me desejar boa noite e desligar a luz do abajur.
–x-
No dia seguinte acordei bem tarde, quase às 11:00 hs. Me chamando baixinho, Dave acariciou meu rosto para me acordar, abrindo um largo sorriso ao me ver de olhos abertos. Me sentei na cama, ainda com o urso de pelúcia no colo e ele praticamente saltou sobre mim, tirando qualquer sono que eu pudesse ter com o susto.
– Como você consegue ser tão fofo?
Acho que nunca havia recebido tantos beijos como naquele dia. Dave começou a me dar vários beijos, segurando minhas mãos com cuidado para que eu não me debatesse. Ele me deu vários e vários beijos, abrindo um largo sorriso quando terminou. Sentando na cama, ele estendeu a mão para que eu me levantasse. Totalmente vermelho, me sentei novamente, recebendo um forte abraço, antes que ele me desejasse um bom dia.
Por mais que Dave fosse carinhoso e brincalhão, eu me sentia desconfortável com tudo aquilo. Minha dívida com Laxus havia acabado, mas eu começara uma com ele. Além do mais, a imagem que eu tinha naquele momento era de uma pessoa deplorável e fragilizada, algo que sempre odiei transmitir para qualquer pessoa. Outra coisa que também me incomodava era o fato de estar importunando ele, afinal ele havia saído de férias e no fim, estava cuidando de mim.
Soltei um suspiro desanimado, ainda com o rosto vermelho pela sessão de beijos. Dave tagarelava, enquanto eu pensava o que faria para poder saldar aquela dívida. Colocando o urso sentado na cama, me levantei, caminhando até o banheiro para lavar o rosto. Fechando a porta depois de entrar, andei até a pia, jogando bastante água no rosto. Escovar os dentes foi difícil e doloroso, mas nada se comparou a analisar minha situação.
A marca da pancada na cabeça ainda estava lá. Roxa e enorme. Os cortes dentro da minha boca sequer haviam começado a sarar e reconsiderei a fome que sentia ao lembrar do quão difícil foi comer no dia anterior. Um pequeno corte marcava o canto da minha boca e meu olho direito estava menos inchado, mas ainda era difícil enxergar por ele. Vários e vários pequenos hematomas e arranhados estavam espalhados pelo meu corpo e rosto, sem contar no peso que sentia no peito apenas de lembrar tudo pelo que havia passado.
Pegando mais um punhado de água, joguei no rosto a fim de aliviar as lágrimas quentes que escorriam. Por que eu sempre tive que sofrer? Mesmo criança, sempre fui maltratado e humilhado pela maioria das pessoas ao meu redor. Qual era meu erro? Eu queria entender.
Soluços escaparam da minha boca e sem que eu percebesse, Dave entrou no banheiro e me abraçou. Apertando o rosto contra seu peito, deixei todo o choro preso sair, enquanto ele acariciava minha nuca. Meu coração batia forte de dor. De sofrimento. Eu desejei morrer naquele momento para sentir aquele vazio no peito. Vazio que se esvaiu quando Dave sussurrou no meu ouvido.
Eu não estava sozinho.
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