Do not be a princess.
10 Balance in autumn
Notas iniciais

Papai me convocou em seu quarto novamente. O que dever ser? Outra notícia bombástica? Amy também estava lá, e parecia nervosa. Claro, afinal, quem não estaria? Além da sua vida mudar de uma hora para a outra, ainda tem um pai de última hora. Sentei em uma das cadeiras livres e bufei. Minha mãe me olhou de canto. Sorri.
— Bom, eu tenho um presente. Desde sempre soube que vocês são muito unidas, e bem, vou lhes dar isso. — Disse meu pai revelando sob a mesa um colar e dois pingentes.
Fui olhar de perto, haviam dois pingentes. Uma chave dourada bem pequena e o outro era um coração também dourado que deveria ser de ouro, nas bordas haviam detalhes prateados, ele tem uma fechadura. A corrente era a mesma da minha, só que dourada. Meu pai os pegou e girou a chave dentro do pingente, o fazendo abrir e revelando uma foto nossa no que me pareceu ser no meu casamento.
— É lindo. — Amélia disse quase que hipnotizada. — Mas não posso aceitar.
— Não, é apenas um presente meu. Isso é para que vocês nunca se separem e sempre trabalharem em dupla.
— Pai, sobre isso, precisamos conversar. — Pedi retirando meu colar e adicionando o novo pingente de chave.
— Pode falar. — Assentiu olhando para a minha mãe e sorrindo.
— Mãe e Amy, vocês poderiam nos dar licença?
As duas assentiram e se retiraram. Rodei minha aliança em meu dedo anelar tentando não ficar manter nervosa. Prefiro falar para uma multidão de um milhão de pessoas, mas pra ele não. Ergui o queixo e tive que me manter firme.
— Antes de tudo, vou pedir para não opinar durante meu argumento.
— Hum, lá vem.
— Eu disse sem opinar. — O encarei. Limpei a garganta. — A Amélia não é preparada para os seus planos. Ela pode sim aprender a governar o país, mas ser princesa ou rainha é além disso. Ser princesa é sacrificar a sua vida pelo bem-estar alheio. Eu fui criada para aceitar isso, a Amy não. Antes disso tudo ela já tinha planos, um namorado. Não pode deixar tudo o que construiu para trás. E eu me sacrifico pela minha irmã, não tenho nenhum tipo de plano mesmo. Ela nunca vai se adaptar o suficiente para um casamento planejado com o Conde Marks, que por sinal é muito velho. Porque, quarenta pra dezoito anos é uma diferença e tanto. Posso organizar tudo, posso auxiliá-la. — Comecei tão calma, mas a agonia tomou conta de mim, e já estava aflita.
— Zara Alexandra, por favor entenda. — Ele começou. — Não vai ser possível, mesmo que ela tenha um namorado, acho que ele não deve ser qualificado para governar, assim como ela. O Conde Marks está mais que preparado para tal coisa. Por favor, eu sei o que estou fazendo.
— Pai, você vai acabar com a vida da Amy, como acabou com a minha. — Eu me levantei da cadeira e fui até a porta.
Dei uma última olhada nele. Meu pai pode ter o defeito que for, mas ele ama muito e presa por sua família. Me ver desse jeito o acusando de que acabou com a vida das filhas o deixou despedaçado. Na verdade nada disso acabou com a minha vida, porque pra acabar eu tenho que ter uma primeiro. Saí o deixando sozinho com seus próprios pensamentos. Amélia e minha mãe conversavam tranquilamente.
— O que aconteceu ? — Perguntou minha mãe.
— Nada. — Menti.
Andei até a parte leste do jardim, até hoje só fiquei na parte sul. E como estamos no outono, mostrou muito mais a estação, já que há apenas árvores. Perambulei um pouco pelo caminho até achar um balanço que já estava gasto. Sentei um pouco hesitante, mas por fim ele suportou meu peso.
— Hora, olha quem está aqui. — Disse Erick se sentando no balanço ao meu lado.
— Vejo que alguém gosta muito de jardins. — Eu disse fitando uma folha solitária que se desprendeu de uma árvore.
— Bom, quem não gosta? Ele me dá a sensação de que sou...
— Livre. — Completei olhando para seus olhos verdes. Ele me olhou como se eu fosse algum cubo mágico. — O que você tanto olha?
— Eu me pergunto as vezes o porque de você me entender tanto, e eu finalmente sentir como se fossemos amigos. Mas no de repente viramos duas crianças brigando por seus ideais. — Juntou as sobrancelhas.
— Não somos compatíveis Erick, apenas isso. — Devolvi fria.
— Já disse e repito, estou disposto a ser totalmente compatível. — Ele segurou minha mão.
— Não podemos, por algo ou pessoas especificamente chamados Joshua e Trudie.
— Eu sei que você está confusa com os últimos acontecimentos, mas, saiba que sempre pode desabafar comigo.
— Obrigada. — Puxei minha mão de volta e sai em direção ao palácio novamente.
Estou evitando Joshua e Erick, essa situação da Amy não me permite ter futilidades amorosas. Ao andar no corredor esbarrei com Trudie. Não é possível que ela apareça toda vez que eu vá falar com Erick. Juro que não estou afim de parar pra bater papo, tudo o que eu quero é ir para o meu confinamento eterno chamado quarto, será que é pedir muito?
— Zara. — Ela sorriu abertamente.
— Trudie. — Eu disse sorrindo e tentando permanecer convincente.
— Você pode entregar... — Ela começou mas eu a cortei.
— Se eu posso entregar o papelzinho para o Erick. Desculpe, mas não acho que seja necessário. Você mesma pode entregar já que vai lá toda noite. — Alfinetei.
— Claro, querida. Eu preciso marcar com ele a hora para abrir a porta.
Agarrei o maldito papel e voltei marchando para o meu quarto. Será possível que eu tenha que servir de pombo correio a vida toda? Essa noite resolvi comer no meu quarto. Recebi a visita da minha mãe.
— Querida, o que você disse para o seu pai? — Ela perguntou com sua voz calma e tranquilizadora de sempre. Sua mão acariciava meus cabelos, eu estava quase ronronando.
— É um assunto meu. — Disse tentando não soar rude.
— Tudo bem, ele está muito triste com tudo isso. Sabe, vocês se parecem em muitas coisas. — Continuou.
— Eu não acho. — Respondi e ela riu.
— Você vai perceber. Um dia. — Beijou minha testa e se afastou. — Boa noite meu anjo.
A visita da minha mãe me fez muito bem. Adoro seus cafunés e é como ter um pedacinho da minha infância. Pedi que Marie dormisse comigo hoje. Ela e Ethan já se reconciliaram, e vou te dizer uma coisa, amigo apaixonado é péssimo. A escutei falar sobre cada detalhe meloso com paciência, até cair no sono.
Acordei em um lugar diferente, era o quarto do meu pai. Esfreguei os olhos e olhei para direita, gritei levando um susto. Meu pai estava com uma arma na mão e um tiro na cabeça, alguns de seus neurônios e restos cerebrais estavam espalhados no chão. Na parede estava escrito "Vida longa ao rei". Um homem com um facão surgiu ao meu lado.
— Não por favor. — Eu disse e acordei com o coração muito acelerado e ofegante. Passei a mão em minha testa. — Foi só um sonho.
Olhei ao redor e parecia estar tudo normal. Me levantei e andei até a porta de Erick. Bati e ninguém respondeu. Puxei a maçaneta, está aberta. Entrei lentamente. Paralisei no lugar onde estava. Trudie estava deitada ao lado dele, que por sinal estava dormindo feito uma pedra. Ela me olhou e tocou o dedo indicador nos lábios pedindo silêncio. Me retirei da mesma forma que entrei. Senti vontade de gritar e vomitar ao mesmo tempo.
Sentei na cadeira da escrivaninha para organizar os pensamentos. Alguns minutos depois duas pedras atravessaram minha janela, quebrando a mesma. Levei a mão até a boca. Em seguida um alarme muito alto tocou, levei as mãos até os ouvidos. Marie acordou assutada. Joshua entrou no quarto em um estrondo.
— Ataque dos rebeldes, por favor, venham comigo!
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