Do Singular Ao Plural
16 A solidão de ser só dois
Notas iniciais
Ao encostar-se à parede fria, Tony lembrou porque não gostava de hospitais. Naquele labirinto de corredores gélidos, atrás das portas que não podia passar muita esperança se dissipava. Era difícil aceitar que poderia perder seu filho, agora que estava pronto para recebê-lo. Os corredores estavam vazios naquele horário, podia ouvir a própria respiração ansiosa e o tic-tac de um relógio preso à parede. Eram 03:10h, e esperar por notícias parecia uma eternidade, odiava aquela sensação e aquela situação, sentia-se como um bicho preso numa jaula minúscula.
—Dra, a minha mulher, o bebê...?— perguntou apreensivo quando a porta se abriu quase 1h depois da última vez que olhara no relógio.
—Sinto dizer, Sr Stark...— Eva começou a falar naquele tom que os médicos usam quando têm a missão de dar uma notícia ruim —...Virginia sofreu um aborto espontâneo, o processo abortivo já havia iniciado quando ela chegou, o coração do bebê já não batia mais há pelo menos 24h. Nas últimas horas o corpo dela começou a expelir o embrião...
—Mas ela não sentiu nada antes, não reclamou de nada, ela estava bem, o bebê estava bem, ela disse que você a viu na sexta.— disse desconsolado. —Se eu tivesse prestado mais atenção nela, se eu tivesse mantido a minha boca fechada ela não teria se estressado e o nosso bebê ainda estaria vivo, tudo isso é minha culpa.
—Ninguém tem culpa. Pode ter inúmeros motivos, ao mesmo tempo em que não há explicação, é uma fatalidade.— Eva colocou as mãos nos ombros dele tentando consolá-lo —Vocês não são o primeiro nem o último casal a passar por isso, mas agora precisam ser fortes.
Sentiu o coração rasgar o peito. A dor da perda era semelhante à dor que sentiu quando foi atingido por aquela bomba no Afeganistão, sentia-se vulnerável novamente. Quando acordou com o grito agudo de Pepper, julgou ser um pesadelo, quem dera fosse. Tudo era real. Dolorosamente real.
—Eu posso vê-la?— perguntou com os olhos marejados e a voz embargada.
—Claro, mas ela provavelmente não estará acordada, dei a ela um calmante leve.— informou a Dra, mesmo assim Tony foi ao quarto, Pepper estava pálida devido à perda se sangue, queria trocar de lugar com ela, queria que tudo tivesse acontecido de outra maneira.
—Posso ficar aqui?— Eva fez sinal para conversarem fora do quarto, então saíram.
—Sei que as últimas horas foram angustiantes, e você com certeza está exausto, assim que ela acordar poderá deixar o hospital e, bem, ela precisará de roupas. Vocês precisarão.— quando a Dra disse isso, Tony prestou atenção ao que vestia, uma calça de pijama cinza, camiseta branca manchada de sangue e chinelos, estava num estado deplorável.
—Então,...eu vou buscar roupas pra ela. Obrigado, Dra Eva.
—Agora eu tenho que ver outra paciente que estava em trabalho de parto quando você me ligou.
—Salvando vidas e perdendo outras, ser médico é como ser herói, não é?— Tony perguntou tristemente.
—Talvez.— Eva sorriu complacente —Mas, medicina é uma missão diária, todos os dias alguém nasce e alguém morre, nós médicos sempre estamos lá, e ninguém exibe uma máscara médica como algo espetacular.— desabafou —Enquanto você se ausentar eu vou deixar uma enfermeira com ela.
Tony foi até seu carro, embora não quisesse deixar Pepper, sabia que precisava preparar-se para tirá-la daquele quarto o mais rápido possível. Sentiu a necessidade de conversar, dividir a sua dor, decidiu ligar para seu único amigo, que sempre dizia o que ele precisava ouvir, mesmo quando ele não queria escutar.
—Jarvis, ligue para o Rhodey.— disse para o sistema de voz do carro, ouviu o som de chamada e então Rhodes atendeu.
—Tony, passa das 4h da manhã, o que foi agora?— a voz sonolenta de Rhodey beirava a irritação.
—Rhodey, a Pep...ela...— ele não conseguia dizer, doía dizer.
—Tony, você precisa parar de brigar com a Pepper e me acordar por causa disso...
—Rhodey, me ouve, não é nada disso, só...me ouve...
—É sempre assim, você faz as suas besteiras, ela briga com você, você vem me pedir conselhos e quando eu ou os conselhos você ironiza, estou cansado, Tony. Resolva a sua vida amorosa sozinho.— Rhodes desligou.
Tony socou o volante assim que a ligação foi encerrada, estava magoado, aborrecido, e sentindo-se culpado, era como se o destino estivesse cobrando a conta de todas as atitudes impensadas que tomara. Dirigiu até em casa, tomou uma ducha rápida, depois vestiu um jeans e uma camiseta, pegou uma mala de mão para arrumar as coisas para Pepper, não sabia ao certo o que escolher, foi ao closet e junto as roupas dela viu a pequena sacola da loja de roupas para bebês. Pela primeira vez depois que recebera a notícia se permitiu chorar. Pegou a sacola e guardou em outro lugar, foi ao banheiro lavar o rosto, pegou a mala e deixou a mansão.
(...)
Quando Pepper acordou por volta das 9h, estranhou o local onde estava, sentia dores como uma cólica leve, ao correr o quarto com o olhar, viu que Tony cochilava numa posição nada confortável numa poltrona. Lembrou-se da madrugada, levou as mãos ao ventre e começou a chorar, fazendo com que ele despertasse.
—Me desculpa...— chorava, enquanto ele levantou para confortá-la —Eu não consegui...
—Você não tem que se desculpar.— afagava os cabelos dela —A culpa não é sua.— beijou-lhe a testa.
—Eu não entendo, na sexta-feira ele estava aqui, vivo dentro de mim, e ontem o coração dele não batia mais.— chorava a ponto de soluçar, ele debruçou sobre a cama abraçando-a —Não quero mais ficar aqui. Me leva pra casa?
—Eu vou te levar pra casa, mas a sua médica precisa te dar alta.
Tony continuou consolando Pepper da melhor maneira que podia, alguns minutos depois a Dra adentrou o quarto.
—Sr Stark, deixe-nos a sós por um instante?— Tony deixou o quarto —Virginia...— Eva suspirou ao tocar a mão de Pepper —Eu sei que é difícil, e que você vai passar dias procurando uma explicação, mas foi uma fatalidade, aborto espontâneo acomete cerca de 15% das mulheres, principalmente na primeira gestação...— a Dra disse uma porção de outras coisas, e fez várias recomendações —...Vou deixar uma consulta pré-agendada para daqui duas semanas, tudo bem?— Pepper concordou, pegou a mala de roupas que Tony deixou e foi ao banheiro arrumar-se.
Não tinha ideia do que enfrentaria ao deixar o hospital. Havia pelo menos uma dúzia de repórteres do lado de fora, e pela primeira vez na vida Pepper teve medo de enfrentá-los, era óbvio que alguém do hospital havia informado a imprensa sobre a perda do bebê, isso sempre acontecia.
—Eu não vou sair.— ela disse.
No fundo era disso que ela tinha medo, da exposição, expor felicidade era fácil, mas expor a dor era mortificante. Há alguns dias a imprensa especulava sobre a gravidez e agora ela teria que dizer que seu sonho havia acabado.
—Ignore-os.— Tony colocou-se diante dela —Você não precisa dizer nada, nós não vamos dizer nada.— abriu a mala e pegou uns óculos escuros para Pepper.
—Não fosse aquela maldita coletiva eu não precisaria passar por isso.— disse ressentida ao colocar os óculos.
Tony envolveu seu braço ao redor da cintura dela e então saíram, foram fotografados e ouviram as perguntas mais absurdas possíveis, até mesmo a acusação de uma gravidez forjada. Pepper não disse nada, e sem dizer mais nada seguiu por todo o caminho até em casa.
—Você quer alguma coisa?— ele perguntou ao chegarem à suíte.
—Não preciso de nada.— respondeu seca —Quero ficar sozinha, se você não se importa.
—Eu vou ver algo pra nós comermos.— disse como pretexto para deixar o quarto.
—Faça o que você quiser.
Tony sabia que ficar sozinha não faria bem para ela, mesmo assim deixou-a. Eva havia dito que as coisas seriam assim, primeiro ela se culparia, depois arrumaria um motivo para culpá-lo, sem nunca deixar de se achar responsável pela perda. Passaria por várias fases até a aceitação.
Pepper livrou-se das roupas que vestia e entrou no banho. Esfregava-se na esperança de que o cheiro do hospital saísse dela, mas não era o cheiro que a incomodava, eram as lembranças. Encostou-se aos azulejos e arrastou-se junto à parede até estar sentada, era difícil ficar em pé, não conseguia parar de chorar, não sabia se teria forças para levantar, então ficou ali.
Na cozinha, Tony preparou um sanduíche leve, fez um suco, imaginava que Pepper recusaria, mas iria insistir para que ela se alimentasse. Seu celular tocou, e ao ver que era Rhodes ignorou a ligação, instruiu Jarvis a bloquear qualquer ligação. Ao voltar ao quarto ouviu o barulho do chuveiro, colocou a bandeja que trazia sobre o móvel ao lado da cama e ao entrar no banheiro viu Pepper encolhida dentro do box, de cabeça baixa encostada à parede abraçava as pernas. Logo desligou o chuveiro e pegou uma toalha para ampará-la.
—Me deixa, Tony, por favor?
—Eu não vou deixar você sozinha, vou ficar com você mesmo que você não queira.— ele garantiu.
—O que é que você pretende fazer?— levantou a cabeça para olhá-lo —Me colocar na cama, e dizer que tudo vai passar, que eu preciso ser forte?— perguntou agressiva.
—Pep,...
—Me deixa em paz, faz o que eu estou pedindo pelo menos uma vez na vida!
—Tudo bem, mas acho melhor você sair daí.— deixou o banheiro, sabendo que os próximos dias seriam um teste de paciência. Pegou a bandeja que levara ao quarto, e ao chegar à sala deu de cara com Rhodes.
—Não quero mais que você entre na minha casa sem ser anunciado.— disse ríspido.
—Tony, eu sei que é um momento complicado, você está magoado, e eu não podia imaginar que aquela hora que você me ligou era pra falar sobre isso. Como eu podia imaginar?
—Você podia ter me ouvido.— cabisbaixo caminhou até a cozinha —Já está em todos os sites, não é? Por isso você veio até aqui? Obrigado pela solidariedade, agora pode ir embora.
—Eu não vou sair até saber como você está.— Rhodes replicou.
—Como você acha que eu estou, Rhodey? Eu estou péssimo.— encostou-se à bancada —A mulher que eu amo está inconsolável lá em cima, eu sou o responsável. Estou sem chão. Acordar numa caverna com um buraco no peito foi fichinha perto disso.— enxugou as lágrimas que corriam pelo seu rosto, Rhodes nunca tinha visto o amigo chorar.
—Eu posso imaginar a sua dor, mas quero que você saiba que se você precisar de alguma coisa...
—Não quero parecer mal-agradecido por todos esses anos em que você me ouviu quando os meus problemas eram muito menores.— Tony o cortou —Mas chegou a hora de te ouvir de verdade pela primeira vez, e vou tentar começar a resolver os meus problemas sozinhos, sejam eles amorosos ou não.— disse ressentido.
—Tony...
—Obrigado pela sua amizade, Rhodey.— abraçou o amigo —Mas a minha mulher está precisando de mim.— Tony subiu em direção à suíte enquanto Rhodes caminhava para a saída.
Mal podia vê-la sob as cobertas, mas seu coração doía ao ouvi-la, mesmo em sono profundo ela soluçava. Um soluço triste que o destruía. Ele foi até a cama e deslizou junto dela, seu cheiro doce exalava dos cabelos úmidos. Não queria acordá-la sabia que ela precisava descansar, não havia consolo maior do que o sono, mesmo assim envolveu os braços nela.
Tony sempre pensou que tinha seus sentimentos sob controle, que mulheres eram uma necessidade que ele poderia ligar e desligar como um interruptor, que nenhuma mulher jamais lhe faria sentir nada. Pepper, involuntariamente, havia provado o contrário, desde a primeira vez que ameaçaram tirá-la dele, Tony viu que estava errado. Ela sussurrou seu nome, mas ele sabia que ela estava mais dormindo do que acordada, deu-lhe um beijo suave no ombro e logo ela estava dormindo novamente.
48h depois
Pepper passou os últimos dois dias de cama, só levantava apara ir ao banheiro. Evitava a companhia de Tony, que a contragosto atendeu ao pedido dela, mas sempre ia observá-la. Naquela manhã, entrou na suíte e acendeu as luzes.
—Apaga, por favor.— cobriu o rosto com a coberta.
—Pep, já são dois dias nesse quarto escuro...
—Você não tem mais nada o que fazer? Que dia é hoje?— perguntou.
—Sábado.— ele respondeu.
—Você não tinha que ter ido à Flórida ontem? Continue fazendo as suas coisas, vá cuidar da sua vida e me deixe.— foi hostil.
—Você é a minha vida.— contrapôs —Me deixa cuidar de você? Você precisa comer.— enfiou-se sob as cobertas junto dela.
—Eu mal consigo manter os olhos abertos, Tony.
—Queria poder diminuir o seu sofrimento.— disse mortificado.
—Me abraça, só me abraça.— ele a abraçou e ela chorou nos braços dele.
(...)
—E eu não aguento mais te ver chorar.— enxugou as lágrimas dela, já fazia uma semana da perda do bebê.
—Para de me tratar bem, Tony, há dias eu só tenho tratado você mal.— Pepper passara os últimos dias oscilando entre vulnerabilidade e agressividade.
—Eu sei que você não tem dito as coisas que disse por que quer. Não preciso que você me diga que eu sou o responsável, pra que eu me sinta culpado, sei que se nós levássemos outra vida, as coisas seriam diferentes. Você não viveria preocupada, estressada, com medo, e teria uma gravidez tranquila. Eu sei que a responsabilidade é minha, e não espero que você me perdoe por isso também.— ele levantou.
—Tony...— ela sentou-se na cama e chamou antes que ele deixasse o quarto —Sabe o que me dói mais? Ter a consciência de que eu poderia ter morrido quando o Killian injetou o extremis em mim, mas meu corpo se adaptou.— ela disse —Meu corpo suportou ser exposto a um vírus instável, e não foi capaz de acolher o meu filho, é isso o que eu não consigo aceitar.— passou as mãos pelo rosto —Você já quis muito algo na vida e teve a impressão que teria uma única chance de realizar? Eu fiz tudo certo, segui todas as recomendações e deu tudo errado. Eu só queria ver minha barriga crescer, depois segurar nosso bebê nos braços e agora...nada. Eu não tenho mais nada.— não controlava as lágrimas —Eu o queria tanto.
—Eu sei que você queria, eu também o queria.— a trouxe junto a seu peito.
—Então porque tinha que ser assim? Eu não quero querer mais nada em toda a minha vida, é assim que eu vou viver daqui pra frente, sem desejar nada.
—Você jamais conseguiria viver assim, porque tem o coração mais mole do mundo.— sussurrou-lhe enquanto a embalava em seus braços —E é exatamente o que te faz tão forte, não desistir, mesmo quando tudo parece complicado demais, mesmo quando se trata de um caso perdido como eu.
—Você nunca foi um caso perdido, você só...
—Viu? Você sempre vê algo bom em tudo.— afagava-lhe as costas. Era por isso que Tony a amava. Amava a forma como ela sempre via algo bom nas coisas ruins, amava a forma como ela devagar invadiu a sua vida e mesmo sem querer a virou de cabeça para baixa o transformando para melhor, antes que ele tivesse a chance de pará-la. —Olha pra mim— ela levantou a cabeça e o fitou com sua expressão tristonha —Não existe única chance quando se trata de nós.
—Eu engravidei por acaso, Tony, e não pensei se o fato de você ainda ter o extremis no seu corpo é um complicador, pode haver uma incompatibilidade. Eu não quero engravidar novamente e passar pelo que estou passando. E se eu não puder mais?— perguntou aflita —Se eu não puder você injeta o Brave em mim?
—Não há incompatibilidade alguma.— afirmou —Eu tenho certeza que você não vai precisar do Brave, e num piscar de olhos nós estaremos esperando outro bebê.— ele disse correndo os dedos pelos cabelos dela.
—E se eu não puder?
—Não é hora pra pensar nisso, você ainda tem exames pra fazer essa semana.— Pepper silenciou nos braços dele —Amor, sei que você não quer comer, mas toma só uma vitamina?
Pepper não respondeu, e quando ele se deu conta ela estava dormindo. Tinha sido assim nos últimos dias. Ela acordava, eles conversavam até que ela perecesse bem, então ela dormia. Deixou-a e foi à cozinha jogar a vitamina fora.
—Sr Stark, o tenente-coronel James Rhodes ligou novamente.— Jarvis informou, Tony revirou os olhos —E a Sra Bishop amiga da Sra Stark acaba de chegar, devo deixá-la entrar?
Tony pensou um pouco antes de autorizar a entrada de Sarah, mas acabou consentindo, talvez ela conseguisse fazer Pepper levantar da cama.
—Você não é a Sra Bishop.— disse quando Lauren adentrou a sala, Sarah estava logo atrás.
—Um pouco mais morena.— Lauren replicou —Achei que vocês estivessem me ignorando por isso usei o nome dela.
—Estávamos ignorando o mundo.
—Eu disse que não era pra nós virmos.— Sarah segurou o braço de Lauren —Eu disse a ela que não era pra virmos.— dirigiu-se para Tony desculpando-se.
—Foi bom vocês virem, talvez consigam pelo menos fazer com que ela abra as persianas.
—Como ela está?— Sarah perguntou.
—Dormindo. Ela não tem feito nada além de chorar, dormir, acordar e chorar um pouco mais.— respondeu triste.
—E você?— Lauren apoiou a mão no ombro dele.
—Péssimo também, mas ficaria melhor se ela levantasse.— Tony respondeu.
—Ela não está comendo, não é?— Lauren perguntou, Tony assentiu —Pode pedir o almoço, nós vamos tirá-la da cama.— ela garantiu, Tony mostrou-se descrente.
—Eu não duvidaria se fosse você.— Sarah disse ao passar por ele sendo puxada por Lauren, subiram em direção à suíte deixando Tony na sala.
—Coração.— Lauren chamou, correndo o dedo indicador da testa de Pepper à ponta do nariz —Acorda.— Pepper abriu os olhos.
—O que você está fazendo aqui?— Pepper perguntou.
—Vim te tirar da cama.— Lauren respondeu.
—O Tony não devia ter chamado você.— virou-se para o outro lado e deu de cara com Sarah.
—Oi, Pep.— a loira sorriu —O Tony não tem nada a ver com isso.
—Só pode ser um déjà vu.— Pepper levou as mãos ao rosto.
—Você sabe que não é, e que nós vamos conseguir tirar você dessa cama.— Lauren replicou.
Lauren conhecia Pepper há anos, sabia que ela não lidava bem com perdas, descobriu quando os pais dela morreram enquanto ainda estavam a faculdade. Não fosse pela insistência e pelo apoio das amigas, Pepper teria demorado semanas para levantar da cama.
—Eu não tenho mais 19 anos, Lauren.— ela bufou.
—Então já devia ter aprendido que a vida é uma droga, e às vezes dá umas rasteiras, você mais do que ninguém sabe disso.— Lauren disse.
—A vida podia procurar outra pessoa pra bater. Porque sempre em mim?— sentou encostando-se à cabeceira da cama.
—Porque ela sabe que você aguenta.— Sarah falou —Sabe que você é teimosa e sempre vai levantar.
—Ele veio sem que nós esperássemos, e sem que eu quisesse o perdi.— ela fungou —Eu tinha até comprado um sapato pra ele.
—Eu imagino.— Sarah enxugou as lágrimas de Pepper —Mas, as coisas acontecem quando têm que acontecer, tudo tem um propósito.
—Eu nunca disse ao Tony, mas eu tinha certeza de que era um menino, um garotinho que seria parecido com ele até na personalidade, e que me deixaria ainda mais maluca, mas que me faria companhia quando ele não estivesse.
—Lembra que o Tony não queria ter filhos?— Lauren perguntou —O homem que está lá embaixo, não me parece alguém que não queria ter um filho, ele está sofrendo tanto quanto você, mas a maneira dele. Eu perguntei se ele estava bem e sabe o que ele me respondeu?
—O que?— Pepper passou as mãos pelo rosto.
—Que estaria melhor se você levantasse.— Lauren respondeu —Não vim aqui pra pedir que você finja que nada aconteceu, mas quanto mais rápido você levantar, mas rápido superará.
—Daqui a pouco vocês voltam a praticar, e logo, logo vem outro bebê.— Sarah disse.
—Isso é algo que a Lauren diria.— Pepper observou.
—Jamais usaria a palavra praticar como eufemismo pra sexo.— Lauren afirmou, fazendo Pepper esboçar um sorriso pela primeira vez depois de dias —Vamos, levanta!— puxou as cobertas de Pepper —O sol lá fora está lindo e você no escuro. Seu hálito está horrível, você devia levantar dessa cama nem que seja para ir escovar os dentes.
—Aproveita e chama seu marido para fazer a barba porque ele está lastimável, irreconhecível.— Sarah observou.
—Verdade. Daqui a pouco ele pega uma bola de vôlei e começa a chamar de Wilson.— Lauren completou fazendo com que Pepper sorrisse novamente —Vocês estão ilhados nessa casa, cada um remoendo a culpa que acredita ter.
Pepper pediu que as amigas a deixassem sozinha. Garantiu que sairia da cama e o fez, tomou um banho e colocou um vestido simples, minutos depois encontrou com Tony, Lauren e Sarah na cozinha. Tony sussurrou um ‘Obrigado’ para as amigas de Pepper, sorriu e a abraçou forte. Ela sabia que ele estava feliz em vê-la fora do quarto, mas embora sorrisse, nem de longe parecia Tony Stark, julgou que fosse brincadeira quando falaram da aparência desleixada, mas ele estava mesmo abatido, não fazia a barba há dias e usava uma calça de moletom e camiseta.
—Está com fome?— ele perguntou e ela aquiesceu —O que você quer comer?
—Não sei.—Pepper respondeu.
—Macarrão com queijo?— ele arqueou uma sobrancelha, ela concordou.
Foi um almoço preparado a oito mãos, cada um ajudou de uma maneira, embora não fosse tão difícil preparar macarrão, mas foi um momento de descontração. Sarah e Lauren ficaram a pedido de Pepper, mas tentaram o máximo possível fazer com que ela se entrosasse com Tony, e obtiveram sucesso.
—Obrigada por ter me aguentado mesmo quando eu fui extremamente egoísta.— disse Pepper, ao ver o carro de Lauren deixar a área da mansão.
—Se eu estivesse no seu lugar teria reagido da mesma forma.— afagou o rosto dela.
—Nós estamos na mesma situação, Tony, era nosso bebê, só que eu ignorei a sua dor e me concentrei na minha, sem me preocupar se você estava sofrendo. Precisou alguém de fora abrir os meus olhos.— passou a mão pelo contorno do rosto dele.
—Sei que pode soar estranho, mas eu amo as suas amigas.— caminharam para a sala —Em 15min elas conseguiram o que eu tentava há dias.— sentaram-se —E nem é sobre você reparar em mim, te ver de pé já me motivou 70%.— entrelaçou seus dedos aos dela.
—Tudo isso?— afagou os dedos dele e sorriu.
—85% graças a esse sorriso.— afirmou —Se eu soubesse desse poder delas não teria ignorado as ligações da Lauren.
—Quando ela falou sobre estarmos ilhados imaginei que fosse sobre isso também. Mas acho que agora está na hora de encararmos o mundo lá fora.
—Nós já passamos por uma porção de coisas, uma porção de provas e essa é só mais uma, é o destino mostrando que nós somos muito forte.
—Não sei se eu sou tão forte, mas prometo parar de chorar, me olhei no espelho e tive dó de mim, e isso é horrível. Não quero estar com essa cara de coitada quando chegar ao trabalho na segunda-feira.
—Você não precisa voltar ao trabalho, nós podíamos...
—Viajar?— ela o cortou —Não vai resolver, o mundo não parou porque nós nos frustramos, você tem que voltar pra sua rotina e eu pra minha, e com o tempo vai doer menos.— ela disse —No começo, nós precisaremos parecer bem para que os outros acreditem que estamos bem.
—Como?— ele perguntou.
Tony estava surpreso com a mudança repentina de Pepper, seja lá o que ela ouviu das amigas a fez vestir uma máscara, seus olhos ainda estavam tristes, mas sua feição era a melhor do que nos dias anteriores.
—Vem comigo.— Pepper subiu em direção à suíte o puxando pela mão, entrou no banheiro e pegou os utensílios dele fazer a barba.
—Pep...?
—Quieto.— disse ao espremer espuma de barbear na mão, então passou no rosto dele.
—Eu ia manter esse estilo selvagem.— ele gracejou.
—Não depois do que as meninas me disseram.— ela riu —Além do mais, gosto do cavanhaque.
—O que elas disseram?
—Se você não ficar quieto eu posso cortar você.— desconversou aproximando a lâmina do rosto dele.
—Você já fez isso alguma vez na vida?— ela balançou a cabeça em negação —Promete não me desfigurar?— ela cruzou os dedos nos lábios em sinal de juramento —Acho melhor não.— riu e pegou a lâmina ao ver que ela sujou a si mesma com espuma. Pepper o assistiu fazer a barba, e logo ele era Tony Stark novamente.
—Muito melhor.— apoiou o queixo ao ombro dele, enquanto Tony olhava-se no espelho.
—Eu te amo tanto.— disse olhando para o reflexo dela no espelho à sua frente.
—Eu te amo mais.— ela disse.
—Foi difícil ficar sem você nos últimos dias.— virou-se ficando cara a cara com ela.
—Eu ouvi o piano algumas vezes.— ela falou —Você só toca quando não está bem, não é?
—Mais ou menos isso.
—Um dia você me conta o motivo?— ele concordou —Somos só eu e você novamente.— envolveu os braços nele.
—Por enquanto.— roçou seu nariz ao dela e deu-lhe um beijo suave nos lábios —Por enquanto.
Quando estavam acostumados com a ideia de serem três, tiverem que encarar a perda do bebê. Uma feriada que demorará a cicatrizar em ambos, e juntos terão que lidar com a solidão de ser só dois.
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